Uma Malla pelo mundo Interney.net/blogs/malla

terça-feira, janeiro 31, 2006

Pequenas anotações de viagens virtuais 10

1) Quando eu era adolescente, adorava ler livros de Agatha Christie. Tinha muitos em casa, e pegava emprestado dos amigos mais um tanto. Nunca conseguia descobrir o assassino, porque ficava mais ligada na trama científica do crime que nos personagens. Adorava Tommy e Tuppence Beresford. Enfim, há alguns dias li que uma pesquisa clamava ter descoberto o mistério de tanto sucesso da dama do crime. Apesar do caráter científico do trabalho, não dá para negar que é um pequeno exemplo de ciência de caráter duvidoso. Não pela dama do crime, é claro, cuja única intenção ao escrever era... divertir.

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2) Nesse link tem uma foto do inalador de insulina que, segundo a Pfizer, estará no mercado ainda este ano. Parece um isqueiro com uma parte retrátil, onde você põe as unidades de insulina para formar o "vapor" que será inalado.

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3) E falando em mercado, aqui na Coréia do Sul, uma notícia para lá de bizarra: a indústria do "fortune-telling" - isso mesmo, adivinhação de futuro, tarô, shamanismo e afins - vale 2 bilhões de dólares na península. Já vão até criar um shopping só de esoterismo em Seul! Eu cada dia mais me surpreendo com o ser humano.

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4) Saiu no jornal australiano uma reportagem enorme e elogiosa sobre Florianópolis, essa cidade tão deliciosa do sul do Brasil. O enfoque está principalmente na cultura alternativa das praias, mas conta um pouco também da história e costumes. Eu adorei ler, embora reconheça que há alguns "exageros". Mas vale a intenção de divulgar a região, que é realmente bela. (Notícia via Palavras ao Vento, do Wilson.)

Floripa a noiteDia de surfe na Joaquina
Vista noturna de Florianópolis, cidade de ouro e sal. Ao lado, praia da Joaquina, meca do surfe brasileiro.

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5) O Crooked Timber discute de maneira muito interessante a velha dicotomia jornalismo & blogs. Os comentários são enriquecedores. Há de se pensar: a noção de "autoridade" realmente é a diferença entre as duas mídias? Fica a reflexão.

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6) Um estudo feito com os isolados índios Mundurucus mostrou que as crianças dessa tribo no Amazonas entendem princípios de geometria mesmo não tendo palavras que definam esses elementos em suas línguas nativas. Uma interessante perspectiva em relação ao nosso cérebro.

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7) Camburizinho, boa viagem e boa sorte na Antárctica!!! Anote tudo e nos conte depois suas aventuras do continente gelado...

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8) Você sabia que não se paga imposto de renda no Kuwait? Aprendi isso ontem, nunca tinha ouvido falar num lugar sem imposto. Será que eu entendi certo?

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9) A Leila escreveu sobre a polêmica no caso do cientista da NASA censurado pela Casa Branca. No Real Climate, um pesquisador do mesmo laboratório comenta mais profundamente o assunto e a política do aquecimento global.

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10) Conexão Boston-Maui ligada: Feliz aniversário, Carlota Joaquina, minha queridíssima amiga, dançarina de uma vida tão movimentada e cigana, ombro amigo de todos os croissants com brie!

No Boston BunkerSacred Falls - Ilha de Maui - Havai
Tinha "Trassa" na bolsa, pra se espedaçar tanto ao vento de Maui? ;-)

Tudo de bom sempre, Carlinha!

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segunda-feira, janeiro 30, 2006

Pitadas coreanas

Hoje é o primeiro dia do ano para os seguidores do calendário lunar - parte considerável da Ásia, por exemplo. Estamos entrando no ano do Cachorro, que, de acordo com o zodíaco chinês, inspira lealdade tanto pessoal como geral. E, num momento em que até a Forbes Magazine tem uma reportagem sobre as previsões pro ano do cachorro no mundo dos negócios, imagine os demais elementos da sociedade asiática. O Ano Novo Chinês é definitivamente uma data pra lá de importante aqui.

É o mais esperado feriado do ano, e de acordo com a tradição, deve ser passado com sua família. Por causa dessa tradição, ocorre nesse período a maior movimentação de gente na face da Terra, mais que a migração anual a Meca. (Apesar de eu achar que também há um pouco de hype da mídia, já que ano passado, quando chegamos em Hong Kong em plena véspera de Ano Novo, o aeroporto estava vazio, contradizendo tudo que havíamos lido sobre viajar na época.)

Mas fato é que desde sexta-feira há algo diferente no ar. Um clima similar ao encontrado no Brasil na sexta-feira véspera de carnaval, quando todos parecem entrar num transe coletivo que só evanescerá quando o feriado terminar. Numa demonstração clara da importância da data, as empresas e escritórios tradicionalmente dão presentes a seus funcionários, e eu ganhei um conjunto de cremes e xampus deliciosos nesse ano, que já estão devidamente sendo usados.

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No último mês, tem passeado pelas ruas de Seul o caminhãozinho do Google. A gigante da informática está muito preocupada por não ter espaço numa sociedade tão informatizada - apenas 4% dos coreanos usam o Google para fazer busca, sendo os sites mais requisitados o portal Naver e o Yahoo!Korea, por motivos que só o randomismo do mercado pode explicar. Enfim, apesar de ter cedido às pressões do governo chinês e construído o apelidado "great Firewall of China", parece que é o vizinho da península de baixo que incomoda e leva ao questionamento da própria empresa.

Se lembrarmos que Seul é a cidade com mais pontos de wifi no planeta, que a sociedade coreana é amplamente digitalizada e familiarizada com a Internet, e que a produção de tecnologia aqui é uma das marcas mais fortes da economia, perceberemos que o Google realmente deve estar de cabeça quente tentando compreender em que falharam na Coréia do Sul. Será que eles acham a resposta? Aguardemos se a estratégia do caminhãozinho funciona.

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Várias são as comidas típicas coreanas nessa época, mas sem dúvida é o bolinho de arroz a presença mais constante e forte na mesa das famílias. Eu particularmente acho os bolinhos muito sem-graça de comer, embora reconheça que há toda uma tradição por trás da confecção dos mesmos que os faz tão importantes. Mas são muito bonitos de se ver. Feitos com corantes naturais, funcionam como decorações culinárias delicadas e coloridas para alegrar a criançada.

