Uma Malla pelo mundo Interney.net/blogs/malla

sábado, setembro 30, 2006

Em jet-lag

Mas breve volto ao normal. Aguardem.

Tudo de bom sempre.

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segunda-feira, setembro 25, 2006

Arrobúrguer

Os costumes locais terminam falando mais alto mesmo, não tem jeito. Adapta-se à novidade até um certo ponto, mas há um momento em que, ou se incorpora o velho ao novo, ou corre-se o risco de sucumbir às exigências do costume público. E a diversidade surge assim no mercado global.

Não é que a rede coreana de lanchonetes Lotteria (estilo idêntico ao McDonald's, inclusive nas cores) implantou um novo hambúrguer no cardápio? A invenção é a verdadeira miscelânea asiática: ao invés de pão, o sanduíche vem em bolos de arroz no formato de pão. Sushi de hambúrguer ou hambúrguer de arroz, eu não sei, mas que o gosto da mistura foi aprovado... ah! Isso foi.

Arrobúrguer
O "arrobúrguer" do Lotteria.

Além dessa viagem arrozística asiática, a mesma rede vende ainda hambúrguer de camarão (uma maçaroca de camarão frita, que é meu favorito de todos os tempos), de kimchi (o prato nacional da Coréia, feito com acelga fermentada em pimenta) e de bulgogi (um estilo de carne de boi desfiada vendido aqui, com gosto peculiarmente coreano). Na Ásia ou no Brasil, não adianta, vale a máxima do comércio: o freguês tem sempre razão (e escolha). Mesmo que para isso seja necessário reverter o conceito básico do produto culinário mais simples e plastificado do mundo: o sanduíche.

Tudo de bom sempre.

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sexta-feira, setembro 22, 2006

Outono

Ontem foi dia da árvore. E o outono começou. A lembrança mais clara de que as árvores são lindas: folhas coloridas.

Outono em Seoraksan

Hora de renovar as cores da vida, não?

Um belo início de estação a todos que viajam por este blog - que hiberna um pouco enquanto eu dou uma voltinha pelo mundo afora.

Tudo de bom sempre.


*A foto foi tirada no Parque Nacional de Seoraksan, na Coréia do Sul, viagem do ano passado.

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quinta-feira, setembro 14, 2006

Pequenas (e densas) anotações de viagens virtuais 14

1) Domingo passado eu participei de uma festa online num blog. Fiquei caladinha o tempo todo, apenas ouvindo os diversos burburinhos que a festa produzia, e a experiência foi muito interessante. A festa foi no blog do Dr. Peter Rost, ex-vice-presidente da Pfizer, conhecido dentro da indústria farmacêutica por seu estilo "agressivo" de gerenciamento. O blog dele vem causando dores de cabeça à indústria farmacêutica, porque nele Dr. Rost conta absolutamente tudo que sabe sobre as falcatruas existentes entre governo, FDA e indústria, e conta detalhadamente porque foi demitido ao descobrir um mega-esquema de sonegação de impostos. A briga é entre peixes grandes. E mostrando que seu estilo de líder se reflete também na internet, ele bolou essa festa online. Foi a primeira vez que vi tal iniciativa, e adorei. O motivo da festa foi o lançamento do seu livro "The Whistleblower" (comentários sobre o livro aqui). Havia ambientes para todos na festa: o salão principal, a sala de músicas, sala de conferências e, claro, a irônica sala de treinamento de vendedores de medicamentos. Teve até penetras. Durante a festa, dei um bom passeio pelo blog: ler o que ele escreve nos arquivos sobre a indústria é simplesmente fundamental - e inacreditável (principalmente posts como esse). Sinal claro das implicações do que Dr. Peter Rost vem denunciando: o novo CEO da Pfizer é um advogado. Tenham medo.

2) Toda semana, o Coturnix promove um tema específico. Ele é um especialista em relógio biológico, e sofre do que chama de "blogorréia": publica mais de 10 posts em média por dia no seu "Blog Around the clock" - além de participar em pelo menos uma meia dúzia de outros blogs. Essa semana, o tema específico foi bastante interessante: o horário escolar ideal para adolescentes (também merece leitura sobre o mesmo tema esse post). Vindo direto dos arquivos, ele deu boas explicações sobre por que os adolescentes dormem tarde e reforçou a idéia de que as escolas deveriam olhar para a biologia humana do sono e começar as aulas da manhã mais tarde no segundo grau. Coturnix comenta que algumas escolas nos EUA fizeram a mudança de horário e os adolescentes aumentaram consideravelmente seu rendimento escolar. Faz sentido - palavras de uma eterna sonolenta nas primeiras aulas do dia do colégio.

3) De acordo com essa reportagem da Science - que a Nature também comentou -, nós já vivemos num planeta com falta d'água. Quando é que vamos abrir os olhos e começar a economizar água ou pelo menos gerenciar melhor os recursos hídricos?

4) Os 10 anos da tragédia do Everest foram comentados de forma especial nas páginas da National Geographic. Beck Weathers, o alpinista que praticamente ressuscitou em 1996, comenta sua aventura e sua vida depois de tantas amputações. Imperdível para quem sofre de febre everestiana. E nesse mesmo mote, Marcos Sá Correa fez um resumão em português aqui, comentando sobre o fiasco da temporada desse ano, quando o alpinista David Sharp, de uma equipe menos "abonada", foi praticamente deixado pra morrer nas encostas da montanha por 40 pessoas. Isso mesmo: 40 pessoas. Até Sir Edmund Hillary se pronunciou horrorizado com o caso. O título do artigo de Marcos diz tudo: o Everest está virando um circo.

