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terça-feira, fevereiro 28, 2006

É dose!

Recentemente, li na excelente revista online Seed sobre a tentativa de envenenamento por dioxina do presidente ucraniano acontecida no ano passado. Após um longo período internado, o presidente se recuperou, mas em seu rosto ainda estão as marcas do envenenamento: a pele toda cheia de erupções de cor estranha. No caso dele, o que o salvou foi a pouca quantidade ingerida de veneno colocado em sua comida que, embora tenha sido 1000 vezes acima da dose aceitável, não foi letal. Um susto de dar calafrios a qualquer um.

Aí lembrei de outro fato. Há pouco tempo, foi divulgado um estudo com os níveis de mercúrio na comida americana. O estudo dizia também que tubarões sao os maiores acumuladores de mercúrio do ecossistema. Embora felizmente isso reforce a idéia de que não se deveria jamais comer tubarões (para não se correr o risco desnecessário de intoxicação por mercúrio), eram outros peixes o alvo do estudo.

Nas 2 notícias, entretanto, uma similaridade: a importância da dose. É a dose de mercúrio ou de dioxina que, num período de tempo curto, determina a morte ou não da pessoa. Mercúrio em excesso mata, dioxina mata também. Mas... até água em excesso teoricamente mata.

O conceito de dose parece muito nebuloso na cabeça das pessoas, e em minha opinião, não deveria ser. Basta ver o sucesso dos suplementos alimentares e vitamínicos para constatar isso. Vendem-se por exemplo verdadeiras "bombas" com miligramas - e até gramas - de selênio por cápsula. Selênio é ótimo para a saude, um agente anti-oxidante e regulador da função tiroideana, mas em doses de microgramas. 3 ordens de magnitude acima (miligramas), e você corre o risco de envelhecimento precoce ou de disfunção da tiróide. 6 ordens de magnitude acima (gramas), e você pode ir parar numa emergência de hospital. E não é só o selênio: o mesmo fenomeno acontece com vitaminas, sais minerais, remédios, alimentação em geral, hábitos pessoais. Assume-se que como boa parte das pessoas está mal-nutrida em certo elemento (o que é verdade) que elas estariam também mal-nutridas nos demais, e haja complexo multi-vitamínico.

Para saber o quanto precisamos de cada molécula, os cientistas se esmeram em produzir sempre as chamadas "curvas dose-resposta". Toda nova droga que entra no mercado advinda de pesquisa séria tem uma curva dessas por trás, que representa o valor em uma unidade qualquer de peso ótimo para a ação de um composto/alimento em um certo tempo, indicando o limite entre a dose segura, perigosa e letal. Em geral, as bulas vêm também com os riscos da ingestão excessiva, basta prestar atenção que está lá escrito em letras pequenas, mas claras. Já no universo paralelo dos suplementos alimentares, onde em geral ingerem-se super-doses num piscar de olhos, acredita-se perigosamente na total eliminação do excesso pelo próprio organismo. Para alguns, isso é verdade - a vitamina C, por exemplo - mesmo assim com ressalvas, porque dependendo da dose, o organismo não dá conta de metabolizar em tempo plausível. Para uma boa parte dos suplementos, entretanto, o excesso fica acumulado no organismo, e pode causar problemas, como acontece com a vitamina E.

Saber a dose adequada é um dos conhecimentos mais primordiais que lidamos no dia-a-dia, embora muitas pessoas pareçam não se preocupar muito com isso. Quando um estudo diz: "é importante comer alimento X uma vez por dia", fica claro que não é necessariamente para ingerir X em todas as refeições, muito menos esquecer de comer. Uma vez é o suficiente para te nutrir adequadamente para aquele dia. Não é recomendado assumir nada para cima nem para baixo daquele valor fornecido.

O equilíbrio da dose, nesse caso (e como sempre...), é a chave para uma atitude sensata e uma vida saudável.

Tudo de bom sempre.

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quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Ao Mestre Dindinho, com carinho

Sou filha única, mas tenho vários irmãos de coração, que chamo e trato como irmãos. Boa parte são meus amigos de infância e adolescência, com quem dividi muitas horas em rodas de violão na praia ou ouvindo fitas de jazz na calçada de casa - foram eles que me apresentaram o universo de Pat Metheny, Miles Davis, Chick Corea e do gênio Hermeto Pascoal. Alguns deles, é claro, se tornaram músicos profissionais - excelentes, por sinal. O Júlio foi um deles.

"Dindinho" era um apaixonado pelos Beatles aos 13 anos, que dedicava as tardes a sua guitarra elétrica, para desespero do ouvido dos vizinhos. Excelente aluno na escola, estava sempre também enrolado com as estrepolias dos bagunceiros da sala de aula, num balanço entre "o bem e o mal" que o transformava no amigo de todas as horas de todos. No fundo, mais que isso: Júlio sempre teve desde pequeno uma sensibilidade primorosa para lidar com o próximo. A música que ouvia e tocava refletia esse grau de preocupação com a qualidade emocional de cada acorde, com a importância dada a cada afinação. Júlio nasceu pra ser músico - e o é, para orgulho da amiga que sempre torce por ele.

