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segunda-feira, novembro 06, 2006

Um gato pelo mundo

Tudo começou com um pequeno dilema: levar ou não o gato para o Brasil.

A opção mais fácil era sem dúvida deixá-lo na Coréia do Sul, já que ele está meio velho (9 anos) e diabético, condição que torna uma viagem longa de avião praticamente letal para o animal. Há 3 anos, quando ele chegou bastante estressado na Coréia vindo do Havaí após uma viagem de 10 horas num bagageiro de avião, olhos esbugalhados, ficara assombrado no primeiro dia em terras coreanas com o admirável mundo novo em que viveria: recusou-se a sair de sua casinha, mal bebeu água, não comeu - mas sobreviveu, e não era diabético na época. Depois acostumou-se com a terra do kimchi, é claro. Mas imaginá-lo (re)vivendo todo aquele stress de novo - e acrescido de que agora ele realmente requeria cuidados especiais - me desanimou deveras, e confesso que comecei a achar que melhor pro bichinho seria ficar por Seul mesmo. Menos sofrimento para ele, aperto no coração para mim.

Fui então conversar com o veterinário. Perguntei sobre a Sociedade Protetora dos Animais da Coréia, se eles recebiam gatos, etc. O veterinário foi muito sincero: os coreanos não gostam de gatos, em geral. No passado, gatos eram considerados animais de mau agouro, e tê-los em casa era sinônimo de azar pra família. Essa falácia ainda paira sobre boa parte dos coreanos, de modo que eles quase não têm gatos como animais de estimação. O veterinário acrescentou ainda que a situação dos gatos entregues aos grupos de proteção de lá não era das melhores, em geral os bichinhos sofriam muito e chegavam até a morrer por lá mesmo.

Com essas palavras nada encorajadoras, comecei então a procurar alguém que quisesse ficar com o gato de presente (de grego, eu sei). Coreano não adiantava perguntar, porque eles culturalmente não gostam do bicho. Ofereci a alguns brasileiros, e tirando os que já não gostavam de gato de cara, os demais deram a mesma resposta: estavam de passagem pela Coréia, não poderiam se comprometer com um bicho. Justo. A infrutífera tentativa de deixá-lo na Coréia pôs fim ao dilema: levá-lo-ia para o Brasil.

Com a logística de viagem começando a expandir em volume e pressão na minha cabeça, liguei de novo pro veterinário: "E quanto tempo você acha que o meu gato agüenta sem água?" "Umas 24h, no máximo. Ele precisa beber água por causa da diabetes." 24 horas. Pressenti logo que viriam pela frente momentos típicos de Jack Bauer. Porque o vôo entre Seul e São Paulo obrigatoriamente faz uma parada (na Europa, na África ou nos EUA) e no total são pelo menos 25 horas de vôo continuado, sem contar tempo de trânsito em aeroportos, etc. Se eu tivesse a melhor das conexões possíveis, seriam umas 30 horas no mínimo, o que com certeza não daria muitas chances de sobrevivência ao meu gatinho. Pioravam o dilema dois fatos: 1) o fato do gato ser gordo - teria que viajar obrigatoriamente no bagageiro, longe de mim; 2) o fato de morarmos a 2 horas do aeroporto de Incheon, de onde sairíamos, acrescentando 2 horas de stress desnecessário ao gato perante a jornada dura que viria pela frente.

Várias noites sem dormir, pensando no problema. No meio-tempo, comecei a ver a papelada burocrática que precisaria para entrar com ele no Brasil. Todos os documentos dependiam da definição da data de saída, e aí começou outra dor de cabeça: achar uma empresa aérea que levasse um animal por trajeto tão longo. Indo pela Europa, a passagem era mais cara para mim, não compensava. Indo pela África, a South African Airways não aceitava animais a partir de Hong Kong (parada obrigatória). Indo pelos EUA, a Continental, notadamente a empresa aérea melhor renomada no transporte de animais, não faz vôos para Seul. Sobravam a United, a American Airlines, a Northwest Airlines e as empresas coreanas: Korean Air e Asiana. Logo descobri que a American não transportava bichos em vôos internacionais. A Northwest exigia uma conexâo com outra empresa da mesma aliança aérea, o que não seria simples. O gato tinha vindo pra Coréia de Korean Air, e foi super-bem-tratado, então comecei a pleitear comprar uma passagem pela Korean, com parada em alguma cidade americana para troca de avião. E aí começava o outro problema.