5) Eu esbarrei nesse site - que abre em alemão, mas pode ser lido em português e inglês também. É de uma pousada numa favela carioca, para gringos only (ou quase). É interessante perceber que a página sobre a segurança do local não foi traduzida para o português, mas em inglês o texto usa de explicações surreais para atrair a clientela mochileira e disfarçar a falta de segurança carioca. As desculpas até colam um pouco, e apesar do receio (porque eu leio os jornais brasileiros e a realidade sei que é mais embaixo), fiquei com vontade de conhecer o local, bem "jeitinho brasileiro" de turismo. A vista da laje da pousada é muito bonita, daria excelentes fotos.

6) Falando em fotos, tem galerias novas lá na ArteSub. Dessa vez, diferentes lugares: Fernando de Noronha, Palau, Apo Island (que comentei aqui), atol de Namu e de Ailuk, ambos nas Ilhas Marshall. Viaje por lá. É relax garantido.

7) Eu estava arrumando minhas fotos no computador e achei essa divertida "pérola" do arquivo:

Tubafusca

É um dos carros do Aquário Kelly Tarlton's, em Auckland, na Nova Zelândia. Esse aquário, aliás, tem uma exposição permanente sobre Antárctica que é nota 10. Mas eu achei a barbatana do "tubafusca" um charme só!

Tudo de bom sempre.

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segunda-feira, setembro 11, 2006

11 de setembro de 2001

Eu estava chegando para trabalhar no laboratório - na época, em Boston. Tinha acabado de fazer a tradicional caminhada pela Longwood, ainda sonolenta. O dia estava ensolarado, dos mais bonitos que vi por aquelas bandas. Lembro-me da roupa que vestia com clareza: a mesma blusa amarela que hoje, 5 anos depois, coincidentemente vesti para trabalhar. Na entrada do prédio, meu ex-chefe falava ao celular, e assim que desligou, me noticiou: "Parece que houve um acidente aéreo em Nova Iorque, um avião bateu numa das torres do World Trade Center". Comentamos o fato no elevador, mas nada além de considerar um mero "acidente de aviação". Lembro de comentar ingenuamente que no próximo fim-de-semana iria a Nova Iorque pela primeira vez, queria visitar as torres - "tomara que esse acidente não embace meus planos".

Em poucos minutos, a notícia de mais um avião se chocando, dessa vez, na outra torre. Iniciou-se o burburinho nas bancadas: pode ser um ataque terrorista. Era terça-feira, o dia mal começara, e eu, com um organograma semanal atolado e pouco flexível de trabalho, tinha muitos experimentos a fazer. Fui para a sala de cultura, área mais isolada, dividir meus pensamentos inócuos com os pratos de células de mesotelioma. Não tinha a menor idéia do que viria pela frente.

Ao sair da sala, meia hora depois do segundo avião bater no WTC, percebi que as pessoas já não tinham o mesmo rosto descontraído do momento em que entrei no laboratório. Parecia que o tempo tinha avançado milênios naquela meia hora em que me desliguei dos outros. E o tempo corria como louco, porque em poucos segundos muita informação cruzada chegava, muitos boatos e preocupações... John, o técnico do laboratório, normalmente uma pessoa super-calma e imperturbável, estava grudado no telefone: seu primo trabalhava no Pentágono, e queria ter notícias. O outro John, meu pacato companheiro de bancada neozelandês, dava "refresh" incansavelmente na página do NYTimes - que estava com um tráfego tão enorme, que logo colapsou e saiu do ar. A solução de John foi a de quem quer notícias a qualquer custo: ler jornais neozelandeses, australianos, britânicos e afins. Ninguém conseguia ligar para Nova Iorque, e o outro chefe, que tinha um filho morando em Manhattan, estava abatido e obviamente muito preocupado. Um rádio do laboratório foi ligado no volume máximo na estação de notícias: todos alertas e chocados, não acreditando no que ouviam.

Depois que as torres colapsaram, o Pentágono foi atingido, e o vôo United 93 caiu na Pensilvânia, o mundo e o tom das pessoas mudou. Se antes pensávamos em acidente, agora era claro que uma ameaça maior existia. Meu ex-chefe, em meio àquela perplexidade toda, veio me dar uma boa notícia: o artigo da minha tese de mestrado havia sido aceito para publicação - e registrado nos anais da ciência com a data "10 de setembro de 2001" encravada perto do título. O último dia da velha ordem mundial era o dia do meu debut na ciência. (Que ironia...) Confesso: naquele momento, eu estava tão anestesiada pelo que acontecia em Nova Iorque que mal captei a mensagem e não comemorei minha primeira publicação científica. Acho que disse ao ex-chefe algo como: "Que bom, mas hoje não é o dia para isso".

Já era quase hora do almoço. Mas ninguém queria sair de perto do rádio. Fui almoçar com uma amiga e uma sensação estranha no peito, um incômodo. Rumores cresciam de que os prédios mais altos de Boston estavam sendo evacuados por medo de outros ataques. E nós dentro de um prédio alto com tantos perigos ao redor (radioativos, materiais infectados, animais contaminados, etc.). Medo de bomba no ar. Rádio ligado. Olhos esbugalhados. Burburinhos corriam sobre as cenas chocantes das pessoas se jogando desesperadamente do alto do WTC, mas como eu estava ouvindo as notícias pelo rádio, não conseguia imaginar a dimensão de tudo. Boatos da Al-Qaeda envolvida, 2 dos aviões haviam partido do aeroporto de Boston (Logan), a cidade em alerta máximo, o FBI na rua, e com tudo isso, uma menina que trabalhava conosco cujos parentes moravam na Jordânia, não agüentou e despencou numa crise de choros: "Eles vão matar todos os árabes!" era o que ela clamava.

