Uma Malla pelo mundo Interney.net/blogs/malla

segunda-feira, maio 29, 2006

Anotacao rapidinha

Voceh sabe que estah em Seattle* quando, ao chegar no hotel e ligar a televisao, o primeiro programa que aparece na tela eh uma mesa-redonda entre alpinistas (varios nomes renomados) discutindo a ultima temporada no Everest - que foi, alias, a segunda mais letal desde a de 1996.

Depois eu conto mais da viagem...

Tudo de bom sempre.

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*Seattle eh conhecida como uma das cidades mais "dedicadas" aos esportes radicais nos EUA - e no mundo. Varios grandes nomes do alpinismo moram em Seattle, como Ed Viesturs, e a matriz da Mountain Madness (empresa de "aventuras radicais") fica aqui.

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sábado, maio 27, 2006

Gravidez e diabetes: qual o perigo?

Faço parte no Orkut da comunidade Diabetes Brasil, que é super-dinâmica, interessada e amiga. Os membros da comunidade participam, brigam entre si, gargalham, discutem, informam, se ajudam - e muito. Parece até uma família de 3000 membros. É sem dúvida a comunidade mais movimentada entre as que faço parte, toda hora tem uma "novidade" na pauta - e não são joguinhos sem sentido. E lá na comunidade, nesse burburinho de assuntos, um dos temas mais polêmicos que de vez em quando ressurge das cinzas (e sempre gera mais discussão) é a gravidez das diabéticas.

Não é para menos. Sendo a diabetes uma patologia crônica, que requer cuidados diários e constantes para a manutenção estável da glicose, é preocupante a princípio que uma mulher diabética engravide. Por vários motivos: as mudanças bioquímicas e fisiológicas no corpo da mulher durante a gravidez são enormes, os hormônios se alteram (a placenta produz muitos hormônios que perturbam os níveis de cortisol e insulina) e esses hormônios podem alterar a glicemia - e a glicose da mãe passa pela placenta pro bebê (mas a insulina materna não passa, é o próprio bebê que produz a insulina dele). E ninguém quer um bebê com taxas alteradas de glicose. Se a glicose do feto está alta, ele pode nascer com tamanho avantajado dificultando o parto, pode começar a produzir muita insulina para normalizar tanta glicose que está chegando até ele e iniciar um quadro de resistência insulínica - o que aumenta a predisposição do bebê no futuro a ser obeso e desenvolver diabetes tipo 2 - e pode desenvolver problemas respiratórios. Se a glicose da mãe está baixa demais (hipoglicemia), o bebê também fica hipoglicêmico, e isso pode afetar o desenvolvimento pleno da criança. Portanto, é fundamental para uma diabética que, ao engravidar, ela passe a ter controle rígido da taxa de glicose em seu organismo e siga um plano pré-natal regradíssimo, que inclui pelo menos um endocrinologista, um obstetra e um nutricionista acompanhando com frequência exames, resultados, dieta e tudo o mais.

É exatamente por causa da falta de controle que as complicações de gravidez apresentadas por muitas diabéticas acontecem. Durante a gravidez, é provável que a diabética tenha que usar mais insulina para manter a taxa de glicose normal, mas não pode usar tanto que gere hipoglicemia. Uma sintonia fina, difícil de calcular, porém fundamental para a boa saúde tanto da mãe quanto do bebê. Mas... e no início da gravidez, quando a mãe tem vontade de comer certas comidas, muitas vezes cheias de açúcar? É devido aos "desejos" no início da gravidez (no primeiro trimestre, principalmente, quando o feto está se desenvolvendo muito e crescendo pouco) que uma diabética deve ser acompanhada por uma nutricionista, que lhe indique alternativas eficientes. Por exemplo, uma das meninas diabéticas grávidas da comunidade do Orkut comentou uma vez que teve desejo de bolo de cenoura com cobertura de chocolate - ela simplesmente comprou todos os ingredientes diet, fez um bolo, comeu um pedaço, mediu a glicose, tomou insulina, e matou seu desejo sem prejudicar o bebê.

Quando a mulher é previamente diabética, o controle começa praticamente no momento da concepção, e permite que toda a gravidez seja acompanhada, cuidada e no fim, nasça uma criança sem problemas. Mas às vezes uma mulher saudável, não-diabética, pode desenvolver a diabetes durante a gravidez - a chamada diabetes gestacional.

A diabetes gestacional em geral aparece no segundo ou terceiro trimestre, quando o bebê já desenvolveu boa parte de seu organismo e está apenas crescendo e especializando seu sistema. Não se sabe até hoje o que inicia o processo, mas acredita-se que o excesso de progesterona possa aumentar a produção de insulina pela mãe e levar a resistência periférica (nos tecidos como músculos e adiposo) que a mãe apresenta. Cerca de 40% das mulheres que desenvolvem diabetes gestacional, se não controladas nem tratadas, podem morrer e/ou matar o feto, em consequência, por causa da hiperglicemia materna. Entretanto, um teste super-simples - uma curva de glicose - durante o segundo trimestre da gravidez pode salvar a vida tanto da mãe quanto da criança. Cerca de 5% das grávidas não-diabéticas prévias desenvolvem diabetes gestacional, e embora a taxa seja pequena, o índice de mortalidade quando não tratada é alto, razão pela qual o teste de glicose é um dos primeiros da lista do pré-natal.

O tratamento da diabetes gestacional é simples, mas deve ser seguido à risca: dieta equilibrada e exercícios físicos, na maioria dos casos. Se essa mudança comportamental não é suficiente para manter estável as taxas de glicose, então a mãe precisa tomar insulina. Embora a diabetes gestacional seja classificada como um tipo "especial" de diabetes (depois da gravidez, em geral ela desaparece), ela de certa forma se assemelha mais a diabetes tipo 2 (forte resistência periférica à insulina) que a tipo 1 (doença auto-imune que destrói as células beta do pâncreas). E a diabetes tipo 2, no início, é tratada com medicamentos orais. Entretanto, não se sabe os efeitos desses medicamentos orais no bebê, motivo pelo qual eles não são recomendados para as gestantes. Ainda.

