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terça-feira, agosto 22, 2006

Passarinho

Passarinho morto

Sou passarinha fora do ninho: moro já há alguns anos fora do país - e meu conceito de país se torna cada vez mais etéreo. Estrangeira na terra alheia, tento na medida do possível me adequar aos costumes locais, aos choques que vêm pelo caminho, às intempéries da vida cotidiana. Em todos os lugares por onde passei, um denominador comum para a facilidade de adaptação: a ausência de violência urbana em larga escala. É fácil acostumar-se com a segurança. Poder sair de perto do seu ninho temporário sem a preocupação nas costas de voltar e encontrá-lo devastado por um vendaval ou sabendo ter grande chance de voltar vivo. É uma sensação libertadora.

E me pego pensando como devem se sentir os estrangeiros que moram no Brasil, nesses tempos de PCC no poder. De certa forma, eu só fui começar a entender o problema da violência pública brasileira depois de morar no exterior - digo "começar" porque acredito que nunca entenderei por completo questão tão complexa e cheia de meandros sociológicos. Foi preciso para mim estar fora da arena para começar a compreender porque esse pão e circo caótico e escandaloso não funciona: dentro da arena só ouvimos gritos.

Onde moro hoje há um nível de segurança pública inacreditável já para os padrões internacionais, impensável para brasileiros: basta dizer que o índice de assaltos em Seul, uma cidade-estado de quase 20 milhões de habitantes, é quase nulo (à mão armada, então, eu nunca ouvi falar). Pode haver um componente cultural por trás dessa realidade, afinal roubar é um ato de muita desonra para as sociedades orientais. Entretanto, essa segurança permite que as pessoas exerçam plenamente seu direito humano de ir e vir, e podem por exemplo se utilizar de qualquer maravilha tecnológica pelas ruas ou andar com a bolsa aberta sem a preocupação de ser vítima de repente por um assalto. Esse conforto, em geral comum em terra estrangeira, é uma das grandes forças motrizes por trás da minha opção pelo exterior. É fácil a uma andarilha sonhar com as benesses da liberdade.

Penso então de novo nos estrangeiros, acostumados a esse ir e vir urbano sem preocupações adicionais nonsense, como manter uma reserva de dinheiro separada pro assaltante (minhas primas fazem isso no Rio de Janeiro). Os estrangeiros que por escolha ou obrigação se vêem morando no Brasil do PCC... o que será que eles pensam disso tudo? Será que entendem? Eu consigo imaginar vários deles percorrendo os caminhos lógicos normais e vislumbrando soluções possíveis, "fáceis" - é interessante como a mente acostumada à segurança percebe facilmente os erros grotescos cometidos pela política de segurança pública brasileira. Soluções que infelizmente nunca chegarão a ser postas em prática. Porque não levam em consideração um elemento arraigado da nossa cultura: a quase-total impunibilidade do criminoso "peixe grande", o líder do cardume de pequenos peixes. No Brasil, o criminoso "de carteirinha" não pensa na lei que está transgredindo na hora de cometer o crime; não porque não queira burlá-la e se defender no caso de ser pego, mas porque sabe previamente que o sistema é tão danificado, tão corrupto, tão errado, que a probabilidade maior é de que ele saia sem punição da empreitada. Acostumou-se à não-punição institucionalizada, onde quem manda é quem tem mais AR-15s e não quem de fato é justo, e com isso o crime ganha o sentido de emprego.

Eu adoro o Brasil. Mas confesso que a situação do jeito que está me afasta muito dele. Fico triste que a situação tenha chegado ao ponto das pessoas meio que perderem o direito à vida saudável: andar na rua na hora que quer, usando o que bem entender, preocupadas apenas com os percalços da rotina - que já não são poucos em lugar nenhum do planeta.

Foi depois de viver no exterior que pesou em mim a triste realidade ao qual eu também acreditava estar excluída: o brasileiro acha que tem liberdade, que somos a pátria mais democrática e aberta do planeta, etc. mas no fundo, no fundo, vive na prisão mais cruel - a da insegurança impune. É passarinho sem asa, trancafiado em gaiolas urbanas, pronto para perecer.

A todos que vivem nesse dia-a-dia angustiado de violência e que não têm o direito de voar livremente: que um dia tudo seja bom... sempre.

Livre para voar

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Esse post faz parte da blogagem coletiva da Laura sobre violência e segurança pública no Brasil. Visitem os outros links para prestigiar essa temática importante sendo discutida na blogosfera brasileira.

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