Uma Malla pelo mundo Interney.net/blogs/malla

quinta-feira, novembro 30, 2006

Duas novas viagens virtuais

Eis que duas boas dicas de novos sites brasileiros chegaram ao meu conhecimento na semana passada. Nada mais merecido que prestigiá-los e/ou divulgá-los para que tenham mais audiência, mesmo que com uma semaninha de atraso.

O primeiro é o Click Ciência, revista online organizada pelo competente Adílson, professor do Departamento de Física da UFSCar e autor do blog Por Dentro da Ciência - além de ilustre parceiro no Roda de Ciência. O site define em seu editorial claramente a que veio:

"Nosso objetivo, com esta e as edições que virão, é trazer para você, leitor, informações sobre os mais diversos assuntos científicos. Nosso desejo é que os textos aqui divulgados contribuam para ampliar o seu conhecimento e fazer com que você se aproxime de discussões tradicionalmente restritas à academia, mas que podem ou poderão vir a ter efeito em suas vidas. Afinal de contas, a Ciência está cada vez mais presente em nossas vidas e conhecê-la é também uma questão de cidadania."

Longa vida ao Click Ciência!

A outra viagem virtual é relacionada ao ato de viajar em si. O Daniel Bender é pai da idéia e organizou 13 blogueiros para manterem o site Goitacá, que se propõe a comentar sobre viagens e turismo, lugares-sonhos ou lugares-realizados, de forma bastante descontraída. Eu sou uma das blogueiras dando pitacos por lá, e abri minha participação com a republicação do meu post sobre o Arrobúrguer. Pretendo republicar alguns textos antigos e atemporais por lá, que merecem releitura mas que estão enterrados pela dinâmica do formato blog aqui em meu espaço. Longa vida ao Goitacá!

Tudo de bom sempre a esses 2 novos locais de viagens de uma Malla pelo mundo virtual.

Marcadores:

quarta-feira, novembro 29, 2006

Domingo à noite, numa padapizzaria da Rua Augusta...

... em cerimônia praticamente sem-cerimônia, eu conheci mais 2 blogueiros amados e encontrei de novo com outros 2 mais amados ainda. As fotos denunciam as figuras fundamentais da internet brasileira a quem me refiro.

Blog-pizza SP 0002low

Blog-pizza SP 0003lowBlog-pizza SP 0004low

Blog-pizza SP 0005low Blog-pizza SP 0001

Como toda boa noitada pela Paulista, terminamos num Fran's Café para o café nutella mais gostoso do planeta. Conversa descontraída, risadas gostosas, e a certeza de que a internet pode sim, estreitar laços de amizade com pessoas-texto tão belas e que tanto enriquecem o mundo com suas letras e bom humor.

Tudo de bom sempre ao Marmota e sua voz de locutor de rádio super-amável; ao Ina e sua doçura sem fim; à Pat e sua aprendizagem eterna; e ao Tuca e sua calma inspiradora.

Marcadores: , ,

quarta-feira, novembro 22, 2006

Pró-Tubarão

Chegou em meu email agora há pouco um pedido do Marcelo Szpilman*, diretor do Instituto Ecológico Aqualung, para assinatura de uma petição online pedindo o fim da pesca seletiva de tubarões em Recife com o intuito exclusivo de deter ou diminuir os ataques por aquelas bandas. Já escrevi sobre a peculiar situação de Recife antes, e endosso o que o Marcelo escreveu, dado que os ataques não ocorreriam se não houvesse no passado a gigantesca interferência humana em seu hábitat. Peço por gentileza a quem quiser apoiar, que visite o site da petição e assine.

Abaixo, decidi transcrever por completo o email recebido, para que todos entendam o que está se pleiteando e divulguem ao máximo de pessoas possível:


"NOTA DE MANIFESTO

Pescar Tubarões para deter ataques é um despropósito

Como diretor do Instituto Ecológico Aqualung e do Projeto Tubarões no Brasil sempre me posicionei chamando o bom-senso e deixando as paixões de lado para analisar e debater questões controversas como essa, com argumentos contrários ou favoráveis.

Por princípio, ainda que concorde com a pesca seletiva de tubarões para fins científicos, sou contra a pesca de tubarões com o objetivo explícito de diminuir ou deter ataques de tubarão. Associar a pesca preventiva do tubarão para evitar ataques, mostrando o corpo da "fera assassina", vai contra todas as campanhas de educação e conscientização ambiental que têm sido feitas, inclusive pelo próprio CEMIT (Comitê Estadual de Monitoramento dos Incidentes com Tubarões). Mas essa, infelizmente, tem sido a mensagem passada pela mídia para a população em geral. E está errado. É um despropósito pescar tubarões para deter ou diminuir ataques.