Depois que o filho nasce, a mãe que teve diabetes gestacional deve continuar controlando a glicose, por pelo menos uns 2 meses - apenas por precaução. Se a glicemia volta aos níveis normais, ótimo. Se não volta, ela precisa continuar o tratamento, pois sua diabetes gestacional pode ter sido uma indicação do começo de uma diabetes tipo 2. É importantíssimo que a mãe mantenha o controle glicêmico, nesse caso, para evitar futuras complicações na saúde dela própria - e poder assim aproveitar plenamente todos os momentos impagáveis que a maternidade traz.

Mas o que eu realmente quero deixar claro aqui é o seguinte: o fato da mulher ter diabetes (previamente ou durante a gravidez) não a impede, em geral, de ter filhos, muito menos indica que seu filho será diabético também. Quando bem controlada, bem tratada, a diabetes não oferece perigo nem à mãe nem ao bebê, que nascerá saudável como todo bebê deveria ter o direito de nascer nesse "mundão sem fronteira".

Tudo de bom sempre.

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*Hoje é o dia Mundial de Luta Contra a Mortalidade Materna. A Denise organizou uma blogagem coletiva sobre o tema, e alguns blogs aceitaram o desafio - o tema é difícil de ser abordado e eu apenas toquei de leve no assunto. Portanto, aos que participaram um super-parabéns pelo desafio alcançado!!

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sexta-feira, maio 26, 2006

Blogonversa rápida e saudosa

Foi a Daniela Castilho quem me chamou para a "blogonversa", um meme diferente, que, pelo que eu entendi da brincadeira, indica com que blogs você gostaria de "conversar" mais. Achei que rapidamente eu faria uma lista de 5, mas descobri que era bem mais difícil que isso, porque na realidade eu gostaria de blogonversar com todos da lista aí do lado, sem preferência. Aliás, eu queria fazer igual a Dani: uma festa com todos juntos, para a gente bater papo e contar histórias da vida.

Mas tem que escolher 5 blogs (é a regra da brincadeira...), então decidi colocar os 5 blogs com quem eu gostaria de blogonversar, e que NÃO estão listados no meu blogroll - simplesmente porque eles não existem mais. Links retirados da dinâmica do mundo virtual pelos próprios donos e que deixaram saudade no blogboteco. Cada blog tinha a um pouco da personalidade de seus donos, e de certa forma, é isso que existe nessa esfera virtual: um monte de pessoas reais comandando teclados reais a expressarem suas opiniões reais. E não é assim a vida também, esse vai-vem de pessoas, ações e mudanças? Esse espaço finito de tempo?

Eis a minha lista de saudosos virtuais:

1) Monicômio

2) Singrando

3) Smart Shade of Blue

4) Era uma vez um verão em Cracóvia

5) Ay Caramba!

No final do meme, eu tenho que explicitar de quem ganhei esse meme.

"Blogonversei com a dona do chá DaniCast."

Tudo de bom sempre.

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segunda-feira, maio 22, 2006

Atol de Ailuk, Ilhas Marshall

Mapa das Marshall - Ailuk em destaque

A seta vermelha do mapa acima (retirado deste site e editado por mim) indica onde parte do meu coração estará nas próximas semanas: no atol de Ailuk, território da República das Ilhas Marshall, no Pacífico Norte. É lá que meu fotógrafo predileto vai estar.

Essa é a terceira expedição às Ilhas Marshall da qual ele participa. Como já comentei, as Ilhas Marshall não têm muitos recursos econômicos naturais, exceto seu mar. São alvo de pesca predatória por parte de muitas nações, principalmente asiáticas. Afinal, o mar é tudo que eles têm a oferecer. Para proteger esse recurso natural marshalhês que vem sendo explorado de maneira não-sustentável, o melhor seria a criação de um parque e, em última análise, a declaração da área como patrimônio natural da humanidade ou algo do gênero, o que a tornaria intocável nas leis internacionais. Mas esse processo infelizmente leva tempo, e pouco se sabe até hoje sobre a fauna da região. Não adianta pedir a governo algum para fazer um parque marinho se não se sabe o que há por lá, se não se indica no projeto as espécies ameaçadas de extinção e/ou de interesse econômico elevado (peixes de aquarismo ou de consumo, por exemplo) que residem na área, a razão pela qual aquele ecossistema merece ser preservado. É preciso angariar dados, e esses dados são necessários para a tramitação legal da criação de uma unidade de conservação. E como poucos dados existiam nas Ilhas Marshall, a ONG National Resources Assessment Surveys (NRAS) iniciou esse trabalho pioneiro de levantamento da fauna dos atóis marshalheses mais remotos e ameaçados em 2001. O objetivo final é conservar os recifes de coral das Ilhas Marshall, a diversidade neles encontrada, principalmente com o auxílio da própria comunidade marshalhesa para um desenvolvimento sustentável de estratégias de melhoria da qualidade de vida - por isso a educação ambiental da população é parte tão fundamental do projeto.

Organizar uma expedição dessas é uma tarefa muito complexa. Primeiro, arrecadar fundos, sempre escassos. Segundo, arrecadar recursos humanos, pessoas interessadas em passar um longo tempo isoladas do resto do mundo, em barracas, fazendo fogo de côcos e trabalhando o dia inteiro por uma causa maior. Terceiro, logística de organização trabalhosíssima: desde água para todos beberem até serviços de emergência - quando em um lugar remoto do planeta, mesmo problemas simples podem se transformar em tarefas hercúleas para serem resolvidos. Mas, graças a uma disposição fenomenal de um grupo de participantes super-esforçados, as expedições se realizam, e são povoadas de cientistas de vários recantos do planeta especialistas em diversos campos: peixes, tubarões, corais, invertebrados, ecologia de recifes, geologia, conservacionismo, etc. Todos ajudam, mergulhando ativamente e colhendo dados, que já renderam bons frutos para os povos locais, para os cientistas, para as Ilhas Marshall e, em última análise, para o ambiente mundial. Mas ainda não é suficiente. Existem áreas de alto valor natural das Ilhas Marshall, recantos únicos de biodiversidade, que ainda estão desprotegidas, e são nessas áreas que a cada ano o NRAS direciona esforços.