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Tudo de bom sempre. E Feliz Ano Novo Chinês para todos!

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sábado, janeiro 28, 2006

Insulina nasal no mercado

Ontem, depois de alguns meses na pendência, o Food and Drug Administration (conhecido pela sigla FDA), órgão americano que regulamenta medicamentos e afins, finalmente concedeu a Pfizer o direito de comercializar a insulina nasal. A Comunidade Européia já havia aprovado dias antes.

Marketeada como Exubera, será a tão sonhada independência das injeções diárias que os diabéticos tipo 1 sonharam por tanto tempo - e os diabéticos tipo 2 que fazem uso de insulina também. No ano passado, o painel de aconselhamento do FDA já havia dado um parecer favorável, mas aguardava ainda a decisão final. Entretanto, passar por esse painel já era considerado uma vitória, e a aprovação final agora reitera o que a indústria farmacêutica já vislumbrava como certo.

A insulina nasal é na verdade insulina em pó, inalada por um aparelho especial que propicia o ajuste da dose (não é um mero nebulizador, pelo que entendi). Mas ainda há ressalvas: é contra-indicada para pessoas fumantes e/ou com problemas de pulmão, assim como para crianças. E como não houve um estudo a longuíssimo prazo sobre os efeitos do uso contínuo da insulina nasal, não se sabe ao certo todas as contra-indicações.

E eu me perguntei, assim que soube dessa notícia: "Como o FDA aprovou um medicamento que não possui um estudo a longo-prazo determinando os riscos?" Depois do fiasco do Vioxx, um medicamento da Merck para artrite que teve que ser retirado do mercado depois de aprovado pelo FDA porque acelerava graves problemas cardíacos nos usuários, esperava-se que o FDA ficasse bem mais rígido. Entretanto, acho que a resposta para minha pergunta é muito simples.

Quando você tem uma doença como a diabetes, em proporções epidêmicas no mundo inteiro e cujo tratamento para muitos depende de incômodas injeções diárias, você sabe que qualquer ajuda para que as pessoas enquadrem o tratamento em seu dia-a-dia é válida. Acrescente a isso o potencial mercado consumidor gigante que uma empresa pode ter acesso com uma tecnologia inovadora. Acho que boa parte do lobby pró-insulina nasal vem desses fatos: melhoria na aceitação do tratamento e pressão econômica.

De qualquer forma, é um grande avanço, mesmo que não pareça, mesmo que não saibamos ainda tudo sobre como a insulina nasal age a longo-prazo - é esperar para ver. É provável que agora os diabéticos tipo 2 que se recusam a levar injeções possam aceitar com mais facilidade tomar insulina - essa é a grande esperança por trás da indústria farmacêutica, aliás, visto que apenas 10% dos diabéticos são tipo 1, insulino-dependentes. A fatia grossa do lucro de tratamento da diabetes vem sem dúvida da diabetes tipo 2.

A diabetes tipo 2 não é uma doença "barata" - uma certa contradição, pois sua prevenção é das mais baratas possíveis: exercício físico e dieta balanceada são suficientes. Mas, uma vez instalada, o ônus monetário é grande para todo o sistema, desde o indivíduo até o governo. E se analisarmos mais criticamente ainda, perceberemos que os aumentos gritantes no número de casos de diabetes tipo 2 geram lucros para empresas seguradoras, hospitais e médicos. Uma faca de 2 gumes: você prefere uma sociedade mais saudável perdendo a fatia de mercado consumidor que os milhões de diabéticos representam, ou prefere mantê-los gastando e doentes? Infelizmente, a resposta para muitos não é tão simples como esperaríamos.

Recentemente, o New York Times, fez uma série de reportagens sobre diabetes em Nova Iorque, uma cidade que já foi considerada das mais "magras" dos EUA, e hoje encara uma tragédia silenciosa prestes a explodir. Nessas reportagens, fica claro que a doença atravessou qualquer tipo de fronteira geográfica: latinos, asiáticos, europeus... não há mais uma população claramente "mais suscetível" que a outra. Frente à mudança do nosso comportamento alimentar e nosso sedentarismo, somos todos quase iguais perante a diabetes. E a diabetes tipo 2 na maioria dos casos é uma consequência da obesidade, que por sua vez nos últimos anos tem sido uma consequência do grupo social em que você está. A tendência que vemos hoje em dia é: onde há pobreza, há mais obesos. Parece contraditório, mas a comida mais barata, mais rápida de ser preparada, mais cômoda é a que mais engorda, e famílias sem muito dinheiro e/ou sem tempo para investir em boa alimentação tendem portanto a comer mal. Essa tendência se espalhou pelo mundo - inclusive no Brasil - e requer um profundo repensar da sociedade como um todo. Como iremos diminuir as diferenças sociais, como melhorar as condições de vida dos que não tem acesso à boa alimentação, saudável, diversificada, nutritiva?

A insulina nasal é um grande avanço no tratamento. Mas muito maior avanço e impacto para a contenção da doença no mundo seria conseguido com a conscientização das pessoas por um estilo de vida mais saudável.

Tudo de bom sempre.

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P.S.: Duas notícias tristes relacionadas ao tema: uma criança diabética tipo 1 que morreu em São Paulo por incompetência de 3 pediatras (médicos de plano de saúde!) em reconhecer os sintomas da doença; e um adolescente britânico de 20 anos que se alimentou a vida inteira de batatas fritas e feijão em lata apenas, e morreu semana passada, com problemas graves no fígado e no sangue. Apesar de tristes, os dois casos nos fazem pensar sobre a importância da boa alimentação e dos bons profissionais no sistema de saúde de qualquer nação.

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quinta-feira, janeiro 26, 2006

In the lake with jellyfishes (English version)*

Recently, I traveled to a remote place in the Pacific where an incredible natural event flourished in a lake. The Jellyfish Lake.

How this lake emerged is quite interesting. During the Pleistocene parts of the ocean under tectonic pressure became entrapped inside some islands; these islands form today the Republic of Palau in the North Pacific. The island lakes are filled with seawater and some of them are still connected to the sea, while others are seawater fed by infiltration through limestones. In Palau, there are 6 lakes of this last category, each of them breeding an unique evolutionary story.

