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sexta-feira, março 31, 2006

Viagens em torno do DNA

Hoje no metrô acabei de ler o livro "Genes, Girls and Gamow", de James Watson, o cientista que desvendou em 1953 a estrutura do DNA. O livro é uma narrativa dos bastidores da biologia molecular no período pós-DNA e pré-Prêmio Nobel de Watson, e muito focado em sua busca eterna da mulher amada. Um livro delicioso, a meu ver. Ao narrar suas desventuras amorosas (seria melhor falar desastres), Watson consegue entremear o texto com um retrato pessoal e apaixonante dos desafios da ciência na época recheado de detalhes pessoais sutis sobre as personalidades envolvidas com as grandes descobertas da metade do século passado. Adorei a narrativa de seu encontro com Salvador Dalí em NY, por exemplo, quando Watson, implorando para ser atendido por Dalí, escreveu o seguinte bilhete: "The second brightest person in the world wants to meet the brightest." Mais arrogância Watsoniana, impossível. Um livro de entretenimento para biólogos - e não-biólogos interessados nos dilemas humanos que existem por trás das idéias brilhantes.

Isso me deu a deixa para uma pausa respiratória na série Havaí (que ainda tem pelo menos mais 3 posts pela frente...) e para cumprir uma promessa feita a um amigo especial.

No dia 17 de novembro de 2004, escrevi um post sobre o DNA bastante viajandão, meio fora de contexto, mas com uma mensagem pessoal filosófico-biológica profunda: o sentido da vida para mim. Um post que o meu querido amigo havaiano Renato pediu pessoalmente para ser reprisado aqui. Renatão, eis o prometido presente: a republicação na íntegra desse que é o seu post predileto. Um abraço Mallístico.

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DNA: a viagem

"Ainda me pego admirando - e amando! - estrutura do DNA. Embora hoje vivamos na era de "proteomics" (o universo biológico em 2004 gira em torno de proteínas e suas estrepolias), ainda é a simplicidade enigmática do DNA que me fascina.

A viagem do DNA é ser complexo em sua simplicidade: apenas fosfato, 4 bases nitrogenadas, açúcar. Não dá pra entender, eu sei. Nem é para entender. Mas clarifica uma das grandes questões do universo: qual o sentido da vida.

Sentido da vida: 5' - 3'. Fácil.

Tudo de bom sempre.

PS.: James Watson e Francis Crick desvendaram a estrutura do DNA em um artigo de 2 páginas clássico publicado pela Nature em 1953. Os trabalhos de Maurice Wilkins foram a base para as descobertas de Watson & Crick. Maurice Wilkins dividiu o Prêmio Nobel com Watson & Crick em 1962. Neste ano (2004), Crick e Wilkins faleceram, em um intervalo de poucos meses. Vidas ligadas? Ironias da vida...

PS 2: Nem eu sei porque postei isso hoje aqui. Mas me deu uma vontade de fazer uma declaração de amor... e eu fiz!"

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quarta-feira, março 29, 2006

Arredores de Hilo: o Jardim Botânico

Como disse no post passado, Hilo é uma cidadezinha pacata, sem muitas atrações turísticas de destaque. São seus arredores que realmente fazem você ficar embasbacado, e vou dedicar alguns posts a lugares que valem a pena ser relembrados. Um dos destaques é o Jardim Botânico Tropical.

Jardins botânicos não são tão diferentes uns dos outros a meu ver: sempre um arsenal de plantas maravilhosas dos lugares mais exóticos imagináveis misturadas à exemplos da vegetação da própria região que não é menos maravilhosa. (Plantas são lindas, e eu sou suspeita para fazer qualquer julgamento, pois as adoro.) O Jardim Botânico do Havaí não é diferente. Mas há algumas "ênfases" interessantes, como uma variedade imensa de helicônias, orquídeas e figueiras, além de uma cachoeira natural, a Onomea Falls. Mas talvez o mais diferente de tudo seja a localização do Jardim Botânico, na Baía de Onomea, uma reentrância escondida numa ravina lindíssima. Passeamos durante uma tarde pelo Jardim Botânico debaixo de intensa garoa, e na baía que de vez em quando aparecia por entre as árvores, estavam baleias jubarte e golfinhos fazendo festa perto das ondas furiosas que quebravam com força nas rochas vulcânicas. Um belo e delicioso passeio, em mais uma das surpresas de Hilo.