Nos anos anteriores, André ajudou no levantamento da fauna dos atóis de Rongelap, Mili e Namu. Rongelap vem desenvolvendo seu turismo recentemente, e preocupa que ainda não seja um parque marinho. O turismo, se desenfreado, pode trazer danos irreparáveis (como já visto em muitas áreas do planeta), e é nessa corrida contra o tempo que os voluntários do projeto trabalham. Esse ano, a equipe irá para o atol de Ailuk, e André já está de malas prontas para o embarque em mais essa aventura ambiental. Em todos esses atóis, várias fotos.

Muitas ações ainda precisam ser feitas pelo mundo afora para a melhoria do nosso ambiente. Entretanto, não dá para mudar tudo de uma hora para outra. É devagar, fazendo um pouquinho de cada vez, que um dia quem sabe, mudaremos o mundo. E essa região pristina de corais lindíssimos estará protegida para deleite das gerações futuras.

Tudo de bom sempre. E boa expedição a essa galera da pesada que colabora tanto na proteção dos mares do mundo.

Biologos no campo

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As fotos abaixo são de expedições passadas, mas valem para ilustrar a beleza das Ilhas Marshall, um dos recantos remotos mais exuberantes do nosso planeta.

Visões sobre a terra:

Nascer do sol em MiliAtol de Kwajelein
Nascer do sol no atol de Mili, e uma vista aérea do atol de Kwajelein.

Vilarejo em NamuAtol de Namu
Vilarejos e bucolismo no atol de Namu.

Cozinhando no fogao de côcoCanoa marshalhesa
Mulher marshalhesa cozinhando o almoço em seu fogão tradicional: combustível de côcos secos. Ao lado, uma tradicional canoa marshalhesa, estilo comum nas regiões micronésias.

Tesouros escondidos embaixo d'água:

Ostra giganteOstra gigante
Uma ostra gigante em toda sua majestade (animais cada vez mais raros de se achar naturalmente) e ao lado, o detalhe do manto de uma outra ostra gigante.

Tubarão descansandoBarracudas
Um tubarão descansando na pacatez de sua caverninha. Ao lado, um grupo de barracudas passeia pelas águas do atol de Namu.

Peixe-palhacoendemico, Amphiprion tricinctusRecife de coral no raso
Uma espécie de peixe-palhaço endêmica das Ilhas Marshall (Amphiprion tricinctus) em sua anêmona. Ao lado, um pedaço de recife de coral do atol de Namu.

Coral-laço rosaRecife de corais
Um coral-laço rosa (é um hidrocoral, mais especificamente); ao lado, a visão mágica dos corais perto da praia.

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P.S.: Vergonhosamente, eu, bióloga, não sabia que 22 de maio é o dia Internacional da Diversidade Biológica. Foi a Denise que me contou. Mas, por coincidência, escrevi esse post que fala justamente de um lugar riquíssimo em biodiversidade. Que viagem, não?...

P.S.2: Para comemorar a data, a Alline fez um post com dados da biodiversidade na mata Atlântica... e ela é craque no assunto, portanto, mais uma razão para todos correrem lá e lerem o post. Vale muito a pena, porque é assim que efetivamente podemos melhorar o mundo: cada um fazendo sua parte, com consciência, dedicação e primor.

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sexta-feira, maio 19, 2006

Mulheres no Everest

Acabou de sair agora, 10:20 am (horário do Nepal) a notinha do MountEverest.net e da Adventure Consultants: o time todo chegou ao topo do mundo. Isso significa que a cirurgiã Ana Elisa Boscarioli é a primeira mulher brasileira a chegar ao cume do Everest! Eu estava na torcida por mais essa vitória do alpinismo nacional!

Parabéns, Ana Elisa!

E para os curiosos de plantão, ontem a modelo polonesa Martyna Wojciechowska também chegou ao topo, tornando-se a primeira Playgirl a conquistar a montanha mais alta do planeta.

Tudo de bom sempre às conquistadoras do Everest.

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UPDATE: Com a lastimável morte do Vitor Negrete na montanha, o feito da brasileira Ana Elisa Boscarioli parece ter ficado meio "apagado" na mídia. Sem dúvida, muito triste que ele tenha perecido, principalmente porque conseguiu chegar ao topo, e se tivesse sobrevivido à descida teria sido o maior feito do alpinismo brasileiro de todos os tempos. Mas eu preciso fazer aqui algumas considerações sobre o assunto, do meu ponto-de-vista de não-alpinista (leiga, portanto, sujeita a escorregadelas, afinal eu não estava lá, outras coisas podem ter passado na cabeça dos alpinistas), mas leitora do assunto.

Como boa parte dos meus amigos sabem, eu acompanho alpinismo (principalmente no Himalaia) fervorosamente. Acho o montanhismo o esporte da superação do limite humano por excelência, porque ele perturba o cerne da fisiologia do nosso corpo: a oxigenação e a regulação térmica. (O mergulho também o faz, mas de forma muito mais controlada.) Nessa época do ano, entre abril e junho, a melhor para escalada principalmente no Everest, meus olhos não desgrudam de vários dispatches, lançados pelas diferentes expedições, em inúmeros sites de montanhismo. E para quem acompanha isso de perto, é "normal" (na medida do possível...) ler relatos de mortes pelas montanhas (principalmente no Himalaia), por uma questão simples: alpinismo é o esporte radical que mais mata no mundo (dados do livro de Jon Krakauer, "Eiger Dreams"). Ao decidir ser um alpinista, a pessoa já sabe que está entrando para uma galeria de poucos sobreviventes, é inerente à profissão. E é na tentativa de minimizar a própria morte que se diferencia o bom alpinista: cauteloso, tenta aprender com os mais experientes, sabe julgar e não se arrepender (muito) da decisão de dar meia-volta perto do cume de uma montanha, toma decisões convictas da sua segurança e do seu time, na medida do possível. O bom alpinista quer chegar ao cume, mas quer voltar dele vivo também. Principalmente, sabe que é na descida que a maior parte das pessoas padecem. Mas acidentes acontecem, e ninguém, por mais experiente que seja, está 100% a salvo deles.

