Uma Malla pelo mundo Interney.net/blogs/malla

sexta-feira, abril 28, 2006

Pequenas anotações de viagens virtuais 11

1) Adivinha quem apareceu hoje no blog do Pharyngula? A lula do Lula! E o danado do meu marido nem me avisou que tinha enviado o link pra lá - ele adora me dar surpresas mesmo. Tomei um susto (de alegria) na frente do monitor!

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2) Um post delicioso sobre a Islândia, meu mais novo destino dos sonhos, escrito pela Suzana Couto no group blog Ciência e Idéias - e o Timão!.

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3) Minha amiga "secreta" publicou há um tempo um post que é um presente - de verdade.

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4) "People of high intelligence talk about ideas...
People of average intelligence talk about things...
People of no intelligence talk about other people!"

Although in my opinion I would substitute "intelligence" with "curiosity". There is a bias that scientists are a very reclusive and unsociable group. I would strongly disagree. We are constantly discussing and exchanging ideas - and the freedom to explore, invent and analyze ideas within the scientific forum is unlike anything else I've ever experienced. Due in part to this type of social interaction, I believe that scientists are trained to be very clear and CAREFUL thinkers. But more importantly, a good scientist makes careful assumptions. This is the difference between Darwin and say Freud ... or Marx. Many non-scientists have this strange habit of not checking their assumptions. In the course of analyzing the world around them, this type of error magnifies itself and leads these individuals to strange and often erroneous interpretations of phenomena. As a scientist I often question non-scientists' assumptions and sometimes find that they confuse this line of inquiry as an attack on their ego (although many scientists also fall into this category - see "worst things about science", item #8). So as a summary I would say that good scientists love discussion and are non-judgmental in what they discuss (as long as the discussion is about ideas!), but scientists are judgmental in how they discuss ideas. This is where many non-scientists could learn from scientists."


Alex Palazzo, um quase-típico harvardiano da Medical School, tem um blog instigante mas com um leve tom de arrogância e com um gene humano de extrema importância no banner do blog (aos nerds de plantão, basta fazer um BLAST e descobrir qual é). Recentemente, fez 2 posts comentando sobre as melhores e as piores partes da vida de um cientista. Seus comentários são muitas vezes ácidos, mas o blog não deixa de ser interessante por causa de sua distância do leitor. O parágrafo acima ilustra perfeitamente o estilo Palazzo de escrever. Os grifos são meus.

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5) Os militares americanos passarão a aceitar pessoas tatuadas no alistamento. Nada como uma queda do número de voluntários depois de uma guerra fracassada para repensar-se regras desnecessárias.

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6) Da série "O "maravilhoso" mundo do jornalismo científico brasileiro": o Terra põe uma notícia de astrologia na seção de Astronomia do site deles. Foi demais pro meu ecossistema. "Tive" que mandar um email nervoso pros editores - e olha que eu sou uma pessoa muito paciente. Não obtive resposta, e eles também não consertaram o erro. Que jornalismo é esse?

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7) Hermeto Pascoal, meu ídolo maior na música brasileira, enlouquecendo de amor... Que muita música floresça desse sentimento renovador!

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8) Um projeto para fazer recifes de coral de crochê. Que fofura! Pena que eu não sei crochetear... (Via Boing Boing.)

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9) Falando em corais, essa semana saiu a notícia de que corais esbranquiçados podem se recuperar, dependendo do tamanho do estrago feito. Como eles se recuperam? Esse estudo da Science mostra. E eu fico mais feliz ainda quando leio notícias como essa: afinal, na preservação de corais e em outros problemas de conservação ambiental, o melhor método de contribuir é mesmo educar.

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10) Problema ético sério: a China se tornou uma potência mundial em doação de órgãos - e estão ganhando muito dinheiro com isso. A questão é: numa cultura onde perder um pedaço seu é visto como uma ofensa - os chineses tradicionalmente acreditam que você não pode, nem depois de morto, doar nenhum órgão - de onde vêm tantos órgãos? Os ativistas de direitos humanos têm algumas hipóteses: prisioneiros sentenciados à morte, ou de pessoas sob tortura, como aqueles que se revoltam contra o governo. E no artigo linkado, um médico americano aumenta a preocupação: o quão seguros são esses órgãos chineses que vêm de prisões?

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11) Uma cidade inteira vai desaparecer do mapa por causa de uma falha tectônica. Quem pensou em San Francisco, errou: é Balakot, no Paquistão, que foi declarada inabitável e irrecuperável depois do terremoto do ano passado. Que tristeza.

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12) Uma lição de vida dos 2 irmãos diabéticos mais velhos do mundo: 90 anos - 81 deles com diabetes tipo 1. Eles concluem que levaram uma vida difícil, mas feliz - como a maioria das pessoas... Confesso que chorei ao fim da leitura da reportagem (eu sou uma manteiga mesmo).

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Tudo de bom sempre.

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sexta-feira, abril 21, 2006

Dia da Terra, do Mar e do Ar

Hoje é um dia muito especial: o dia da Terra.

(Como brasileira deveria dizer que é o dia de comemorarmos o descobrimento do Brasil por Pedro Álvares Cabral, mas como essa história de "descobrimento" sempre me deixou com a pulga atrás da orelha, prefiro dar atenção a nossa casa maior.)

Nosso planetinha azul merece muito especialmente um dia para que nos lembremos dele. Afinal, é a nossa casa primeira. Mas muito mais que apenas a terra em si, o planeta possui uma atmosfera adequada envolvendo-o - que nos permite viver nele - e áreas enormes de água para ajudarem na manutenção da temperatura a níveis suportáveis pelos seres vivos. Foram essas condições aliás, que permitiram a evolução da vida.

Não precisa ser nenhum expert em nada para saber que há tempos nós, Homo sapiens sapiens, "dotados de polegar opositor e telencéfalo desenvolvido" (frase plageada do documentário que eu adoro "Ilha das Flores"), estamos usando o planeta ao nosso belprazer, adequando-o aos nossos interesses e necessidades. Em troca, o planeta está aí, servindo de nossa casa, sem cobrar aluguel ou IPTU. Estamos em uma interação vantajosa com o planeta.

Entretanto, essa interação nos últimos tempos tem sido bastante desbalanceada. Em primeiro lugar, porque crescemos demais em número de indivíduos. Mais gente, mais necessidade de recursos de sobrevivência, mais desgaste. Em segundo lugar, porque no passado, o ser humano não pensava tanto no futuro do planeta - achávamos que os recursos seriam infinitos, ou quase isso. Vem daí a escolha pelo petróleo ou pelo carvão, geradores de energia nada limpos, mas que nos ajudaram a desenvolver muito em idos passados, quando éramos em menor número na Terra. O planeta aguentaria, no pensamento antigo, qualquer tranco. Infelizmente, temos a cada dia percebido que isso não é mais verdade. Aliás, está muito longe de ser verdadeiro desde sempre. Já dizia Newton: "para toda força aplicada, uma outra força igual e oposta sempre aparecerá" - ação e reação.

Barbatanas de tubarão à vendaMercado de peixe
Precisamos comer para sobreviver, não dá para fugir dessa realidade. Mas será que não está na hora de repensarmos o que comemos, principalmente, de onde vem a comida e que impactos a aquisição dessa comida tem ao ambiente? Na primeira foto, trocentas barbatanas de tubarão à venda em Taipei, para fazer a malfadada sopa de tubarão responsável pelo declínio de mais de 90% das espécies de tubarão do planeta. Ao lado, uma barraca de frutos do mar no mercado de peixes de Barcelona - teriam sido coletados de maneira ambientalmente correta ou não? Será que ainda teremos tais opções por muito tempo? Fica aberta a questão.

Com tanta gente extraindo a sobrevivência do planeta sem deixar um tempo suficiente para recuperação, o planeta começa a dar sinais de que pede socorro.

