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sábado, janeiro 27, 2007

Ser viajante em tempos de aquecimento global

23May06 Japan02

E agora, Lucia Malla?

Já há algum tempo eu venho me questionando sobre o problema da poluição emitida pelas aeronaves e o que fazer para diminuí-la - mais precisamente desde que esbarrei há um ano (mais ou menos) num link que calculava a parcela de poluição de cada um. Apesar de eu (tentar) levar uma vida o mais ecologicamente possível - reciclar ao máximo, preferir o transporte público, evitar gastos desnecessários de energia elétrica, etc. - meu índice de CO2 foi às alturas, literalmente. Por um fator simples: as viagens de avião.

Sabemos que aviões consomem uma quantidade fenomenal de combustível, necessárias para manter toneladas de metal no ar. Esse combustível todo, é claro, termina na atmosfera sob a forma de CO2, colaborando para a ciranda de problemas climáticos que vemos na atualidade - principalmente aquecimento. Uma medição da temperatura atmosférica nos 3 dias consecutivos ao 11 de setembro de 2001 quando todas as aeronaves nos EUA estavam obrigatoriamente em solo, mostrou que a variação térmica diária era muito maior, ou seja, mais temperaturas baixas apareciam na escala do que a situação que vivemos diariamente, com os aviões cruzando os céus.

Felizmente, já existem pessoas e empresas procurando alternativas a esse problema, tentando construir um avião ecologicamente correto; entretanto, a maior parte dessas alternativas ainda são idéias pro futuro, não imediatas. Na prática, o que podemos fazer hoje é sermos bons consumidores e tomar medidas para diminuir as emissões de CO2 relacionadas a viagens. A mais drástica delas é deixar de viajar de avião, ou tentar viajar apenas quando estritamente necessário. Nesse caso, procurar empresas com melhores ofertas (onde os vôos provavelmente estarão mais cheios e a eficiência de transporte é maior) ou que sejam mais "ecologicamente corretas" - embora o avião em si não o seja, a empresa responsável por ele pode ter planos de diminuição de CO2 em ação, incentivar projetos ambientais, etc. Afinal, o avião ser um agente poluidor ainda é reflexo de um problema tecnológico de modelo - a "eterna" e errônea dependência do petróleo.

(Parênteses: Um amigo meu inglês está nesse momento viajando da Inglaterra ao Tibet de trem, para evitar exatamente o uso de avião. Vários dias na estrada. Esse é talvez o maior exemplo de pessoa preocupada com o ambiente com que já me deparei. Fim do parênteses.)

A questão, entretanto, que martela em minha cabeça é: não viajar, ao mesmo tempo que é um benefício ao ambiente, é um problema para a melhoria da sociedade como um todo, porque no extremo do raciocínio, estaríamos fadados a conhecer apenas nossos arredores, e não o mundo - experiência que eu garanto, é impagável na formação de uma mentalidade global. Não há internet nem fotos possíveis que tragam o barulho das mobiletes nas ruas de Taipei, os miados dos zilhões de gatos que andam à deriva em Honolulu, ou o cheiro (deliciosamente desagradável, por sinal) das bolhas de sulfa nas crateras de Rotorua, na Nova Zelândia. Essas experiências sensoriais fazem parte do "estar em um local" e elas enriquecem a visão de mundo, nos tornam de certa forma pessoas mais flexíveis, adaptáveis. Elas colaboram para sua visão aberta de horizonte, e te mostram o quanto a diversidade étnica, de idéias e de ecossistemas é um bem de valor inestimável. E isso no final colabora para a existência de cidadãos mais preocupados com questões globais. Uma roda-viva.

Penso muito nessa contradição, e me dói. Afinal, amo viajar. Pelos meus últimos cálculos, precisaria plantar 111 árvores para compensar as 16.7 toneladas de CO2 que ajudei a deixar na atmosfera apenas em 2006, resultados de tantas viagens de longa distância - só as viagens transpacíficas já estourariam qualquer limite aceitável. Preciso começar a fazer como Dave Matthews e Al Gore, que "compram" árvores antes de viajar na tentativa de (tentar) neutralizar a emissão própria. Ou, pelo menos, amenizar. Sugestões mais eficientes para este problema são bem-vindas.

Tudo de bom sempre.


(Postado também no "Faça a sua parte".)

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