Baía de OnomeaOnomea Falls
A baía de Onomea (o Jardim Botânico fica em suas encostas), e ao lado, a cachoeira de Onomea, dentro do Jardim Botânico.

Twin RocksScenic drive
"Diz a lenda que em algum momento do passado, a tribo havaiana de Kahali'i morava na baía de Onomea. Um dia,m o chefe da tribo avistou embarcações se aproximando da área e pensou que estavam sendo atacados. Imediatamente, reuniu-se um conselho tribal, e decidiu-se construir uma proteção. Entretanto, vendo que a construção não seria terminada a tempo, o chefe pediu que dois jovens enamorados fossem oferecidos aos deuses numa noite em que ninguém ousasse sair de casa. E assim os havaianos de Kahali'i fizeram. No dia seguinte, ao acordarem, descobriram que o casal de apaixonados havia se transformado em uma rocha, protegendo a baía para todo o sempre." (Retirado da placa que está na foto.) Bonitinha a história, né? Ao lado, a foto da estrada que leva ao Jardim Botânico.

Eis aqui algumas fotos das belezas que vimos por lá. Acho que dessa vez elas falam mais que as minhas palavras. Plantas não são realmente maravilhosas? Viva os cloroplastos!

Fiji fanRed flower

Red leavesPoço com vaso de flores


Tudo de bom sempre.

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domingo, março 26, 2006

Hilo - futuro incerto

A viagem de fevereiro ao Havaí foi recheada de surpresas magníficas, e dentre elas, uma pequena e pitoresca: Hilo, uma simpática cidadezinha de 40,000 habitantes, sem pretensões ou arroubos de grandeza. Talvez o passado não tão distante de agruras tenha deixado a cidade nessa atmosfera pacata. Hilo guarda na memória das ruas o sofrimento vivido.

Hilo fica na costa leste da Big Island, a maior ilha do arquipélago havaiano. Foi devastada 2 vezes no século passado por tsunamis, um no dia 1º de abril de 1946 e outro em 23 de maio de 1960 - o do 1º de abril foi o mais trágico, pois foram ondas de 14m que quebraram na baía de Hilo e invadiram a cidade que, naquela época, tinha um pequeno quebra-mar (engolido pela força das ondas), mas não possuía sistema de alarme. A tragédia desse tsunami, aliás, suscitou a criação em 1949 do primeiro sistema de alarmes para desasres naturais da história, as sirenes que usamos até hoje. Já em 1960, esse sistema de alarme ajudou a minimizar as mortes, mas ainda não impediu a destruição e o prejuízo econômico que o segundo tsunami trouxe.

Dos 2 tsunamis que passaram, apenas um prédio ficou de pé na beira da baía, e hoje abriga o Museu de Tsunami do Pacífico. Um prédio antigo e sem grandes belezas, mas com a marca da história nas paredes. Não tive a chance de entrar no museu, mas fiquei curiosa - embora já tenham me dito que as fotos expostas lá são muito tristes. E um alerta à vista de todos: o grande quebra-mar, que cerca a baía de Hilo, protegendo de eventos futuros.

Tsunami museumHilo aerial
O prédio do Museu de Tsunami do Pacífico, sobrevivente cinzento de 2 tragédias. Ao lado, uma vista aérea da pequena Hilo e seu grande quebra-mar, agora bem reforçado.

Na avenida da orla, alguns prédios e um incipiente comércio. Avançando um pouco mais pra dentro da cidade, uma das belezas naturais da cidade: a cachoeira do Arco-Íris (Rainbow Falls, em inglês). Uma bela queda d'água, ao lado de várias escolas. Até consigo imaginar a criançada saindo da aula e indo direto para lá aprontar.