As (poucas) empresas aéreas que restavam só aceitavam carregar o animal se o trajeto inteiro de Seul até São Paulo fosse feito por elas. Ora, só a United e a JAL fazem isso. Quando me dei conta desse pepino, fiz uma reserva de passagem pela United e outra pela JAL. Mas o tempo de conexão pela United era enorme, mais de 8h em Chicago, e pela JAL eram 2 escalas, em Tóquio e em NY, sem possibilidade de ver o gato em nenhuma delas, o que minimizava a chance de sobrevivência dele, já que ele ficaria sem água por todo o tempo de traslado. Apesar das reservas feitas, ainda estava insatisfeita com a situação e decidi continuar procurando uma alternativa que me desse menos tempo de conexão.

A insistência me presenteou com um esquema vencedor: iria até Los Angeles pela Korean, e lá, após apenas 3 horas de conexão, pegaria um vôo da Lan Peru até Lima e de lá para o Brasil. A vantagem dessa alternativa era simples: em LA, eu seria obrigada a pegar o gato, passar pela alfândega com ele, e recolocá-lo no vôo da Lan. Pegando-o, eu teria o tempo fundamental para dar água ao bichinho. Além disso, eram apenas 3 horas de conexão. E Lima era apenas uma escala, não conexão. Decidi por esse esquema, finalmente.

Comecei então a papelada burocrática do bicho. 30 dias antes, vacina contra raiva. 7 dias antes da viagem, precisava ir ao aeroporto com o gato, para que o veterinário oficial coreano desse um parecer dizendo que o gato estava saudável para viajar - os 7 dias de antecedência são exigência da embaixada brasileira (se fosse pros EUA apenas, esse documento poderia ser pego na hora do embarque). De posse do certificado oficial, fui à embaixada brasileira em Seul para que eles emitissem o documento oficial da Vigilância Sanitária, requisitando a entrada no Brasil com o gato. O documento só ficava pronto 2 dias depois.

Tudo feito nos conformes. Faltando 5 dias para a viagem, recebo um telefonema do agente de viagens, me informando que o vôo até LA seria não mais feito pela Korean Air, e sim pela Asiana - o que a priori soou maravilhoso, porque a conexão em LA seria agora de apenas 2 horas. Menos stress pro gato.

Chega o dia da viagem. Na minha bagagem de mão, um potinho pequeno com ração a ser dada em LA, uma seringa sem agulha e algodão (2 utensílios diferentes para dar água ao animal). O gato estava insatisfeito no aeroporto de Seul. Dei água e despachei-o no balcão da Asiana. Era dada a largada à maratona de vida ou morte do meu bichinho amado. Agora só me restava mesmo confiar na fisiologia dele.

Vôo de 14h até LA. Fui a primeira a sair do avião, correndo para a imigração - queria agilizar tudo para ter mais tempo com o gato em terra. Como eu estava em trânsito pelos EUA, a aeromoça me informara que eu não precisaria do formulário de imigração para entrar nos EUA; ao chegar na imigração, a primeira pergunta do agente foi: "Where's the form?" Tive que entrar numa outra fila enorme para preencher o formulário, voltar até o mesmo agente e ele me liberar. Sair primeiro do avião de nada adiantara, gastei quase 1h ali entre fila, preenchimento de papel e interrogatório do agente - que foi até bem camarada. Quando cheguei na esteira de bagagens, uma das minhas malas ainda não aparecera. Enquanto esperava a mala e o gato, o cachorro farejador do policial começou a latir escandalosamente ao lado da minha mochila, que estava no chão. O policial: "Você tem comida na bolsa?" "Sim, tenho ração para gato." "Preciso ver." Abro a mochila e mostro o potinho, quase ao mesmo tempo que o gato aparece na esteira. O policial pega meu formulário de alfândega americana e escreve com caneta hidrocor em letras garrafais "Animal food". Pego as malas e o gato, ponho no carrinho, e vou para a alfândega correndo. Faltavam 40 minutos pro vôo da Lan Peru.