E hoje, meu amigo-irmão Júlio defende sua tese de Mestrado na Unicamp, em Música: “O Cantador: a música e o violão de Dori Caymmi". Lendo a tese dele enviada por email, aprendi que não há nenhum outro trabalho acadêmico sequer analisando a obra desse que é um marco da música brasileira, e em minha opinião, ninguém melhor que Júlio para fazer essa análise, com toda sua inteligência musical, sua verve jazzística, sua percepção do mundo ao redor, sua sensibilidade amiga. Dori Caymmi com certeza ficará orgulhoso ao ver tanto primor na tese do Júlio.

Embora não seja nem de perto algo que eu entenda o mínimo, li a tese toda com atenção e carinho, e destaco abaixo dois trechos que mostram o cuidado que meu amigo teve para entender a música do gênio-ídolo:

""Migration” é um exemplo de uma peça instrumental onde a melodia se divide entre instrumentos (violão e saxofone) e vozes. Não há relação cadencial tonal entre os acordes, a não ser no final da progressão, quando surge um dominante substituto (no caso, suspenso) antes do Em. Cada acorde é tratado individualmente, com o modo lídio se sobressaindo nos acordes maiores (G e C) e o modo dórico nos acordes menores. No Bm não há a ocorrência da sexta maior para a confirmação do modo dórico. Isso se dá através do tratamento jazzístico da peça, especialmente em sua metade, quando o espaço reservado ao solo de saxofone do músico Branford Marsalis (um expoente do jazz americano contemporâneo) confirma a abordagem modal mencionada."

"É importante notar o efeito harmônico alcançado devido à sustentação das notas, combinadas entre cordas soltas (primeira e segunda) e presas (segunda, terceira e quarta), sendo estas executadas em uma posição aguda. Esse recurso é conhecido como campanella e era muito utilizado em afinações da guitarra no período barroco. Uma definição do termo nos é dada por Vasconcelos, que descreve campanella como sendo “qualquer passagem melódica cujas notas sejam executadas em cordas diferentes, fazendo com que elas soem umas sobre as outras". (...) Dori reaproveita na segunda versão, a mesma condução de vozes empregada no arranjo da primeira, a despeito da mudança de tonalidade, demonstrado que a idéia original não faz parte só do arranjo, mas de toda a concepção da composição. Ele utiliza mais uma vez o recurso da campanella, com uma alternância de vozes, entre cordas soltas e presas. (...) Dori, em entrevista, disse que seu intuito era simbolizar, através disso, o sino das igrejas de Minas Gerais. Curiosamente, Yates define o termo campanella como “a superposição sonora, como sinos, de notas escalares criadas através do uso otimizado de cordas soltas e da digitação sucessiva em cordas adjacentes"."

Essa passagem em particular, eu adorei:

"Com freqüência observaremos na obra de Dori uma associação entre sons e imagens. Muitas de suas composições e arranjos buscam representar uma história, um evento ou uma personagem, real ou imaginária. “Lenda”, por exemplo, representaria a história de um casal que flerta, trocando olhares, mas separado por um rio bravio. No fim, ela vira o moinho e ele o rio."

E a conclusão do trabalho:

"Dori Caymmi é fruto da bossa-nova, mas também de Dorival Caymmi. Ao mesmo tempo em que é apaixonado pelo jazz e pelos arranjadores e músicos norte-americanos, também é profundamente ligado às coisas do Brasil, ao Nordeste e à Bahia, a Minas Gerais e ao Rio de Janeiro. Dori ouviu Miles Davis, Gil Evans, John Coltrane, Wes Montgomery e Johnny Mandel, mas também o choro de Jacob do Bandolim, as canções praieiras de Dorival Caymmi, a bossa de Jobim e João Gilberto, o baião de Luiz Gonzaga e as canções brasileiras que tocaram nas rádios dos anos cinqüenta, além dos eruditos Villa-Lobos, Ravel e Debussy.
Essa dicotomia está presente em sua obra. Na sua primeira fase, as canções com inflexões de bossa nova, se sucedem àquelas com características mais regionais. Dori, ao mesmo tempo que atravessa quatro centros tonais diferentes em “Velho Piano”, é capaz de permanecer por cinco compassos em único acorde em “Evangelho”. “Guararapes” utiliza instrumentos de percussão, com o berimbau em destaque e violão com cordas soltas, enquanto “Minha Doce Namorada” é uma bossa-nova com um densa orquestração e violão “joãogilbertiano”.
Na fase americana, sua obra se modifica, em função de uma maior uniformidade nos arranjos e harmonias, bem como na execução violonística. Dori incorpora em definitivo a afinação “cego aderaldo”, tornando-se exceção o uso da afinação tradicional. Os elementos regionais e bossanovísticas são ainda perceptíveis, mas encontram-se diluídos nas canções, que agora ganham uma característica instrumental mais evidente. Dori, tão ligado à canção, em “Kicking Cans” utiliza as palavras em uma única música.
Muita coisa ainda precisa ser estudada. Sua escrita para cordas, seus arranjos para outros artistas e em particular aqueles para Nana Caymmi. Pode-se notar diferenças entre os arranjos que escreve para si mesmo e os que têm outro destino. Sua terceira fase é rica nesse sentido. É quando Dori presta suas homenagens aos artistas que foram fundamentais em sua formação e também àqueles que mais admira em sua geração, suas influências e seus contemporâneos. São trabalhos ricos, sobretudo quanto à harmonia e aos arranjos. Dori consegue sofisticar a harmonia de músicas já complexas como “Desafinado” e “A Felicidade”, e criar arranjos memoráveis para músicas consagradas como “Ponta de Areia” e “Copacabana”. Essa parece ser a continuidade deste trabalho que ainda está só começando e não tem a menor pretensão em esgotar o assunto.
"