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Há algum tempo, li na revista da FAPESP que, depois do tsunami de 2004 que arrasou vários países da Ásia, os cientistas correram para a região para medir o impacto que a força daquelas ondas (da ordem de mil explosões atômicas) teria acarretado sobre o ecossistema marinho da região. O resultado foi intrigante: o tsunami trouxe destruição, sim, mas foi ínfima comparada a que temos realizado há décadas, destruindo as áreas costeiras para desenvolvimento e turismo desenfrado e principalmente esgotando o mar de recursos através de pesca predatória. Sim, meus amigos, já há algum tempo que o mar não está mais para peixe.

Tubaroes sem barbatanaCartilagem de tubarão
Quem acompanha meu blog há mais tempo sabe o quanto eu já enfatizei sobre o problema dos tubarões no mundo. Espécie no topo da cadeia alimentar e de reprodução lenta, vem sendo exterminada do planeta graças à ignorância humana: pelos asiáticos que acham que sopa de barbatana de tubarão é "afrodisíaco" (não há comprovação científica alguma sobre tal afirmação) e sinônimo de status; e pelo resto do mundo, onde algumas pessoas ainda acreditam na engambelação de que cartilagem de tubarão protege/cura certos cânceres (não cura, já escrevi sobre isso antes.). Até quando vamos apoiar o extermínio de uma espécie sem ao menos termos a chance de saber sobre ela? (Na primeira foto, uma caminhonete lotada de carcaças de tubarão sem as barbatanas. Essa caminhonete estava num atol remoto do Pacífico, onde todos os dias era carregada com o mesmo "material"...)

Antes de mais nada, é preciso que lembremos que, a partir das 200 milhas costeiras de um país (6 ou 12 milhas para alguns poucos países, como nas Ilhas Marshall), estamos em águas internacionais. Nessas águas, em tese, estamos sob a administração de inúmeros tratados da ONU, sob jurisdição internacional, e espera-se que o bom senso da bandeira de cada barquinho seja suficiente para que a pessoa não saia praticando atos degradantes ao ecossistema, às populações e à política. Na prática, entretanto, o que vemos é que as águas internacionais dos oceanos são terra de ninguém, infelizmente: ninguém se preocupa muito com aquela gigantesca massa d'água, com a manutenção dos estoques pesqueiros ali. Apesar de sabermos que boa parte dos estoques de peixe utilizados no comércio se misturam no mundo inteiro - ou seja, esses animais nadam livremente pelos oceanos porque obviamente não existe em seus cérebros distinção de nação, pátria ou bandeira - as pessoas ainda vivem num transe paradisíaco coletivo de que "o mar tem recursos infinitos" ou "não me interessa se o Mar da China está à beira da morte" (afinal, não moro lá mesmo...). Lamento informar que os Homo sapiens sapiens deveriam sim, começar a se preocupar com isso. Pois vejam bem: a maioria das perturbações oceânicas, mesmo distantes, podem influenciar e/ou ser influenciadas por outras regiões - o sistema é muito dinâmico e interligado. Exemplo? O recente e preocupante esbranquiçamento de corais no Caribe.

O esbranquiçamento de corais é um fenômeno biológico que, quando ocorre em grandes áreas e principalmente em lugares distantes, os pesquisadores associam ao aquecimento global do planeta, que estaria alterando as temperaturas oceânicas e levando a um aumento do CO2 circulante na água, o que também contribui para a acidificação do oceano. Ou seja, por si só, um fenômeno não-local, global. Já sabemos que na região do Golfo do México e Caribe o mar está mais quente mesmo, o que sugere que o esbranquiçamento de corais dessa vez tenha uma causa maior, mais condizente a todos: a produção excessiva de CO2 - que todos sabemos advém da queima de combustíveis fósseis, como petróleo e carvão. E CO2 que não é só gerado pelas populações do Caribe, entenda-se bem. CO2 que vem de regiões do planeta onde a produção é maior. Afinal, as massas de ar circulam na atmosfera.

Destruir corais é por si só lastimável, principalmente porque não sabemos muito sobre eles ainda. Recentemente, um grupo de pesquisadores extraiu de uma espécie de coral uma nova substância esteróide com forte potencial antiviral e para tratamento de patologias humanas como câncer (ou seja, seríamos os mais beneficiados). Esse coral vive na região oeste do Pacífico - que engloba Filipinas, Indonésia, Malásia, Papua Nova Guiné e outros países menores. Uma das regiões oceânicas mais ricas e biodiversas do planeta. Uma região densamente populosa, e que vem sofrendo incessantemente com degradação ambiental de seus ecossistemas por ação humana: poluição, destruição da área costeira para habitação, pesca comercial descontrolada. Será que a espécie de coral fornecedora de tal benesse médica sobreviverá por muito mais tempo?

Favela na MalásiaRede de pesca comercial
Favela na Malásia, em região costeira, em nada diferente a qualquer outra favela à beira-mar do mundo; ao lado, uma rede de pesca gigantesca sendo preparada para entrar num navio comercial no porto de Suao, em Taiwan. Repare no tamanho dos pescadores comparado à rede. Em certo momento da década de 90, o Japão tinha uma rede de pesca que cobria meio oceano Pacífico de distância. Até quando o planeta vai nos permitir esse abuso de seus recursos?

Aliás, será que nós sobreviveremos mais tempo para usufruir dessas benesses? Acredito que sim, mas a um custo ambiental altíssimo, e a um custo populacional maior ainda: temos que diminuir o ritmo de crescimento. Interessantemente, as economias do mundo se sustentam e se dizem "saudáveis" quando um determinado índice de crescimento populacional é atingido - vem daí porque Japão e Coréia estão preocupados com seu crescimento demográfico negativo. Afinal, é necessário ter mais consumidores pro capitalismo florescer. Uma dicotomia, pois mais consumidores, mais degradação ambiental. Exemplo? Ontem a Coréia do Sul terminou sua grande muralha na costa sudoeste do país. Pra quem não sabe, uma gigantesca obra que vai destruir toda uma área de estuários onde pássaros migratórios fazem sua parada anual. (Quem me avisou primeiro sobre esse desastre foi a Grrl Scientist.) Afinal, são apenas pássaros, pensa o governo. Mas... o que acontecerá se os tais pássaros se vão? Adaptar-se-ão a outras "praias"? Tornar-se-ão mais vulneráveis à extinção? Terão novos comportamentos? Os da Antarctica, por exemplo, já estão se acasalando mais tarde que o normal em resposta a mudança climática do planeta. É a incerteza do que pode acontecer caso essas espécies desapareçam e do desconhecido potencial positivo à espécie humana que elas podem fornecer, aliada ao ritmo de destruição, que permite que egoisitcamente, pensemos primeiro em nosso próprio desenvolvimento humano. É mais importante ao governo coreano gerar mais terra arável, mais prédios de apartamento, mais espaço para indústrias. O planeta afinal, ainda não cobrou o aluguel dele.

Siderúrgica coreanaLixo no atol de Majuro
Pohang, uma das cidades coreanas mais poluídas, sede da siderúrgica Posco (a de maior volume de negócios do mundo), que fica à beira-mar. Lembra alguma outra cidade brasileira? Ao lado, lixo jogado no meio do atol de Majuro, nas Ilhas Marshall, onde boa parte da diversidade de corais do mundo está representada.

O ser humano se adaptará sem essas espécies? E sem tantas fontes de água potável? E sem tanto atum para comer? E com mais CO2 na atmosfera? Em geral, quando um recurso acaba, os seres vivos que ali vivem adaptam-se de alguma forma à nova condição, ao novo ambiente - o Homo sapiens não é diferente nesse aspecto. Questões filosóficas a serem inclusas na discussão do tema...

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Mas nem só de notícias tristes vive este blog no dia da Terra.