Rainbow FallsLu e banyan
A cachoeira do Arco-íris, que fica dentro da cidade, numa área deliciosa. Ao lado, eu encostada numa figueira de Hilo, com suas típicas raízes adventícias - sim, o que se vê na foto não é tronco, quase todo o tronco é composto por raízes, que se desenvolvem demais e fora do solo com a umidade.

Por Hilo, já passaram algumas celebridades (o jazzista Louis Armstrong e a pioneira da aviação Amelia Earhart, por exemplo), que deixaram plantadas grandes figueiras numa alameda conhecida como... Alameda das Figueiras. As figueiras, aliás, são a marca registrada da cidade, que, por causa do excesso de umidade lá existente durante todo o ano, crescem desproporcionalmente e apresentam o fenômeno das raízes adventícias, que só acontece nessas condições. É muito bonito.

E, no horizonte da cidade que não é mar, avistamos o Mauna Kea, o vulcão com neve (no Havaí!) considerado dormente, que não entra em erupção há mais de 4,000 anos - embora os cientistas acreditem que ele vá acordar a qualquer momento dada a observação recente de alguns terremotos típicos de um "despertar vulcânico" em sua base. Se o Mauna Kea entrar em erupção, Hilo é a primeira cidade a ser destruída pelo caminho.

Mauna KeaHilo Bay
O topo gelado do Mauna Kea ao entardecer, uma fera adormecida. Enquanto o Mauna Kea não acorda, Hilo aproveita bastante seus momentos de tranquilidade e bucolismo.

Hilo vive assim: à beira de desastres naturais iminentes. Paradoxalmente, a cidadezinha tem um ar tranquilo, de vilarejo que vive cada momento sem pressa, como se nada fosse acontecer. Afinal, o futuro é imprevisível. Ou quase.

Tudo de bom sempre.

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- Os sistemas de alarme no Havaí são testados agora toda primeira segunda-feira do mês, quando, em torno do meio-dia, uma sirene irritante toca por todas as ilhas. Irritante, mas muito necessária.

- O NYTimes lançou uma pequena reportagem de turismo sobre Hilo e adjacências logo após o tsunami de 2004. Quem quiser saber mais, vale a pena conferir. Ou esperar pela Lucia Malla, que pretende em próximos posts falar dos mesmos arredores, que são sem dúvida mais exuberantes que Hilo em si.

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sábado, março 25, 2006

Meme das Manias

A Maitê me passou essa bola há um tempo, e só hoje eu estou finalmente respondendo esse meme que já deve ter rolado a blogosfera inteira - eu, como sempre, atrasada...

O meme das manias. Aliás, mania é algo estranho. Fiquei pensando as que me tornariam uma pessoa "única" (ignorando é claro o fato de que eu já acredito que todos os indivíduos são únicos, até gêmeos univitelinos), e sempre terminava desclassificando o item. Em meu conceito maionesístico, não era uma mania e sim uma característica pessoal. Depois de muito tempo, achei 5 "manias" não tão maníacas.

Aí estão:

1) Sempre que tomo um líquido durante a refeição, em casa ou num restaurante/bar, o copo fica no mesmo lugar da mesa, do início ao fim. Eu não gosto de deslocá-lo. Se dou um gole, observo onde a roda de condensação está na mesa, e recoloco o copo exatamente na mesma posição. Posso ficar muitas horas nesse exercício... depende de quanto tempo ficar na mesa.

2) Calço sapatos e meias sempre começando pelo pé direito. Acho que é meu super-destrismo - não sei fazer absolutamente nada com o lado canhoto. E dessa vem a outra "mania"...

3) Deixar o que eu mais gosto/é mais fácil pro final. (Talvez eu comece pelo pé direito porque tenha que ficar sustentada na perna esquerda, que é instável dado meu super-destrismo.)

4) Tomar café. Muito, todo dia.