Eu não entendo de Dori Caymmi, e sinceramente, ouvi poucas músicas dele. Mas depois de ler tamanha paixão e humildade na tese do meu amigo, confesso que fiquei curiosa, com aquele gostinho de quero-mais. Uma citação em particular me chamou a atenção:

"Dori ainda novo, com apenas 17 anos circulava na noite [carioca], na ânsia de ouvir, tocar e saber das novidades. Já era louco por jazz. Ouvia também muito Ravel e Debussy. Seu violão foi fruto do autodidatismo, como acontecera antes com o pai. Meninozinho pegava o violão do pai escondido, até que ganhou dele seu primeiro instrumento."

Quando éramos adolescentes, sem nem saber, Júlio já tinha a mesma postura de mestre. Só lhe faltava o título. Hoje ele veio.

Parabéns, meu amigo! Seu sucesso é motivo de orgulho para mim e para seus chegados da calçada dos "vagabundos".

Como diria "aquele" outro mestre de todos nós: Tudo de bom sempre!

Dindinho e Dori
Os dois mestres: Júlio "Dindinho" e Dori Caymmi.

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sexta-feira, fevereiro 17, 2006

A beleza da ciência

Tenho investido boa parte do meu tempo ultimamente tentando aprender proteômica, um ramo emergente da biologia que estuda em larga-escala as proteínas ou grupo delas, em sua função e estrutura. Eh um ramo poderoso e promissor, por olhar direto no fenótipo da célula: suas proteínas. E em minha opinião, uma progressão natural depois da era da genômica e do transcriptoma. O proteoma é definido como o conjunto de proteínas de um determinado sistema, e podemos ter proteoma do sangue, proteoma do coração, proteoma dos glóbulos brancos, etc. Infinitas possibilidades, muitos dados sendo gerados e perspectivas esperançosas. Um admirável mundo novo, cheio de desafios para cada cientista colocar sua criatividade em prática.

Mas não é sobre proteômica que eu quero pincelar. Na realidade, esbarrei com um artigo numa revista científica, em que os autores fazem uma análise proteômica de pinturas renascentistas. A partir de quadros famosos, conseguiu extrair microgramas de proteínas e analisar em cada quadro a técnica utilizada para pintá-lo e envernizá-lo. Achei muito interessante a utilização de tal ferramenta poderosa para construir um pouco da história cultural, desvencilhando-se um pouco da história natural a que os biólogos estão de certa forma "presos". Uma bela conjunção de artes.

Frequentemente, percebo uma dissociação incômoda entre ciências naturais e ciências humanas, principalmente das artes; há uma certa hostilidade vinda de ambos os lados. Talvez por desconhecimento, desinteresse ou ignorância, muitas bobagens sejam faladas - vide toda a besteirada falaciosa sobre o "Intelligent design". Estou, por força da profissão, de um lado dessa dicotomia, e confesso que poucas vezes presenciei a união de naturalistas e artistas plásticos publicamente - uma delas na X Documenta de Kassel, Alemanha, onde um escultor apresentou várias maquetes de fósseis do Cambriano, e outra na Bienal de São Paulo de 1996, quando géis de sequenciamento de DNA ganharam as paredes do Pavilhão da Bienal em todas as cores possíveis e imagináveis. Ambas experiências inesquecíveis.

Talvez seja por gostar tanto da ciência E de artes em geral que isso me incomode. Gostaria de ouvir mais músicas que comentem sobre ciência, gostaria que as pessoas encarassem a ciência de uma maneira mais integrada ao mundo delas, que elas entendessem melhor o processo e a metodologia científica. Fossem mais curiosas e não se deixassem levar pela idéia de uma atividade isolada, feita por um grupo de nerds que falam coisas que só meia dúzia compreendem. Assim como os cientistas deveriam ser mais curiosos para entenderem um pouco mais de artes. Gostaria que as pessoas entendessem melhor que a ciência é bela em sua capacidade lógica, experimental, desafiadora dentro da esfera humana, e que onde há beleza, há expressão artística pedindo para ser revelada. Basta ser curioso com o mundo ao redor.

Que venha mais arte na ciência, e mais ciência na arte!

Tudo de bom sempre.

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Para viajar mais...