The emergence of a big cliff barrier shut down the direct connection with the ocean and further possibility of big animals to reach and live in the lake. Only larvae or small creatures were able to arrive there, and among them the larvae of the jellyfish Mastigias sp. Most of other invertebrates, though, were soon gone due to the poor nutrition status found in the lake, initiating "the jellyfish kingdom".

In the beggining, the jellyfishes in the lake were like the ones we find today in the ocean, with nematocysts - the toxin-containing cells bearing stingers. The nematocysts were an adaptation to ward away any predator that dare to approach the fragile animal. However, by becoming isolated, jellyfishes no longer shared their habitat with predators. The nematocysts were no longer necessary for this new environment: their presence became worthless. It became a waste of energy to produce cells and useless toxins. Therefore, evolving in a lake environment resulted in nematocyst loss. The Palauan Jellyfish Lake became like a natural amusement park, a place where we can swim among jellyfish that don't sting!

But how do the stingless jellyfish get its food in an almost dead lake? Among the few living creatures around them were zooxanthelae - the microscopic algae that we find in partnership with corals. At this point, an opportunity for symbiosis appeared: the algae started living and photosynthesizing inside the translucent jellyfish body taking advantage of the ride to the bright surface. A nice natural rythm is seen nowadays: during the day the jellyfishes move horizontally to shallow waters, giving the algae the sunlight they need. At night, they lurk in the lake's depth (~50m), where an anaerobic environment rich in nitrogen compounds is available for the algae's photosynthesis. The carbohydrate produced from photosynthesis is metabolized by the jellyfish, which developed a specific enzyme that allows its breakdown and digestion. It's a win-win situation for both species.

The Palauan Jellyfish Lake is one of the best known cases of geographical isolation studied on the planet. And one of the most psychedelic natural attractions as well. To arrive at the lake, one must climb up-and-down a cliff. The surrounding vegetation is pleasant. But it's only when you are in the water heading towards the center of the lake that you really start getting "the" weird feeling: it's impossible not to touch a jellyfish. There are thousands around, nearly impossible to avoid collision. At this point, one should only enjoy the quite unique swim in a gel-like pool.

When I was there, swimming in joy, I felt like I was inside a Buñuel movie or a Dalí painting. The water was not very clear, greenish, with those multiple moody jellyfish "dots" in all imaginable sizes pulsing close to the surface. Tentacles moved either slow for the big jellyfishes or very fast for the smaller ones. A very abstract picture for a straightforward scientist mindset. A strong extatic feeling took over, and I then realized: sometimes what we think is like a dream can actually be one of the most amazing real experiences of a lifetime.

Palau agua-viva 2Mastigias Palau
Mastigias jellyfish.

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*Welcome Spineless' lovers! Hope you enjoy the ride here, and if you read/understand Portuguese, please feel free to look around.

**Meus queridos leitores: Este post foi anteriormente publicado em português aqui, e foi livremente traduzido pro inglês para que eu pudesse participar do Circus of the Spineless, blogagem coletiva de ciência sobre invertebrados, organizada de tempos em tempos e que nesta edição está sendo hospedada no blog do PZMeyers. A quem interessar mais posts sobre invertebrados em inglês, vale a pena dar uma passada lá e conferir.

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quarta-feira, janeiro 25, 2006

Janeiro em poucos parágrafos

1 semana sem blogar - ironicamente estando no computador quase o tempo todo. Inacreditável. Não desencanei desse espaço, pelo contrário: cada vez mais me apego a ele e quero compartilhar idéias e pensamentos aleatórios. Entretanto, janeiro passou, e esse blog esteve viajando por Palau o tempo todo - e se duvidasse, continuaria viajando, porque Palau é maravilhoso mesmo. Mas é chegada a hora de viajar na maionese um pouco. Para não perder o rumo total, gostaria de fazer um pequeno resumo de algumas atividades do mês que já está quase no fim, antes de botar a mão na massa dos tantos posts acumulados que estou amaciando.

Em janeiro, depois que cheguei de Palau, pus-me a reorganizar minha vida virtual, e comecei do básico: backup. Apesar de eu estar no computador por esses dias, a recíproca não tem sido verdadeira. O computador aos poucos está me deixando. Ainda não deu nenhum piripaque mais crítico, mas já mostra sinais de lentidão exagerada, dificuldade em respirar a informação que lhe digito, e insuficiência de memória crônica. Algo como Alzheimer cibernético. Mal consegue abrir 3 softwares ao mesmo tempo - dependendo do programa (Adobe Photoshop, por exemplo) só abre um. Sábado passado, a tecla "delete" caiu, literalmente, e agora, tenho que tomar cuidado triplicado ao escrever qualquer linha, porque para apagar o erro é um exercício dobrado, tenho que mirar o centro da borrachinha que aciona a tecla normalmente (o meu laptop, modelo antiguérrimo da Mac, não tem "backspace", o que poderia me aliviar um pouco). Não consegui colar a tecla, e ela está aqui, servindo de enfeite na escrivaninha, deletando madeira. Frente a tantos desgastes, resolvi agir: o tão adiado plano de backup precisava entrar em ação imediatamente, e desde domingo, não parei. Todas as músicas, fotos, documentos, etc. estão sendo transportados para um local onde serão imortalizados até que um USB os separe. Alzheimermente, o computador leva muitas horas para passar poucos GB, e nessa novela tenho vivido desde domingo.

E eu dependo do computador para comunicar-me com minha família. Minha querida prima diabética está internada desde o Ano Novo, quando abusou das guloseimas e teve uma crise hiperglicêmica séria, indo parar no hospital. Para saber de seu estado, comunico-me com minha tia pelo MSN, e infelizmente, quando o MSN está ligado - e eu quero deixá-lo ligado o tempo todo para ter mais notícias - mal consigo abrir outro programa. O computador, mais uma vez, mostra suas fraquezas quase-humanas.