Em março passado, realizou-se no Brasil a Convenção Mundial para Conservação da Biodiversidade, e houve um enfoque especial na preservação dos mares. Uma das melhores notícias dos últimos tempos em relação à preservação foi dada nessa conferência: o minúsculo país de Kiribati criou o maior parque marinho do Pacífico, ao dedicar uma área equivalente a 2 Portugais para a conservação sustentada: os pescadores artesanais da ilha estarão ainda permitidos a tirarem seu sustento da área. A criação do parque em Kiribati - o primeiro a incluir como preservável áreas de profundezas oceânicas, um marco na história do conservacionismo - visa basicamente ao desenvolvimento do turismo sustentável na região e bane completamente a pesca comercial na área. Uma iniciativa excelente, parecida com a da ilha de Apo nas Filipinas e que está sendo seguida por outros países do Pacífico: Guam, Ilhas Marshall e Palau (esmiuçado aqui no blog recentemente por ser um dos lugares mais lindos e exóticos do mundo). Esses países estão percebendo que a manutenção da biodiversidade e de seus únicos ecossistemas é a chave para um bom ecoturismo - e isso pode gerar mais lucro a longo-prazo para a região.

Crianças marshalhesasCrianças na janela
O mundo das crianças do futuro depende de nossa atitude hoje. O que estamos fazendo por elas? O que elas verão ao olhar pela janela de casa daqui a 20, 30 ou 40 anos?

Aliás, é isso que nos falta: pensar a longo-prazo. Todos querem respostas imediatas, vantagens agora. O futuro... já diz o ditado: "a deus pertence". Não, eu não caio nessa. O futuro é nosso, ou pelo menos eu me sinto responsável em deixar um futuro melhor para as gerações que vêm por aí. Afinal, ingenuamente ou não, foram as gerações antepassadas que me "deram" esse planeta de presente quando nasci, cheio de problemas ambientais, e sou eu, ser humano, que fico quebrando agora a cabeça em como me adaptarei às novas condições impostas, tendo que trabalhar em triplo para evitar a mudança drástica demais. Sou eu que hoje não posso nadar num rio porque está poluído. Sou eu que vou ficar sem água potável para beber. Sou eu que o Katrina, o tsunami da Ásia e o aquecimento global destróem. Sou eu, Homo sapiens sapiens, que elimino as perspectivas de futuro. Portanto, são as minhas atitudes hoje responsáveis diretamente por um futuro melhor econômico, social e ambiental. Responsabilidade global: a palavra-chave do dia de hoje.

O planeta agradece aos que pensam dessa forma. Aos que se preocupam verdadeiramente com o futuro.

À Terra, tudo de bom sempre.

Atol
Vista aérea de um atol no Pacífico. A Terra de cima é azul e linda.

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* Para viajar mais sobre a Terra...

- O Seed Magazine, uma revista de divulgação científica excelente, compilou numa representacao gráfica vários dados sobre o planeta, que merecem ser vistos e analisados - há inclusive um sobre o aumento da produção de carne brasileira correlacionado à diminuição da cobertura florestal da Amazônia. Vejam e reflitam.

- Nunca Beijing esteve tão amarela e com um ar tão "irrespirável" na primavera. Depois de tanto desmatar ao sul do deserto de Gobi em nome do desenvolvimento econômico da região, eis que o governo chinês começa a replantar árvores e tentar criar o "Green Wall of China" - mas será o suficiente? A China, aliás, é a grande charada do conservacionismo: boa parte do futuro de todos depende das ações dessa nação em crescimento econômico desvairado. E eu me pergunto: o que temos feito ecologicamente pela China? O que a China tem feito por todo o resto do planeta?

- "Muito prazer, aquecimento global. Você chegou ao topo do mundo." Na Ásia, cerca de 500 milhões de pessoas dependem do ciclo das geleiras himalaias (principalmente das redondezas do Everest) para terem água potável para beber e plantar. Nesses lugares, o aquecimento precisa mesmo de medidas mais urgentes. Mas eu acho que não é só lá, não...

- Coincidentemente, na véspera do dia da Terra, a Agência de Proteção Ambiental americana (EPA) publicou os números oficiais das emissões de carbono do país dos últimos 15 anos. A paisagem não é nada bonita.

- Seguindo a última tendência da moda, eis a nova campanha lançada no dia da Terra: "Green is the new black". (Via Benetton Talk.)

- A The Nature Conservancy (uma ONG dedicada à conservação dos últimos recantos pristinos da Terra) está coletando em seu site mensagens ao planeta. Quem quiser contribuir, deixe lá umas palavrinhas. É de graça e não dói.


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Esse post faz parte de uma blogagem/reflexão coletiva que sugeri a várias pessoas amigas, que também compartilham algumas das preocupações com o futuro que tenho. A todos, de antemão, o meu obrigado por gentilmente aceitarem o convite.

Todos os posts abaixo aceitaram o desafio, e também estarão já foram linkados na página do Nós na Rede, em breve. São as boas reflexões sobre o mundo se propagando, em rede.


- Uma janela no mundo! (Alline): 22 de abril - Dia da Terra
- Fora do armário (Paulo Nunes Jr.): Terra 4,5 bilhões de anos e mais um pouco
- Terra temperamental (Lou Salomé): Uma chance para a Terra
- NCC (Guto): Dia da Terra
- O Chato (Luiz Afonso): Alternativas
- Textos e afins (Manu): Dia de Gaya
- :boa esperança (Queirós): Sinta-se bem ajudando o próximo
- Villa da Lucia (Lucia Villa Real): Vinte e Dois de Abril Dia da Terra
- (In)Confidência Mineira (Vanessa): Pela Terra e por quem vive nela
- Lixo tipo especial (Flavio Prada): Mais um dia da Terra
- (An)Anima (Ana Lucia): Dia da Terra
- Alma Nômade (Horvallis): Earth Day - dia da Terra
- Caminhar (Laura): Por que é difícil falar e cuidar da Terra?
- Penso, logo... mudo de idéia (Claudia Beatriz): Dia da Terra
- Síndrome de Estocolmo (Denise Arcoverde): Amamentar é um ato ecológico!
- Stuck in Sac (Leila): Bush em Sacramento no dia da Terra
- Nothing simple is ever easy... (Andréa N.): Quem jamais te esqueceria?
- Ao cubo (Guga Alayon): Lembrem-se...
- Menina voadora (Alê): Parabéns, planeta Terra
- Gutierrez/Su (Suzana): Dia da Terra
- Imaginação ao Poder (Elenara): Dia Mundial da Terra
- Edícula habitável (Vânia Beatriz): Dia da Terra
- Roccana (Ana): Terra, planeta feminino
- Liza...coisas... idéias... pensamentos... devaneios... (Liza Soares): Dia da Terra
- Encontros do cotidiano (Telma Arcoverde): O sal da Terra
- Always por um triz (Regina): Terra Azul
- Lingua de Mariposa (Nora Borges): Terra...
- Luz de Luma (Luma): Bela e Tão Ecologicamente Burra!
- Retrato em branco e preto (Sergio): Eternamente Terra
- Bombordo (Christiana Nóvoa): Minha Terra sua casa

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quinta-feira, abril 20, 2006

Dokdo ou Takeshima?

Nunca fui ao Japão. Apesar de estar praticamente aqui do lado, o máximo que fiz foram algumas conexões para vôos no aeroporto de Narita, nas redondezas de Tóquio. Ou seja, já pisei em solo japonês, mas não "senti" a cultura japonesa de perto. Aliás, tenho muita curiosidade de vivenciá-la direito, principalmente visitar Okinawa, que todos dizem ser muito bonito. Entretanto, algumas atitudes japonesas me deixam com cara de ponto de interrogação, mesmo não tendo visitado o Japão. São as chamadas "sensações internacionais".

Os jornais coreanos não param há alguns dias de noticiar a mesma tecla: o envio pelo governo japonês de navios oceanográficos para uma suposta "pesquisa" ou mapeamento do solo na região conhecida como "Zona Econômica Exclusiva" (EEZ) entre Japão e Coréia, no mar do Japão - que os coreanos só chamam de Mar do Leste. Pois bem, nos limites da EEZ está a tão disputada ilha de Dokdo - que os japoneses só chamam de Takeshima.