- Uma coluna do Marcelo Gleiser que é pura poesia foi postada há algumas semanas no Alfarrabio do Bicarato. Vale a pena dar uma lida.

- O blog/jornalzinho Science Creative Quarterly tenta unir a ciência com a arte, de uma forma bem criativa. Uma boa dica que vale a viagem.

- Interessantemente, a fotografia é, em minha opinião, a arte que melhor expressa a beleza da ciência - principalmente da Biologia. Basta seguir esse link com fotos microscópicas (via "Esperto Tom de Azul"), ou então navegar pelas fotos marinhas do meu fotógrafo predileto, para percebermos o quão próxima ela é.

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segunda-feira, fevereiro 13, 2006

O Explorador levantou da rede

O Camburizinho, aquele que conta crônicas deitado em uma rede, tem um blog que eu leio frequentemente. Por afinidades "aventurescas": ele é um daqueles que pensa longe quando o assunto é se jogar por terras desconhecidas.

Pois o Explorador levantou da rede, e quando ele levanta, não é para ir a lugares tradicionais: ele vai rumo à Antárctica. E está contando aos poucos a aventura em seu blog.

Quantos brasileiros você conhece que foram ao continente gelado? Eu conhecia apenas um. A oportunidade de acompanhar outro brasileiro (dessa vez pela internet) contando sobre a aventura e a logística da jornada é impagável - mesmo que sejam pequenas anotações na forma de posts.

E a viagem já começou. Sentiu o vento gelado nas costas?

Tudo de bom sempre.

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Peter Benchley

Morreu Peter Benchley. Para quem não sabe, ele foi o autor da estória que virou o filme mais aterrorizante já produzido por Steven Spielberg: "Tubarão".

Não entrarei no mérito da questão do quanto esse filme foi uma verdadeira catástrofe para os milhões de tubarões do planeta, que hoje são exterminados sem dó nem piedade. Quero só registrar o fato.

Fica para reflexão geral o comentário feito por sua esposa (agora viúva):

"But Peter kept telling people the book was fiction, it was a novel, and that he no more took responsibility for the fear of sharks than Mario Puzo took responsibility for the Mafia. (...)

He cared very much about sharks. He spent most of his life trying to explain to people that if you are in the ocean, you're in the shark's territory, so it behooves you to take precautions."


Peter Benchley era bastante engajado em trabalhos de conservação de tubarões e outros animais ameaçados de extinção.

Minhas sinceras condolências.

UPDATE: Em português, a reportagem aqui.

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quinta-feira, fevereiro 09, 2006

As 10 melhores praias

Recentemente, o Divester linkou um site (agência de viagens?) que fornecia uma lista das 10 melhores praias do mundo- ou pelo menos, as 10 praias que a(s) pessoa(s) que escreveu(ram) o artigo achavam que fossem. Da lista deles, apenas 2 eu conheço: Ipanema e Lanikai Beach (Havaí), e concordo com as 2 na posição em que estão. Ipanema pela vibração da galera na areia, e Lanikai Beach, pelo visual das Mokoluas, 2 ilhas irmãs num mar azul piscina deslumbrante no lado mais bonito da ilha de Oahu. Alguns dias depois, esbarrei numa reportagem do UOL mais ou menos com o mesmo mote: as 10 melhores praias - dessa vez do Brasil. Vexatoriamente, da lista do UOL conheço apenas 3 praias: Trancoso, Praia do Forte e Baia do Sancho. Já estive bem perto de Guarda do Embaú - fui a Garopaba e Praia do Rosa uma vez. Sonho ir a Jericoacara, que todos meus amigos dizem ser divina, e preciso um dia criar vergonha na cara e ir a Itaúnas, que fica a meras 4 horas de carro da casa dos meus pais. Na Praia do Forte, vi a soltura de tartarugas filhotes no mar pelos biólogos do Tamar, um momento belíssimo de interação com o ambiente natural, e em Trancoso, esqueci da vida e descansei no Quadrado depois de vir a pé de Caraíva pela praia.

Praia do ForteLanikai
Praia do Forte, uma das escolhidas como melhores do Brasil. Ao lado, Lanikai Beach, no top 10 do mundo. A visão das Mokoluas realmente é de tirar o fôlego...

Mas é claro, quando eu vi essa lista divertida, tratei de esboçar a minha pessoal de 10 melhores praias do mundo - entre as que visitei, óbvio. Preferi fazer do mundo, já que não considero que conheça muitas praias no Brasil. (Mas depois da lista pronta vi que boa parte delas está no Brasil. Que paradoxo...) As escolhas foram totalmente dependentes da minha experiência pessoal em cada uma delas, portanto, algumas praias obscuras entrarão, enquanto outras mais badaladas e merecedoras podem estar de fora. Tudo bem. Afinal, num mundo com tanta praia linda e maravilhosa ainda para ser visitada e explorada, como é que dá para escolher só 10? Meu "top 10 - Praias do mundo" é realmente apenas esboço, e reflete o momento em que estou agora - como toda boa lista que se preze, aliás. Amanhã talvez mude, ano que vem com certeza. Minhas praias favoritas, com os devidos por quês:

1) Praia da Costa, Vila Velha (ES) - A praia do meu coração, apelidada de "PC". Os turistas podem ir até lá e achá-la "okzinha", mas eu cresci naquelas areias, vendo o movimento daquelas ondas diariamente, tentando entender aquele mar aberto. Foi na Praia da Costa que aprendi a nadar, furar ondas, pegar jacaré, onde participei de luaus, rodas de violão, jogos de vôlei de praia com n+1 malucos para cada lado, onde dei muitas risadas, e onde me sinto mais perto de mim mesma. Foi lá que eu percebi que a praia era a minha religião pessoal. A Praia da Costa construiu também o conceito que carrego onde vou de "praia ideal": mar aberto, azul, com ondas, areia branco-amarelada, não muito fina, de média extensão e curva. Praia para mim tem que ter curva - por isso que, por exemplo, a praia da Atalaia Velha, em Aracaju (SE), não me apetece, por ser um grande retão.

Praia da Costa aereaPraia da Costa
A "minha" praia: Praia da Costa, em vista aérea e na visão que eu tive por toda a minha infância - a foto foi tirada da frente da casa em que cresci.

2) Hanauma Bay, Havaí (EUA) - No tempo em que morei no Havaí, era essa a praia que eu adorava frequentar, minha praia predileta. Hanauma Bay é um parque marinho, uma área de preservação ambiental onde para entrar, todos são obrigados a primeiro assistir a um vídeo sobre conservação do recife de coral do lugar. Pudera: a praia é um verdadeiro aquário natural dentro de uma cratera vulcânica. Hanauma era uma das crateras do Koko Head, e há alguns milhares de anos, o mar invadiu essa cratera, e se transformou nessa jóia do Pacífico. Snorkelar em Hanauma Bay é atividade que consta em qualquer guia de turismo pro Havaí, e não sem razão: a concentração de peixinhos coloridos e de vida marinha daquela mini-baía é de emocionar.

Hanauma BayHanauma Bay aerea
A visão de Hanauma Bay quando você chega na praia. Ao lado, uma vista aérea com o vulcão Koko Head ao lado - para ter noção da maravilha natural que é uma praia dentro de uma cratera.

3) Makapu'u, Havaí (EUA) - Um pouco depois de Hanauma Bay, fica Makapu'u Beach, uma praia de bodyboard na ilha de Oahu. Quando Hanauma Bay estava lotada - há controle sobre o número máximo de pessoas que podem entrar por dia em Hanauma - eu fugia para Makapu'u, que fica escondida atrás de um paredão de rocha vulcânica com um farol na ponta. À tarde, a praia cobre-se de sombras, por causa das montanhas ao redor, mas é o momento em que as ondas parecem melhorar pros bodyboardeiros, que dominam as águas do local. Foi nessa praia também que fui fisgada de vez, e só por isso, ela já merece estar no meu top 10.

Makapu'uFarol de Makapu'u
Makapu'u e seu farol...

4) Sunset Beach, Havaí (EUA) - Quando criança, eu lia sobre Sunset Beach, Pipeline e Waimea Bay nas revistas de surfe, e achava que nunca na vida iria pisar nas areias delas. Ledo engano. O mundo realmente dá voltas, e quando me mudei para o Havaí, Sunset Beach foi a primeira praia que eu quis conhecer. Meu primeiro encontro com o mar de Sunset foi num domingo de junho, o mar estava super-calmo, e eu nadei muito, boiei, chorei de emoção por estar ali, realizando um sonho de criança, vendo a praia que eu idealizei como a praia perfeita. Sunset é simples: no inverno suas ondas famosas lotam de craques da prancha, e no verão crianças nadam tranquilamente no mar calmíssimo com fundo de coral. Mas o nome da praia diz tudo: Sunset tem o pôr-do-sol mais emocionante do planeta. Talvez pelo sonho havaiano, pela fama, pela simplicidade, não sei. Mas Sunset tem seu lugar no meu coração como a praia mais próxima da Praia da Costa da minha infância.

5) Praia do Leão, Fernando de Noronha (PE)
- Todo mundo acha a Praia do Sancho a mais bonita na belíssima ilha de Fernando de Noronha, mas foi a praia do Leão que mais me emocionou, e a que eu considero a mais bonita e interessante de um lugar cheio de tantas outras praias maravilhosas. A pedra do Leão parece proteger aquela praia de personalidade própria, e o banho na água quentinha... ah! que delícia!

Praia do LeaoTartaruga na Praia do Leao
Praia do Leão e sua água maravilhosa, onde algumas tartarugas nascem e vão ao encontro do mar pela primeira vez...

6) Ipanema, Rio de Janeiro (RJ) - Rua Vinícius de Moraes. Ipanema posto 9. Rio 40 graus. Com essas credenciais, pouco mais há para acrescentar. As areias mais famosas, chiques e avançadas do Brasil, quiçá do planeta. Ipanema reflete o Rio em sua face bonita, jovial, alegre, colorida, divertida, desencanada. Ipanema é sempre jovem, como a garota da música que a imortalizou pro mundo. Ipanema é demais.

