Uma Malla pelo mundo Interney.net/blogs/malla

domingo, setembro 23, 2007

Crescer ou preservar: o dilema chinês

Aeroporto de Beijing
Welcome to China: a foto do avião da Dragon Air foi tirada na nossa chegada ao aeroporto de Beijing, numa tarde de 2005. O céu não foi photoshopado: o amarelo predominante é sinal da poluição local alarmante, mesmo.

Hoje saiu uma coluna de opinião no NYTimes comentando sobre o problema da poluição na China - há poucas semanas um caderno especial de reportagens sobre o mesmo assunto invadiu as páginas do mesmo jornal, alertando para a bomba ecológica prestes a explodir naquele país da Ásia. Em ambas, o tom é o mesmo: se quiser continuar crescendo sua economia, a China vai ter que olhar com muito mais cuidado para seu ambiente - e a poluição que vem gerando.

Crescer com poluição não é um advento novo da humanidade. Se olharmos para os países já estabelecidos como desenvolvidos hoje (o eixo Europa-América do Norte, por exemplo), veremos que boa parte do seu crescimento veio às custas de degradação ambiental em algum nível. O caso chinês da atualidade faz ressurgir a discussão em dois parâmetros: quantitativo e qualitativo. E há algumas diferenças a serem contabilizadas.

Nunca se produziu tanta poluição no mundo - eis o parâmetro quantitativo. Com um tamanho de população nunca alcançado antes na história do planeta, é bem fácil entender que mais bens de consumo precisam ser produzidos para atender a essa demanda crescente. Como a eficiência ecológica e energética da produção ainda deixa muito a desejar, aumentaram a quantidade de resíduos gerados para suprir as necessidades da população. Mais pessoas geram mais poluição, simples assim.

A poluição também mudou, e de forma qualitativa. Embora muitas empresas e governos agora se preocupem com a "onda verde" e ofereçam produtos ecologicamente corretos para vender a seus clientes, infelizmente essa ainda não é uma tendência geral. A maior parte das indústrias, na ânsia de oferecer produtos mais baratos e ganhar o mercado consumidor em ascensão, cortou etapas, substituiu materiais e afins na linha de produção, e com isso, gerou mais lixo - não só lixo industrial, mas empurrou para o consumidor final também boa parcela desse problema. Ou as tantas embalagens tipo PET espalhadas pelos depósitos de lixo do mundo (para não falar pelos mares...) mostram o contrário?

E é aí que a China entra, como peça fundamental dessa dinâmica. Primeiro, porque é o país mais populoso do mundo - um dado que, por si só, já significa maior quantidade de degradação ambiental gerada. Segundo, porque é o país que mais vem crescendo economicamente, a astrondosas porcentagens anuais - um processo que, salvo raríssimas exceções, ainda tem resquício do formato de crescimento das grandes nações, com maior geração de poluentes.

Dado isso, não é espantoso que a poluição na China venha crescendo no mesmo ritmo que seu boom econômico. Embora se acreditasse que a China só alcançaria o status de maior poluidor do mundo em 2009, esse título chegou antecipadamente. Números assustadores de um índice vergonhoso, um desses rankings que país nenhum em sã consciência diplomática quer ter.

Mas o problema maior não é como a China chegou até o nível atual de poluição, mas sim, como sairá dessa sinuca-de-bico de crescimento desordenado sem preocupações ambientais - num momento crucial em que outros países já começam a pressionar por mudanças na estrutura de produção chinesa, por medo da concorrência ou por consciência do desastre ecológico iminente em proporções mundiais. Vejamos abaixo links retirados de jornais pelo mundo que ilustram alguns fatos caóticos da China hoje:

- O mar de Bohai, o mais próximo veio de água salgada de Beijing, já está praticamente todo morto.

- O Qinghai, maior lago de água salgada da China (e um dos maiores do mundo), pode secar em 10 anos.

- A ONU já considera como zonas mortas os deltas dos rios Yang Tsé e Pérola, que recebem os dejetos de Shanghai e de Hong Kong.

- A chuva ácida de 2006 em Pequim foi a pior de todos os tempos, e já afeta um terço do território do país (lembrando que a China tem uma extensão territorial maior que a brasileira, isso significa que a chuva ácida já afeta uma área de uns 3 milhões de km2).

- 30% das espécies de peixe do rio Amarelo já se extinguiram devido à ação humana. O rio está cada vez com menor fluxo de água e mais poluição industrial e urbana.

- 25% do litoral chinês já está fortemente poluído - e isso levando-se em consideração o que o governo considera como "água limpa". 55% das áreas costeiras são sujas (moderadamente). Não precisa ser expert em matemática para sacar que apenas 20% da costa é considerada limpa, pelos padrões de Beijing. Adicione a esse dado o fato de que a China está perdendo seu litoral por causa das ações humanas de erosão, e meça o nível de lambança ambiental vigente nas costas de Mao.