5) Ler tudo que aparece pela frente sobre montanhismo e principalmente, sobre aventuras no Himalaia - Everest, mainly. Aliás, falando nisso, estamos em março e a minha febre do Everest tardiamente começou. Esse ano, uma modelo que foi capa da Playboy polonesa vai tentar chegar no cume. Além da primeira tentativa filipina. E da tentativa de um grupo da elite montanhista de subir pelo chamado "Fantasy Ridge", uma face dificílima e poucas vezes explorada. E mais um monte de outras abobrinhas do gênero, que eu me amarro e viajo total.

Uma sexta "mania"? Viajar. Precisava dizer? :-)

Tudo de bom sempre.

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quarta-feira, março 22, 2006

As águas do Kaua'i

Hoje é o dia mundial da Água, e a data celebrada pela ONU tem como tema esse ano "Água e Cultura". Com os recentes eventos, quando eu ouço falar em água e cultura, me vem logo na cabeça o Kaua'i. Explicarei.

Na última semana, o Kaua'i, ilha onde casei e passei minha lua-de-mel em fevereiro, tem sofrido bastante com tempestades e inundações, que já deixaram mortos, inundaram resorts e hotéis (incluindo o que ficamos!) e tem levado o governo do estado a um esforço comparável ao de quando a ilha foi varrida pelo furacão Iniki em 1992, com inspeção manual de todos os reservatórios de água. Afinal, um deles rachou e transbordou, inundando uma parte da ilha. Água em excesso.

Uma tristeza isso. Afinal, há um mês eu estava lá, tendo o momento mais especial da minha vida. E o Kaua'i que ficou na minha lembrança é o exótico, verde, cheio de vida e paradisíaco. O Kaua'i das cachoeiras escondidas, córregos, garoas constantes. O Kaua'i da Na Pali coast. O Kaua'i dos havaianos que cultuam a água por viverem cercados por ela. O Kaua'i dos lugares nota 10, que não cabem todos nessas meras linhas, mas que nos próximos parágrafos, farei o possível para pincelar.

Kaua'i é conhecida como a "ilha-jardim", por causa de sua quantidade fenomenal de verde. Está no Guiness Book como abrigo do lugar mais úmido e chuvoso do planeta - o topo do Monte Wal'ale'ale. A chuva, aliás, é uma característica importante do Kaua'i. Chove bastante na ilha, mas em geral, é apenas garoa, que mantém a umidade constante. No período em que lá estive, choveu/garoou todos os dias - exceto na hora e no local do casamento, o que nos garantiu por sorte um bom mar azul de background fotográfico.

Mesmo debaixo de chuva, o Kaua'i ainda é incrível. Afinal, em quantos outros lugares do planeta você pode ver em um mesmo dia um cânion inacreditavelmente vermelho como o Waimea cercado de vegetação densa tropical com um riozinho no fundo e um santuário de proteção às aves em pleno penhasco à beira-mar - e com direito a uma ilha solitária em frente? Nēnēs (ave-símbolo do Havaí e altamente ameaçada de extinção) andando pelo estacionamento dos lugares turísticos com ondas de surfe no background? Praias com piscinas naturais com vista para cachoeiras altíssimas? Paisagens insólitas, únicas, majestosas... A olhos vistos, água por todos os lados, movimentos e momentos, sob a forma de vegetação rica, névoa de garoa ou ondas salgadas.

Waimea Canyon, KauaiCachoeira da Ilha da Fantasia
Um pedaço do Waimea Cânion, visto da estrada que o circunda. Ao lado... lembram do seriado "Ilha da Fantasia"? Pois essa cachoeira, chamada Wailua Falls, é onde era gravada a cena inicial, da chegada à "ilha" paradisíaca, onde o Tatoo dava colares de flores aos visitantes e as aventuras começavam. (Esse comentário denuncia minha idade, ixe...)

