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domingo, outubro 01, 2006

Gyeongju: a sede da dinastia Silla

No penúltimo fim de semana, nós resolvemos gastar nossas milhas acumuladas pela Korean Air e fazer uma viagem pela Coréia do Sul. Embora já conhecêssemos muitos locais interessantes, de acordo com a maioria dos coreanos faltava o lugar mais espetacular: Gyeongju, a cidade histórica sede da dinastia Silla (fala-se Shilla), que formou o povo coreano e boa parte do asiático.

Pegamos o avião até Ulsan (outro post sobre a cidade em breve), e de lá fomos de ônibus até Gyeongju - menos de 1 hora. E ao chegar lá, entendi por quê os coreanos recomendavam tanto a ida à cidade: Gyeongju é um dos lugares mais pitorescos que já visitei.

Os vestígios da dinastia Silla, reinado que dominou a península coreana entre 50 e 1000 d.C., estão por toda parte, mas principalmente na arquitetura local e nas inúmeras tumbas da cidade. Cada membro da família real que morria era enterrado em tumbas que eram verdadeiras pirâmides de grama, construídas por uma base sólida de rochas calculadamente colocadas, cujo centro possuía uma câmara de madeira, onde o corpo era colocado junto com artefatos e jóias pertencentes à pessoa. Por cima das rochas, uma camada de solo com gramado, formando montinhos característicos que estão espalhados pela cidade - um charme. Boa parte das tumbas só foi escavada recentemente, na década de 70, e muitos tesouros descobertos foram salvaguardados no Museu Nacional de Gyeongju, dedicado à história da dinastia Silla.


Entrada do BulgkusaBulguksa
Entrada do palácio Bulguksa, patrimônio histórico da humanidade, e a visão da escadaria de pedra do mesmo, com mais de 1000 anos de existência.


Ao chegarmos em Gyeongju, fomos direto para o palácio de Bulguksa, uma fortaleza na montanha, com arquitetura típica e bem-preservada com mais de 1000 anos de existência e inúmeras invasões sofridas. Junto com o Seokguram Grotto (onde há um Buda belíssimo, construído dentro da rocha em 742 d.C. e que de acordo com a lenda "guarda" o Mar do Japão), o palácio de Bulguksa é considerado uma obra-prima Silla e integra a lista de patrimônio da Humanidade da UNESCO. Bulguksa contém também duas pagodas (um fato incomum nos palácios da época, sendo uma delas, a Seokgatap, de 3 níveis no pátio central, além de diversos pavilhões, todos em madeira colorida, e em muitos deles, estátuas de Buda. Gyeongju é a cidade mais budista que visitei na Coréia - uma peculiaridade agradável num país hoje dominado pelo cristianismo.

Pagoda do BulguksaBulguksa
A pagoda de 3 níveis do pátio central do Bulguksa. Ao lado, outro pátio (dentre vários) do Bulguksa.

As escadarias de Bulguksa são todas originais, com cerca de 1000 anos. Confesso que ao subir aqueles degraus, ficava imaginando quantos reis, escravos, soldados, por ali passavam, apressados ou não, com notícias alegres e tristes. Pisar em solo tão histórico é uma sensação fascinante. Almoçamos sanduíches no pátio da frente do palácio, admirando a arquitetura e a tranquilidade local - apesar dos turistas, o local é de uma paz transcendental.

Após o almoço, decidimos subir até o Seokguram Grotto, onde está o Buda famoso. A trilha começa ao lado do Bulguksa, e é uma subida íngreme de 1h - a subida é considerada por muitos um momento de nirvana espiritual. Uma amiga nossa nos disse que Gyeongju é uma viagem típica para alunos de primeiro grau as escolas coreanas, razão pela qual vimos um mundo de crianças no caminho, fazendo gincana a cada parada para entreter e esquecer o cansaço da subida. Levamos exatamente 1h para chegar à entrada do Grotto, e lá de cima, uma vista muito bonita do Mar do Japão, distante ao fundo, com muitas montanhas no foreground. Não podemos fotografar o Buda, mas a sala é pequenininha. Entretanto, o Buda está dentro de um túmulo como os existentes na cidade, de montinhos de grama. A história da construção do Buda no topo da montanha ainda é um mistério - assim como boa parte da história de Silla -, sabe-se que mais de 180 tipos de rochas diferentes (vindas de muitos lugares na Ásia) foram usadas para montar a imagem do Buda e o groto, embora ao vê-lo, a sensação que tive foi de que apenas uma delas foi usada.