Entretanto, percebo que existem "2 facções" não-declaradas de alpinistas: os "puristas" (que acham que a montanha deve ser escalada com o mínimo de intervenção tecnológica, afinal ela é quem manda no jogo e não o homem) e os "pragmáticos" (que querem chegar ao topo, não interessa o meio nem o abuso tecnológico utilizado, o homem domina a montanha com seus apetrechos). Os coreanos, por exemplo, são aberta e reconhecidamente pragmáticos: praticamente "carregam" seus alpinistas num esforço conjunto até o topo, contratam muitos sherpas, têm o que há de melhor em matéria de tecnologia ao seu dispor na montanha, usam oxigênio suplementar. Chegar ao cume é o esforço de uma equipe enorme. Vitor Negrete, embora nunca tenha declarado isso abertamente, parecia ser mais um purista em seu comportamento, no que ficava entendido pelas suas palavras no seu site e nas entrevistas que dava. Tudo bem, até aí Reinhold Messner, o maior montanhista de todos os tempos, também é um purista.

Em 2005, Vitor chegou ao cume, utilizando oxigênio suplementar, numa expedição que a princípio era para ser sem oxigênio. Por inúmeras razões, os puristas defendem que o uso de oxigênio suplementar ofusca o "brilho" da conquista - mas é fundamental em expedições comerciais, onde a pessoa (o "cliente") paga para ser levada ao cume por guias experientes - foi numa expedição dessas que a Ana Elisa foi, e sinceramente, no meu ponto de vista, tem muito mérito também, porque é a realização de um sonho chegar ao cume, e ela conseguiu. Mesmo com todo o aparato tecnológico, chegar ao cume do Everest ainda é um dos maiores desafios humanos existentes: a região é inóspita, respira-se um ar que contém cerca de 30% do oxigênio que ao nível do mar temos, é estupidamente frio; e aqueles que chegam vencem tudo isso, independente de como chegaram lá. Em geral, os puristas, quando estão contratados como guias, também utilizam oxigênio, mesmo que isso não seja o que eles fariam se estivessem por conta própria.

Em 2006, Vitor Negrete e seu companheiro Rodrigo voltaram ao Everest para mais uma vez tentarem chegar ao topo sem oxigênio, numa expedição com outros alpinistas (é comum várias expedições independentes se juntarem para dividir a taxa paga ao governo que "libera" a escalada naquela temporada, taxa esta que é bastante salgada - afinal o Tibet e o Nepal, nações economicamente fracas, ganham parte do seu dinheiro nessa época do ano, com esses "permits". Eles sabem que têm uma galinha dos ovos de ouro em casa, chamada Himalaia.). Vitor estava na face do Tibet, a menos movimentada, como em 2005. No grupo em que ele estava, há alguns dias, um britânico morreu escalando, um malaio teve congelamento dos dedos, e para terminar a maré de azar, no acampamento 2 deles, roubaram várias comidas e equipamentos - eu ainda comentei aqui em casa que nem na região mais inóspita do Everest mais as pessoas estão livres de assaltos, um absurdo.

Numa expedição que já havia apresentado todos esses problemas, com o companheiro Rodrigo se recuperando no acampamento-base, e com a janela de oportunidade perfeita (várias outras expedições chegaram ao cume nessa semana que passou), Vitor provavelmente percebeu que era a hora dele tentar também. E foi. Os sites de montanhismo e demais envolvidos no mundo do alpinismo já estão "acostumados" a esses arroubos da chamada "febre do cume" que muitos alpinistas têm, então apenas noticiaram que ele estava indo sem oxigênio, sem sherpa (o porquê do sherpa não ter ido ainda é um tanto obscuro, visto que os sherpas sempre acompanham seus alpinistas), sem rádio para comunicação (suas pilhas tinham acabado), e do acampamento 3 direto (o que dá umas boas 20 horas pelo menos de escalada incessante até o cume). Ninguém falou isso, é claro, mas ao ler tal notícia, numa expedição já tão cheia de acontecimentos prévios, o que fica nas entrelinhas é: Vitor parecia estar se engajando numa tentativa suicida. Mas, caso fosse bem-sucedido, tornaria-se um feito inesquecível. E só o próprio Vitor poderia julgar e decidir de que lado dessa aposta ele colocaria suas fichas.

Muito me admira que ele tenha chegado ao topo E conseguido voltar ao acampamento 3 nas condições em que estava, sozinho, sem muita água ou comida nem oxigênio, com o peso dos eventos anteriores da semana nas costas. Os sites de montanhismo soltaram notinhas sobre a morte dele, mas já estão todos tão "acostumados" aos perigos do esporte, que nada muito além disso foi noticiado - porque ele foi mais um número nessa temporada, infelizmente. A mídia brasileira (se bem me lembro de quando Mozart Catão morreu no Aconcágua) deve estar remoendo isso deveras, o que é uma lástima. Para a família de Vitor, ele jamais será um número nas estatísticas. A família dele merece respeito, provavelmente sabem de todos esses perigos e nuances inerentes ao esporte e sabem que, para um alpinista (principalmente um purista), a montanha é a vida dele. Chegar ao topo do mundo é vencer, e ele pereceu como um lutador de um sonho maior.

Minhas sinceras condolências à família de Vitor Negrete.

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quinta-feira, maio 18, 2006

Código quebrado

Acabei de chegar do cinema, fui assistir "O Código Da Vinci", no dia da estréia. Sala de cinema aqui perto de casa; cheia, mas não lotada. O filme? Gostei, é diversão - Cannes e Hollywood, entretanto, parece que não gostaram. É uma ação-pipoca, com momentos bem diferentes do livro - que eu li e achei uma viagem na maionese bem elaborada. Interessantemente, o livro é bastante pagão, razão pela qual estamos assistindo a essa polêmica calorosa de censura/não censura em diversos países, incluindo o Brasil. O filme... bem, eu o achei muito "você acredita ou não acredita", maniqueísta, sem meio-termos, ou seja, uma questão de crença, no final das contas.

E para mim, é paradoxal que uma história que se propôs a criticar os dogmas da Igreja tenha se tornado na tela uma questão de fé.

Mas para uma Malla leiga em cinema ou literatura, todo esse blábláblá apenas lateraliza o que realmente eu gostei no filme: as tomadas da pirâmide do Louvre, monumento de vidro que me traz tão boas recordações de uma cidade iluminada e linda.

Louvre
"She rests at last beneath the starry skies."

Tudo de bom sempre.