Eu já havia comentado sobre essa confusão em Dokdo anteriormente. Estivemos lá em 2004, e desde então o turismo na região aumentou ferozmente. Afinal, os coreanos querem realmente mostrar que Dokdo é deles. E é, legalmente falando.

Dokdo são rochas estrategicamente localizadas a meio caminho dos 2 países - mais pro lado do Japão se levarmos em conta a geografia, é verdade. Desde que a Coréia se estabeleceu como país, livre da dominação japonesa, a ilha pertence a Coréia. No entanto, os japoneses, que têm um problema grave de espaço no arquipélago deles e mantém disputas por ilhotas com virtualmente todos os demaisa países do nordeste da Ásia - incluindo a Rússia - começaram recentemente a clamar que Dokdo - desculpem, Takeshima, para eles - é território japonês. Fizeram da maneira mais sutil: mudaram livros didáticos e criaram no município japonês de Shimane (a qual supostamente peretence a ilha de Dokdo) o "dia de Takeshima". Claro, os coreanos se revoltaram e queriam explicações do governo japonês, que obviamente não as deu.

É preciso entender que coreanos e japoneses possuem uma "rixa" que jamais lembra a dos brasileiros com os argentinos, que é baseada em futebol e "gracinhas". A rixa aqui é muito mais séria e grave. O Japão dominou a Coréia e parte da China num período recente, formavam o império japonês, e as marcas dessa dominação estão frescas na cabeça dos coreanos mais velhos principalmente, que sofreram com estupros em massa, assassinatos desmedidos, trabalhos forçados em sua própria terra. Num país onde passar a experiência para as gerações seguintes é mais que tradição, é a própria marca da cultura, tais memórias são difíceis de serem apagadas. Para se ter uma idéia, já houve desconforto na cidade onde moro porque as ruas são arborizadas com cerejeiras, que é a árvore nacional do Japão, e os coreanos mais antigos só de ouvirem a palavra "Ilbon" (Japão, em coreano) têm calafrios na espinha.

Só que agora o Japão quer usar uma estratégia diferente para clamar Dokdo. Se no ano passado, restringiu-se ao seu território, dessa vez está enviando navios - de pesquisa, entenda bem. (Não sei porquê, mas essa história de "navio de pesquisa" no oceano me lembra outra engambelação japonesa recente...) De acordo com os japoneses, eles vão apenas "atualizar os mapas geológicos da região". Que fique claro que eles são os responsáveis pelo mapeamento geográfico da zona K, segundo a ONU, que engloba a Coréia. Ou seja, são os japoneses que fazem os mapas da Ásia que se espalham pelo mundo, e vem daí porque todos conhecem o mar do Japão como tal, e não com o nome de Mar do Leste.

Mas Dokdo pertence a Coréia, e não há "disputa" alguma na cabeça de coreanos. A ilha é deles, apoiada por vários documentos internacionais de pós-guerra. A estratégia atual do Japão que vem sendo estraçalhada pela mídia coreana é a de plantar a sementinha da dúvida na imprensa e nos governos de outros países de que existe uma disputa real acontecendo, de que a soberania coreana sobre Dokdo não é aceita. Isso é apenas um esperto movimento estratégico japonês para tomar o território para si. Está dando certo, porque EUA e Inglaterra já insinuaram estar a favor do Japão nessa empreitada (o que gera mais "imbroglio" pros coreanos, que têm parte do exército americano estacionado aqui devido aos conflitos com a Coréia do Norte), e até a Al Jazeera, que para mim tem um jornalismo excelente, já comprou essa idéia da "disputa territorial".

E claro, assim que os ânimos começam a esquentar na península em questões de soberania nacionalista, os coreanos fazem seus tradicionais protestos: um coreano já tentou suicidar-se por causa da disputa de Dokdo. Enquanto isso, o governo coreano envia navios para a região, e o Japão prepara-se para enviar seus navios "de pesquisa". De acordo com o irônico Robert do blog Marmot's Hole (imprescindível nesses tempos de conflito entre os dois países), o Japão deu ordem a seus capitães de darem meia-volta caso a Coréia se manifeste - o que permitiria depois que o Japão clamasse que não pode fazer a "pesquisa" porque a Coréia não permitiu que ele entrasse em seu próprio território.

A confusão está armada. O que mais me impressiona nessa história toda é: Dokdo são uns pedaços de pedra no meio do mar. Os países estão se comportando como num pré-guerra porque a soberania nacional está em jogo, muito mais que os recursos da região (pesca e gás natural). A soberania por pedaços de pedra.

DokdoIsso é Dokdo

É torcer para que nem Coréia nem Japão resolvam definitivamente jogar a diplomacia pro espaço.

Tudo de cautela sempre.

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P.S.: O Marmot's Hole juntou vários links nesse outro post, que está uma profusão de informação muito boa. Para se inteirar mais do assunto, aconselho lê-lo.

- Lembrando que amanhã, 22 de abril, é o dia da Terra, e convido a uma reflexão geral dos blogs sobre o tema. Quem postar sobre o assunto, me avise por email ou na caixa de comentários, para eu adicionar à linkania desvairada que espero fazer amanhã. Por uma causa nobre: a nossa casa.

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terça-feira, abril 18, 2006

ArteSub.com - o mar em exposição

artesub button
Este blog, como todos já devem ter percebido, não tem apenas uma "dona". Apesar de toda a criação, elocubração, escrita e viagens na maionese de cada post vir integralmente da minha cabecinha de vento, os textos seriam meio "insossos" se não existissem as fotos que o André tira em nossas viagens reais e gentilmente cede para complementar os assuntos mais relevantes. Ele é o participante dos bastidores, o braço direito, dono de uma opinião afiadíssima, da crítica feroz, cética e construtiva dos textos, principalmente é aquele que sugere a foto mais adequada pro tema abordado - algumas vezes discordamos, e nesses casos de discordância, usando uma metodologia quase-científica: cada um argumenta o porquê da preferência, analisamos tese e antítese, e chegamos num acordo, numa síntese. Mas em geral ele está certo sobre a escolha das fotos, afinal é um profissional no assunto. Eu também posto aqui fotos da minha coleção particular, que estão em sua maioria em papel ainda (resquícios dos tempos da máquina a filme...) e são escaneadas. As minhas fotos são preparadas para publicação com o meu nome na marca d'água, e as do André têm a marca d'água dele - é assim que as diferenciamos por essas bandas internéticas.

Pois bem, a partir de hoje as fotos subaquáticas aqui expostas estarão também no site da ArteSub, à espera de todos. Meu blog já está com o tubarão-martelo de estimação que identifica ali do lado o link para a ArteSub, o site do André, onde todos poderão ver o trabalho dele em tamanho maior. Outras fotos desconhecidas da maioria também estão por lá, então vale MUITO a pena dar uma passeada, explorar os links. O enfoque das galerias é nas fotos subaquáticas, sua especialidade, e estão protegidas em seu direito autoral por mecanismos muito mais complexos que os do meu blog, sem perder o belo efeito visual. Há planos de colocar algumas fotos terrestres de viagens, mas por enquanto, o tema único da vida embaixo d'água será mantido. Um porém apenas: o site está em inglês. Mas clicar em fotos é bem intuitivo, uma vez que você chegue nas galerias, e acho que isso não é um grande problema.

Artesub screen shot

Naveguem por lá à vontade. Minha galeria favorita é a de "Sea slugs", que são os nudibrânquios, verminhos coloridos que enfeitam o mar e que eu adoro ficar procurando quando vou mergulhar. Fora os tubarões, é claro. A de natureza abstrata também é muito linda. Ok, eu sou suspeitíssima para falar qualquer coisa, mas eu acho parcialmente que todas as fotos são realmente adoráveis, maravilhosas, muitas delas têm histórias especiais - algumas já contadas aqui no blog - e as fotos do portfolio são aquelas vencedoras de prêmios ou que foram publicadas em revistas, livros, jornais, calendários e afins (a foto de abertura do portfolio foi capa da revista Mergulho de maio/2004, aí no Brasil). O site é também intuitivo para quem quiser comprar uma foto para fazer quadro ou dar de presente. Para quem se interessar no uso de uma foto profissionalmente, é só contactar no email infoARROBAartesubPONTOcom.