Garotas de IpanemaIpanema
As garotas de Ipanema com a visão clássica do Dois Irmãos atrás (na realidade, estamos no Arpoador...) e ao lado, uma vista diferente do Posto 9 em Ipanema, de cima do Hotel Everest.

7) Barra do Caí (BA) - No Réveillon do milênio, eu e um grupo de amigos resolvemos enfrentar uma caminhada de 100 km de Prado até Arraial D'Ajuda pelas praias. Se a caminhada teve momentos roubada, teve também o momento da grande descoberta desse recanto maravilhoso da Bahia. A Barra do Caí parece aquelas pinturas de "praia dos sonhos" feita por um artista de rua alemão. Tem uma falésia lindíssima, com tons vermelhos, laranjas e amarelos, tem um mar manso e quentinho, e para completar a perfeição do descanso, é praticamente selvagem num trecho tão explorado - uma raridade. Acampei em cima da falésia, e vi o nascer do sol iluminando vagarosamente o encontro do rio Caí com o mar. Dessas cenas que você nunca mais esquece na vida.

Barra do Cai
Amanhecer na Barra do Caí, uma das grandes descobertas da Costa do Descobrimento.

8) Ulong Channel Beach (Palau) - Recentemente, durante um dos momentos entre-mergulhos em Palau, paramos nessa praia de uma ilhota para almoçar. Foi amor à primeira vista. Que praia! Que água! A areia era tão branca que doía os olhos por causa da reflexão. O mar era tão limpo que dava pra ver muitos metros longe embaixo d'água. O visual das demais ilhas em formato de cogumelo ao redor completava o cenário de paraíso. O Pacífico realmente tem umas jóias escondidas do mais alto quilate...

Ulong BeachMalapascua
Praia de Ulong Channel, a placidez de um recanto escondido de Palau; ao lado, mais um lugar de paz: Malapascua.

9) Malapascua (Filipinas) - Na ilha de Malapascua, fica essa praia de areias brancas e placidez indiscutível. O charme do lugar está nos bangalôs na praia, e principalmente no bar-flutuante, que te dá aquela sensação de férias de verdade. A ilha é de difícil acesso nas Filipinas, mas vale cada minuto que demora para chegar lá. E se não bastasse ser linda, ainda tem excelentes mergulhos por perto, com biodiversidade nota 10. Um dos lugares mais relaxantes e incríveis que já fui na vida.

10) Praia da Sereia, Maceió (AL) - Quando em penso em praia do Nordeste brasileiro, é essa que me vem à cabeça, por motivos altamente pessoais. Aos 15 anos, fiz uma viagem de carro pelo nordeste com meu padrinho, e um dos meus tios não parava de pedir para visitar "a Sereia". Não entendíamos o que era aquilo, mas ele todos os dias repetia a mesma história: que a Sereia era perfeita, que ele estava encantado, etc. Até que chegou o dia em que avistamos a Sereia. A praia era bonita - como todas de Maceió, sem exceção -, mas nada de mais. O fato é que eu gostei do local. Enquanto meu tio falava sem parar da Sereia, já com água até a barriga tentando encostar na estátua dela, eu fiquei viajando na maionese, curtindo o local. Um momento bem especial, de diversão pura e simples, como uma boa ida à praia deve ser.

Pois essas são as minhas escolhas. E as de vocês, quais são? Alguém tem uma dica em especial, uma praia que "precisa" ser visitada?

Lucia Malla agradece de antemão o compartilhamento da dica... :-)

Tudo de bom sempre.

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- O site da Associação Desafio está mais uma vez republicando gentilmente um dos posts aqui do blog. Mas me deixaram com uma pulga atrás da orelha: o correto é "esbranquiçamento" ou "branqueamento"? De qualquer forma, obrigada Andrei, pela oportunidade!

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domingo, fevereiro 05, 2006

Ciência coreana pré e pós-Hwang

O Smart, esse simpático e afiado rapaz azul da blogosfera brasileira (a "blogoseira"), me deu um post de presente há uns dias - well, posso estar errada, mas pelo menos achei que era para mim. Aceitei o presente de bom grado, mesmo com o nome do remetente meio "amadeirado" e resolvi continuar a conversa que ele sugeriu lá por aqui. O post fala sobre como anda a ciência na Coréia do Sul depois do escândalo da clonagem - e na Ásia em geral. Uma reportagem bem interessante do Valor Econômico recitando toda a caracterização que já rodou pela mídia mundial e que acredito que muitos já devem ter se informado. Sinceramente, eu já perdi a conta de quantos artigos li sobre o assunto, e todos martelam nas mesmas teclas - teclas essas que não estão de todo erradas, aliás. A Coréia realmente "endeusou" Hwang, e por conta de uma vontade nacionalista exacerbada que o coreano possui, aceitaram de bom grado os "avanços" (hoje notoriamente falsos) que Hwang prometia sem maiores verificações ou discussões. Isso todo mundo já sabe, assim como sabemos também que os coreanos (e asiáticos em geral) são muito mais preocupados com a coletividade que com o individualismo. É uma característica social deles. Mas eu gostaria de apenas acrescentar algumas "anotações" sobre tudo isso, principalmente contando um pouco da minha experiência de 2 anos trabalhando em um laboratório na Coréia do Sul como cientista - o que eu vejo, presencio e reflito diariamente lidando com os coreanos ao vivo e a cores na bancada.

