Uma Malla pelo mundo Interney.net/blogs/malla

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Pelas ruas de Londres

Sem nenhum motivo aparente, Londres nunca foi minha cidade predileta. Quando mochilei pela Europa, ouvi muitos outros mochileiros em albergues pela França comentando que o custo da estadia por lá era absurdamente caro, e isso meio que me afastou naquela época de visitar a cidade. Heresia máxima de uma viajante, não tinha plano algum de um dia sequer na vida ir a Londres. Simplesmente não me atraía, achava-a... boring.

Assim que soubemos que íamos para Londres por uma causa tão ilustre, tive que fazer o dever-de-casa e começar a buscar informações sobre a cidade - isso em meio às confusões logísticas para levar o gato pro Brasil. Ou seja, procurei aprender sobre pontos legais de se visitar na cidade, mas no fundo, não pesquisei muita coisa por absoluta falta de tempo. E foi com esse espírito cru, com esse pré-conceito pessoal de que a cidade não era lá esses balaios, fingindo a mim mesma não ter ouvido o Idelber e mais uma meia dúzia de amigos afirmarem que era uma das melhores cidades da Europa, que eu amaria, desconfiando de overhype por todos os lados, que desembarquei no aeroporto de Gatwick.

Eu não podia estar mais enganada sobre a cidade. Assim que pisei na capital britânica, apesar do agente de imigração quase ter me negado entrada (suei por mais de meia hora numa entrevista dura para conseguir o carimbo de aceite), senti logo no ar que a cidade ia ser muito especial para mim. Talvez fosse o sotaque meio-formal, talvez a mão inglesa de direção, talvez a cédula de 10 "quids" (libras) com a efígie de Darwin impressa. Não sei, mas fato é que gostei de Londres de cara, no primeiro contato.

Assim que chegamos, nos dirigimos à casa da nossa hostess e amiga Emma. Ainda estava meio atordoada do vôo e do fuso (o eterno jet-lag que me persegue) e decidimos que nessa primeira noite por lá íamos pegar "light": fomos jantar num pub. No dia seguinte, começamos nossas andarilhações pela capital, e aí é que a minha ficha caiu completamente: Londres é simplesmente demais. Que cidade!

Fica difícil enumerar algo específico que valorize a cidade e a caracterize unicamente. É todo o conjunto da modernidade aliado à tradição monárquica, é o novo e o velho se misturando nesse melting pot mundial, as diferentes etnias, a diversidade de personagens e ambientes que faz de Londres a mesma festa mutante que Hemingway usou para descrever Paris em seu célebre livro.

Em nosso primeiro dia de caminhada pelas ruas londrinas, resolvemos fazer o que todo bom turista deve fazer numa cidade assim: se perder. Apenas nosso destino inicial foi ligeiramente traçado: íamos ao London Eye. Pegamos o Tube (o metrô de Londres) até a estação de Westminster, e a escada de acesso à rua já deu um aperitivo do que viria pela frente: a imagem do Big Ben em todo esplendor. Andamos pela região, na esquina mais monumental da cidade. A cada lado uma atração mais incrível: de um lado, o Parlamento Britânico; em frente, o rio Tâmisa; na outra margem, o Aquário, o Museu Dalí e a London Eye; acima, o Big Ben. Precisa de mais? Atravessamos a ponte do Tâmisa e chegamos na região da London Eye. Resolvemos encarar a volta de quase 1 hora dentro das cápsulas jetsonianas dessa mega-roda-gigante, criada para comemorar a virada milênio. É a mais alta roda-gigante do mundo e esperávamos visões panorâmcicas perfeitas, mas infelizmente assim que a gente pôs o pé dentro da cápsula, uma leve névoa cobriu a cidade, e tudo que vimos lá de cima foi tons de cinza.

London eye viewTower bridge door
A vista cheia de fog que tivemos do topo da London Eye. Ao lado, uma porta intrigante na Tower Bridge. Será que leva para a casa de máquinas da torre?