O link-botão do tubarão-martelo ficará fixo na barra da direita aqui do blog. Quem quiser colocar em seu sites, entre em contato comigo: cada botão posto permanentemente em outro site, o dono do mesmo ganhará uma foto daqui ou da ArteSub à sua escolha, em formato digital de alta resolução para uso pessoal.

Uma dica Mallística: recomendo especialmente a visita à ArteSub depois de um dia estressante de trabalho, para relaxar um pouco "no fundo do mar virtual". As minhas viagens publicadas aqui com fotos subaquáticas agora ganharam um complemento internético, não é uma maravilha? Divirtam-se.

A gerência do blog agradece de antemão a preferência. ;-)

Tudo de bom sempre.

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*Dia 22, neste sábado, é o dia da Terra. Gostaria de convidar todos que estiverem interessados a uma reflexão coletiva sobre nosso planetinha, o que temos feito pela nossa "casa" maior. Quem quiser participar, basta postar algo sobre o tema em seu blog/site - e me avisar que o fez, para podermos agregar todos os links numa página só. Vamos espalhar boas idéias, boas atitudes, de como tratar melhor o lugar em que vivemos. Agradeço desde já a todos que se dispuserem a ajudar da forma que melhor lhe aprouver.

(E se no último minuto você se sentir mais empolgado ainda com a idéia e quiser planejar um evento maior sobre o dia da Terra, instruções interessantes encontrei aqui, em inglês.)

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domingo, abril 16, 2006

De Hilo a Kona: cachoeiras, vales e paisagens lunares

Como falei num post anterior, na volta de Hilo, decidimos vir pelo norte - assim cobriríamos o perímetro quase todo da Big Island do Havaí - só não o cobrimos completamente porque há uma leve "quebrada" para encurtar o caminho, chegando mais rápido em Kona pela rodovia.

(Parênteses: A Horvallis, no comentário do post passado, perguntou pela Saddle Road, uma via precária que corta a ilha - se você olha no mapa, parece a melhor opção para chegar do outro lado, porque é uma hipotenusa. Mas não caia nesse conto: a Saddle Road é uma estrada tortuosa, em muitos trechos de terra batida, difícil de dirigir. Entretanto, dado nosso espírito aventureiro que clamaria por lugares assim, não passamos por lá, infelizmente. Fim do parênteses.)

Antes de sair de Hilo, fomos tomar café da manhã num desses lugares bem havaianos que definem o porquê de tanta diabetes entre os kama'ainas das ilhas: muita gordura, doces e pratos gigantescos, fartura de carboidratos. Como nós estamos sempre numa dieta bem regrada, a indulgência do brunch não foi um grande problema - mas confesso que me espantei com o tamanho do taco que meu marido pediu, porque era igual a uma bacia e recheado de itens engordativos como sour cream e guacamole. Ai meu pâncreas...

Saímos de Hilo debaixo de uma garoa que foi ficando cada vez mais forte. A primeira parada foi no Jardim Botânico por algumas horas, e depois seguimos para as cachoeiras 'Akaka e Kāhūna, que ficam num mesmo parque, o parque estadual de 'Akaka. Pensava que a caminhada até as cachoeiras seria algo "penoso", uma trilha mais radical. Ledo engano: a trilha é literalmente asfaltada, com escadinha para chegar no ponto de observação, o que obviamente atrai muitos turistas. Uma caminhada levíssima, que termina em um visual de sonho: a cachoeira de 'Akaka, um filete de água que cai de uma altura de quase 100m, quase virando fumaça ao fim de tamanha queda. Muito linda. A poucos metros de distância, em trilha paralela, a outra cachoeira do parque: Kahūna. Também no mesmo estilo: altíssima e virando fumaça. A garoa que caía permitiu que um clima meio "Lord of the Rings" ficasse no ar, como se um elfo fosse surgir daquele lago ou um unicórnio voador. Em menos de meia hora, depois dessa paradinha, já estávamos de volta à estrada recortada de vales e penhascos.

Cafe da manhaCachoeira na beira do mar
O café da manhã de domingo de boa parte dos havaianos: muita gordura e carboidratos, essa parece ser a lei. Ao lado, uma das inúmeras cachoeiras que caem no mar na estrada a caminho de Waipio.

Próxima parada, o vale de Waipio. Residência no passado de uma população isolada de mais de 4,000 havaianos, o vale hoje é um lugar cheio de fazendas de inhame, cavalos e um riozinho que deságua no mar. Mas poucos moradores, porque a estrada de acesso é bem complicada, cheia de curvas, e requer também tração nas 4 rodas. O vale de Waipio é onde boa parte das cavalgadas inclusas em pacotes turísticos pela Big Island são realizadas. Do ponto de observação na extremidade do vale, um cenário belíssimo. Olhando para o mar, percebemos uma nuvem enorme, densa e negra se aproximando: tempestade à vista. O espetáculo ficou mais lindo ainda, porque a chuva que chegava ia trazendo uma nuance mágica àquele vale recortado.

Akaka FallsVale de Waipio
Cachoeira de 'Akaka e sua atmosfera mítica. Ao lado, vista do vale de Waipio, com a chuva chegando...

Voltamos para a estrada, dessa vez no meio do caminho para Kona. A estrada passa em pastos enormes, cheias de cones e crateras vulcânicas. De um lado, o Mauna Kea; de outro, o Hualalai, outro vulcão dormente da ilha. No caminho, passamos por Waimea (também chamada Kamuela), uma cidadezinha minúscula e fofa, parecendo de brinquedo, com pastos ao redor. Bucolismo máximo. Um vento gelado e muitas flores na pracinha central típica: com igreja, escola, coreto e banquinhos. Paramos um pouco para admirar o ritmo pacato da cidade, que está a uma altitude considerável.

WaimeaCavalo amigo
A cidadezinha de Waimea é uma fofura no meio do caminho de Hilo a Kona, com seu bucolismo interiorano. Nem parece que estamos no Havaí das praias, vulcões e cachoeiras... Ao lado, um cavalo que se aproximou de nosso carro numa das inúmeras vezes que paramos no acostamento da estrada para tirar fotos. Estava chovendo e o cavalo parecia querer abrigo. Fiquei com dó do bichinho, mas fazer o quê? O arame farpado nos separava...

Já estava entardecendo, e em determinado momento, a estrada ficou mais aberta ainda, e o Mauna Kea claríssimo, com sua cobertura de neve por cima. Carro no acostamento, hora de esperar o espetáculo, que não tardou: o pôr-do-sol com o Mauna Kea ficando amarelado, depois rosado, o Hualalai dourado, e o mar e o céu no horizonte ao longe alaranjado. Que aquarela! A paisagem ao redor era típica de uma cratera lunar, aqueles cones coloridos, gramados de aparência abiótica. Uma viagem total. Um pôr-do-sol delicioso.

Cone vulcanicoCone vulcanico 2
Cones vulcânicos à beira da estrada depois de Waimea, ao entardecer.

Mauna Kea ao entardecerHualalai ao por do sol
Uma visão do Mauna Kea, a maior montanha do mundo (da base submarina até o topo) com a cobertura de neve amarelada pelo pôr do sol. Ao lado, mais um pôr do sol espetáculo, dessa vez olhando para o Hualalai e a paisagem lunar ao seu redor.

A noite caiu, e seguimos direto até Kona, que será a próxima parada desta série de posts havaianos.

Tudo de bom sempre.

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sexta-feira, abril 14, 2006

Cozinha molecular

Confesso que não me interessei muito quando li na Folha que havia saído um ranking dos 50 melhores restaurantes do mundo. Embora adore restaurantes, meu orçamento em geral não permite que os frequente com assiduidade. (Fora o fato de saber o quão mutável e pessoal qualquer lista nesse estilo é.) De modo que não conhecia nenhum da lista, nem mesmo o 50º - que está em São Paulo.