Coincidentemente, no dia 12/setembro começaria em Washington, DC, o Encontro Anual de Tiróide - e boa parte do laboratório estava de certa forma envolvida nesse evento. A maior parte com passagens aéreas marcadas para o dia seguinte pela manhã. Tivessem os terroristas atrasado um dia e muitos dos meus colegas de trabalho poderiam estar no mesmo corredor do Logan ao lado de suicidas e vítimas possíveis. No dia, pensamos que talvez meus colegas pudessem ser essas vítimas, mas as rotas escolhidas logo trouxeram um "conforto utópico" de que não seriam. Mas é claro que ninguém estava confortado plenamente. Uma das minhas colegas, aliás, viera do Brasil com a família: emendaria o congresso com férias nos EUA. Ela já estava em Washington no dia 11/setembro, e passou por sufoco muito maior, com os filhos pequenos chorando numa cidade sob tensão máxima, sem poder sair de dentro do hotel - ordens do FBI para todos os prédios mais movimentados de Washington. Férias definitivamente frustradas.

Fiz ligeirinho meu experimento do dia - cujo resultado naquela semana foi um fracasso, tive que repetir tudo na semana seguinte. Às 4 da tarde, fomos "liberados" para ir embora, mas muitos dos meus colegas já tinham ido há tempos. Respondi os emails que chegavam perguntando se eu estava bem - foram 52 durante aquele dia. Fiquei no laboratório ainda até umas 6 da tarde, nem sei por quê, acho que em estado de choque. Poucos ônibus circulavam, e eu me lembro de estar muito confusa no ponto de ônibus, quando finalmente o "39" apareceu. Ufa. Cheguei em casa, e meus colegas de pensionato já estavam todos lá, em polvorosa.

Pam era uma das minhas roommates, e o pai dela trabalhava fazendo entregas. Todos os dias de manhã, no subsolo do WTC, deixava muitas caixas: essa era a rotina dele. Com os telefones em Nova Iorque e adjacências não funcionando de forma alguma, Pam passara o dia inteiro tentando contactar o pai de alguma forma (celular, companhia onde trabalhava, amigos, etc.) e não conseguira. Ao ver uma amiga em desespero, meu coração disparou: será que o pai dela saíra antes do colapso do prédio? Todos da casa tentavam confortá-la da maneira que dava e sentamos na frente da TV da sala, vendo os jornais e esperando o pronunciamento do presidente. Parecia que até a gatinha da casa, Cleo, entendia o que se passava, porque não pediu comida nem atenção naquela noite como normalmente fazia quando estávamos assistindo televisão.

Ao ver as cenas do WTC no jornal da noite e ouvir Pam chorando pela casa, parece que finalmente a ficha da tragédia caiu na minha cabeça e eu saí do estado meio que anestesiado que estava até então. Após o pronunciamento na TV, tivemos algumas reflexões políticas bem superficiais e eu fui (tentar) dormir. Óbvio, não consegui, e voltei pra sala, dessa vez tentando achar um canal que não mostrasse aquele horror. Vi desenho animado, mas meu cérebro não descansava.

Era 1 da manhã quando Pam finalmente conseguiu falar com o irmão em Chicago, que conversara com o pai minutos antes. O pai acabara de voltar pra casa. Ele estava vivo, e viu, parado num engarrafamento em Nova Jersey, o primeiro avião bater na Torre do World Trade Center. Disse que estava atrasado para o serviço, dormira demais e que ficou perplexo com o até então ainda "acidente". O engarrafamento só piorou depois disso, impedindo-o de entrar em NY para fazer suas entregas. Ficou preso no trânsito caótico praticamente o dia inteiro, e sem meios de contactar a família para dizer que estava bem - nenhum telefone ou email funcionava em NY. Assistiu do outro lado da margem do rio as 2 torres colapsarem.

O resto é História.

Tudo de bom sempre.

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- Nunca havia escrito sobre meu 11/setembro antes. Nunca comentei com amigos e parentes em detalhes como fora o meu dia fatídico. Já era hora de relatar e registrar em algum lugar o que pensei naquele dia fatídico. Alguns fatos/eventos provavelmente foram esquecidos, já se fazem 5 anos e a memória não é mais a mesma. Uma "leitora casual" desse blog que estava comigo no dia pode talvez acrescentar mais detalhes perdidos pelo tempo.

- O dia 12 de setembro de 2001 foi o dia mais mortalmente silencioso que presenciei na vida. Ninguém falava nada, um engasgo na garganta generalizado. Bandeiras a meio-pau. Uma cidade grande e cheia de gente se tornou por alguns dias das mais introspectivas do planeta.

- Fui a Nova Iorque apenas 6 meses depois.

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sábado, setembro 09, 2006

Blogs e Academia

Eis que chega a primavera no hemisfério sul do planeta (porque aqui onde moro o vento frio do outono já paira no ar...) e com ela, mais um ciclo de discussões no Roda de Ciência. Nesse mês, decidimos discutir sobre uso da internet na academia.