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segunda-feira, maio 15, 2006

Orientalidades

É comum vermos notícias do oriente nesse mundo globalizado, mas algumas notinhas que apareceram pelo mundo ocidental nas últimas semanas chamaram minha atenção pelas sutilezas. Resolvi compartilhá-las aqui, como... curiosidades orientais sob a minha visão historicamente ocidental. Ei-las.

- O Japão anda com um dilema dos mais preocupantes (para eles, é claro): seus palitinhos (ou "rashis", como é conhecido em português o utensílio oriental utilizado para comer). A China, produtora de 97% dos palitinhos descartáveis de madeira consumidos no Japão e na Coréia, resolveu inserir um imposto de 5% sobre o produto, imposto que refletirá um aumento de 30% no preço final. A medida é reflexo de uma preocupação de Beijing com o desmatamento exagerado causado pela pressão da indústria madeireira do palitinho. Obviamente, os ambientalistas adoraram a decisão. E, enquanto os japoneses debatem o que farão agora (pagar por palitinhos de madeira parece ser a alternativa mais razoável), os coreanos não se preocupam: há tempos utilizam palitinhos de metal ou inox em suas refeições, minimizando o consumo de palitinhos descartáveis e colaborando para o ambiente, no final das contas. Ponto para os coreanos.

- Mas nem tudo são cerejeiras na Ásia, e muitos ocidentais parecem saber (e reprovar) o consumo de carne de cachorro por parte dos coreanos (chamado de "boshintang", receitas mais tradicionais aqui). Antes de mais nada, é necessário explicar o hábito - come-se em geral no verão, a carne é ensopada ou cozida, considerada "medicinal", e os cachorros utilizados são criados em fazendas de abate específicas para tal, assim como o gado ou as galinhas que consumimos. A tradição é milenar, e os mais antigos ainda o fazem - há quem queira inclusive maior aceitação mundial. (Existem muitos restaurantes que servem carne de cachorro na Coréia, mas pouquíssimos deles acessíveis a estrangeiros, por sua localização "escondida" ou indecifrável grafia. Em geral, não escrevem no menu a existência da carne.) Entretanto, os coreanos mais jovens repudiam a idéia, e consideram que a fama de "comer cachorro" que os estigmatiza pode trazer consequências "deploráveis" para a imagem do país, e deve ser mudada. Muito se faz para tentar reduzir o consumo: associações de defesa dos animais ficam em cima de fazendas de criação de cachorros, e ao menor sinal de problema, fazem escândalo na mídia ou protestos nas ruas. Entretanto, são notícias como essa, pinçada do Marmot's Hole, que, quando chegam na mídia, jogam por água abaixo muitos dos esforços.

- Os coreanos pretendem, em 2008, enviar o primeiro astronauta para o espaço - nos mesmos moldes do caroneiro brasileiro Marcos Pontes, via estação russa. Se Marcos levou apetrechos brasileiros para orbitar em volta da Terra, adivinha qual será o "souvenir" coreano na ausência de gravidade? Isso mesmo, o primeiro "kimchi espacial" está sendo especialmente desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa de Energia Atômica da Coréia. É, não são só os brasileiros que enviam experimentos esdrúxulos pra passear em volta da Terra, não... (E não posso esquecer de mencionar aqui a reclamação de um pesquisador brasileiro especialista em Antárctica sobre o gasto exagerado com o astronauta Marcos. Lamentável, principalmente se lembrarmos as condições financeiras em que a ciência brasileira está no momento.)

- Enquanto isso, a China continua "exportando" chuva ácida pros vizinhos... e poeira amarela. Sem dúvida, o futuro de um mundo menos poluído passa obrigatoriamente pela China.

- Se eu fosse um pouquinho menos medrosa e mais empolgada em vulcanologia, eu viajaria agora para ver o Merapi, na Indonésia. Depois de tanto alarme, finalmente entrou em explosão piroclástica. Deve estar um espetáculo maravilhoso de se ver - e um perigo mortal de se respirar.

- A última notícia asiática vem do Nepal - de onde mais seria, né? O neozelandês Mark Inglis, amputado das 2 pernas, chegou hoje ao topo do Everest. Mark, que perdeu as pernas por congelamento em outro acidente montanhista, decidiu não desistir de sua paixão pelo alpinismo por causa de sua deficiência: pôs próteses nas 2 pernas, aprendeu a escalar com elas, e hoje, do topo do mundo, mostrou a todos que, um objetivo, se realmente almejado com esforço e dedicação, é sempre alcançável. Uma prova sobre-humana da nossa extrema capacidade de realizar nossos sonhos a todo custo.

Tudo de Ásia sempre.

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UPDATE: No mundo do mergulho, sempre que os maiores especialistas no assunto fazem aquelas "listas" de melhores locais para mergulho, Sipadan, uma ilhota na Malásia, no meio do maior centro de biodiversidade marinha do planeta, está incluída. Mais especificamente, o mergulho na Barracuda Point, lugar que de acordo com quem já esteve lá, é mais que sensacional e inesquecível. Pois ontem, aquele que é considerado um dos mais lindos recifes de corais do planeta foi completamente destruído por uma balsa descontrolada, que carregava materiais de construção. Embora Sipadan seja uma área de proteção ambiental, onde é proibida a construção de qualquer edificação desde a década de 90, o acidente aconteceu, devido à força dos ventos na área - a pergunta é: o que a balsa fazia lá, em área tão rasa, sendo que é proibido construir na ilha? Enquanto investiga-se, o jeito é lamentar e esperar algumas centenas de anos para a área revigorar de novo. Vejam as fotos desse link, do antes e depois da tragédia: não sobrou nada do recife para contar a história. De cortar meu coração.

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domingo, maio 14, 2006

Mami do mundo

Não importa onde eu esteja no planeta, qual aventura esteja participando ou se apenas vivendo a rotina diária: todo dia é com ela que estou no pensamento. Ela viaja comigo, sempre na primeira classe: vai do lado esquerdo do peito.

Mamãe amor

Todo dia é dia da minha mãe. Hoje também.

Feliz dia das mães, minha linda! A você que aguenta todas as minhas peripécias com o mesmo amor incondicional e recíproco...

Tudo de melhor sempre, mamãe!