Mas aí fui ler a reportagem da Al Jazeera sobre a mesma lista, e fiquei surpresa com a descoberta.

O restaurante que venceu fica em Rosas, na Espanha, o El Bulli. Li uma crítica sobre ele que achei fuçando pelo Google, interessante e cheia de adjetivos aromáticos para descrever as comidas. Mas o que mais me impressionou mesmo na reportagem da Al Jazeera foi o termo para a classificação dada ao restaurante vencedor: "culinária molecular", onde usa-se aparelhagem de laboratório (!!!) na cozinha do restaurante para produzir os pratos mais adequados, que são analisados em sua composição química nos mínimos detalhes, com o intuito de gerar a combinação perfeita de sabores. Exemplo? Sorvete de wasabi com wafer, cenoura e sorvete de limão - quem comeu, diz que é simplesmente espetacular, apesar de soar extremamente horrível ao meu paladar amador.

Não só existe a prática da culinária molecular - conhecida como Culinologia - como os chefs dessa artência (acabei de inventar essa palavra, que é a mistura de arte + ciência) fazem verdadeiras pesquisas científicas, ensaios e testes de bancada para adequar perfeitamente um prato a determinado padrão. O chef do restaurante espanhol vencedor, por exemplo, se "retira" em seu laboratório particular em Barcelona por 6 meses por ano para fazer experimentos, criar receitas únicas e deliciosas, onde todos os ingredientes que aparentemente não se misturam, passam a combinar.

Mas a história não pára por aí. Nessa mesma semana em que me embasbaquei com a culinária molecular, eis que cientistas de carteirinha aprontam também no ramo da artência: produziram o drinque perfeito, que reproduz a euforia do álcool sem os péssimos efeitos colaterais da ressaca, da pagação de mico ou dos incômodos. A bebida é feita com o que o pesquisador chama de "agonista parcial" (PA), que é análogo ao álcool, mas neutralizado 100% por uma droga sintetizada em laboratório. Ou seja, a pessoa tomaria o drinque com PA, ficaria "alegrinho", e depois da festa, tomaria o remédio para ficar sóbrio de novo e poder voltar dirigindo para casa. Uma viagem na maionese, sem dúvida, porque levanta várias questões: o neutralizador se venderia no bar? Há risco de superdose? Qual a diferença de preço para a cerveja comum? Quem vai lucrar com a venda do neutralizador? E se misturar tudo, álcool e PA? Há de se pensar que há maluco para tudo nesse mundo...

Por enquanto, é a cozinha do futuro a um passo da degustação. Será?

Tudo de bom sempre. E feliz Páscoa!

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*Em breve, mais Havaí.

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terça-feira, abril 11, 2006

A poeira amarela, de novo

Lembram da neve amarela que há algumas semanas invadiu Seul? Sábado passado teve nuvem de areia amarela de novo, vinda do deserto de Gobi, China. Dessa vez, não nevou, mas achei uma foto (com a nuvem e depois da chuva de ontem, que dispersou a poeira) que ilustra bem o fenômeno e que merece ser vista. Detalhe: não é filtro amarelo da máquina fotográfica, a cidade fica assim mesmo. Mais de um milhão de pessoas já foram parar no hospital desde o fim de semana por causa de problemas respiratórios advindos do fenômeno que tomou conta de Seul e adjacências. O serviço de meteorologia coreano falhou em prever que teríamos a segunda pior nuvem amarela da história no sábado, e as pessoas não haviam se preparado para tanta amarelidão ao saírem para curtir o fim de semana pela cidade. Resultado: sobrecarga nos pronto-socorros.

Por sorte, eu não botei sequer o nariz fora de casa dessa vez. Ainda bem.

Tudo de amarelo sempre.

UPDATE: Outra foto saiu na National Geographic, dessa vez tirada na China.

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domingo, abril 09, 2006

De Kona a Hilo: duas praias diferentes

Embora os últimos posts tenham dado referência a Hilo e seus arredores, devo confessar que quando estivemos na Big Island em fevereiro passado, nossa "base" de ação foi Kona, a cidade do outro lado da ilha. Fomos a Hilo por poucos dias apenas, e em Kona ficamos mais tempo. Como as 2 cidades são geograficamente opostas - cada uma de um lado da ilha - o que nós fizemos foi ir de Kona a Hilo passando pelo sul, e na volta de Hilo a Kona, dirigimos pelo norte. Assim, quase todo o perímetro da ilha foi coberto.

A estrada de Kona a Hilo é muito tranquila, passa por umas cidadezinhas 100% havaianas, e possui uns encantos dignos de nota. Após bons quilômetros em vilarejos, pegamos uma estrada secundária que terminava num píer: o lugar mais ao sul dos EUA. Praias lindíssimas, de rochedos vulcânicos e mar bravio. Aliás, a violência do mar é clara ao vermos uma parte da estrada desmoronada, sem saída no momento. De acordo com um pessoal que estava lá mergulhando, foi uma tempestade forte. Não quero nem imaginar quão forte, porque a destruição era considerável.

Fim da estradaExtremo-sul dos EUA
O fim da estrada secundária próxima ao extremo-sul dos EUA: a estrada caiu depois de uma tempestade. Ao lado, a praia no extremo-sul, com suas rochas vulcânicas. O litoral dessa região é lindíssimo, e vale muito a visita, principalmente se você não quer ver muitas pessoas por perto.

Um pouco mais atrás, o tal píer. A partir dele, um verdadeiro enduro que requer carro com tração nas 4 rodas para ser vencido. A recompensa, depois de comer muita areia e pó numa estrada cheia de pedregulho e valetas lunares por uns 40 minutos, é fantástica: a praia da Areia Verde (Green Sand Beach, em inglês).

Como o próprio nome diz, a areia da praia é esverdeada, devido à sua composição mineral, e no mundo todo, apenas 2 praias de areia verde existem: a do Havaí e outra em Guam. No Havaí, a lava que escorreu do Mauna Loa pelo cone Pu'u Mahana era rica em cristais de olivina, um mineral rico em ferro e magnésio e de coloração esverdeada. A olivina é um mineral denso, dificilmente carregado pelo vento. À medida que eram erodidos pelo mar, os cristais foram se quebrando em partículas menores, que geraram a areia que hoje está lá.

Green Sand Beach, HawaiiGreen Sand Beach
A Praia de Areia Verde, dentro de um cone vulcânico: parece um sonho de esmeralda no mar e na areia. Ao lado, a impressionante visão de quando estamos próximos à água. A praia é totalmente reclusa e protegida. Fantástico!

A chegada na praia é inesquecível. Primeiro a gente só vê a pontinha da pedra do paredão principal, e nunca imagina o que está lá embaixo nos aguardando. Eu, aliás, achei que não teria surpresa alguma. Mas uma vez que você está na beira do penhasco, e percebe aquela mini-baía de água esverdeada e areia mais verde ainda, é que se dá conta do tamanho da viagem transcendental que é o local. Nunca tinha visto algo do gênero. A praia é lindíssima, isolada, difícil de chegar, dentro de um cone vulcânico e um mar de cor exuberante. Ao encostarmos o carro para descer pelo paredão de areia verde, notamos um grupo de 5 americanos de Montana empolgados. Para nossa surpresa, mal chegaram na praia, tiraram suas roupas e foram nadar, completamente nus, totalmente desencanados da vida, sem preocupar-se com os demais turistas que ali estavam. Alguns havaianos davam risadinhas, mas nós não nos abalamos, até conversamos um pouco com uma das meninas, que queria um band-aid emprestado. Continuamos nosso passeio normalmente. Fotografamos a praia, e foi difícil dizer tchau às areias verdes, mas precisávamos continuar o road trip.