Na alfândega, o policial pede para abrir a mochila. Mostro a comida, e ele me fala que "aquela quantidade pode, mais de 1kg é proibido carregar." Ok, moço, mas estou atrasada, dá para me liberar logo? O policial dá o aval, e saio correndo com a gaiola em cima do carrinho em direção ao guichê da Lan Peru. No meio do caminho, devolvo as malas para o re-check-in automático, e continuo correndo apenas com a mochila e a casinha do gato. Ainda não havia tido tempo livre para dar água pro bicho.

Quando cheguei ao balcão da Lan (que pelas leis de Murphy era o mais distante existente no gigantesco aeroporto de LA), a atendente ao ver o gato, gritou no rádio: "The freaking cat arrived!" Bom, pelo menos eles estavam cientes do passageiro especial. Faltava menos de meia hora pro vôo, e a mocinha me falou: "Olha, você precisa fazer 3 coisas para pegar esse vôo ainda: passar a gaiola do gato no raio X especial, pagar a passagem do gato ali no caixa, e fazer o check-in do gato. Não dá pra fazer tudo isso em 20 minutos. Você vai perder esse vôo."

Respirei fundo. Ciente de que eu perderia o vôo, a Lan Peru foi finíssima e me garantiu que eu iria, sem nenhum custo adicional, no próximo vôo para Lima, que era meia hora depois - já que o meu atraso foi causado pela imigração americana, fora do meu controle. Fui levar a gaiola do gato para o raio X especial. Era só a gaiola que passava no raio X, não o gato. Tive que tirar o gato da gaiola - talvez o momento mais difícil de toda essa maratona, porque ele estava tão amedrontado que se agarrou ao travesseiro. Quando finalmente persuadi-o a sair e entreguei a gaiola ao agente do raio X, fiquei rodando com ele no colo pelo saguão do aeroporto. Ele, estranhando aquele monte de gente ao redor, se agarrava literalmente com as unhas no meu ombro. Um pouco de sangue começou a escorrer na minha blusa.

Dei água finalmente nesse meio-tempo, com o algodãozinho molhado. A gaiola voltou, e recoloquei-o em seu lar temporário. Voltei ao guichê da Lan. Paguei a passagem do gato, e entreguei-o a um rapaz muito bonzinho, que, mesmo já atrasada pro novo vôo ganho, me deixou dar água, ração e carinho pro bichinho num cantinho mais calmo do guichê. Ele pegou depois a gaiola e levou o gato para a segunda etapa da jornada.

Eu já estava dentro do avião numa janelinha do fundo quando vi a gaiola ser colocada no compartimento de bagagem aquecido do avião. O moço que o trouxe pôs a casa com o maior cuidado na esteira. Milhares de pontos para a Lan Peru. O vôo foi tranquilo, incluindo a conexão em Lima. 14 horas depois, eu aterrisava, exausta, em Guarulhos.

Cansada, mas não menos preocupada. Afinal, estaria o gato vivo? Passei pela imigração brasileira rapidamente, e corri para a esteira de bagagens. As malas vinham, de todos, menos as minhas. De repente, vejo uma mala, a outra... e finalmente, a casinha do gato. De olhos esbugalhados e rouco, ele parecia meio perdido no tempo e espaço, mas estava vivo. Dei mais água para ele, peguei as outras malas, e fui em direção à alfândega. Eram 5 da manhã, e o oficial teve que ir acordar a veterinária de plantão, que àquela hora esperava tudo por ali, menos um gato diabético vindo da Coréia do Sul num vôo de Lima. Sem passar mal, vomitar, ou desmaiar por 30 horas intermináveis. Vivo.

Ficou para mim o aprendizado: o apego de uma pessoa a um bichinho de estimação é mesmo incomensurável, incompreensível, transpõe barreiras (burocráticas, alfandegárias ou logísticas), e por ele, (quase) tudo vale a pena. Basta a alma não ser pequena, como já dizia o poeta.

Tudo de bom sempre ao Catupiry, um gato havaiano que viajou meio mundo. Literalmente.

Catupiry
Descansando em cima das malas depois da missão cumprida...

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