Em janeiro também, a Associação Brasil-Coréia (um primor de organização, nota 10 em todos os eventos de que até agora participamos) apresentou um filme brasileiro com legendas em inglês, e fomos assistir com uma amiga coreana "Os 2 Filhos de Francisco". Eu até gostei, mas acho exagerado indicarem o mesmo para o Oscar. Não é definitivamente filme para Oscar, em minha opinião. A cena final, embora emocionante e que me fez chorar muito, é totalmente desnecessária, um marketing forçado. Mas também, posso estar errada, afinal eu não via um filme brasileiro há tempos, só sei o que se passa pelas telas tupiniquins lendo jornais e blogs. (E o que é um "filme para Oscar", Lucia Malla? Comercial, acima de tudo, não é mesmo? Preciso rever conceitos. Talvez "2 Filhos de Francisco" seja para Oscar sim...)

Outro filme que fomos assistir foi "King Kong". Um filme tenso, interessante, exceto pela parte da "corrida dos dinossauros". Parecia que Peter Jackson queria refazer "Jurassic Park" - embora os dinossauros tenham existido no original da década de 30, não precisava ter sido tão elongado dessa vez. Entretanto, foi legal saber que aqueles invertebrados nojentos que atacaram o grupo desbravador no filme eram na verdade reproduções agigantadas de insetos reais endêmicos da Nova Zelândia, onde o filme foi filmado. Isso eu achei extremamente cool.

Sábado é o Ano Novo Chinês, entraremos no ano do Cachorro. Ano passado, nessa época confusa na Ásia, estávamos... na China, mais precisamente em Hong Kong na noite da virada do ano. Uma viagem inesquecível, que está narrada aqui em vários posts.

O mês passou. Trabalhei, senti frio, vi muitos CSIs e brinquei com Catupiry. Nada de novo no front - e todos os dias uma novidade qualquer para eu viajar na maionese. A vida é mesmo uma aventura, mesmo cotidianamente vivida.

E agora, deixa eu continuar meu backup, para poder voltar às atividades normais do meu bloguinho querido o mais rápido possível.

Tudo de bom sempre.

P.S.: *Feliz aniversário, São Paulo, cidade que mora no meu coração!

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quarta-feira, janeiro 18, 2006

Lucy in the lake with jellyfishes*

"Picture yourself in a boat on a lake with tangerine trees and marmelade skies..."

Surrealismo existe.

Um recanto onde todo o lisergismo da mãe-natureza floresce sob a forma fantástica de lago. O Lago de Água-Viva - ou Jellyfish Lake, em inglês.

"Somebody calls you, you answer quiet slowly: a girl with kaleidoscope eyes!"

A história do surgimento do lago é muito interessante. Um pedaço do mar, que com a movimentação de placas tectônicas, erosão e fenômenos geológicos adjacentes por alguns milhões de anos, ficou isolado no interior de uma das ilhas no que hoje chamamos de República de Palau. Um lago de água salgada, alimentado por infiltração da água do mar através das rochas. Com um paredão de rochas como barreira, nenhum animal grande conseguiu chegar no lago, apenas os microscópicos e as larvas vinham com a infiltração. Inalcançável aos grandes, alegria dos pequenos. Algum plâncton entrou - e as larvas de Mastigias, uma espécie de água-viva. Os demais invertebrados "curiosos" aos poucos foram desaparecendo, por causa da pobreza nutricional do lago. Começou então o reinado das águas-vivas.

Palau agua-viva 7Palau agua-viva 2

"Jellyfish flowers of yellow and pink, towering over your head..."

Inicialmente, as água-vivas ali existentes eram como as que encontramos pelos mares afora, com tentáculos cheios de nematocistos - as células que liberam as toxinas que irritam a nossa pele - para queimar e afastar qualquer bicho fariseu que quisesse se "aprochegar" mais. Entretanto, o tempo, esse inevitável parceiro do processo evolutivo, foi passando, e a água-viva, retida naquele lago isolado de água salgada com quase nenhum outro animal, já não contava com predadores naturais. Não precisava se defender. Nematocistos não eram mais "necessários", um gasto energético, e sem pressão seletiva suficiente para se manter, com o tempo foram desaparecendo da população. Evolução. Isso mesmo: as águas-vivas deixaram de queimar ao simples toque. Precisavam concentrar energias na luta perante novos desafios, como... alimentar-se.

"Look for the girl with the sun in her eyes and she's gone..."

Mas de que vivem as versáteis águas-vivas do Jellyfish Lake? Na falta de alimento propício, as águas-vivas associaram-se a algas zooxantelas - o mesmo tipo que estão associadas a corais. As zooxantelas fazem fotossíntese, produzem seu próprio alimento, e a água-viva, fornecedora da "carona" em direção ao sol para as algas, passou a produzir uma enzima que permitia aproveitar o alimento que a alga fotossintetizava. Uma relação mutualística que deu certo. Hoje, as águas-vivas passam o dia próximas à superfície, fornecendo sol para suas algas internas, e durante a noite, descem às profundezas do lago, onde o ambiente anaeróbico rico em nitrogênio fornece os nutrientes básicos para a fotossíntese das algas que alimentará as águas-vivas - as duas saem lucrando no final.

"Lucy in the lake with jellyfishes!"

O Jellyfish Lake de Palau é uma das atrações marinhas mais bizarras do planeta. E das mais psicodélicas também. Para chegar no lago, isolado do mar, sobe-se um pequeno monte, trilha desenhada para turistas. E se desce. E se vai ao encontro da água salgada do mar distante, ali concentrada.

"Follow her down to a hill by a boarder where japanese people eat marshmellow pies..."

Quando entrei no Jellyfish Lake, confesso que não acreditei que algo de "anormal" existisse. Ali, na beirinha do lago, não havia nenhuma novidade, a não ser o fato de ser salgado e lotado de turistas flutuando. Bastou dar meia dúzia de braçadas para começar a perceber o delírio viajante do local. À medida que chegávamos mais pro centro do lago, um número incontável de águas-vivas aparecia. E elas não tinham pudor algum em encostar em você - e de repente, tudo que eu sentia em volta de mim era aquela pasta gelatinosa vinda de todas as direções. Comecei a ficar com receio de quebrar alguma com uma braçada ou pernada, e passei a ser mais delicada com os movimentos. Mas eram muitas! Milhares e milhares de águas-vivas me engolindo.