De volta à rodovia, seguimos até Punalu'u Beach, também conhecida como Praia de Areia Preta (Black Sand Beach, em inglês). Há várias praias de areia preta no Havaí, mas a de Punalu'u parece ser a mais "famosa". Cresci no Espírito Santo, que também tem uma praia de Areia Preta em Guarapari, e aqui vale ressaltar a diferença entre as duas. Em Guarapari, a areia preta é resultado da presença de monazita, um mineral raro e radioativo derivado do tório - sim, as praias de Guarapari são levemente radioativas e talvez por isso haja todo esse bafafá em torno de suas características medicinais para artrite e problemas ósseos - mas ao comentar sobre as benesses, as pessoas esquecem de verificar que o ES tem uma estimativa de alto índice de casos de câncer dado o tamanho de sua população. (Coincidência ou não, fato é que não há nenhum estudo correlacionando os dois fatos, e por enquanto fica no terreno das especulações.) No Havaí, a areia preta é resultado da erosão de rocha vulcânica riquíssima em ferro, não-radioativa e densa, formada por basalto.

Praia da Areia Preta - GuarapariTartarugas em Punalu'u
A Praia da Areia Preta, em Guarapari (ES), com seus "rajados" pretos de monazita; ao lado, a Praia da Areia Preta do Havaí, com 2 tartarugas-verde descansando na beirada.

A Praia de Areia Preta da Big Island é bastante visitada, está em qualquer roteiro turístico, pois fica à beira da estrada, facílimo acesso. Placas enormes na entrada da praia avisam que é proibido levar areia como "recordação" e principalmente, é proibido incomodar ou encostar nas tartarugas que por lá descansam. Quando chegamos 2 tartarugas-verde estavam sob o sol, "lagartixando" - melhor dizendo, tartarugando. Logo depois, outra apareceu, e ficaram as 3 espalhadas pelas areias pretas. Como havia muitos turistas, a distância das tartarugas era preservada, embora as máquinas fotográficas não parassem de trabalhar. Ao longe, percebemos um grupo de crianças se aproximando de uma das tartarugas. Ah! A curiosidade infantil! Ficamos afastados mas com a máquina e a lente zoom a postos, de olho em um dos meninos que parecia o mais peralta do grupo. Não precisamos esperar muito: o menino olhou pra um lado, olhou pro outro, achou que ninguém estava vendo, e - voilá! - matou a curiosidade encostando a mão na cabeça da tartaruga. Criança não tem censura mesmo, e a cara de satisfação dele depois da peraltice foi impagável.

Traquinagem 2Traquinagem 1
Traquinagem 3Traquinagem 4
Criança tem cada uma: sequência de fotos mostrando a traquinagem do moleque. Primeiro, ele olha curiosamente pra tartaruga (já tinha se aprochegado mais do que o permitido), aí olha pros lados para verificar se não tem ninguém vigiando. Realiza seu desejo de encostar a mão no bicho - e depois faz aquela carinha vencedora de quem fez uma peraltice e ninguém percebeu. "Criança é um bicho curioso", já dizia minha vó.

Já era tardinha quando aproximamo-nos de Hilo. Nossa aventura de estrada chegava ao fim naquele sábado de fevereiro, e estávamos prontos para as novas aventuras que viriam pela frente.

Tudo de bom sempre.

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domingo, abril 02, 2006

Arredores de Hilo: os rios de fogo do Kilauea

A maioria esmagadora dos turistas que desembarcam em Hilo estão interessadas em visitar um lugar específico: o Parque Nacional dos Vulcões do Havaí. Hilo é a porta de entrada para essa maravilha, o vulcão mais ativo do planeta e o mais perigoso dos EUA na atualidade: Kilauea.

Adoro vulcões. Da primeira vez que estive no Kilauea, em 2002, a lava estava bem próxima da estrada principal na direção do mar, e não precisei andar muito para chegar perto dos rios incandescentes subterrâneos. Verdadeiro delírio vermelho! O calor que saía de dentro da terra era insuportável. Kilauea escorre pro mar, mas em 2002, sua lava não estava sendo vista caindo na praia. Uma pena.

Cratera Kilauea 2002Trilha de lava
Em 2002, na primeira visita à cratera do Kilauea. Ao lado: o terreno da trilha de lava é todo assim, preto, acidentado, sem sombra, num chão novo que se esfarela e corta. Alguém se habilita? ;-)

Mas é o vulcão que escolhe sua passagem, não os humanos como provavelmente gostariam. Em 1990, por exemplo, a lava escorreu na direção do vilarejo de Kalapana, e engoliu tudo - até hoje os moradores da área aguardam indenizações e esperam a reconstrução da cidade, desaparecida sob lava endurecida. Fato é que, a cada dia, a lava do Kilauea está despontando em um lugar diferente - por isso é fundamental que ao chegar no parque, você pergunte a um dos guardinhas onde está a lava naquele dia. Senão pode perder o mais bonito do espetáculo.

Quando visitamos o parque em fevereiro passado, a lava estava há umas 2 milhas do fim da estrada, caindo no mar. Uma oportunidade de ouro para ver um dos maiores espetáculos da Terra. Para quem nunca foi no parque, é preciso explicar: primeiro, a lava que escorre do Kilauea não tem velocidade rápida, ela é lenta e você pode acompanhar à distância seu movimento; segundo, a estrada que leva pros "campos de lava" foi sendo "devorada" pela própria aos poucos. A trilha começa onde a lava cruzou a estrada - e daí pra frente, é tudo um terreno quebradiço feito sucrilhos, afiado. É aconselhável uma boa bota de caminhada e evitar cair no chão, porque qualquer encostada numa pedra pode te cortar. O solo recém-formado é afiado como vidro. Mas isso não desanima ninguém, porque é enorme o número de pessoas fazendo a trilha, inclusive com crianças. Basta ter cuidado, porque a trilha não é difícil, apenas árida.

Chegamos no parque por volta das 2 da tarde, e deu tempo de visitar, no topo da montanha Kilauea, as diferentes crateras, que explodiram em períodos diferentes, muitas delas na década de 70. A maior de todas, onde está a caldeira ativa atual Pu'u'o'o, tem um terreno típico de ficção científica, sem vegetação e de solo árido. Um vento frio cortante, contrastando com a ebulição que sabemos estar embaixo dos nossos pés - afinal, estamos no centro nervoso do hotspot. Uma das sensações mais bizarras e inesquecíveis que já tive, principalmente porque me sinto "em casa" perto de vulcões e andar ao lado das crateras tem uma magia inexplicável. Kilauea é um lugar de sonho para mim.

Depois de percorrer todas as crateras já dormentes, é hora de encarar a lava de verdade. Chegamos no início da trilha por volta das 4 da tarde. A trilha é aberta, não tem uma sombra sequer, e em dias de sol, o calor é escaldante e insuportável. O terreno é empretecido, o que colabora mais ainda pra uma sensação abafada. Pelo menos 2 garrafas de água para cada um para não passar necessidade. E não pense que chover é a melhor saída pro calor: a água da chuva reage com os gases liberados pelo solo, gerando os famosos "vogs" (fogs de vulcão) de ácido clorídrico, que matam se respirados em grande quantidade. Felizmente, estava nublado no dia que visitamos. À medida que fomos caminhando na direção onde a lava estava caindo no mar (basta ver a enorme nuvem tóxica de vapor e fumaça enxofrada ao longe para saber o local exato), começamos a perceber a mudança do terreno: quanto mais nos aproximávamos, mais o chão virava sucrilhos e mais instável. Os guardinhas põem uma corda delimitando a área até onde eles aconselham as pessoas a irem, mas é claro que a maioria (incluindo nós) pula a corda e continua até onde der. Detalhe: a instabilidade do terreno causada pela constante movimentação de lava há alguns meses fez com que uma área enorme caísse no mar, matando uma pessoa. Com essa informação em mente, não foi nada confortável saber que era justo nesse lugar "desaparecido" que a lava estava saindo dessa vez. Mas sabíamos também que a recompensa no final seria emocionante, e nós topamos o desafio.