Se já está mais do que comprovado que o problema dos ataques em Recife foi provocado pela interferência humana no ecossistema da região, porque o tubarão deverá assumir a culpa? É apenas mais um animal reagindo à interação com o homem, que invadiu e transformou de seu ambiente natural. Reflita! Se você invade a toca de um animal e ele te morde, a culpa é dele? Ele deve ser eliminado por isso? Lembre-se que, no caso dos tubarões em Recife, ao contrário do que possa parecer, os poucos ataques são, em sua maioria, acidentes provocados pelo erro de identificação ou pela aparente invasão de território.

A pesca do tubarão-martelo com mais de 3 metros em Jaboatão dos Guararapes (Recife) no último sábado, dia 18/11, pela embarcação Sinuelo, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), foi, no mínimo, um enorme excesso de cautela. Na ocasião, um professor da universidade alegou que por ser um animal de grande porte poderia ocasionar um acidente (ataque) caso ele se deparasse com um banhista. Como bem sabem aqueles que já mergulharam com esses animais, especialmente a espécie capturada (S. mokarran), os tubarões-martelo são animais tímidos e evitam ao máximo a aproximação dos seres humanos. No Brasil, não há nenhum registro de ataque não-provocado por tubarão-martelo. No mundo todo, só há 20 registros nos últimos 500 anos. Ou seja, o tubarão-martelo não representava ameaça aos banhistas de Recife e não precisava ser capturado e morto. O termo "despropósito" cabe aqui como uma luva, pois recentes estudos já demonstraram que as populações de tubarões-martelo declinaram em até 90% e suas espécies estão seriamente ameaçadas de extinção. Desta forma, não é difícil perceber a importância de se preservar um valioso exemplar adulto, pronto a se reproduzir.

Cabe esclarecer uma coincidência no uso do nome protuba, que tem sido fonte de alguma confusão. O projeto Pró-Tuba, da UFRPE, que utiliza a embarcação Sinuelo com o objetivo de capturar os tubarões agressivos que possam oferecer risco na área de Recife para assim evitar os ataques, nada tem a ver com o Projeto Tubarões no Brasil (PROTUBA), criado e gerenciado pelo Instituto Ecológico Aqualung com o objetivo de preservar as espécies de tubarões ocorrentes no litoral brasileiro. Nunca, em momento algum, o Projeto Tubarões no Brasil estará envolvido na pesca de tubarões para deter ataques.

Um ativo grupo de mergulhadores de todo o Brasil, tendo à frente o Instituto Laje Viva de São Paulo, criou um abaixo-assinado online pelo FIM DA CAÇA AOS TUBARÕES patrocinada pela UFRPE. Se você desejar expressar sua opinião através dessa lista, que pretende pressionar a UFRPE pelo fim da pesca dos tubarões com o objetivo de deter os ataques, acesse o link abaixo e assine o manifesto, que tem todo o apoio do Projeto Tubarões no Brasil.


Projeto Tubarões no Brasil
Instituto Ecológico Aqualung
E-mail: instaqua@uol.com.br
Site: http://www.institutoaqualung.com.br
Aproveite para se associar ao Protuba. Não fique parado! Ajude-nos nessa luta!

*Marcelo Szpilman, Biólogo Marinho formado pela UFRJ, com Pós-Graduação Executiva em Meio Ambiente (MBE) pela COPPE/UFRJ, é autor do livro GUIA AQUALUNG DE PEIXES, editado em 1991, de sua versão ampliada em inglês AQUALUNG GUIDE TO FISHES, editado em 1992, do livro SERES MARINHOS PERIGOSOS, editado em 1998/99, do livro PEIXES MARINHOS DO BRASIL, editado em 2000/01, do livro TUBARÕES NO BRASIL, editado em 2004, e de várias matérias e artigos sobre a natureza, ecologia, evolução e fauna marinha publicados nos últimos anos em diversas revistas e jornais e no Informativo do Instituto. Atualmente, Marcelo Szpilman é diretor do Instituto Ecológico Aqualung, Editor e Redator do Informativo do citado Instituto, diretor do Projeto Tubarões no Brasil (PROTUBA) e membro da Comissão Científica Nacional (COCIEN) da Confederação Brasileira de Pesca e Desportos Subaquáticos (CBPDS)."