Quando lá estivemos, passamos um dia inteiro visitando o parque estadual do Waimea Cânion, uma fratura do terreno colapsado que rasga a ilha da montanha em direção ao mar, também conhecido como o "Grand Canyon do Pacífico". Seus labirintos de paredões vermelhos e cachoeiras inatingíveis são vistos por várias das paradas na estrada de Koke'e que corta o parque, mas dá para fazer uma caminhada também - basta ter ânimo pros quase 20 km de subidas e descidas ao encontro do riozinho do fundo. A estrada, aliás, termina em uma das extremidades da Na Pali Coast - o vale de Kalalau, outro lugar imperdível para uma das visões mais espetaculares do Pacífico.

Um outro dia foi aproveitado no lado norte da ilha, a área de ondas surfáveis, penhascos e plantações de inhame - o taro, como é conhecido na culinária havaiana. Estávamos em Kapa'a, e com o carro alugado, fomos subindo em direção às ondas, parando em cada recanto, de Kealia Beach até o Princeville, onde no passado haviam construções russas (!) numa tentativa de dominação frustrada dos mesmos. Do topo do penhasco do Princeville, a vista para a baía de Hanalei, com toda a força das ondas quebrando em plena temporada de surfe radical. Muitos surfistas na água, profissionais filmando de cima, aquele clima de "he'enalu 'oe" na veia.

Um pouco antes de Hanalei, avistamos uma área reservada aos havaianos legítimos (os "herdeiros de Kamehameha"), dedicada às plantações de taro. Como o taro é uma cultura alagada, o local também é um reduto de aves de estuário. Determinando-se uma área específica da ilha para plantar a comida mais importante da dieta havaiana tradicional, matam-se dois coelhos com uma cajadada só: as aves são protegidas e a cultura local é mantida. Ponto pro Kaua'i.

Taro em HanaleiNene birds
As plantações de taro em Hanalei, tradição havaiana. Ao lado, a ave-símbolo do estado, o Nēnē (Branta sandwichensis), que, não sei por que razão, anda sempre em "duplinhas" como essa da foto... Alline, você sabe explicar?

E nesse passeio pelo lado norte, o deslumbre ficou maior quando chegamos ao Kilauea Lighthouse, um outro reduto de pássaros - dessa vez, aos milhares. Várias espécies entocadas nos penhascos e na ilha em frente ao farol. E muitos nēnēs, livres, leves e soltos. Era temporada de baleias, e algumas jubartes também faziam festa na água. Um espetáculo completo para os biólogos recém-casados.

Num terceiro dia no Kaua'i, decidimos ir para o lado oeste, encarar a Polihale Beach. Dessa praia, podemos ver no horizonte a pequena ilha particular de Ni'ihau, onde só residem algumas famílias tradicionais que só se comunicam em havaiano. Ni'ihau é chamada de "a ilha esquecida", pois está fora dos roteiros turísticos. Tem problemas sérios de desemprego, secas constantes, e excesso de pesca. Mas para mim, apesar dos percalços, ela é como um experimento antropológico: onde a cultura havaiana está sendo mantida em sua plenitude, para as gerações futuras não perderem a referência. É aguardar para ver até quando se sustenta.

PolihalePiscina natural
Água do mar por todos os lados: primeiro na praia de Polihale, e ao lado, vista aérea da piscina natural "escondida" na praia de Tunnel's Reef.

Depois de ver Polihale, voltamos para a região sul do Kaua'i: Po'ipū. Eu queria andar um pouco mais pelas praias dessa área, e dar o "até breve" final a Shipwreck's Beach, onde meu maior sonho realizou-se. Para chegar em Po'ipū, passa-se por um túnel de árvores fantástico, como se estivéssemos entrando dentro de um universo paralelo, onde os problemas são esquecidos. Quando chegamos em Shipwreck's, diferente do dia do casamento, o céu dessa vez estava nublado, um dia cinzento. Pois nem a garoa conteve as minhas lágrimas de emoção ao jogar meus leis no mar, uma tradição nas ilhas havaianas que lhe garante um dia o retorno a esse paraíso. E eu quero mesmo voltar para aquelas águas.