Quando cheguei aqui na Coréia, a primeira característica que me impactou foi a relativa "frouxidão" da regulamentação para lixos. Em um laboratório de pesquisa, geralmente muito lixo perigoso às pessoas e ao ambiente é produzido. A grosso modo dividimos o lixo laboratorial em: lixo biológico, lixo radioativo e lixo químico. Além do lixo comum, é claro. Nos EUA, onde a regulamentação é bem rígida, antes de começar a trabalhar em qualquer laboratório, você é obrigado a fazer uma série de mini-cursos em que aprende como lidar com cada lixo na sua universidade ou instituto de pesquisa (pelo menos um curso para radioativos, um para químicos, um para biológicos e outro para segurança geral e comportamento em laboratório). Lixo radioativo tem que ser separado pelo tipo de radiação que emite (beta ou gama), lixo biológico precisa ser separado de acordo com o nível de biossegurança do laboratório (nível 4 para labs que lidam com HIV, Ebola, etc. Nosso lab no Havaí, por exemplo, era nível 2, que significa "pouco potencial de infecção e perigo ao ambiente e às pessoas".). Na Coréia, o prédio em que trabalhamos não tem permissão para trabalhar com elementos radioativos, e por isso lixo radioativo não é obviamente um problema para nós. Mas os demais lixos, a princípio, não eram sequer separados pelos demais usuários do lab. Logo percebi o porquê: o lixo é todo tratado como "perigoso" e vai tudo para uma empresa, que coleta e separa os lixos e lida com todo o resto do processo. Mais prático para o pesquisador, sem dúvida, mas devo confessar que ainda me incomoda saber que as pessoas que trabalham comigo podem não ter a mesma consciência sobre os problemas que jogar cada tubo ou par de luvas fora pode ter. Espero que não seja assim no país inteiro, e acho que principalmente agora depois de tanta pressão e escrutinização sobre o trabalho do cientista aqui, as pessoas podem ter aberto os olhos para esses pequenos problemas da rotina científica. De qualquer forma, acho que a política americana nesse ponto ainda é válida: todos deveríamos saber o mínimo sobre como tratar o lixo de laboratório, pelo menos para que num caso de acidente, saibamos exatamente o que fazer. Afinal, acidentes acontecem.

Outra questão prática que diferencia um laboratório sul-coreano de um laboratório ocidental em geral é a discussão científica em si. Os estudantes e cargos menores na hierarquia do laboratório praticamente são mudos perante qualquer assunto da pauta. (Chamarei de "estudantes" os funcionários de cargos inferiores por questão de costume.) Eles aceitam a palavra do chefe como a última - e a assumem sempre como a certa. Nada os convence a mudar, nada os faz refletir se o chefe não falou uma batatada. Nossos encontros semanais para discutir progressos do laboratório eram monólogos estrangeiros. Por incrível que pareça, nossa chefe é bem diferente do coreano-padrão, e adora discutir, quer ouvir opiniões, saber o que consideramos interessante ou não para ser desenvolvido como projeto, etc. Ela, aliás, desde o dia seguinte à publicação do primeiro artigo de Hwang na Science em 2004, demonstrou muito ceticismo em relação a ele, insinuando que sua postura não era das mais adequadas ao meio científico. Minha chefe morou e trabalhou nos EUA, e desenvolveu a cultura da academia americana como ninguém: está sempre aberta ao diálogo e aos questionamentos. Mas parece que os coreanos não percebem isso. No início, achei que esse fato fosse um problema linguístico, de comunicação, afinal poucos coreanos expressam-se com fluência em inglês, e as reuniões que temos são todas em inglês. Mas conversando com minha chefe, ela me disse que mesmo em coreano, eles pouco discutem, falam menos ainda, aceitam tudo sem um questionamento sequer. Existe uma certa distância entre chefe e estudante que nunca é diminuída. De certa forma, isso demonstra exatamente que a raiz do problema está na mentalidade dos estudantes mesmo. O coreano é educado desde a escola primária a respeitar o professor como essa "figura máxima da autoridade, dono de um conhecimento imbatível e indiscutível". Não estou aqui pedindo às pessoas para de repente desrespeitarem seus professores, pelo contrário: o estudante deve ser incentivado a perguntar, para que traga argumentos novos, perspectivas diferentes sobre um problema. Dessa forma, há chance de crescimento para todos, estudantes e professores. É questionando que se aprende, não aceitando tudo mastigado, e é principalmente assim que a academia vive.