Da London Eye, decidmos continuar em caminhada sem rumo. Pegamos o sentido do Southbank pela beira do Tâmisa, no chamado "The Queen's Walk". Mesmo com o tempo cinzento, a caminhada foi extremamente prazeirosa. Começou a chover na altura da ponte de Waterloo (que só me fazia lembrar minha tia sonhadora que sempre comenta que "o filme da vida dela é "A ponte de Waterloo", um romance super-açucarado com Vivien Leigh) e decidimos por um ônibus qualquer, entramos no primeiro e esperamos para ver onde ele ia nos deixar. Saltamos perto da London Bridge quando a chuva amenizou, e continuamos a andar pela beira do Tâmisa. Passamos pela Hay's Gallery, vimos o HMS Belfast, um navio da frota britânica da Segunda Guerra que participou do desembarque na Normandia e virou museu flutuante, o Museu Imperial da Guerra. Não entramos no navio, mas percebi que um número considerável de tours de escolas com crianças estava chegando para a visitação - acho muito legal esses tours para crianças, em geral ensinam muito aos adultos também. O HMS Belfast fica quase em frente à Prefeitura de Londres, um prédio novo de arquitetura arrojada muito interessante, que fica em frente ao ícone máximo da Londres dos folhetos de turismo: a Tower Bridge.

Prefeitura de LondresNa prefeitura
Prédio da Prefeitura de Londres, à beira do Tâmisa em dia de muito fog e chuva. Achei o prédio muito interessante. Ao lado, uma das esculturas no parque ao lado da Prefeitura era esse "ovo" caindo - e uma Malla tentando empurrá-lo mais ainda pra cair, hehehehehe!

A Tower Bridge é aquela ponte elevadiça com uma torre de cada lado construída no século XIX. Cruzamos a ponte, observando os detalhes da estrutura. A mim, me intrigou uma porta medieval que estava fechada. Será que ia para o antigo motor hidráulico que erguia a ponte? Enfim, a caminhada seguiu. Da ponte, é impossível não notar a sua frente a Torre de Londres, um castelo inicialmente construído no século XII e que foi destruído 2 vezes por incêndios, reconstruído, remodelado, e hoje é um pedaço enorme de história e arqueologia na beira do Tâmisa. Porta de entrada para a cidade, já funcionou também como prisão real. Hoje, ao invés do fosso com água ao redor separando a área do castelo do resto da cidade, a Torre apresenta um gramado enorme bem-cuidado, reflexo da moderna preocupação com focos de água "parada" pela cidade - embora eu me pergunte quão parada, já que o rio está ali na frente. A área é obviamente lotada de turistas, de todos os lugares imagináveis do mundo. Guardinhas e guias vestidos tradicionalmente dão o charme ao local. Sentamos e apreciamos a vista mágica.

A caminhada continuou e chegamos no S. Katherine's Docks, uma marina para barcos particulares (entenda-se: de magnatas londrinos) cheia de cafés, restaurantes e boas lojinhas. Uma exposição a céu aberto de azulejos me encantou, e eu fiquei um bom tempo tirando fotos dos diferentes azulejos, cada um com um tema, cada um mais colorido que o outro. Como Londres é uma cidade cara - e a lógica diz que os londrinos devem saber onde as coisas são mais baratas na cidade) - ficamos observando o brasserie em que entravam mais pessoas com "cara de londrinas" (não me perguntem como definimos isso, mas definimos). Logo escolhemos uma simpática loja cheia de sanduíches gostosos a preços amenos, e nosso almoço da tarde foi muito agradável, sentados à beira da marina, vendo barcos históricos, com uma cabine telefônica típica ao lado, e observando o movimento dos locais.

Depois de lanchar, voltamos pela rua atrás do castelo, rumo a uma estação de metrô que nos levasse a Baker street. Depois da rápida visita, hora de ir para casa, preparar-se para a noitada que vinha pela frente.

Tudo de bom sempre.

Londres mosaico©
Mosaico colorido de azulejos que estava no St. Katherine's Docks. Apesar da cidade durante o dia ter ficado o tempo todo cinzenta, o mosaico reflete muito mais o astral que a cidade tem: colorida e cheia de energia. Em outras palavras, imperdível.

Marcadores: ,