Shipwreck's beachEstrada para Poipu
A praia de Shipwreck's, em dia nublado. Onde meus leis foram arremessados com a promessa da volta ao arquipélago um dia. Ao lado, a estrada para Po'ipū, o caminho mágico para a dimensão do sonho.

Tudo de bom sempre.

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sexta-feira, março 17, 2006

Ego-viagem

Eu acho que tenho direito a um momento ego-trip hoje. Afinal não é todo dia que a reputada revista Science decide dedicar algumas linhas a resenhar em suas páginas um trabalho científico de minha primeira autoria.

Para aqueles que se sentem à vontade com o linguajar denso da biologia molecular hardcore e/ou quiserem viajar "selenisticamente" na maionese, podem conferir a resenha da Science (publicada na seção Editor's choice dessa semana) e o resumo do artigo original que saiu há menos de uma semana no Molecular and Cellular Biology. Para os mais sãos, podem reler o que escrevi sobre selênio aqui.

Eis minha nanométrica contribuição do dia para o progresso da ciência.

Tudo de bom Sempre.

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- O Bombordo - um blog sustentado por marinheiros de alto quilate da blogosfera brasileira de esquerda - içou vela e saiu ao (m)ar, com apoio da Verbeat. Discussões diárias sobre assuntos de relevância política-econômica-social estão prometidos na pauta. Vale conferir.

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segunda-feira, março 13, 2006

Neve amarela

"Watch out where the huskies go/ and don't you eat that yellow snow!" (Frank Zappa)

Eu sempre achei essa música do Zappa muito divertida, e só fui entendê-la quando, em Boston, meus companheiros de casa explicaram todas as gírias e entrelinhas nela inseridas (são muitas, afinal é uma música zappônica). "Yellow snow" não perdeu sua graça depois de entendê-la. Continuou sendo para mim uma música divertida.

Eu havia esquecido essa música, sem ouvi-la há tempos, mas ontem "tive" que relembrá-la. Por quê? Porque um estranho fenômeno meteorológico aconteceu em terras coreanas: a neve amarela.

Diz a regra meteorológica que todo ano, no mês de março, a Coréia do Sul é literalmente "invadida" por uma poeira amarelada vinda dos desertos de Gobi e Takla Makan na China, que torna o ar mais seco que o normal e gera um "halo" amarelo em tudo. Como se enxergássemos o mundo por trás daqueles óculos de lente amarela do Bono Vox. Na sexta passada, o jornal já avisava que a poeira amarela desse ano seria mais forte que o normal - nos anos anteriores, nem percebemos direito que ela estava no ar. No sábado, fomos a Seul e comprovamos o que o jornal advertia: Seul estava amarelada, parecia que um filtro amarelo de lente fotográfica havia sido inserido no ar .

Mas a areia amarela é um fenômeno normal, todo coreano já espera que aconteça em março. Entretanto, a novidade desse ano ficou por conta do inverno atípico que estamos vivenciando: ontem nevou muito e de repente. Embora a neve ao chegar ao chão continuasse deixando seu rastro de alvura, dava para perceber nos grandes flocos que caíam que eles estavam meio "sujos", como se fosse poluição. Não era só sujeira: era a neve amarela, mistura de areia amarela com neve, um fenômeno raro de ser visto.

Como nevar em março, pelo menos nessas bandas de cá, já é considerado uma raridade meteorológica por si só, eis que a adição da areia amarela à neve inundou as ruas e os jornais da cidade. A mim, aguçou a curiosidade pela sua efemeridade: embora tenha nevado torrencialmente em pouquíssimo tempo e acumulado bastante, em menos de 3 horas, o chão já estava seco e limpo, como se nada tivesse acontecido. A neve amarela foi-se num piscar de olhos, como em sonho. E no fundinho dos meus neurônios, ficou a sensação de que ela foi o prefácio de uma primavera multicolorida chegando na península.

"...And the northern lights commenced to glow..." (Frank Zappa)

Tudo de bom sempre.


P.S.: Mais Havaí em breve.