Palau agua-viva 4Mastigias Palau

"Everyone smiles as you drift past the jellyfishes that grow so incredibly high..."

Comecei a achar que estava dentro de um filme do Buñuel ou de uma tela de Dalí. A água não era tão clara, e sim verde escura, com aqueles múltiplos "pontos" esbranquiçados, de todos os tamanhos, movimentando-se, pulsando em direção à superfície, como numa real viagem na maionese. Lucia no lago com as águas-vivas. Apesar de evitá-las por princícios biológicos, não dava para deixar de encostar nelas. Desencanei por completo, e comecei a pegá-las intencionalmente na mão, perceber aquela textura de gelatina. Mexer nos tentáculos, até então um movimento proibido com qualquer água-viva que se encontre pelo mundo. Minha curiosidade aguçou, e ali, dentro do lago, comecei a analisar as águas-vivas mais e mais - entretanto, o surrealismo era muito constante para permitir qualquer raciocínio lógico.

"Suddenly someone is there at the turnstyle: the girl with kaleidoscope eyes!"

Meu namorado tirava fotos sem parar. Eu delirava de emoção, me sentia numa nave espacial cheia de alienígenas. Ambos em êxtase. E não podíamos nos mexer muito, para não machucar os animais. Estaríamos numa realidade paralela? Aquele lugar parecia não existir. Não, Lucia Malla, é verdade. O Jellyfish Lake existe, e é uma das preciosidades de Palau, relíquia biológica do mundo, prova cabal da evolução, estudo ecológico de mutualismo, inspiração ideal para Magritte. Pequena amostra de que muitas vezes os delírios nossos de cada dia podem ser tão naturais como estar com milhares de águas-vivas sem nematocistos nadando num lago de água salgada no meio do Pacífico.

"Lucy in the lake with jellyfishes."

Palau agua-viva 1

Tudo de surreal sempre.

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*Adaptação mallística livre e abusada da psicodélica música "Lucy in the sky with diamonds", dos Beatles.

**Na nossa realidade: Existem outros 2 lagos em Palau com águas-vivas. Um deles, entretanto, sofreu mais duramente o fenômeno El Niño em 1998, e suas águas-vivas quase todas morreram em decorrência do aumento da temperatura da água. O lago ainda está em processo de recuperação.

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sexta-feira, janeiro 13, 2006

Por que Palau? Palau por quê?

Palau é isso aí

Minha amiga e companheira de profissão Alline revelou em seu comentário ao post passado:

"(...) até poucos dias atrás eu nem sabia da existência de Palau (...)"

Alline, até algum tempo atrás eu também era assim. Já tinha visto no mapa - mas isso porque eu tenho mania de ficar lendo Atlas. Nunca realmente me liguei sobre o país em si. E o que me fez despertar esse interesse repentino? A resposta é muito simples: mergulho.

Palau é a meca do mergulho. Qualquer praticante da atividade já ouviu essa frase em algum barco ou diveshop, leu numa revista especializada ou pela internet em algum dos inúmeros sites (ou comunidades do orkut) dedicadas ao mergulho. É na região das Filipinas que há a maior biodiversidade marinha do mundo - e Palau está próximo, meio que pegando a "rebarba" dessa diversidade - mas é peculiarmente em Palau que três correntes marinhas se encontram, trazendo uma vasta quantidade de nutrientes para regiões rasas, atraindo muitos peixes e assegurando alimento para a chamada "megafauna" (a fauna de animais grandes, como baleias, tubarões, crocodilos de água salgada e afins). Se nas Filipinas todo o charme do mergulho é ir fuçar buraquinhos no recife de coral para achar os pequenos invertebrados escondidos ou miméticos, em Palau a aventura é mais exuberante e grandiosa: o charme é apreciar o comportamento de tubarões, tartarugas, raias, barracudas, atuns e tudo o mais de enorme que você com certeza verá num mergulho. É participar de um filme de ação, onde os "grandes bichos" são os atores principais, sem interferência humana.

Tubarao cacandoCardume no canal
Um tubarão passando na frente de um cardume de barracudas: estaria ele caçando? Ao lado, o cardume de olhões (Priacanthus hamrur) em que me infiltrei para sentir o que é ser um peixe...

Não houve um só mergulho lá em que não tenhamos nos deliciado. Os locais de mergulho são inúmeros, e fica difícil, numa viagem de poucos dias, escolher qual o melhor para ir. Todos são excelentes e diferentes. (Meu namorado, com uma lista de quase 500 mergulhos nos melhores e mais remotos points do mundo, disse que depois de mergulhar em Palau, qualquer um fica "spoiled", porque não são muitos outros lugares acessíveis do planeta onde você encontra tal atividade marinha intensa natural.) Talvez a experiência mais gratificante seja o mergulho no Blue Corner, um lugar consagrado mundialmente até entre os mergulhadores mais cri-cris como a meca das mecas. Para muitos, o melhor dive site do planeta. E eu, humilde e apaixonadamente, com toda minha inexperiência embaixo d'água, só posso concordar.

O Blue Corner é um grande paredão coberto por recifes de corais cujo topo está a 12 m de profundidade, e sua parede vai até as profundezas mais profundas (pleonasmo maravilhoso!) imagináveis - sim, porque Palau está situado entre as fossas Marianas (a mais profunda do mundo) e a fossa de Yap, que também não deixa a desejar. Os grandes animais gostam de estar onde há correntes marinhas, onde os peixes menores passam em cardumes, e o Blue Corner é uma verdadeira televisão ao vivo: você se ancora com um gancho nas pedras a 12m de profundidade e não precisa nem nadar, fica lá boiando, seguro pelo anzol, vendo a super-telona azul na sua frente, o mar aberto. E como você não está se mexendo (apenas soltando bolhas de ar), os animais se aproximam inacreditavelmente. Você passa a ser parte do ambiente, por 45 minutos, e vê tubarões caçando, barracudas passeando, atuns se alimentando, tudo acontecendo ao mesmo tempo, ao seu redor. É uma sensação indescritível, alucinante, única, e que embaixo d'água, me fez chorar de emoção e encantamento.