****************

Tudo de bom sempre aos tubarões do mundo.

Marcadores:

domingo, novembro 19, 2006

Pequenas anotações de viagens virtuais 15

1) Era uma vez um conceito único de lua-de-mel. Depois da cerimônia de casamento, a felicidade a dois do novo casal. Hoje, o conceito se expandiu e há diversas "de-mel": bebê-de-mel, família-de-mel, divórcio-de-mel... é como o artigo fala: realmente um mundo bizarro-de-mel! (Via Travel plan idea blog>)

2) Momento Organizações Tabajara: Se você não praticava snorkeling porque tem asma... seus problemas acabaram! Com o novo Asthma Freedom Snorkel, qualquer asmático pode agora apreciar o mundo subaquático. A soada tabajarística foi demais pros meus olhos leitores. (Via Divester, onde mais...)

3) Um dos meus jornais prediletos online agora lançou um canal em inglês! Vai ser ótimo ouvir os dois lados da moeda, agora a um simples aperto de botão no controle remoto. Longa vida e boas reportagens à nascente Al-Jazeera Channel em inglês! (Via o blog mais desfocado da net, o Blog do Adeodato!)

4) Só existem talvez 30 leopardos-do-leste vivos no mundo. Considerado o felino mais raro do mundo, um deles foi capturado na Rússia recentemente, por biólogos, e soltos depois de coletar amostras fundamentais para um projeto de conservação. Mas a pergunta mais instigante biologicamente para mim é: consideramos o leopardo-do-leste extinto ou não, com essa população ínfima? Qual o número "n" de indivíduos mínimo para a espécie ser considerada extinta? (Comentei isso por coincidência, semana passada, sobre a situação precária da arara-azul e do muriqui, com um amigo de velhos tempos que hoje trabalha no Conservation International do Brasil. Sem conclusões animadoras.)

5) Há muito tempo eu já havia me deparado com uma visão para lá de diferente do mundo, num shopping em Seul (assim que eu encontrar a foto na atual bagunça que anda meu computador, coloco aqui UPDATE: foto colocada!). Aí encontrei uma perspectiva diferente, fadada à reflexão mais intensa e séria, do nosso mundinho querido. Ou melhor, perspectivas. Lá no Bica. Corre lá e vê, vale a pena.

Mundo de cabeça pra baixo
O mundo de cabeça pra baixo. Esse mapa-múndi às avessas fica na saída da estação de metrô Samseong (COEX Mall), em Seul. Sempre achei extremamente filosófico, e todas as vezes que passei por lá, admirei a sensação de inadequação que o mapa causava. Além de centrado no Pacífico, o mapa meio que "perde as referências" ao ser virado. Afinal, o centro do mundo passam a ser as ilhas do Pacífico e o sudeste asiático, que normalmente nem percebemos existir ao abrir um atlas. Para refletir...

6) ...E houve um tempo mais longínquo ainda em que existiam os "reinos" mineral, vegetal e animal. Depois veio a distinção da vida em 5 reinos, como aprendi na universidade: Monera (bactérias e arqueobactérias), Protistas (protozoários), Fungi (fungos), Animalia (bichos) e Plantae (vegetais). Aí chegou a análise de DNA para organizar a bagunça taxonômica e mostrar o quanto somos relacionados, inaugurando o conceito de 3 domínios (não mais "reinos"): bactérias, arqueobactérias e eucariotos. Mas eis que surge um blogueiro e cientista que pretende mostrar por quê há sérios buracos nessa convenção tão sedimentada hoje em dia. Ciência é dinamismo de pensamento, e aguardo imensamente ler esses argumentos-posts que refutam o que está aí. Que venham as discussões! (Via Evolgen.)

7) Revolta nas ruas. Pessoas iradas contra o governo, quebrando janelas, incendiando escritórios, destruindo carros. Poderia ser em Gaza, no Iraque ou no Rio, mas é no "pacato" reino de Tonga. É, nem só de praias paradisíacas vivem os ilhéus do Pacífico...

8) Já é um começo. Um bom começo, dadas as proporções da poluição que já há por aquelas bandas. Uma cidade na China está trocando de graça as pilhas velhas por novas, na tentativa de diminuir a quantidade desse lixo que vai parar no mar. Que o exemplo se espalhe!

