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sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Industrialmente Ulsan

Em setembro do ano passado, nós fizemos uma viagem para gastar as milhas que tínhamos acumulado pela Korean Air. Podíamos escolher qualquer destino dentro do país, e escolhemos Gyeongju, uma pérola histórica. Entretanto, Gyeongju não tem aeroporto, então tivemos que voar para Ulsan, que fica a 40 minutos de ônibus. Como Ulsan era parada obrigatória tanto na ida quanto na volta, decidimos conhecer um pouco essa cidade também.

"Ulsan é a cidade mais industrial da Coréia do Sul." Eu ouvi essa frase incontáveis vezes da boca de diferentes coreanos, inclusive nativos da cidade, e sempre com uma conotação negativa, de poluição e marasmo. Fiquei com um pé atrás, claro. Afinal, o que uma cidade que só tem fábricas poderia oferecer ao turista além de crises de asma? (Apesar disso, a seleção brasileira ficou em hospedada em Ulsan na saudosa Copa de 2002.) Quando percebemos que não tínhamos muita escolha no roteiro, comecei a ler sobre Ulsan. Achei meia dúzia de atividades que pareciam interessantes e estava feito um roteiro "meia-boca".

©UlsanAS-aerial©UlsanAS-aerial factories
Vista aérea de Ulsan, com seus recortes costeiros e o mar de fábricas ao redor do rio. Ulsan tem o porto mais movimentado da Coréia do Sul.

É realmente fantástico quando a gente se surpreende com um local - por isso que gosto mesmo é de ir ao lugar e elaborar a minha própria opinião, não apostar todas minhas fichas na opinião alheia. Não sei se foi como o avião pousou, dando a volta por todo o litoral da cidade, ou se foi o céu azul que brilhava na manhã da chegada, ou se foi o cenário plácido do rio Taehwa que corta a cidade. Mas fato é que achei Ulsan uma cidade muito simpática, industrial na medida certa, digamos assim. Lembrou-me (vista do céu) Vitória (ES) - talvez pela curvatura do litoral e do enorme porto da Hyundai (fala-se em coreano "riôndé") lá instalado.

O aeroporto pequeno, mas simpático - internacional, para os grandes negócios que devem ser fechados ali, na sede da Hyundai Heavy Industries (que produz navios e afins). Mas, como já tínhamos planejado não nos atermos a Ulsan, fomos direto para Gyeongju, passar 2 dias. Deixamos Ulsan para depois.

Na volta, decidimos vir mais cedo, e passamos parte do dia caminhando por Ulsan. No centro da cidade, uma visão engraçada: uma roda-gigante enorme em cima de um prédio de alguns andares - a Hyundai Department Store. Uma dessas mágicas da engenharia civil, em minha modesta opinião leiga. Como se sustenta? Depois de tirarmos fotos daquilo, fomos almoçar num fast-food, para não perdermos tempo.

©Ulsan-Roda gigante
A roda-gigante em cima do prédio!

Do centro, pegamos um ônibus até a ponta da baía de Ulsan, em Jangsaengpo, onde fica o Museu da Baleia. Achei interessante a proposta do museu, que tem um prédio interessantizinho. No pátio do Museu, uma réplica de navio baleeiro antigo. Dentro do museu, explicações biológicas e econômicas sobre o animal e toda a cultura que o envolve - na Ásia, lembremos bem, baleia ainda é comida, infelizmente. Várias fotos da atividade baleeira, daquele mar de sangue que viram os navios quando eles coletam um animal. Admirei um feto de baleia em formol, à exposição. Biologicamente muito interessante. Poucas tabuletas em inglês (melhor seria dizer "konglish"), do que se conclui que o museu é basicamente para os coreanos.

©UlsanAS-Hyundai©Ulsan-museu
Vista dos guindastes do porto da Hyundai; ao lado, o prédio do Museu da Baleia.