Não sou muito velha, mas ainda me lembro de aprender na faculdade como fazer levantamento bibliográfico usando os livros (!!!) do Current Contents (CC) e do Biological Abstracts (BA) - que nem devem mais existir em versão de papel. Eram livros de referências, inúmeros volumes alfabeticamente organizados, em papel fino e com letras miúdas, que me davam dor de cabeça só de olhar. Mas, nos primórdios da era pré-popularização do computador, as pessoas iam à biblioteca da universidade cruzar palavras-chaves na base do suor da mão e da caneta. Haja trabalho e perda de tempo. Quando me lembro disso, é difícil não associar a velocidade das descobertas científicas hoje em dia com a rapidez de busca da informação que vemos - o advento dos bancos de dados online como PubMed ou SwissProt permitiram que o trabalho de muitos dias numa biblioteca se transformasse em minutos na frente do computador, agilizando todo o fluxo da pesquisa e a obtenção de respostas no campo biológico. A internet conectou a academia mundial, e isso, por si só, já é de valor incalculável, verdadeira revolução no paradigma.

E com a conexão mundial, maior probabilidade de discussões relevantes, maior possibilidade de interdisciplinaridade e concatenação de idéias. Mais colaboração entre laboratórios distantes, mais comunicação entre desconhecidos de uma mesma área de atuação. Ter uma conexão no laboratório passou a ser fundamental, peça básica para o fazer ciência. E com a conexão da academia, não tardou a aparecer quem usasse seu tempo-livre no laboratório para dissipar suas opiniões sobre ciência de alguma forma, seja em listas de discussão, emails ou fóruns. Daí para o surgimento dos blogs de ciência foi um pulinho de nada, uma mera adaptação à nova plataforma que surgia.

Se a mudança de Current Contents de papel para PubMed online foi uma revolução no fazer ciência, a chegada dos blogs de ciência está sendo, em minha opinião, uma revolução na divulgação científica. Seu papel: levar tópicos de ciência, coletados em revistas especializadas ou não, para o grande público, de uma maneira agradável, dinâmica e principalmente, passível de discussão. Entretanto, diferente das listas de discussão ou dos fóruns especializados, onde em geral quem orbita são interessados no tema e onde os comentários podem se tornar muito herméticos e tecnificados, dificultando o acesso ao leigo, nos blogs há teoricamente espaço para todos, leigos ou não, que lêem um texto em geral escrito por um acadêmico ou entendedor do assunto. Não sei explicar o por quê - talvez seja o dinamismo intrínseco ao sistema "blog" ou a popularização da internet - mas sinto que as pessoas ficam mais desinibidas em deixar suas questões nas caixas de comentários dos blogs. E com isso, a discussão científica pode se tornar enriquecida e mais abrangente, com o leigo envolvido na discussão de forma mais direta.

É o que vem acontecendo em geral. Os blogs de ciência (principalmente aqueles falados na língua internacional da ciência, o inglês) têm acrescentado pontos-de-vista mais ricos e detalhados a discussões que em outros tempos estariam enfurnadas aos jornais tradicionais e ao bate-papo dos congressos científicos. Vide por exemplo o debate sobre ensino de evolução no nível médio dos EUA (uma tentativa dos criacionistas criarem uma dicotomia falaciosa inexistente na ciência), que levou ao surgimento de vários blogs de evolução de altíssima categoria escritos por acadêmicos estudiosos do tema (Panda's Thumb sendo o melhor deles). A rede mostrou-se uma ferramenta útil para o esclarecimento científico de uma decisão que possuía profundas implicações políticas e sociais.

Tal força de coesão obviamente chamou a atenção do mainstream media - e algumas revistas científicas que inicialmente eram relutantes ao formato, hoje têm seus próprios blogs como forma de aumentar a interação com seu leitor ou relatar aspectos que ficam de fora de suas páginas "tradicionais". E auxiliando na introdução e explicação da ferramenta blogueira aos acadêmicos mais "relutantes" em espalhar suas idéias pela rede - eles ainda são muitos, infelizmente, afinal, muitos desconfiam de colocar idéias em ebulição na internet.

Meu lazer predileto nas horas vagas sempre foi ler artigos diversos de divulgação científica, afinal, tenho muita curiosidade em saber como a ciência hardcore é capturada pelo leigo via jornalismo. E cada vez mais, junto aos artigos da mídia tradicional, eu leio blogs de ciência, para principalmente ouvir o que os sérios entendedores do assunto têm a falar nos tópicos mais diversos. Há inúmeras concepções científicas que merecem esclarecimento ainda, mas acredito que num futuro próximo, os acadêmicos perderão esse medo infantil dos blogs (e da internet), e contribuirão cada vez mais na divulgação, diminuindo o abismo existente. E quanto mais claro um experiente acadêmico no assunto falar e/ou criticar um tópico de ciência, mais fácil para o leigo absorver o conceito e repercuti-lo de forma correta. Ponto para a educação científica geral, sem dúvida.

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Para pensar...

- Mais recentemente, uma audaciosa sugestão foi dada pelo blog da Nature: que os pesquisadores coloquem seus dados abertos na rede, em blogs ou não. Ainda há muita relutância, principalmente por causa do roubo de dados (sim, isso é um lado horrível da ciência que infelizmente existe). Mas acredito que blogs narrando pelo menos experimentos ou técnicas que não funcionam ("troubleshooting blogs") já seriam de uma ajuda incrível - aumentaria ainda mais a velocidade de geração de dados, porque diminuiria o tempo que muitos pesquisadores ficam quebrando a cabeça para tentar fazer uma técnica funcionar. Acho que qualquer estudante de pós-graduação da área sabe bem o quanto isso agilizaria uma tese... Será que a idéia cola?

