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sexta-feira, agosto 11, 2006

Sobre viajar de avião

Voos

Imagino que a maior parte das pessoas interconectadas por algum meio de comunicação no mundo já devam estar a par das notícias recentes de que mais um plano terrorista de explodir aviões em rota internacional foi desconfigurado - dessa vez, pela Scotland Yard britânica, tendo como alvo aviões em rota para os EUA. Em um dos jornais que li (já não lembro mais qual) citava-se a "operação Bojinka" como possível inspiração al-qaedista para esse plano fortuitamente frustrado. Fui na Wikipedia atrás de informações sobre a tal operação, passada em 1995, para aprender e entender mais o contexto político-social (sugiro a leitura do artigo). Milhares de questões e reflexões surgiram na minha cabeça, nenhuma delas de fácil digestão. Analistas políticos, econômicos e históricos mais versados no tema provavelmente podem opinar melhor sobre o assunto.

Apesar das reflexões e questões que pairam no ar com toda essa balbúrdia sobre terrorismo, me peguei também utopizando no que vem pela frente em termos de viagens aéreas - principalmente internacionais. Para os viajantes de carteirinha, viciados em aeroportos e novas esquinas, adaptação é cada vez mais a palavra-chave. E adaptação à atividade "viajar" nos dias de hoje passa via de regra pelas questões de segurança pública.

Viajar já foi no passado remoto sinônimo de conquistar novos continentes, e a esses exploradores do passado, restam os louros e agouros da História. Com o advento do avião, viajar para terras longínquas passou a ser uma aventura mais acessível a um público maior. Tornou possível um ato quase de libertação: pôr uma mochila nas costas e ir, sem pensar demais em logística. Bons e românticos tempos, quando o avião era meramente transporte de sonhos... Tempos fadados à extinção em nosso mundo atual, cheio de fronteiras levantadas pelo terrorismo, realidade ironicamente sem fronteiras. Ainda há espaço para tais ímpetos, mas tornam-se cada vez mais raros os viajantes "puristas". Ser cidadão do mundo requer cada vez mais organização prévia, indo na contramão da filosofia do mochileiro despretensioso.

Eis que a ameaça terrorista de ontem em Londres reforça o mundo pós-11 de setembro, com sua premissa básica de que é necessária muita cautela e queima de neurônios antes de sequer pôr o pé-na-estrada. Avião ainda é transporte de sonhos, agora com pinceladas de pesadelo e sonambulismo. O viajante compulsivo hoje em dia padece, porque precisa pensar muito, em tudo, nos mínimos detalhes, desde a preparação de sua mala até as conexões mais apropriadas.

Criatividade e paciência andam cada vez mais lado a lado, viajando de chinelo (para evitar ter que tirar o sapato em cada revista policial) em malas cada vez mais compactas. Mas depois de anos quebrando a cabeça para se adaptar às diferentes regras dos aeroportos e encontrar uma fórmula mágica de como fazer uma mala funcional, que esteja dentro do peso permitido (e para burlar essa regra, passei a carregar os itens mais pesados na bolsa de mão), eis que um novo desafio surge a partir de Heathrow: agora a bagagem de mão pode vir a ser regulada de forma mais rígida do que já é. Sinceramente, dado o alarde e o contexto do mundo hoje, vejo essa hipótese de restrição máxima cada vez mais sendo a regra, e não a exceção. Apenas itens essenciais entrando no avião e principalmente, nada de eletrônicos. O que acrescentará novos desafios às empresas aéreas: como evitar a monotonia para o passageiro de longos vôos? Vejo com frequência cada vez maior em aviões turistas arrumando as fotos da viagem que acabaram de fazer em seus laptops (sem contar os executivos trabalhando e insones lendo livros), e se essas pessoas agora não podem passar o tempo assim, o que farão por 15 horas além de dormir (mal numa cadeira de classe econômica) e comer (almoço sabor isopor)? E como passar o tempo nas conexões em aeroportos sem muitos afazeres? Conseguirão as empresas aéreas, muitas já operando no vermelho, empregar mais funcionários necessários para tantas novas regrinhas?

Está claro que ao viajar de avião enfrentaremos cada vez mais obstáculos; portanto, a solução para continuarmos na estrada é realmente adaptar-nos. Itens proibidos, volume permitido reduzido, excesso de tempo ocioso em aeroportos, pouco dinheiro... a conspiração para que a pessoa desista de sua aventura não vai diminuir, muito menos desaparecer como homens-suicidas.

Bem-vindo ao pouco-admirável mundo novo das viagens de avião burocráticas.

Tudo de bom sempre.

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