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domingo, março 12, 2006

Dos momentos e locais que te deixam sem palavras

Antes de mais nada, preciso dizer que fiquei muito emocionada com tantos recados amáveis recebidos no último post. Em geral, tento responder individualmente os recados deixados aqui, mas dessa vez, acho desnecessário. A todos, eu diria as mesmas palavras: muito obrigada por viajarem comigo nessa que foi uma das experiências pessoais mais profundas que vivi. Saber que tantas pessoas se emocionaram também foi indescritível, inenarrável. Sinceramente, me faltam palavras para agradecer a todos os recados emocionantes, muitos de amigos antigos de vários carnavais - aliás, a notícia do casamento, ao se espalhar pelos pseudópodos virtuais, me recompensou graciosamente com notícias de pessoas queridas da época de faculdade e colégio que até então pareciam perdidas para sempre. E que delícia é reencontrar - mesmo que virtualmente - amigos!

Mas agora preciso voltar a realidade. Não só no trabalho, em casa, mas também com o meu microcosmo internético que tanto prezo e carinhosamente cuido. Esse é um blog de viagens (reais, virtuais e na maionese) e é preciso anotar a última viagem feita ao Havaí. Apesar de ter sido minha lua-de-mel - o que acarreta um quê de privacidade a ser mantido -, alguns dos lugares visitados merecem ser descritos e compartilhados. Lugares únicos - como todos o são, aliás.

E de todos os lugares que visitei, o mais fantástico de todos, o que me deixou mais boquiaberta e sem palavras perante sua majestade, foi a Na Pali Coast, na própria ilha de Kaua'i. A Na Pali é um conjunto de penhascos e despenhadeiros com vales bem estreitos que terminam de forma abrupta à beira-mar. É considerado o segundo conjunto de penhascos mais alto do mundo (cerca de 1,000m) - o primeiro está em Moloka'i, outra ilha do arquipélago havaiano. A Na Pali é inacessível por carro - chega-se ao máximo até uma de suas pontas, a praia de Ke'e ou no outro extremo, o vale de Kalalau. No meio, se feito em linha reta, um trecho de 18 km de pura magia, visíveis apenas à pé, de barco pelo mar ou de helicóptero. Vi a Na Pali de 2 formas: por dentro, numa caminhada extenuante em trilha sobe-e-desce à beira do penhasco; e de cima, num vôo de helicóptero. Confesso que de cima ela é mais impactante, majestosa e cheia de mistérios e recantos, mas em ambas as visitas a sensação é a mesma: não há palavras para tanta beleza. Nós somos um nada perante a natureza.

Com vocês, algumas fotos da Na Pali Coast, um dos lugares mais lindos e dramáticos do planeta.

Kalalau valleyPraia escondida da Na Pali
Vista do vale de Kalalau (é o mais próximo de carro que você consegue chegar do início da Na Pali) e ao lado, algumas das praias escondidas que o passeio de helicóptero revela. Compare o tamanho do barquinho passando próximo à praia com a paisagem...

Na Pali coast vista da trilhaMoody Na Pali
Na Pali vista de dentro, pela trilha de Hanakapiai; ao lado, um dos vales inacessíveis com a sensação de "Lord of the rings". Só falta sair um hobbit de trás...

Kalalau valleyNa Pali e cachoeiras
Outro momento do Kalalau e ao lado, uma das reentrâncias com cachoeiras e cavernas da Na Pali.

Na PaliNa Pali - vista geral
Visões mágicas da Na Pali...


Tudo de bom sempre.

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segunda-feira, março 06, 2006

A melhor viagem de duas vidas

Voltei de uma viagem recentemente que, sem sombra de dúvida, foi a melhor que fiz até hoje. Eram para ser apenas simples férias, mas se tornou a realização de um grande sonho, com emoção em cima de emoção, muitas lágrimas e a sensação de plenitude alcançada. Tudo foi perfeito. E o meu sonho mais profundo e pessoal virou realidade, naquela que foi a surpresa mais romântica, emocionante e maravilhosa que vivi.