- Li há algum tempo que blogs já são considerados em alguns campos uma vantagem para conseguir emprego. Podem ser valiosos em informações sobre o candidato de uma vaga. E na academia, será que eles influenciarão algo? Será que um pesquisador que bloga terá mais chance de crescer dentro da hierarquia acadêmica científica?

- Esse é um cross-post, minha participação do mês no Roda de Ciência. Os comentários devem ser feitos lá no Roda, ok?

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quinta-feira, setembro 07, 2006

Uma última palavra sobre Steve Irwin

Li inúmeros artigos nos últimos dias sobre arraias e afins, de relatos de acidentes a problemas de super-uso de banda larga na Austrália por causa da notícia que abalou o primeiro-ministro australiano e considerável parte da blogosfera científica séria - escrevi inclusive o post abaixo para desencargo das melancolias que passaram pelas minhas sinapses de bióloga apaixonada pela vida. Entendo os prós e contras do trabalho dele. A cabeça dói.

Mas é com pesar que digo que infelizmente, o título de "pior artigo de opinião leiga sobre a morte de Steve Irwin" é de um brasileiro. O tom desrespeitoso ao final, confesso, perplexou-me - e olha que eu raramente me abalo com as ruminações mal-humoradas dos outros. Mas, ainda bem que vivemos em 2006 e existe a internet, onde encontrei artigos opinativos mais moderados: os editoriais do Der Spiegel e do New York Times desviaram meus olhos. O mais interessante é que o artigo do Spiegel usa inclusive a mesma analogia que o brasileiro usou, mas com um enfoque tão mais astucioso... Entendo os prós e contras do trabalho dele, entendo as divergências de muitos, mas não entendo desrespeito gratuito.

Uma frase do artigo do NYTimes sumariza bem:

"He was 44 going on 6, and lived, like Sean, (uma criança de 6 anos citada no texto do Times) in a world of fun and excitement that seems a lot richer than most people’s."

E eu, criança de 31 anos apaixonada por bichos, voltei a sorrir. :)

Tudo de bom sempre aos que fazem a vida valer a pena - qualquer vida, sem preconceito de número de cromossomos ou cor do casco.

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segunda-feira, setembro 04, 2006

Arraias e a morte de Steve Irwin

A essa altura do campeonato, já estão todos cientes da infortunada morte de Steve Irwin, conhecido como "crocodile hunter". Uma pessoa apaixonada por animais selvagens e que, apesar dos modos ortodoxos, era um bom conservacionista, disposto a compartilhar uma paixão ímpar: queria mostrar a todos o quão encantadores os bichos selvagens, mesmo os considerados mais "agressivos", podem ser. Não me elongarei demais sobre Steve, vítima de um acidente raro - ou seja, teve muito azar durante o fato. Fiquei realmente triste ao ler ontem a notícia no Sidney Herald - foi o primeiro jornal a publicar; eu cheguei lá pelo blog australiano Blue Beyond. Tudo que posso dizer é que envio meus pêsames a familia Irwin.

O mais bizarro e merecedor de esclarecimento em minha opinião é a causa de sua morte: ferido no coração pelo veneno injetado pelo aguilhão de uma arraia.

ArraiaUW18-5
Arraias no seu ambiente. As fotos foram tiradas no "Stingray City", nas ilhas Cayman.

A arraia (ou stingray, em inglês - eu prefiro chamar assim no dia-a-dia) sem dúvida pode machucar uma pessoa, isso é notório. Ela possui um ferrão cheio de dentinhos afiados e com veneno (o chamado "aguilhão") que carrega no dorso, para se livrar de predadores indesejados. Mas os conhecedores do assunto entrevistados desde ontem são todos unânimes em afirmar que casos de morte por arraia são pra lá de raros: a maioria dos profissionais sequer presenciou na prática um caso letal (há artigos diversos comentando a potencialidade de morte, mas sempre enfatiza-se a natureza rara do acontecimento). Um dos poucos relatos de fatalidades na literatura médica especializada que encontrei, por exemplo, é de 1958.

A arraia em geral é dócil. Ao ser atacada, pode liberar seu aguilhão, que é poderoso e contém veneno. Mas vale lembrar que a arraia não sai soltando seu ferrão à toa: precisa estar acuada para querer se livrar da ameaça, ou seja, sentir que a sua vida (da arraia) está em perigo. Além disso, a probabilidade de que o ferrão entre numa área mais "inócua" do corpo é grande, porque ele é lançado unidirecionalmente, não tem flexibilidade de mira. Quando você segura uma arraia, o aguilhão em geral está voltado pra baixo ou pra frente, nunca pra trás, na sua direção. A maior parte dos acidentes ocorre na região do pé: a pessoa pisa na arraia sem querer, e ela ferroa - porque um comportamento típico da arraia é se enterrar na areia e ficar apenas com os olhos de fora, o que pode pegar desprevenido uma pessoa mais distraída. Mas nadando livremente, é praticamente impossível que o aguilhão seja disparado contra o seu coração tão certeiramente, por sua unidirecionalidade. A arraia precisaria estar de costas para a pessoa, e a pessoa imediatamente atrás, ou a pessoa estar nadando sobre a arraia. A arraia também dá alguns sinais discretos de que vai lançar seu aguilhão: ela arrebita a estrutura de seu organismo onde o ferrão está depositado antes de efetivamente injetá-lo no predador que a perturba.

Arraia NoronhaUW148-1
Uma demonstração de como a arraia se enterra na areia, comportamento natural responsável por muitos acidentes em humanos (essa arraia estava na Caverna da Sapata, em Fernando de Noronha). Ao lado, uma arraia curiosa.