Mas aí a gente sai do museu, e o que vemos ao atravessar a rua em frente a entrada? Vários restaurantes especializados em... carne de baleia! Achei aquilo altamente contraditório. A Coréia, desde a década de 80, é um dos países que declararam moratória na caça a baleias, por pressões ambientais. Mas eis que descobrimos em Ulsan que aqueles restaurantes ali na frente do museu são os únicos que existem no país, é uma "tradição" local (mais uma vez...) comer carne de baleia - não ficou claro para mim de onde essa carne oficialmente vem - , e muitos nostálgicos do país vão a Ulsan apenas para isso. Por causa dessa nostalgia, a Coréia já há algum tempo pressiona para voltar a pescar baleias para alimentação. Por causa dessa possibilidade, a reunião da Comissão Internacional de Baleias em 2005 foi em Ulsan, na tentativa de trazer ao debate de novo sobre a importância da preservação - e a Coréia, aliás, apresentou a proposta mais estapafúrdia possível.

©UlsanAS-restaurante©Ulsan-lulas secando
Um dos inúmeros restaurantes que vendem carne de baleia em frente ao Museu da Baleia. Ao lado, uma cena típica coreana: um varal de lulas, secando para futuro consumo.

De qualquer forma, andar por aquela rua me deu uma enorme tristeza. Decidimos ir então passear na praia de Ilsan, que fica do outro lado da baía. Passamos pela fábrica de carros da Hyundai, um mundo, enorme. Tinha um navio parado de pelo menos 15 andares lotado de carros, que maluquice.

A praia de Ilsan é simpática. Curvatura bonita, algumas lojinhas, um mini-calçadão. Muito "lixo de deriva" na areia - aquele lixo que é trazido pelas correntes marítimas. No final da praia, tem uma escadaria que leva a um vilarejo e ao parque Daewangam Songnim ("floresta de pinheiros") no topo de um morrinho. No vilarejo de ruas estreitas, muitas barraquinhas com comidas típicas coreanas, inclusive os besouro, que as crianças adoram e comem feito pipoca.

©Ulsan-farol Ulgi©Ulsan-Ilsan
O farol de Ulgi, com uma brancura Omo de dar gosto. Ao lado, a praia de Ilsan.

Passado o vilarejo, chegamos na floresta de pinheiros. A trilha leva ao farol branco-mediterrâneo de Ulgi. Andando um pouco mais, uma paisagem simplesmente maravilhosa desponta: o mar e um céu azulzíssimos, com as rochas recortadas claras chamadas de Daewangam abaixo. Muito vento, meu cabelo não parava no lugar nem amarrado. Estava frio no dia, mas as pessoas não se desanimavam a andar até a ponta do parque, onde uma pontezinha ligava o continente a essa ilhota de rochas estranhas. Fomos até lá, um local pacífico, ótimo para reflexões. Diz a lenda que a ilhota é na verdade a rainha Munmu da dinastia Silla, que ao morrer se transformou em dragão e foi morar embaixo d'água, virando finalmente uma rocha protetora da entrada de Ulsan. Estórias à parte, a paisagem é nota 10, apesar da multidão - era domingo.

©Ulsan-Ponte©Ulsan-Banco de gatos
Uma das rochas exóticas do litoral de Ilsan ligada pela ponte. Não é uma paisagem linda? Ao lado: eu adorei esse banco com os gatinhos segurando o assento! Estava na ilhota do parque, e era feito de pedra.

Depois de subirmos e descermos em rochas, hora de voltar para casa. Como não sabíamos como chegar no aeroporto, entramos no primeiro ônibus e por sorte chegamos a um ponto final onde os motoristas conseguiram entender que queríamos ir pro aeroporto, e nos indicaram o ônibus certo. Tranquilíssimo trajeto de ônibus, vendo "as modas" coreanas. Pegamos o vôo para Gimpo (Seul) e a viagem terminou com a certeza de que as milhas da Korean foram muito bem aproveitadas.

©Ulsan-rocha

Tudo de bom sempre.

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