- Sem esquecer, é claro, da maldita sopa de barbatana, que está dizimando tubarões pelo mundo inteiro, para saciar os novos-ricos chineses e sua sede por status culinário - que inclui também inúmeros outros peixes raros na sua nova-dieta. Claro, os peixes são pescados em tudo quanto é canto possível e imaginável do mundo, já que o mar da China está praticamente morto. Incluindo pesca dentro de um parque marinho designado pela UNESCO (respeito às leis internacionais parece não ser algo de valia entre os pescadores chineses, muito menos a preocupacão por causar problemas ambientais aos vizinhos de mundo). E sem contar os demais animais, comercializados sem pudor pelo país. Eu mesma vi nas vitrines da Des Veux Road em Hong Kong a catástrofe ecológica que as lojas de "produtos medicinais chineses" geram.

(Parênteses: Minha pergunta pessoal é: que água os chineses vão beber daqui a alguns anos? As fontes estão secando e/ou sendo destruídas. Como manterão a população sem água potável? Qual será o preço desse novo commodity para a economia? Fim do parênteses.)

Barbatanas a vendaBeijing carros
Barbatanas de tubarão e outros animais (ou pedaços deles) à mostra numa loja em Hong Kong: come-se de tudo na China a um custo ambiental para o mundo muito elevado. Ao lado, um pequeno engarrafamento nas ruas de Beijing. Com o aumento do poder aquisitivo chinês e a venda de carros aumentando sem parar, a cena está cada vez mais comum.

Não é de admirar, com esses dados assustadores, que a biodiversidade chinesa seja uma das que mais rapidamente decresce no mundo hoje. E que as medidas ambientais que vêm sendo tomadas, as metas a serem alcançadas no país de emissão de CO2 e outros poluentes estejam fracassando em sua imensa maioria (que novidade...). Em tempos de aquecimento global, isso é um problemão pro governo comunista. O país, com sua política fechada e economia aberta, possui além de tudo uma cultura milenar que se assemelha um pouco ao malfadado jeitinho brasileiro: o chinês da elite também quer vencer a qualquer custo (entenda propina, nepotismo e outras operações ilícitas), já que a derrota é vergonha irreparável nas sociedades asiáticas em geral.

E de nada adianta fazer uma "lista negra" de poluidores e não fiscalizá-los ou aplicar as multas convenientes. É preciso desacelerar o ritmo de crescimento se eles querem as devidas medidas ambientais respeitadas - uma questão delicadíssima ao coração dos chineses animados pelo consumismo desenfreado que agora lhes é apresentado. Uma possível solução para a situação atual vai requerer que a população se conscientize dessa dinâmica fragilizada e se envolva, exija melhorias no ar que respiram e na água que bebem; que os industriais entendam que a desaceleração é necessária; e principalmente, vai requerer que o governo se torne mais transparente, menos onipotente - e não tente acobertar números tristes do resultado da poluição para o país e para o mundo. É sobre essa complexa estrutura tripla que a coluna do NYTimes de hoje opina, e é minha sugestão de leitura especial para a semana que se inicia.

Tudo de ambiente sempre.

****************

Para viajar mais sobre a crise ambiental na China:

- A solução mais cara-de-pau que os chineses arrumaram para toda essa lambança ambiental: exportar suas indústrias mais poluidoras. A China vem investindo fortemente na África... em troca de quê mesmo? Você também pode ler mais sobre essa tragédia-to-be nessa reportagem do NYTimes. Off-topic relevante: o NYTImes essa semana se tornou o primeiro grande jornal do mundo a disponibilizar todo seu arquivo de notícias (desde 1851!) na internet.

- Uma reportagem do início de agosto do The Wall Street Journal mostra num quadro bem didático algumas promessas feitas ao Comitê Olímpico Internacional. Até agora, pouco se fez para alcançar as metas ambientais sugeridas no calor da candidatura. Aguardemos as Olimpíadas de Beijing 2008...

- Recentemente, o Greenpeace se infiltrou no cenário musical chinês para conseguir espalhar a mensagem verde pelo país. A tentativa é boa, válida, e adiciona ao leque de outras ações que muitos grupos ambientalistas já vêm trabalhando por lá. Afinal, é a geração que vem aí que sofrerá as consequências mais drásticas de tanta destruição, e alertá-las para o problema é fundamental, a meu ver.

- Uma boa análise em português sobre o recall dos produtos chineses contaminados com metais pesados e afins. Produzir sem cuidado e poluindo adoidado não deixam de ser facetas similares da mesma característica chinesa cultural: padrões menos rígidos. Uma certeza, entretanto: a estabilidade do mercado China-EUA (e consequentemente das relações comerciais pelo mundo) dependerá de melhorias e maior rigor nesses mesmos padrões de produção.

Marcadores: , , ,