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sexta-feira, maio 12, 2006

Pequena Kona da grande fauna marinha

Até hoje não descobri porque a cidade de Kona também é conhecida como Kailua-Kona. Por que a adição do Kailua? Eu prefiro Kona, apenas: menor, mais simples e lembra o que Kona tem de mais famoso: seu café. (Para quem não sabe, Kona produz um dos melhores grãos de café do planeta, o Kona coffee.) Mas muitas vezes, veremos escrito Kailua-Kona; saibam que, na prática, é o mesmo que Kona, pura e simples.

Quando estivemos em Kona, em fevereiro passado, eu me esbaldei no café de lá. Uma delícia! Mas me esbaldei também com o mar, e é ele que merece ser degustado aqui, tantas foram as aventuras inesquecíveis.

Kona é uma cidade pequena-mas-ajeitada, que fica do lado oeste da Big Island do Havaí, o lado mais seco, terreno árido vulcânico, com muitas rochas e pouca vegetação. O lado dos resorts de luxo afastados do mundo. O lado do vulcão dormente Hualalai. O lado dos grandes animais marinhos: tubarões, golfinhos, jamantas. O lado também que é visitado pelas baleias jubartes todos os anos entre dezembro e abril - elas viajam do Alasca até o Havaí para se reproduzir nas águas mornas tropicais. Megafauna de respeito em Kona.

Cauda de jubarte em KonaJubarte pulando
Baleias jubarte, presença certa no mar de Kona entre dezembro e abril. E quando elas pulam... é um espetáculo dos mais elegantes da Terra. Mais fotos desse espetáculo-surpresa aqui.

Como estávamos na casa de um casal amigo que possuía um barquinho, saíamos todos os dias com vários sanduíches no cooler e muita animação para nos divertir o dia inteiro no mar: mergulhar, snorkelar, pescar, nadar, relaxar. E indefectivelmente, vimos baleias, que muitas vezes nos acompanharam com seus saltos, em grupos de até 6, com filhotes ou não. É indescritível a sensação de, de repente, tomar "aquele" susto porque uma baleia pulou ao lado de onde você estava tranquilamente almoçando. Ou ver um "arco-íris da baleia", quando a luz do sol bate no vapor que sai do respiradouro dorsal delas e gera esse efeito único. Momentos que não têm preço.

Saímos 5 dias pro alto-mar, e em 2 deles, antes de nos encaminharmos rumo ao horizonte, fizemos o mergulho no Turtle Pinnacle, uma estação natural de limpeza das tartarugas, onde elas têm seus cascos limpos pelos peixes-cirurgião - uma espécie de "lava-jato" para tartarugas, e elas literalmente ficam "estacionadas" recebendo o tratamento "VIP" dos peixes, que se alimentam das algas que crescem nos cascos das tartarugas. O Turtle Pinnacle fica na saída do píer de Honokohau, e quanto mais cedo você chega no lugar, maior a chance de ver mais tartarugas na área. O mergulho é uma delícia, super-calmo, sem corrente ou perturbações, com muitos peixinhos coloridos, fauna havaiana e as tartarugas-verdes, que ficam nadando a sua volta. Lindas, lindas. (Algumas fotos podem ser vistas nessa galeria.)

No Turtle PinacleTartaruga-verde
...E eu lá, espiando a tartaruga-verde sendo limpa pelos peixes-cirurgião...

Num outro dia, foi a vez de aparecer um grupo bem grande de golfinhos, na mesma área das tartarugas. E pulavam, nadavam, faziam festa. Kona, aliás, é um dos únicos lugar do mundo onde os golfinhos rotadores se agregam numa baía - o outro lugar onde isso acontece é em Fernando de Noronha. Só que em Noronha, não podemos mergulhar com os golfinhos, há uma distância mínima a ser respeitada pela lei ambiental; em Kona, a restrição é apenas não tocá-los.

Outra aventura imperdível em Kona é o mergulho noturno com as jamantas, rankeado no top 10 dos melhores mergulhos do planeta. Na mundialmente famosa (pelo menos entre mergulhadores) baía de Ho'ona, durante o dia, há uma população enorme de enguias, as chamadas garden eels perto de um dos corais mais antigos da Big Island. À noite, o mesmo local se transforma, e é de noite que a fama local foi construída: holofotes imensos são colocados embaixo d'água, e as pessoas submergem até os 11m e ficam esperando, sentadas, o espetáculo começar, um verdadeiro Cirque du Soleil natural, como bem descreve o link acima. Com tanta luz e tanta gente com roupas e equipamentos coloridos, o mar à noite parece uma discoteca, cuja música reinante é aquele blurgh-blurgh-blurgh de bolhas de ar expelidas pelo bucal - e na empolgação do delírio eu tentei até ensaiar uns passos technos embaixo d'água. Os holofotes fortes atraem o zooplâncton para o local, e assim que a área fica entupida de zooplâncton (parece até que estamos na Amazônia cheia de mosquitos em volta, só que com água por todos os lados), chegam elas, as rainhas do evento: as jamantas. Atraídas para sua comida predileta, o plâncton, a jamanta fica passeando em círculos como uma pipa no (m)ar, de boca aberta para filtrar toda aquela refeição. Delicadeza e graça num balé alheio aos 60 espectadores humanos a sua volta - a manta não se preocupa com os mergulhadores por ali, a apreciar seu show. Os dive masters pedem para que não toquemos nas mantas de forma alguma, mas em certos momentos é inevitável, porque ela é quem te toca, você não tem escolha. Eu juro que quis me desvencilhar, mas a jamanta veio com tudo pra cima de mim. Sensação indescritível de verdadeira interação animal. Embora fosse noite, meus olhos brilhavam como um sol de tanta felicidade.

JamantaJamanta se alimentando
A Jamanta em seu balé subaquático, alimentando-se daquele universo planctônico farto que ali pairava. Mergulho imperdível na Big Island, experiência única no planeta.

Aliás, nessas saídas pro mar, em quase todos os dias o sol brilhou e reinou no horizonte, garantindo inclusive pôres-do-sol maravilhosos, dignos de fotos de cartão postal. Um dia apenas o mar estava bem revolto, com ondas chacoalhantes, e nesse dia, voltamos mais cedo para casa.