Ancorada ao topo do recife, vendo a caravana passarBlue Corner
Aí estou eu, ancorada ao topo do recife, à beira do precipício, observando a "caravana" ao lado passar... Ação total (por parte dos peixes) no Blue Corner.

Não bastasse os tubarões (que eu amo fervorosamente), num dos mergulhos eu estava bem na minha, assistindo à TV "Mar aberto", quando olho pro lado e me deparo com um peixe Napoleão - aquele mesmo que eu alertei por estar seriamente ameaçado de extinção - olhando para mim com a maior cara de curiosidade. Acenei pro bicho, dando tchauzinho. Ele estava parado, e mexeu a nadadeira como a dizer "oi!", e parou de novo. Dei outro tchau, ele repetiu o movimento também, olhando fundo nos meus olhos atrás da máscara. De novo. Mais uma vez. Eu relutava e não acreditava: estava me comunicando literalmente com um peixe Napoleão! E cada vez mais, ele se aproximava de mim, a ponto de encostar na minha nadadeira. Minha vontade era de abraçá-lo, mas sei que isso é impossível porque ele é arisco - além de poder dar bandeira pros demais mergulhadores do quão delirante e em êxtase eu estava naquele momento.

Peixe napoleaoTubarao
O lindíssimo e amigo peixe Napoleão (Cheilinus undulatus), com quem mantive contatos imediatos de enésimo grau, e ao lado, uma visita de um dos reis dos mares - no caso, um tubarão de recife, espécie do Pacífico (Carcharhinus amblyrhinchos).

O peixe Napoleão não foi o único a dar as caras. Nesse mesmo mergulho, vimos ainda um grupo de budiões enormes. Num outro mergulho, em um canal na costa oeste, entrei dentro de um cardume de xaréus, que se posicionavam contra a maré. E lá, de dentro do imenso cardume, pude sentir a chegada de um tubarão galha-branca, patrulhando o recife. Eu estava 100% integrada ao ambiente, apesar da minha aparência exótica (com um tanque nas costas e soltando bolhas) para os demais ao redor. Eu era parte do ecossistema marinho - porque do terrestre, já somos todos, a todo momento.

Não bastasse essas maravilhas do mergulho, Palau também tem um cenário e geografia únicos. Por estar situado entre as duas fossas mencionadas acima, e suas ilhas serem na realidade o topo de cadeias montanhosas subaquáticas, essas ilhotas são extremamente entrecortadas, gerando um emaranhado de lagoas de água salgada, muitas vezes com uma só entrada. (Parênteses: Para entender melhor esse conceito, veja a foto deste site, que mostra um pedaço das Rock Islands, uma área de preservação ambiental. Palau é inteiro assim.) Se embaixo d'água, as ilhas são cadeias montanhosas, acima, corroídas em sua base pela ação do mar, elas adquirem formato de cogumelos gigantes e psicodélicos, e o país parece um monte de "montinhos" verdes. Pra lá de exótico. Vem daí a estranheza exuberante de se estar num lago de água salgada, rodeado por mata verdinha por todos os lados, como no Disneylake ou no Mandarinfish Lake, locais entre os mais bonitos e mágicos que já visitei na vida. O Disneylake, acessível por caiaque até sua entrada numa caverna/reentrância na pedra (caverna essa onde habitam 2 tubarõezinhos galha-branca fofos), de onde se pega o snorkel e atravessa para um mundo surreal, se não fosse real: ao sair da caverna, nos deparamos com um lago raso, de fundo de corais inacreditavelmente diversos e coloridos. Fora os inúmeros peixinhos do recife, que, estando ali dentro de um "lago", fazem a gente imaginar que está alucinando.

Lagoa em PalauEntrada para o Disneylake
O guia do barco snorkelando no Mandarinfish Lake - dá uma sacada nessa lagoa de água salgada!!! Ao lado, estou snorkelando em uma dessas lagoas salgadas, onde a diversidade dos corais é simplesmente inacreditável.

CaiacandoSiaes Tunnel

Palau é um filme de ação e aventura típico das grandes bilheterias de Hollywood, dirigido e produzido pela natureza. Ou um delírio dalíniano, em cima e embaixo d'água, prestes a reencontrar nossa única Gaia Terra.

Tudo de bom sempre.

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Algumas viagens na maionese antes que eu me esqueça...

- A menção a Dalí não é à toa: o próximo post de Palau será um grande delírio. Aguardem. Ou melhor, preparem-se. Melhor ainda, viajem.

- Para um mapa engraçadinho do Pacífico localizando Palau, veja aqui.

- Alguns dos maiores nomes da blogosfera de ciência mundial - incluindo meus prediletos Pharyngula, Grrl Scientist, Afarensis, Evolgen e Chris Mooney - estão agora todos num domínio só, o Scienceblogs. Cada um com seu estilo, é claro. A agregação é bem-vinda: agora como blogueiros profissionais, é provável que os bons posts se multipliquem mais e mais. Verdadeiro carnaval da ciência.

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domingo, janeiro 08, 2006

A história nas águas de Palau

Meu grande amigo Gabriel, ao comentar o post passado, lembrou-se de um fato curioso sobre Palau:

"(...) A única referência que eu conhecia sobre Palau era do documentário do Michael Moore de 2004... "The republic of... Palau" na "Coalition of the willing" (...)"

Dei muitas risadas relembrando esse fato, Gabriel. É verdade! Palau foi um dos países que primeiro se aliou aos EUA na malfadada coalisão contra o terrorismo mundial que veio subsequentemente a invadir o Iraque como prezepada final. Palau, Costa Rica, Islândia, Romênia, Marrocos e Afeganistão. Reassisti ontem "Fahrenheit 911" para confirmar essa hilária lista.

Faz sentido Palau ter se aliado aos EUA na guerra do Iraque. Embora oficialmente seja um país independente, Palau está sob intensa influência americana - refletidos na prática pelo fato do dólar americano ser a moeda oficial, e a língua oficial, além do tradicional palauano, ser o inglês (exceto em uma das ilhas, onde o japonês é a língua oficial). Desde a década de 50, os EUA são o país mais presente nas ilhas palauanas, um pouco como acontece com as Ilhas Marshall e nas demais ilhas micronésias. Consequências da Segunda Guerra Mundial - porque até então, Palau havia funcionado como território espanhol, alemão no século 19 e território japonês desde 1914 - a bandeira de Palau reflete claramente a influência nipônica, apenas com uma "tropicalização" das cores. Vale ressaltar também que o período de dominação japonesa trouxe progresso e modernidade à população, sendo até hoje um dos momentos de maior desenvolvimento econômico experimentado pelo país. Em troca de uma paragem para seus militares, o Japão investiu muito no país.