E aí vem o outro problema: a educação coreana. Se por um lado, as crianças coreanas estudam muito mais horas por dia que a média dos demais países, por outro a forma como as crianças estudam não é a mais adequada, a meu ver. Eles são levados a memorizar boa parte do que é ensinado (de matemática a ciências, de aulas de piano a conversações básicas em inglês!), e a cultura da decoreba é a reinante. Todos sabemos que decoreba não ensina reflexão e crítica a ninguém. Portanto, o coreano quando entra na universidade - por uma avaliação decoreba, by the way - mantém-se fazendo o que ele sempre fez: decorar. De certa forma gera as hordas de jovens que não conseguem discutir um assunto que vemos no mercado de trabalho atual.

A falta de discussão científica apontada pelo artigo no Valor Econômico associada ao medo do confronto com o indivíduo hierarquicamente acima de você já traria ao país um certo caos científico a meu ver - afinal, ciência, muito mais que respostas, é o caminho, é a pergunta, é a análise, é como você chegou à resposta. Saber pensar cientificamente, saber questionar com ceticismo e mente aberta, valem muito mais que a resposta em si para o cientista. Mas aí entra o outro problema que até então ninguém havia se tocado, e foi a humilhação sofrida com o caso Hwang que trouxe isso à tona: fazer ciência é uma atividade a longo-prazo, inquisitiva e auto-inquisidora, onde paciência é a virtude máxima para se alcançar bons resultados. Mas também é uma atividade de alto risco, onde a probabilidade do fracasso é muito maior que o sucesso, e a economia coreana é sedenta de sucessos, mas a curto prazo.

Em coreano, chama-se "pali pali" a essa cultura de querer toda resposta para um problema rapidamente, "pra ontem". (Literalmente, "pali pali" significa "rápido, rápido". Ao contrário do que os ocidentais imaginam, o coreano não é um povo muito paciente em sua natureza.) Com o escândalo Hwang, o estilo de vida "pali pali" vem sendo diariamente questionado nos jornais, na TV e nos demais meios de comunicação - toda aquela "fama" de workaholic dele e do seu laboratório, onde as pessoas trabalhavam até 16 horas por dia, sem parar nem em feriados, etc. Interessantemente, o coreano médio não se sente satisfeito em cultuar o pali pali, mas não sabe como sair dessa encruzilhada, porque foi justamente o modo pali pali de ser que tirou o país da miséria há algumas décadas e o alavancou à condição de desenvolvido. Foi principalmente investindo em indústrias de retorno rápido e certo, como... tecnologia. A Coréia investiu montantes insanos em tecnologia, em todas as vertentes possíveis. LG, Samsung e Hyundai estão nas nossas vidas, nos mostrando o lucro que produzir celulares, eletrônicos e carros com tecnologia de ponta podem trazer, as benesses que um povo pode usufruir quando seu maior bem é o conhecimento tecnológico. E foi com essa mentalidade tecnológica, do pali pali que a Coréia decidiu-se a entrar no nada rápido mundo da ciência.

Nas primeiras reuniões de laboratório de que participei aqui, não antenei para essa dicotomia - embora tivesse um sentimento esquisito, como uma formiguinha na minha orelha. Aos poucos, foi ficando claro: os coreanos querem fazer ciência com a velocidade da tecnologia, e isso não se consegue nem com todos os recursos do planeta. Porque o dinheiro não é a peça mais fundamental da geração de ciência. Seu maior bem são cérebros pensantes. A tecnologia deriva em boa parte do conhecimento científico, mas essa derivação não significa que ambas andem na mesma velocidade, e principalmente, que requeiram os mesmos padrões filosóficos. Pelo contrário: a tecnologia é a geração de técnicas, como o próprio nome implica, é mecânica em sua natureza, enquanto a ciência é a geração de conhecimento per se, que a meu ver só é alcançado por discussão, análise crítica, é principalmente dinâmica.

Hwang fingiu ter desenvolvido uma técnica em que trazia a ciência para um patamar tecnológico. Entretanto, o escândalo em torno dele mostrou tristemente ao país que talvez isso não seja tão fácil assim. Quando você lida com ciência, muito mais que hierarquia, decoreba, nacionalismo ou tecnologia, você precisa de ceticismo - aos outros, e principalmente em relação ao seu próprio trabalho. A Coréia do Sul pode ter um futuro brilhante como potência científica, mas precisa primeiro resolver essas disparidades filosóficas, sociais e educacionais, antes de pensar em qualquer próximo passo. Para que não tropece mais vezes com um outro Hwang, ansioso por reconhecimento pali pali.

Tudo de bom sempre.

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quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Marmota com o Marmota

Hoje não tem post aqui. Em junho do ano passado, eu ganhei uma promoção no blog do Marmota, e o prêmio era escrever algo pro blog dele - redação tema livre. Resolvi incorporar um pouco da história marmoteana, li bastante os posts dele (principalmente os da Alemanha) e o resultado virou... uma pequena fábula. Nada biológica, por sinal.

Escrever ficção não é a minha praia, mas eu encarei a aventura. O resultado dessa estripolia literária instigada pelo Marmota está lá no blog dele. Divirtam-se.

E muito obrigada, Marmota, pelo prêmio mais-que-especial.

Tudo de bom sempre.

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