9) Se até a lenda-viva Elizabeth Taylor teve ânimo para entrar numa gaiola com tubarões (e adorou!), por que as pessoas ainda se amedrontam tanto com eles? Por que os desrespeitam tanto em seu próprio hábitat?

10) E falando nisso... é assim que baleias jubarte deveriam morrer: nas mãos da lei natural de sobrevivência do mais apto. Não dessa forma desnecessária, nas mãos da lei da voracidade asiática pela manutenção à força de um hábito fadado à extinção brutal.

11) Culinária sem mamão. É assim, em geral, na Ásia - ou pelo menos, na Coréia do Sul, onde até pouco tempo eu habitava. Parece que não mais será assim. Sorte dos meus amigos de Seul, né, Marisa? ;)

12) All the best wishes to one of my favourite bloggers in the world, a nice "birddy" grrl. Hope I could help somehow. Positive vibrations to you.

Marcadores:

segunda-feira, novembro 13, 2006

Rastelando o mar

"But predicting a global fisheries collapse by 2048 assumes we do nothing to fix this, and shame on us if that were to be the case." (Dr. Worm, autor do artigo da Science que proclama o fim da atividade pesqueira em 2048.)

Essa foi sem dúvida a notícia ambiental do mês para a maioria das pessoas - e principalmente para a mídia. O mar não terá mais peixes em 2048. Parece até uma daquelas frases catastróficas de ecoxiitas tão odiados por muitos. Mas infelizmente não é. É a pura realidade, agora demonstrada por cálculos teóricos baseados em dados fundamentados e sólidos do que vem acontecendo com os oceanos do mundo. Demonstrada pela ciência, em outras palavras. Virtualmente, não teremos mais o que pescar em 50 anos.

Coincidentemente, essa semana estive conversando com alguns pescadores locais de um vilarejo próximo que afirmaram categoricamente que há 10 anos se pescava muito mais que hoje - e emendou com a triste história de alguns companheiros que hoje pescam quilos e quilos de filhotes para pegar 2 caixinhas de camarão e vender. Jogam os filhotes todos no lixo pelo pequeno lucro do camarão. "Rastelam o mar", foi a expressão sábia usada pelo humilde pescador.

E foi esse pescador quem me contou sobre a pesquisa da Science da forma mais pragmática. Achei muito interessante o fato de um trabalho científico de categoria ter impactado todos os segmentos da mídia, desde a mais globalizada até a mais local possível; o quanto a notícia assustou e chacoalhou as pessoas sem distinção alguma de cor, profissão ou residência. Saber que nossos filhos, netos e bisnetos não terão a oportunidade de comer ostras preocupou muito a todos, até aos que não acreditam fazer parte de um ecossistema global.

Preciso dizer que a conclusão de que em breve não teremos mais peixes na mesa não foi uma surpresa para mim em absolutamente nada. Talvez apenas a certeza da data - que mesmo assim ainda pode ter uma pequena margem de diferença (o desvio-padrão da estatística), o autor mesmo reflete sobre isso. Mas acho que para ninguém que acompanha de perto o que vem sendo feito com os mares do planeta foi surpresa. Vide o depoimento do pescador que falei acima.

Mas é necessário termos equilíbrio, e analisarmos a situação com a cautela científica que lhe compete. A data que o artigo nos fornece, 2048, é uma previsão teórica, levando em consideração que nada façamos, de quando as espécies comerciais mais pescadas acabarão: salmão, atum, bacalhau e similares - e mallísticamente não posso deixar de relembrar aqui que pesca intencional de tubarão, um dos peixes "grandes", é ilegal em boa parte do mundo, incluindo o Brasil, mas os pescadores usam de um buraco da lei para trazerem para suas barraquinhas muitos cações que virarão moqueca ou sopa pelos restaurantes da cidade. É claro, como as espécies mais pescadas e consumidas são em geral as que estão no topo da cadeia alimentar, as responsáveis pela manutenção do equilíbrio saudável do ecossistema, o mesmo pode se desmantelar por completo uma vez que essas espécies estejam extintas. Para a saúde do planeta ficarmos sem peixes-papagaio pode efetivamente acarretar ficarmos sem os recifes de corais ou sem as florestas de kelp, e é mais ou menos isso que o cientista quis indicar e discutir com os dados apresentados na Science. Condenou-se a pesca comercial independente dos benefícios econômicos que ela traga, já que o fim dela estaria próximo - e deixou o alerta claro de que precisamos começar a pensar numa nova atividade comercial para esse monte de gente que ficará desempregada em breve...