Pela localização geográfica no Pacífico, Palau também foi palco de batalhas da Segunda Guerra, principalmente entre Japão e EUA. O reflexo disso são os inúmeros naufrágios de aviões e navios que abundam as águas ao redor do país. São mais de 60 disponíveis para mergulho, e mais um monte ainda inacessível. Existe até um navio afundado pelo ex-presidente George Bush Pai, em seus tempos de marinha americana. Muitos naufrágios estão a profundidade máxima de 3m, facilmente acessíveis para snorkelar, como os 2 aviões japoneses Zero que vimos e um americano B-25: os 3 estão dentro de lagoas marinhas de águas calmas e pristinas. Os 3 aviões bem pequenos, com capacidade e espaço para algumas bombas. (Os Zeros foram, aliás, os aviões usados pelos japoneses para os ataques kamikaze a Pearl Harbor.) Num mergulho noturno, exploramos a fuselagem de um terceiro avião Zero japonês, cujo naufrágio foi batizado hoje de Jake's seaplane. Um avião que foi bombardeado assim que levantou vôo da pista do aeroporto, caindo no mar próximo à costa, e parando a meros 13m de profundidade. É uma viagem total ficar vendo aquele monte de coral e vida no meio de hélices e afins corroídos pelo tempo.

Zero no rasinhoFuselagem do Zero 2
Do barco, a gente já consegue ver a silhueta do aviãozinho Zero no fundo raso. Ao lado, um pedaço do motor de outro Zero, separado de seu corpo durante a queda na lagoa.

Zero japones 2Zero japones 1
Como o motor do Zero está raso, um pedaço da hélice ainda é visto na superfície - um pedaço que de longe parece um galho saindo da lagoa, exceto pelo brilho reluzente com o bater do sol. Ao lado, Lucia Malla investiga snorkellando um dos Zeros naufragados em área rasa de Palau.

Além desses 3 aviões que visitamos apenas com máscara, pé-de-pato e animação, também tive a oportunidade de me aventurar mergulhando num navio japonês chamado Iro Maru. O Iro, um navio de apoio da frota de guerra, está localizado a 36m de profundidade, é um navio enorme e naufragou por força de um torpedo em 1944, repousando no fundo de areia em uma posição inclinada, com o deque e salas de comando a profundidade de 20m e as torres de aço a menos de 15m da superfície. O mergulho no Iro foi inacreditável. A visibilidade da água não estava muito boa, mas a sensação de estar em cima do deque de um navio de guerra afundado, poder passar no meio de suas colunas, olhar para um monstro de 145m de extensão virando substrato para todas aquelas formas de vida... sensacional.

Iro MaruEscada do Iro
Visitando o navio de apoio japonês Iro Maru, afundado por um torpedo em 1944. Ao lado, vê-se uma das escadas de acesso ao deque superior.

Todas as ilhotas do Pacífico que o Japão se apoderou durante o período das guerras foram repassadas depois da derrota japonesa aos EUA, que criou o chamado "Território das Ilhas do Pacífico". Esse território foi incentivado a se tornar país em 1979, e em 1981 quando os Estados Federados da Micronésia se juntaram para formar um país, convidaram também Palau e Ilhas Marshall para participar, e ambos recusaram a oferta. Os povos de cada arquipélago não queriam ser estados apenas de uma nação maior. Preferiram ser independentes dos demais micronésios, com suas próprias leis e organização. E assim, após quase uma década de transição e discussão sobre a situação política, surgiu a República de Palau, em 1994.

Independente, mas nem tanto. No ano seguinte, o governo de Palau assinou um Pacto de Livre Associação com o governo americano, ditando que a defesa territorial palauana seria responsabilidade americana nos próximos 50 anos. O que torna muito fácil entender o porquê da rápida entrada de Palau na coalisão pró-Iraque. Como Palau não tem exército, foi algo como o exército americano em Palau entra na coalisão com... ele próprio. Hilário.

A influência americana trouxe não só a defesa militar como o estilo de vida. E hoje, 50 anos depois da introdução do junk food em Palau, vemos o surgimento da epidemia de diabetes tipo 2 tão comum à modernidade sedentária e super-calórica. 1 em cada 4 habitantes da ilha tem diabetes, um número alarmante.

Palau vive do turismo. Um lugar tropical, cheio de maravilhas marinhas naturais, usou bem o recurso que tinha. Além do turismo, a exportação de côco e a pesca são outras fontes de renda para seus 18,000 habitantes. E a ajuda americana constante, é claro. Em troca de uma paragem para seus militares, os EUA investem muito no país. Os palauanos ainda dependem do dinheiro americano para sobreviver como nação, uma situação longe de terminar.

O tesouro de Palau é sua riqueza marinha, e a solução para aumentar a receita do país claramente passa por um incentivo ao turismo, mais precisamente ao ecoturismo. Isso já está sendo feito, mas ainda requer mais divulgação. Palau, com toda a exuberância e história escondida sob as suas águas, merece definitivamente ser conhecido pelo mundo.

Guia palauano pilotandoNaufragio Palau
Nosso guia palauano em mais um momento de diversão subaquática, "pilotando" o Zero na cabine em pedaços. Ao lado, uma visão lateral da cabine em que ele está sentado na foto anterior.

Tudo de bom sempre.

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terça-feira, janeiro 03, 2006

Alii 2006!

À parte meu desejo constante de passar todo e qualquer Ano Novo na praia, um sonho de infância que me perseguia desde sempre era o de passar a virada do ano numa praia remota de uma ilhota qualquer do Pacífico. Isso já havia semi-acontecido em 2002-2003, quando participei de uma festa brasileira em Waikiki - uma praia no Pacífico, mas nada remota. Portanto, quando decidimos passar o Réveillon 2005-2006 em Palau (Micronésia), comecei a vislumbrar que meu sonho de tanto tempo estava enfim por se realizar completamente.