Nuvem tóxica ao longeRio de lava
Para chegar na lava, basta procurar onde a fumaça está saindo... a foto foi tirada no início da trilha de verdade, que é onde os guardinhas do parque aconselham você a parar. Ao lado, o que nos perderíamos se parássemos lá atrás: o local que determina o fim da trilha real para os lava-junkies, com seu rio de lava escorrendo.

O pôr-do-sol foi chegando, e a nuvem-guia se aproximando. Em determinado momento, vimos um grupo de estudantes da UH-Hilo, admirando o horizonte: olhavam para a lava. Ela escorria feito rio embaixo da gente, a uma distância de menos de 70m, e a área onde estávamos tremia à beça. André teve uma idéia brilhante nesse momento: embora nossa visão estivesse maravilhosa ali em cima do penhasco, se andássemos para uma das laterais, poderíamos ver efetivamente o rio incandescente caindo no mar. Fomos - o terreno ficou melhor, mais estável. E a visão... inacreditável. Várias cachoeiras de lava a 1,140ºC que, ao se encontrarem com as ondas do Pacífico, imediatamente viravam pedra ou explodiam, num verdadeiro show de fogos de artifício natural. Terra nova sendo formada a cada segundo. A ilha crescendo debaixo dos nossos olhos. O planeta se renovando. Emoção sem igual. Delírio inesquecível.

Lava escorrendo no marRio de fogo ao mar
O momento da emoção máxima: a lava escorrendo no mar. À noite fica mais lindo ainda.

Havíamos levado uns sanduíches, e jantamos ali, com a lava escorrendo ao fundo, em mais um momento mágico da nossa lua-de-mel aventuresca. Poucas pessoas ao redor. Já era noite alta quando encaramos a trilha de volta. Aos poucos, a luz incandescente do fenômeno ficou pra trás e nossas lanternas dominaram o caminho. O mais interessante foi perceber a quantidade de pessoas que vai para essa trilha contemplar a lava à noite, quando a iluminação vermelha-fogo daquele rio caudaloso fica ainda mais linda. Impressionante.

Rodovia Aerial lava field
Uma rodovia próxima a Kalapana que a lava do Kilauea engoliu. Ao lado, vista aérea do campo de lava que no dia anterior nós desbravamos. Repare nas cores que o mar ganha quando se mistura com lava fresca.

Mas o Kilauea não havia acabado ainda para a gente. Na manhã seguinte, sobrevoamos de helicóptero a área do vulcão - dessa vez para ter noção da dimensão do que é um vulcão em erupção. O helicóptero sobrevoou primeiro a engolida cidade de Kalapana, e a gente vê casas "ilhadas" por um mar de lava ao redor, além de cenas bizarras como uma placa de "stop" no meio da lava, resquício de uma estrada que se foi. Depois o helicóptero começa a sobrevoar o atual campo de lava, que escorre feito calda de chocolate da montanha-bolo, chegando até o mar, no mesmo local onde estávamos no dia anterior. Só que de cima, a nuvem sulfurosa é mais perigosa ainda, pois o helicóptero passa muito próximo dela. A cena de cima não tem tanto a beleza de quando vimos no dia anterior, bem de perto, com todo o vermelho iluminado. Mas vale a visão, porque nos dá a exata noção do quanto a água do mar naquela área é influenciada pela lava - medições mostram que a temperatura do mar ali é de quase 100ºC. E para terminar o passeio com chave de ouro, eis que o momento mais esperado chega: quando a gente vê de cima a caldeira Pu'u'o'o, ativa, gerando lava. Que cena!!!! Aqueles borbulhos de fogo, que ao invés de serem expelidos em explosões no local, vão por tubos de lava subterrâneos e terminam no mar. Melhor visão, impossível.

Luz de lavaCaldeira Pu'u'o'o
Luz da lava à noite, imbatível. Ao lado, sobrevoando a caldeira Pu'u'o'o, de onde emerge toda a lava que escorre hoje no Havaí.

Depois de tanta experiência mágica com o Kilauea, dá para entender perfeitamente porque o vulcão é o ponto turístico mais famoso para quem vai a Hilo. A força da natureza em ação é inigualável.

Tudo de bom sempre.

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Para viajar na maionese dos vulcões...

- No Havaí, existe toda uma mitologia por trás de cada vulcão. Existe a deusa dos vulcões, que mora no Kilauea. De acordo com a tradição, seu nome não deve ser pronunciado à toa, apenas quando estritamente necessário. Nesse link há uma boa explicação sobre todo o mito. Outro exemplo mitológico: dizem que se um turista carrega um pedacinho de lava que seja para casa, a vida dele entra numa espiral de problemas sem fim. Há inclusive um local de envio das pedras que são devolvidas pelas pessoas infortunadas. Mas, por lei, nenhum pedaço de vulcão pode sair do parque nacional dos vulcões do Havaí, sob pena de multa e apreensão. O mito nesse caso veio bem a calhar...

- Existe uma hipótese de que os vulcões na realidade beneficiem o planeta, controlando principalmente a temperatura do mar. Em tempos de aquecimento global, essa é uma notícia interessante para adicionar ao repertório das discussões, principalmente para desbancar aqueles mais "céticos" sobre o assunto, que insistem que a influência humana é mínima.

- O Havaí fica em cima de um chamado "hotspot", um lugar onde o magma flui com mais facilidade por um buraco da crosta devido a anomalias térmicas. Existem cerca de 50 hotspots no mundo, o mais estudado é o havaiano (porque gerou as ilhas), mas recentemente foi descoberto um outro: em Samoa.

- O parque de Yellowstone (para mim, eternamente a "casa" do Zé Colméia) também está num hotspot, e é considerado na realidade um super-vulcão, que pode acordar a qualquer momento.

- Os jornais estão sempre noticiando vulcões que entram em erupção. Visto que o magma está sempre bem ativo dentro do planeta, não é uma novidade que de vez em quando haja erupções. Recentemente, o vulcão Karimski, um dos maiores do Kamchatka, acordou. Para quem não sabe, o Kamchatka é uma área no nordeste da Rússia com uma das maiores atividades vulcânicas do planeta, e um dos meus destinos-sonhos de viagem.

- Acho que eu já comentei nesse blog que morei em Honolulu na beira da cratera do Punchbowl. Dentro da cratera fica um memorial aos soldados veteranos de guerra. Para matar as saudades do visual da janela de casa (ou quase), achei essa visão panorâmica de dentro do memorial da cratera. Um lugar que me trouxe muitas alegrias e alohas. Aproveitem o link e dêem uma olhada em Hanauma Bay, a praia dentro de uma das crateras do vulcão Koko Head.

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sábado, abril 01, 2006

A primeira brasileira?

É confirmado. (Não é brincadeira de primeiro de abril!) Depois do primeiro brasileiro no espaço, 2006 ainda pode nos brindar com a primeira mulher brasileira no topo do Everest. Ana Elisa Boscarioli vai tentar chegar ao cume pela face sul (Nepal) como membro de uma expedição comercial, a excelente Adventure Consultants, da Nova Zelândia. Ana Elisa, uma cirurgiã plástica, ano passado escalou o Cho Oyu, uma das 14 montanhas acima de 8,000m - foi a primeira vez que uma brasileira passou desse limite mágico e rarefeito. Minha torcida pessoal já começou pelo sucesso da temporada.

Mas outros brasileiros também estão rumo ao Himalaia. Vitor Negreti e Rodrigo Raineri, do time "Try On: Brasileiros sem oxigênio" querem ser os primeiros brasileiros a chegar ao cume do Everest sem o uso de oxigênio suplementar, e estão tentando pela segunda vez. Ano passado, Vitor chegou ao cume, mas utilizou oxigênio. Dessa vez, o casal Paulo e Helena Coelho também vai tentar chegar ao topo sem oxigênio. É a oitava vez que eles tentam o cume, das outras vezes com oxigênio. É torcer para eles também.

E aguardar mais notícias, grudada no EverestNews.

Tudo de bom sempre.

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