Dadas essas informações, eu custo a acreditar que a arraia causadora desse estrago em Steve não estava estressada pelo excesso de manuseio. Veja bem, é uma especulação minha apenas (os jornais que li deram informações pouco detalhadas de como o acidente aconteceu, apenas dizendo que ele nadava sobre o bicho no momento do ataque), mas pense comigo: ele estava filmando um documentário sobre predadores marinhos, e todos sabemos que seus métodos de mostrar a vida selvagem envolviam manuseio próximo - ele fazia isso com crocodilos, que são mais perigosos, por que não faria com uma arraia, que é considerada muito mais dócil? (Acreditem: eu conheço bem a adrenalina do momento em que você encontra um animal desses, principalmente para um profissional apaixonado pela vida selvagem. Requer muito auto-controle para que a pessoa não ultrapasse os limites do bicho.) Provavelmente a arraia não gostou do manuseio exagerado e apenas se defendeu, muito mais por medo de Steve do que por agressividade. O azar de tudo é que ela devia estar numa posição muito particular, para que o aguilhão entrasse direto no coração dele e o matasse imediatamente por perfuração, como aconteceu - o veneno nesse caso é praticamente indiferente. Esse foi o maior infortúnio de Steve, infelizmente. E claro, agora é totalmente inútil ficar discutindo se ele estava certo ou errado.

Antes que se cogite uma verdadeira caça às arraias (como infelizmente ocorre com os seus parentes próximos, os tubarões, a cada acidente), quero lembrá-los de que a letalidade das arraias advém apenas de sua necessidade de defesa contra potenciais predadores. Diferente dos tubarões, que atacam animais maiores (e erroneamente atacam humanos às vezes), as arraias se alimentam apenas de pequenos peixes e invertebrados, como camarões, ostras e caranguejos. Jamais atacariam um animal grande como um humano para comê-lo, apenas (repito) para se defender numa situação limite. A tendência comportamental delas inclusive é se afastar das pessoas quando incomodada. Além disso, muito pouco se sabe sobre a biologia das arraias, e exterminá-las antes mesmo de conhecê-las seria de uma ignorância sem par.

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Detalhe do olho de uma arraia. Ao lado, que "novidade": os asiáticos adoram comer arraia seca, e são vendidas aos montes nos mercados de rua daqui. O da foto, foi em Busan, Coréia do Sul.

O que a morte de Steve mostra é o de sempre: acidentes acontecem. Mesmo para as pessoas mais bem preparadas e acostumadas a lidar com a vida selvagem. E a forma mais sensata de sempre se relacionar com um animal é simples: respeito a seu comportamento natural. Evitar o estresse desnecessário de qualquer bicho. Porque mesmo dóceis, quando acuados, eles vão se defender, é seu instinto básico de sobrevivência.

Tudo de bom às arraias.

R.I.P., Steve Irwin.

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Para viajar mais sobre arraias...

- No Grand Cayman há um ponto de mergulho popular chamado "Stingray city", onde as pessoas alimentam as arraias manualmente. Milhares de turistas visitam anualmente esse local, e relatos de acidentes com as arraias onde elas estão aos montes como no Cayman são raríssimos.

- Nos EUA são registrados anualmente cerca de 5,000 casos de acidentes com arraias. A maioria, sem grandes sequelas; os mais graves em geral terminam em amputação do membro ferido. Morte? Nem consta no relato. A morte de Steve foi a 17a registrada no mundo até hoje, e a 4a acontecida com um aguilhão direto no coração.

- Apenas 4 famílias de arraias são dotadas de aguilhão. Entre elas, as do gênero Dasyatis são as mais conhecidas e estudadas. A demais famílias de arraias (que incluem a jamanta e a arraia-chita, entre outros) possuem mecanismos de defesa pessoal diferentes, e são mais dóceis ainda aos humanos.

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domingo, setembro 03, 2006

Nos bastidores do CSI: a espectrometria de massa

Em maio, estive participando de um congresso da Associação de Espectrometria de Massa, em Seattle, EUA. Era minha primeira vez na cidade, um novo lugar, e isso para mim é sempre gratificante. Como estava num congresso lotado de informações (foram mais de 1000 participantes apresentando palestras, posters, workshops, etc.), o aprendizado foi intenso - era tanto conhecimento para absorver que eu chegava no hotel no fim do dia com dor de cabeça (fora o jet-lag, é claro).

Enfim, estive absorvida pela espectrometria de massa - carinhosamente chamada pelos cientistas de "MS". "E que raios é isso?" Essa foi também minha pergunta num primeiro momento há quase 3 anos, quando comecei a trabalhar com a técnica. Sabia absolutamente nada do assunto, e tive que mergulhar na literatura de cabeça. Não foi fácil achar informação sobre espectrometria de massa, era tudo muito especializado, profundo, e para uma leiga completa no assunto, aquele tipo de explicação não ajudava muito. Eu precisava do be-a-bá. Mas encarei o desafio, e aos trancos e barrancos, achando um artigo aqui, outro acolá, aprendi algo, fundamento para eu ter conseguido em maio passado mostrar um poster "apresentável" num congresso internacional do tema. E foi me preparando para esse congresso há alguns meses que comecei a elaborar esse post.

Espectrometria de massa é um conjunto de técnicas analíticas variadas que usam em algum momento um... espectrômetro de massa. Parece óbvio, não? E o que é um espectrômetro de massa? Além de ser o aparelho mais usado pelo programa de TV mais popular do mundo, o CSI (Las Vegas, Miami ou NY), nada mais é que um aparelho que mede a massa de uma molécula - ou seja, é uma "balança" molecular. E para que precisamos pesar as moléculas? Aí é que entra o xis da questão.