(Parênteses: Fica aqui o lembrete para que outros não cometam as mesmas gafes geográficas que eu já cometi no passado: não confunda a região micronésia, que engloba 7 países - Palau, Ilhas Marshall, Ilhas Marianas, Kiribati, Nauru, Estados Federados da Micronésia (EFM) e Guam - com o país supra-citado pertencente a região micronésia chamado... Estados Federados da Micronésia, composto por 4 grupos de ilhas: Pohnpei, Yap, Chuuk e Kosrae. Toda vez que alguém cita qualquer coisa sobre a Micronésia, eu mallamente pergunto logo: "o país ou a região?" Fim do parênteses.)

Os planos começaram, assim como a organização para a viagem. Logo descobrimos que não há vôos diretos de Seul para Koror, capital de Palau, mas como era época das festas, no final de novembro uma agência de turismo coreana programou um vôo charter Seul-Koror sem escalas, e foi nessa jogada que nós entramos. Num vôo charter, a agência de turismo aluga um avião (no caso, da Asiana Airlines) e vende o pacote fechado - mas nós queríamos apenas as passagens aéreas, que conseguimos comprar após negociação. O resto da viagem ficava por nossa conta, e organizaríamos como quiséssemos. Apenas um porém: o vôo de volta sairia de Koror no dia 01 de janeiro às 3 da manhã. Apesar do horário péssimo, ainda seria possível aproveitar rapidamente a virada do ano em Palau, o que para mim era o que contava. Nada mal.

A confusão começou no dia da viagem de ida, ainda em Seul. Faltando menos de 6 horas para que saíssemos para o aeroporto, o agente de viagens ligou dizendo que o vôo da volta havia sido reprogramado para sair de Koror... às 11 da noite do dia 31/dezembro. Ou seja, bye-bye Ano Novo na praia, a festa agora teria que ser dentro de um avião. Minha frustração naquele momento era indescritível, meu sonho de criança desceu pelo ralo. E depois de meia dúzia de telefonemas, faltando 4 horas para sair de casa pro aeroporto, decidi me conformar em passar o Ano Novo dentro de um avião. E fui curtir Palau.

A viagem foi excelente. Mergulhos maravilhosos. Passamos 4 dias que mais pareceram 4 meses, tamanho relaxamento mental e desligamento do mundo em que estávamos. O lugar é paradisíaco, e nos próximos posts (uns 4, provavelmente) pretendo mostrar um pouco das aventuras que vivi, dos momentos curiosos, das viagens de barco, da história dessas ilhas.

Mas eis que a noite de 31/dezembro chega. Como íamos para o aeroporto às 9 da noite, decidimos fazer duas pequenas comemorações antecipadas: pela manhã, fomos tomar um mega-café da manhã num resort da ilha - uma indulgência razoável para o Ano Novo depois de dias numa pousada simples. A segunda comemoração foi no jantar, pois fomos a um restaurante indiano (eu amo comida indiana) onde pedimos uma champanhe para acompanhar. O dono do estabelecimento fez questão de abrir e nos servir, e trocamos votos de "Alii 2006" (Alii = bem-vindo, em palauano).

Prainha do resort de diaIndiano e champanhe
Vista da mesa de café-da-manhã onde começamos a celebração de Ano Novo. Ao lado, o indiano abrindo a champanhe comemorativa do Réveillon. Até aquele momento, ainda achávamos que nossa festa seria a muitos metros de altitude...

Fomos de mala e cuia às 9 da noite para o minúsculo aeroporto - que estava às moscas. Nenhum sinal de ninguém. Um guardinha veio nos perguntar o que estávamos fazendo ali, e informou que o próximo vôo só sairia de Koror às 5 da manhã. Até lá, o aeroporto estava fechado. Não entendemos nada. Já havíamos feito o check-out da pousada, sem contato algum com ninguém que pudesse nos informar da situação, pois o aeroporto de Koror nem guichê da Asiana tinha, já que era apenas um vôo charter. De repente, chegam 2 coreanos da agência de turismo e explicam que o horário do vôo havia sido alterado mais uma vez, e agora sairíamos às 6 da manhã de 1/janeiro. Apesar da desorganização e da raiva momentânea com toda essa prezepada da agência, percebi que meu Ano Novo na praia poderia voltar. Às 9:30 da noite de 31/dezembro, sem ter para onde ir, os mocinhos da agência decidiram nos hospedar num hotel onde estavam os demais clientes do pacote, e mal colocamos nossas malas no quarto novo, já começamos a matutar para onde poderíamos ir. Não pensei duas vezes: vamos para o resort do café da manhã, que tem uma praia, e onde eu lembrava ter visto um anúncio para um luau de Réveillon.

Passando por debaixo da cordinhaPainel digital na praia
A brincadeira de passar por debaixo da "cordinha" (na realidade, uma pedaço de madeira) agitada pela banda palauana para o pessoal presente. Ao lado, o relógio digital do hotel já no Novo Ano que chegara há poucos segundos.

Ao chegar naquela prainha do resort, tive vontade de chorar de emoção. Já eram quase 11 da noite, e um grande painel digital fazia a contagem regressiva. Os hóspedes do hotel (a maioria japoneses ou americanos) se entretiam com uma bandinha palauana típica e com as brincadeiras feitas pelos cantores, que animados improvisavam uma dança da vassoura. Faltando 10 minutos para a meia-noite, serviram champanhe para todos - até para nós, penetras de última hora. Não conseguia parar de pular e dar risadas! Corri para perto da água, pulei ondas, gritei, corri, e aí comecei a ouvir a galera gritando... "Five! Four! Three! Two! One! HAPPY NEW YEAR!!!!!!!!!" E as pessoas brindando, se abraçando, naquele clima tropical, naquele calor humano, naquela esperança transcendente que só o Ano Novo traz a todos nós. Meu coração disparado de tanta alegria. E eu estava com meu amor ali, descalça, numa praia remota de areias branquinhas no Pacífico, isolada do mundo, vivendo aquele sonho há tanto esperado.

Alii 2006 para todos e, em breve, as outras histórias da Malla em Palau.

Alii 2006 direto de Palau

Tudo de bom sempre.

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