Peixes no holofotePalacio de coral
Os peixes nos holofotes embaixo d'água não entendem todo o fuzuê feito pelos mergulhadores, mas gostam da quantidade de plâncton que a luz atrai. Ao lado, o Palácio de Holihe'e no centro de Kona, feito todo com "cimento" de coral e materiais naturais da ilha, uma das estadias do Rei Kamehameha.

ABC store - KonaAeroporto de Kona
Lojinha de souvenir no centrinho de Kona - uma ABC store em cada esquina de áreas turísticas é chavão no Havaí. Ao lado, uma escultura no aeroporto de Kona, que é todo ao ar livre.

No último dia em Kona, aproveitei para andar um pouco pela cidadezinha. O centrinho é lotado de lojas de souvenir para turistas, alguns hotéis, bares e restaurantes, tudo em clima de aloha-praia. Mas é claro, estamos nos EUA, e nunca se está muito longe de um Wal-Mart ou de uma Macy's, embora as pessoas queiram acreditar que ali é um paraíso isolado do Pacífico. Cabe a cada um realmente tornar o Havaí o seu paraíso pessoal. O aeroporto de Kona, de onde a gente se despediu da Big Island, parece carregar essa mensagem em seu design: ao ar livre, as cabaninhas simples de madeira contrastando com as modernas máquinas de raio-X servem para nos lembrar que estivemos num pedaço americanizado do paraíso. Mas ainda assim, não menos perfeito.

Praia típica de KonaPôr-do-sol em Kona
Uma praia típica de Kona: areia preta vulcânica, muitas rochas de lava e pouquíssima vegetação - no caso, apenas um coqueiro solitário. Ao lado, um pôr-do-sol maravilhoso e inesquecível na saída do píer de Honokohau: o paraíso é aqui.

Tudo de bom sempre.

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P.S.: 1) Existe uma preocupação ambiental de que o número de barcos de "whale watch" nessa época no Havaí esteja crescendo demais, e com isso o número de colisões com as baleias vem aumentando consideravelmente. Há um lado positivo da situação, entretanto: acredita-se também que as populações de baleias estejam aumentando, por isso, mais encontros com humanos. E em algum lugar do planeta saber que mais baleias jubarte, espécie ameaçada de extinção, têm sido avistadas, é sempre uma boa notícia.

2) Parabéns, Manu! Muitas felicidades no dia de hoje e sempre para você!!!

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quinta-feira, maio 11, 2006

Dia doce

Para a mais doce prima do planeta, cuja doçura me inspira constantemente a ver o mundo com olhos de insulina, o melhor feliz aniversário do mundo!!!!

Danielle reveillon 04-05

(E se você ainda não a conhece, foi para ela que eu especialmente escrevi esse post imenso aqui.)

Danielle, tudo de bom sempre para você, minha prima querida.

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quarta-feira, maio 10, 2006

10 anos rarefeitos

Parece que foi ontem que eu li a história na Veja. Mas já se passaram 10 anos.

Hoje faz 10 anos da maior tragédia everestiana de todos os tempos, que custou em um só dia a vida de oito alpinistas, deixou outros tantos feridos e/ou marcados para sempre, e mudou a forma, a perspectiva e a filosofia com que as expedições à montanha mais alta do planeta são elaboradas e executadas desde então. Tragédia relatada com primor realista no clássico livro de Jon Krakauer "No Ar Rarefeito" ("Into thin Air", em inglês, um dos meus prediletos de todos os tempos), que gerou muita discussão e controvérsia na época, foi reportado em parte pelo magnânimo-superbo-máximo-fabuloso-incrível-premiadíssimo documentário em IMAX "Everest", de David Breashers, virou filme tosco de TV e até estudo científico de psicologia, e ainda hoje, leva muitas pessoas a refletir sobre a importância de escolhas feitas sob pressão, da forma mais crua e dura possível.

A todos aqueles que se aventura(ra)m pelo ar rarefeito das montanhas do Himalaia buscando, acompanhando ou ajudando a realização de sonhos, minha admiração, carinho e respeito.

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domingo, maio 07, 2006

Festival Hi Seoul 2006

Sexta passada foi feriado aqui na Coréia: dia das crianças. Por coincidência, no mesmo fim-de-semana do feriado, houve o festival anual de primavera Hi Seoul. O festival é organizado pela prefeitura de Seul e quando ele acontece, o centro de Seul, na região próxima à prefeitura, fica coberto de barraquinhas de tudo quanto é coisa, de comida a verificação de pressão cardiovascular, e um palco enorme é montado no gramado, onde grupos folclóricos, artistas pop coreanos, e grupos de comédia se apresentam. Sem dúvida, se você quer conhecer um pouco da cultura coreana numa levada só, o fim de semana do Hi! Seoul é o momento certo para visitar a cidade. Há inclusive cursos para estrangeiros sobre tradições coreanas, como a cerimônia do chá e de tambores.

Um pedaço do festival é reservado a um aglomerado de barraquinhas representando diversos países, e é claro, uma barraquinha do Brasil que, graças aos esforços espetaculares da Associação Brasil-Coréia (ABC), está sempre sendo representado no meio da bagunça. No ano passado, fomos apenas ver qual era a do festival, e passamos uma tarde toda curtindo comidas do Sri Lanka e da Coréia, vendo shows de capoeira e conversando com os brasileiros. Esse ano, resolvi ter uma participação mais ativa, e me voluntariei para vender pastel na barraquinha brasileira. E sexta de manhã, peguei o metrô, rumo à fritura.

Brasil no Hi Seoul 2005Capoeira versão Coréia
À passeio no Hi Seoul de 2005, papeando com os brasileiros. Ao lado, a capoeira brasileira exportada em versão Coréia.

Assim que cheguei, já entrei no ritmo de trabalho, que estava uma verdadeira linha de produção de pastéis. Não há muitos brasileiros em Seul (registrados na embaixada, apenas 53), mas conheci vários rostos novos, recém-chegados ou de passagem pela cidade, que não estavam no ano passado. A barraca do Brasil estava entre a do Afeganistão (que tinha um bolinho de carne sendo frito com uma cara deliciosa) e a do México - que vendia um churro lotado de calda de chocolate com o sugestivo nome de "gordito". Num intervalo de folga, fui andar, e um pouco mais adiante, achei a barraca do meu amigo nepalês, vendendo pão naan feito na cumbuca especial usada pelos nepaleses, e um molho de curry muito delicioso. Como conhecia o moço do Nepal, ganhei muito lassi de graça - bebida feita com iogurte que eu amo! Me esbaldei em lassi.