Cada molécula tem um peso certo, que é calculado pela soma da massa dos átomos que a constituem. Se temos então um conjunto de moléculas (uma mistura qualquer), eis que fica cada vez mais difícil diferenciar o joio do trigo. Simplificando: imagine que uma bolsa tenha 10 reais em moedas. Como você vai saber quantas moedas de 50 centavos tem ali dentro? E quantas de 10 centavos? Separando todas, procurando pelas de 50 centavos, você consegue descobrir a resposta. O espectrômetro de massa faz exatamente a mesma coisa, só que com moléculas (que são infinitamente menores que moedas): ele separa diferentes moléculas de uma mistura qualquer de acordo com o peso de cada uma que está ali na sua amostra. E conta as moléculas também. Isso ajuda a identificá-las, porque não é comum ter 2 moléculas com exatamente o mesmo peso (acontece, mas é raro).

Para separar, o espectrômetro de massa utiliza a força de atração ou repulsa de uma mistura. Ainda no primeiro grau da escola, aprendi que toda molécula tem uma carga elétrica (iônica): positiva, negativa ou neutra. Eis que o espectrômetro se aproveita dessa característica iônica básica para calcular a massa: de acordo com a velocidade que uma molécula é atraída por um detector. Confuso? Eu explico. Imagine um grande ímã, e você com pregos na mão esquerda e uma panela na mão direita. Arremesse os dois ao mesmo tempo na direção do ímã. Qual deles chegará primeiro? A resposta é: os pregos, porque são menores, sofrem menor atrito com o ar ao viajar até o ímã. A panela de repente pode até cair no chão, ficar pelo meio do caminho. E para medir essa velocidade de "atração" entre moléculas e o detector, o único requerimento é que elas sejam carregadas eletricamente e que haja uma força jogando-as contra o detector do aparelho (no exemplo, o ímã). E é aí que mora o problema.

Nem tudo é carregado eletricamente. Muitas misturas têm moléculas com características neutras. Mas para analisar uma mistura, você não pode contar com a sorte e esperar que esteja tudo carregado eletricamente - imagine se a Sara do CSI parasse uma investigação de assassinato porque a amostra de solo que estava no sapato do suspeito fosse toda neutra; inconcebível, não? (By the way, eu adoro a Sara Siddle, na minha cabeça, ela é o protótipo da cientista forense eficiente.) Para evitar ficar de braços cruzados por falta de eletrização, criou-se um método de "forçar" a eletrização, ou seja, você ioniza a amostra toda. Como? Colocando suas moléculas numa matriz, um material sólido, gasoso ou líquido - e vem daí as diferentes variantes da técnica: espectrometria gasosa, líquida ou sólida. A matriz tem que ter a capacidade de, ao se combinar com sua amostra, ionizar o máximo possível de moléculas, que serão atraídas pelo detector (o "ímã") do espectrômetro. Outra analogia: imagine que a parede de sua casa foi pintada. A tinta está fresca, e vem um espírito-de-porco e joga um punhado de terra na parede. Depois de reclamar, você vai limpar a parede suja, e joga um jato d'água (água com pressão), que retira não só a terra, mas pedaços da tinta fresca também. Fazendo a analogia: a tinta seria a matriz, a terra seria a sua mistura a ser analisada (sua amostra), e o jato d'água seria a pressão necessária (a força) ao aparelho para que a retirada da tinta aconteça. O espectrômetro funciona exatamente assim: você põe sua amostra desconhecida ("terra") na máquina com a matriz ("tinta") e a pressão é dada por um feixe de laser ("jato d'água"). O feixe retira as moléculas da mistura e carrega junto pedaços da matriz. Eu demorei muito para entender o conceito de matriz, e até hoje penso no exemplo da parede pintada para entender como ela sai junto com as moléculas.

Eis que entra a escolha do pesquisador: assim como quando você abre um dicionário randomicamente e escolhe procurar apenas palavras começadas com D, o pesquisador escolhe o que quer ver no espectrômetro de massa. Proteínas? Gordura? Carboidratos? Pequenos compostos? Grandes? Você decide. Uma vez decidido os parâmetros que você quer achar no espectrômetro, seus resultados estão prontos para saírem da máquina, em um clique de mouse.

Mas só separar dessa forma não adianta muito. Mais que ler resultados, o pesquisador precisa entender o que são aqueles números que saem na tela de um espectrômetro de massa. Entra aí o cérebro dos desenvolvedores de software, que transformam a informação algorítmica que a máquina obtém em um gráfico simples, cheio de altos e baixos: os altos são as moléculas em maior quantidade, os baixos as em menor.

No final das contas, o resultado é assim (como vocês podem ver em qualquer episódio do CSI):

Mass spec

Onde cada cor representa em um gráfico o resultado com um determinado parâmetro do espectrômetro - são 4 "corridas" separadas. No eixo X, o valor do peso dividido pela carga elétrica (m/z), e no eixo Y, a intensidade indica "grosseiramente" a quantidade de cada molécula. Cada pico desses é uma substância diferente.

E vem a pergunta "malla": mas e quando você não tem a menor idéia do que tem na amostra? Como você escolhe os parâmetros para pôr na máquina? Nesse caso, cabe ao pesquisador fazer uma peneira - ou seja, é a qualidade da escolha do pesquisador que aqui é posta à prova. Existem programas para cada tipo de composto, e você pode muito bem rodar sua amostra em cada um deles. Ou seja, é como se você pudesse jogar terra na mesma parede e tentar limpá-la com água, com um jato de ar, ou com um paninho úmido. Cada vez que você limpar, um pedaço preferencial da tinta e da terra vai sair, e você no final pode compilar tudo que saiu daquela bagunça com os 3 diferentes métodos usados.