Na que era para mim a melhor praia do mundo - Hanauma Bay -, depois de um mergulho fantástico com uma tartaruga e centenas de peixinhos coloridos, meu namorado, cientista-fotógrafo-viajante e apaixonado pelo mar como eu, me convidou gentil e inesperadamente para ser sua companheira para todo o sempre na grande expedição da nossa vida. E eu aceitei o convite, emocionada, com o coração explodindo de alegria e felicidade.

Na tarde do dia seguinte, 17 de fevereiro de 2006, em Shipwreck's Beach (baía de Keoneloa*, cidade de Po'ipū, ilha do Kaua'i, estado do Hawai'i, EUA), declarei meu amor eterno a ele, numa cerimônia em estilo havaiano. Tudo do jeitinho exato que sempre sonhei: pés descalços, numa praia maravilhosa de areia dourada e pedras de lava, em um dia de céu azul, muitos leis* perfumados, poucas pessoas e muita natureza a ser respirada, com as ondas do Pacífico fornecendo a trilha sonora perfeita e servindo de cúmplices sorrateiras do enlace matrimonial. Principalmente e acima de tudo, uma cerimônia com o homem que amo da maneira mais singela, forte, infinita e verdadeira desde o momento que primeiro o avistei, num despretensioso churrasco de sábado à tarde em Waikīkī. Testemunharam oficialmente o casamento 4 amigos (que também presenciaram o início da nossa história há 3 anos), e não-oficialmente um grupo de baleias jubarte que passeavam por lá e compartilharam da alegria mostrando as belas caudas e saltando repetidamente. Após a cerimônia, fizemos um piquenique delicioso na praia regado a champanhe e quitutes, e assistimos ao pôr-do-sol único que só no Havaí podemos sentir. E depois de um dia tão especial e emocionante, Shipwreck's Beach passou a ser a melhor praia do mundo para mim.

Tudo foi uma inesquecível, singela, romântica e silenciosamente planejada surpresa que recebi do meu amor, com lágrimas de emoção nos olhos. A dimensão da surpresa que tanto sonhei (mas nunca verbalizei) inundou meu coração com a certeza de que a felicidade existe sob a forma de um amor tranquilo e profundo que se renova a cada dia, que me faz viver melhor sempre, independente de qualquer outro fator ao redor. A sensação da plenitude desejada e encontrada.

Eu não imaginava nem de longe, ao sair da Coréia, que voltaria casada dessa viagem - simples férias que se transformaram em uma lua-de-mel apaixonante e inesquecível. A viagem que me marcou e me emocionou a cada segundo, a cada momento, a cada olhar. A melhor viagem da minha vida. A melhor viagem da nossa vida. A viagem de duas vidas em direção ao infinito.

Que nossa expedição juntos pelos mares e terras do mundo seja cada vez mais emocionante e completa, criativa e rejuvenescedora, cheia de desafios e sorrisos, simples e feliz, meu amor!

Tudo de aloha sempre para nós dois que somos agora um.

Maililei aloha


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P.S.: Algumas aventuras interessantes sobre a viagem ao Hawai'i - que incluiu visitas às ilhas de Kaua'i, Oahu e Big island - serão contadas nos próximos posts.

* Keoneloa significa "praia com longa extensão de areia" e Po'ipū significa "o quebrar forte das ondas" em havaiano. Os "leis" são os tradicionais colares de flores havaianas. Kaua'i é chamada a "ilha-jardim" do estado do Hawai'i, o lugar perfeito para lindos, delicados e significativos leis de aloha.

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sábado, março 04, 2006

De volta para o futuro

Estive no "passado" por 2 semanas, e hoje, atravessei de volta a Linha Internacional da Data. Estou de volta ao futuro. De volta à Coréia do Sul.

Muitas aventuras e novidades. E uma surpresa inesquecível.

Mas eu sofro de jet-lag. E estou agora caindo de sono. Volto depois de dormir, possivelmente reacostumada com o horário coreano.

Tudo de bom sempre.

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