Barraca do AfeganistãoNaan assando na cumbuca nepalesa
A barraca vizinha, do Afeganistão, que também não parava de vender bolinhos de carne. Ao lado, o pão naan, num formato de viola, sendo assado na cumbuca tradicional nepalesa.

Hi Seoul 2006Fazendo pastel
A barraquinha do Brasil no Hi Seoul 2006, em sua agitação típica, e ao lado, ralando na confecção de pastéis de frango, de pizza e de misto.

Os pastéis que fritávamos não davam vencimento: mal saíam da frigideira e já eram vendidos. Perdi as contas de quantos fiz, foi o dia inteiro ajeitando massa, recheio, e ouvindo forró. E dando risadas com os brasileiros, naquela alegria contagiante verde-amarela que os coreanos transeuntes admiravam e aplaudiam. Até foto pro jornal nós tiramos. Às seis da tarde, a massa de pastel acabou, mas ficamos conversando por lá e entretendo a galera até quase 9 da noite. Uma festa de primavera, mesmo.

Voltei para casa de metrô, cansada e fedendo a fritura, mas satisfeita com o resultado de um trabalho tão curtido. Valeu, galera da ABC!

Sopa coreana também vale
Tomando sopa coreana, na primavera de Seul.

Tudo de bom sempre.

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quarta-feira, maio 03, 2006

O nome dos nossos genes

...E foi só eu me atrever a escrever um tempo atrás sobre falta de criatividade dos cientistas para aparecer algo que me contradissesse completamente. Hoje recebi pelo correio um calendário de palestras para um Congresso de Biologia Molecular aqui em Seul. Seria apenas mais um calendário, se não tivesse começado a folhear e perceber, pelo título das palestras, a notável criatividade dos cientistas para nomear... genes.

Nossos genes têm uma maneira oficial de serem nomeados, de acordo com o comitê de Organização do Genoma Humano - o HUGO. E são mais de 21,000 conhecidos em nossas células. Pois bem, Hugo estabelece normas específicas para a nomenclatura dos genes humanos (e por consequência, todos os genes de seres vivos seguem praticamente a mesma regra), evitando assim que os mais narcisistas saiam por aí fazendo auto-homenagens infundadas. (Já pensou se existisse o gene "Malla" em cada um de nós?) E, como diria Arnaldo César Coelho, a regra é clara:

- genes devem ter símbolos que são abreviações e/ou descrições de seu nome completo - ou seja, um apelido fácil
- genes não podem ter nomes repetidos (2 genes não podem ter o mesmo nome nem o mesmo apelido)
- genes devem ser escritos em letras romanas e/ou números arábicos
- apelidos gênicos não têm pontuação
- apelidos gênicos não podem ter em seu nome a letra "g" para denominar gene. Senão, todos os genes terminariam em G, o que seria meio inócuo.

E assim, organizaram-se os PTPs, JNKs, MPMs, PKAs... todos abreviações vindas do nome em inglês que traz um significado intrínseco de sua função, localização ou algo que o valha.

Já as proteínas (o produto final de cada gene) têm uma nomenclatura variada - a regra não é tão clara ainda. Algumas estabeleceram-se pela tradição (ninguém vai querer mudar nessa altura do campeonato o nome da insulina, né?), outras foram batizadas com nomes derivados de sua função - fica bem fácil por exemplo imaginar em que momento do ciclo da vida a cadaverina toma conta do corpo. As mais novas proteínas identificadas em geral seguem regras aleatórias, que vão desde o uso do mesmo nome do gene (como a PTP) ou de referências à sua localização no organismo (como a endotelina).

A humanidade, como todos sabemos, prima pela criatividade em momentos adversos. E é claro, nomes e apelidos de genes e proteínas saíram desse mundo de sopa de letrinhas sem graça para virarem uma verdadeira competição de exotismo e humor contidos em uma abreviação. Sabe o projeto experimental dos mini-contos? Pois bem, a sensação é de que existe algo assim rolando nos bastidores dos laboratórios, tamanha viagem na maionese em alguns casos. Por exemplo, entre as palestras do Congresso que citei acima, um grupo falará sobre o gene POLTERGEIST.

Arregalei os olhos. Existe um gene chamado POLTERGEIST? Sim, e é um gene de planta. Comecei a fuçar no Pubmed (o diretório de artigos científicos mais usado pelo mundo afora) e achei outros genes e/ou proteínas com nomes pra lá de hilários. Separei alguns exemplos para um divertido estudo sobre a natureza humana dos cientistas - ou pelo menos, sua "criatividade":

CHIP (um CHIP dentro de cada um de nós, que coisa mais Matrix!), hip e hop, Mad e Max (seria a continuação do filme?), Saxophone(um gene não só de músicos), Osterix (como se não bastasse o Pokemon para "invadir" os laboratórios...), Teashirt (auxiliado pela proteína Grunge), Swiss cheese (hmmm!! Esse gene me deu fome...), Secret agent (que trabalha com o gene Spy), PICKLE, Tigger (a fera dentro de nós!), Lamp, Id e Ego, Aurora (Brilhando no horizonte terapêutico?), Mustang, Smurf (mais quadrinhos... esse exemplo eu pincei num artigo entitulado "Um novo Smurf na Vila", que termina com a pérola: "(...) it seems likely that the world will be an even "Smurfier" place in years to come." Por um mundo mais Smurf - whatever this means.)

Depois tem quem diga que cientistas são pessoas sisudas, sem senso de humor... uma coisa é certa: na ciência, ganha-se pouco, mas muito se diverte!

Tudo de bom sempre.

PS: Alguns médicos tiram toda a graça dos geneticistas...

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Ontem foi aniversário da mulher mais maravilhosa do mundo: minha mãe. Parabéns, minha linda!! Você é a minha inspiração diária para sempre batalhar pelos meus objetivos com muita singeleza e alegria.

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