AnapjiAnapji pavillion
Pavilhão Silla na beira do lago Anapji em reflexo na água: beleza indescritível. Ao lado, outro pavilhão Silla no mesmo parque.

Após visitar o Grotto, descemos pela mesma trilha e voltamos ao centro da cidade, dessa vez para o parque Nacional de Gyeongju, onde há uma concentração de túmulos e algumas construções interessantes: o observatório astronômico mais antigo da Ásia Ocidental, o Cheomseongdae, construído em torno de 600 d.C.; um prédio para estocar gelo, que era preenchido durante o inverno e usado durante o verão, uma engenharia interessantíssima que maximizava o aproveitamento do gelo e diminuía a perda por derretimento. Para crianças, há a oportunidade de passear pelo parque de charrete. Depois de passear pelo parque, fomos para um outro parque, onde fica o lago de Anapji. Já era hora do pôr-do-sol, e o visual dos pavilhões históricos Silla iluminados refletindo no lago foi simplesmente deslumbrante, um dos mais belos que vi pela Ásia. À beira do lago, muitos fotógrafos - afinal, a cidade toda é muito fotogênica, e fotógrafos profissionais abundavam por todo canto. Um show performático iniciaria às 8 da noite, e antes de começar, houve distribuição de chá verde gratuito pra esquentar; a temperatura caía vertiginosamente.

O show começou - na realidade, um festival de Músicas do Cinema. À medida que a orquestra Korea Pops tocava as músicas, um trailler do filme respectivo era passado na tela atrás do palco. Muito nostálgico ver e ouvir Love Story, Dr. Jivago, Bonequinha de Luxo, além da versão super-legal de Missão Impossível com a qual eles abriram o espetáculo. Ouvir essas músicas que eu adoro (sim, sou melosa também) e olhar pro lado, ver um palácio construído há mais de mil anos... é um desses momentos inesquecíveis da vida da gente.

ObservatórioBunhwangsa
O Cheomseongdae, o mais antigo observatório astronômico da Ásia Ocidental. Ao lado, a ruína da pagoda do templo de Bunghwangsa, que supostamente tinha mais 4 ou 6 níveis.

No dia seguinte, acordamos cedinho e fomos ao templo Bunghwangsa, com ruínas de uma pagoda que, de acordo com historiadores, deveria ter de 7 a 9 níveis - restaram 3 apenas. Uma senhora budista rezava andando em volta da pagoda. De lá, fomos caminhando para um lago com um pequeno pavilhão Silla no meio. O lago é todo coberto por uma planta aquática que dá uma flor parecendo um chuveirinho - meus conhecimentos parcos de sistemática botânica não me permitem uma identificação clara do que é aquela planta. Para mim, naquele momento, ela estava linda, e isso basta na composição do cenário.

Túmulo realLago
Um dos inúmeros túmulos reais do parque de Tumuli. Os montinhos verdes dão um charme maravilhoso por toda a cidade. Ao lado, o lago coberto por plantas aquáticas com pavilhão Silla no meio. O local é um verdadeiro estúdio fotográfico ao amanhecer, com nuances de luz fantásticas.

Do lago, fomos para o Parque Tumuli, onde há uma concentração enorme de túmulos-montinhos verdes para passearmos entre eles. É possível entrar em um deles, e nós pudemos então entender a construção do mesmo, as camadas de rocha por baixo daqueles montes de grama.

Ponto de ônibus
Ponto de ônibus em Gyeongju, também no estilo Silla. A cidade é uma jóia arquitetônica, com muitos templos budistas e um clima histórico delicioso.

Depois desse passeio, hora de dar adeus à cidade e à toda aquela arquitetura Silla, presente até nos pontos de ônibus da cidade. Gyeongju é uma jóia rara num país tão uniforme. Gyeongju é única e a delicadeza da cidade me encantou.

Gyeongju transcende.

Tudo de bom sempre.

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