Mas é claro, nenhuma máquina é perfeita. Assim como tudo na vida, o espectrômetro de massa também pode "errar" - entre aspas porque é um erro definido quando o laboratório compra o aparelho. Os mais baratos são menos precisos, os mais caros mais precisos, e a acurácia de cada um com relação às moléculas que detecta também vai variar de acordo com a qualidade do material usado, da matriz, do laser, etc. Mas nada que comprometa demais: o espectrômetro é uma das máquinas mais poderosas que a ciência atual usa para identificar moléculas, e é muito importante seu uso médico, ambiental, nutricional e, óbvio, forense. Sem um espectrômetro, estaríamos todos fadados a desconhecer os componentes reais e detalhados de quase tudo que está a nossa volta, incluindo o ar que respiramos.

Agora, se o espectrômetro de massa é mais um mistério desvendado do CSI, eu não sei; mas que cada vez que eu vejo uma máquina dessas no seriado hoje em dia eu vibro, ah! com certeza!

Tudo de bom sempre.

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P.S.1: Esse post foi extremamente influenciado por essa apresentação sobre espectrometria de massa (arquivo em pdf) que estava disponível para os participantes do congresso de Seattle. Eu me propus a tentar traduzir esse universo viajante altamente especializado e árduo pro meu blog. Espero que tenha conseguido pelo menos pincelar... uma experiência diferente, no mínimo.

P.S.2: Parabéns a todos os biólogos!! Hoje, dia 03 de setembro, celebramos essa profissão cheia de mistérios a serem desvendados, cheia de magia e cheia de racionalidades tão maravilhosas. Parabéns a nós, estudantes da vida!

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sábado, setembro 02, 2006

As viagens de cada um

Antes de mais nada, eu preciso agradecer imensamente a todos que responderam a Mallenquete abaixo. Adorei todas as respostas, e apreciei muito a disponibilidade de todos em compartilhar uma microscópica parte de seus sonhos aqui. Muito obrigada de coração.

Preciso também agradecer aos blogs Simples assim, É a mãe!, Tô me achando, Issanidades e o Bernabauer.com, por terem indicado meu bloguinho para o BlogDay de 2006. As frases e perspectivas que li descrevendo "uma Malla pelo mundo" me deixaram mais vermelha que hidrante - é, eu fico envergonhada com palavras bonitas a meu respeito. A Denise também escreveu algo que me deixou emocionada, e para ela e para os donos respectivos dos blogs acima (Ana Paula, Mamy, Camila, Issana e Bernardo) eu agradeço especialmente.

Mas vamos à Mallenquete. É claro que eu não vou analisar cientificamente o resultado geral (houve?), porque as respostas são altamente subjetivas, lotadas de variáveis impossíveis de serem determinadas, e não forneceriam consistência suficiente para uma boa análise estatística. Vou analisar maionesisticamente, que é assim que eu chamo quando eu quero comentar qualquer coisa sem me importar com a ciência envolvida muito menos com a formalidade.

Como não dá para quantificar nada das respostas, vou apenas citar os lugares que as pessoas escolheram de mais "imediato" para irem (os citados em primeiro lugar na caixa de comentários), que foram:

- Grécia (2 votos)
- Sidney (2 votos)
- Indonésia
- Machu Pichu
- Itacaré
- Baía de Maraú
- Palau (me surpreendi com o aparecimento deste paraíso na lista!)
- Butão
- Barcelona (Gaudí é imbatível...)
- Tóquio
- Tailândia
- Paris
- Alasca (ah! A aurora boreal!...)
- Hong Kong
- China
- Hawai'i
- Paraty (é com "i" ou "y"?)
- Islândia (essa viagem eu topo sem pestanejar, Flávio!)
- O mundo todo (2 votos)
- Namíbia (meu voto, só para constar)

Para mim, é fascinante ler tamanha diversidade de escolhas: tem de praia a geleira, de vulcão a metrópole, passando por todas as nuances. Eu confesso que esperava que a maioria dos votos refletissem a preferência humana chavão por praias (eu inclusa, sou uma "islomanic"), mas apareceu tanto lugar exótico ou não-tradicional (e o que vem a ser não-tradicional a não ser o que os nossos olhos não estão acostumados e o de outros está...), que tudo que eu posso dizer é que as pessoas que passam por aqui realmente têm espírito de viajante de verdade: o negócio é conhecer o desconhecido, trilhar novos horizontes, sem menosprezar os lugares clássicos, que são clássicos por um motivo plausível - são os sonhos de uma maior quantidade de pessoas.

Eu sempre digo que a melhor viagem é a próxima, a que você ainda não fez, porque é nela que estão se construindo os próximos sonhos. Costumo escrever em papeizinhos que ficam espalhados pela casa dicas, idéias de lugares, contatos, atrações imperdíveis. Mas principalmente, sinto que ao colocar no papel, o sonho está mais perto, é mais "concreto". Sei que não é, mas sinto como se fosse: o papel serve como a afirmação psíquica de que eu posso um dia chegar lá, basta querer. Aí eu abro o atlas de novo e sonho, muito. Com cada recanto, com cada paisagem, com cada esquina. Viajar é mesmo uma realidade de sonho.

Tudo de bom sempre a todos os sonhadores de viagens sem fim. Da Islândia ao Taiti, e onde mais couber na mochila da vida.

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