Pescar é talvez a atividade mais primitiva que o Homo sapiens sapiens possui ainda. É uma atividade de caça, tal qual o leão que vai atrás do cervídeo, praticada até pouco tempo sem preocupação alguma de reposição de estoques, da maneira mais neandertalesca possível. Com um detalhe: não pertencemos ao ecossistema marinho intrinsecamente - somos visitantes do planeta salgado, apenas, e tivemos que desenvolver tecnologias para usufruir dele. O advento dessas tecnologias diversas e a necessidade de alimentarmos um número maior de pessoas no planeta geraram com o passar do tempo a situação calamitosa em que nos encontramos perante o mar e seus habitantes naturais hoje. E já que não ligamos nosso desconfiômetro antes para prevenir o fim do sushi, chegou a hora de tentarmos consertar os problemas que geramos no planeta. Chegou a hora de nos assustarmos.

Barcos taiwanesesPescadorRede de pesca comercialPescador filipino
Tamanho é documento: o pescador simples, com sua tecnologia limitada, causa obviamente muito menor impacto no ecossistema que as grandes frotas comerciais e suas redes quilométricas de arrasto. Cada um desses grupos requer um tipo de abordagem para conservação, é claro.

Há algum tempo, o NYTimes dedicou um tocante editorial escrito por um ex-pescador ao problema da pesca do atum e de outros peixes grandes. Discutia o quão "desecológico" era comer marlim ao invés de tilápia (que é produzida em fazendas de criação, é vegetariana e não impacta tanto o ecossistema). Trouxe à tona uma série de questões sobre a indústria da pesca, principalmente aquela realizada pelos grandes cargueiros (asiáticos, em sua maioria), que "rastelam o mar" por milhares de quilômetros, sem darem chance de sobrevivência a espécies nada comerciais. Vai tudo pro lixo, exatamente como no caso do pequeno pescador de camarão, mas com a diferença de que nos grandes navios de pesca esse "lixo" final são toneladas de peixes sem valor comercial desperdiçadas por conta de uma meia dúzia de espécies que realmente interessam. E o pior: as redes de pesca comerciais desses cargueiros colaboram também para a extinção de espécies de profundezas, já que são enormes e chegam a lugares que humanos não vão; mas rastelam do mesmo jeito tanto na zona de profundidade como na zona superficial. Mas é claro, o impacto do pescador pequeno é muito menor que o do cargueiro industrial. Aliás, especulo que se existisse apenas a pesca artesanal, beneficiando as comunidades ribeirinhas e não existisse comércio algum de peixes e frutos do mar, tenho minhas sérias dúvidas de que tivéssemos chegado a esse ponto preocupante.

Os mares foram - e ainda são! - por muitos (e por muito tempo) considerados fonte inesgotável de sustento. Talvez pelo fato de não vermos o que está sob a água, talvez pela sensação de infinitude que o horizonte nos deixa, talvez pela grande circulação de água que acontece nele. Talvez sejam esses os fatores que geram essa sensação falsa de que os recursos ali existentes são intermináveis. Mas talvez seja também um sentimento humano de eterna negação de que fizemos tão errado tudo desde o início.

Mas se pararmos para pensar a fundo, esses cargueiros comerciais só existem fazendo essa atividade porque há a pressão básica do mercado consumidor para o peixe. Mais que isso, é notoriamente sabido que alimentar-se de peixe faz muito bem à saúde - humana, entenda-se. Então, o afluxo de pessoas querendo utilizar mais e mais o peixe na dieta é muito maior que a pressão para conservá-lo, e nessa roda-viva, percebe-se claramente quem é o lado perdedor. É essa complexa mentalidade, essa balança entre benefício e malefício a longo prazo, que precisa ser melhor discutida, propagada para as pessoas.

Barracudasopah
mercado de peixesmoqueca
Eis o processo comercial: o peixe livre no mar é pescado e levado a um porto, onde é revendido a mercadores menores, que os expõem no mercado, onde você compra e usa o bicho para fazer sua moqueca. Infelizmente, a forma inicial com que o peixe é pescado carrega junto outros peixes que por motivos vários não são usados no comércio (e que você não vê), terminando na lata de lixo.

Precisamos deixar claro: estamos comendo, exaurindo e poluindo o mar. Há milênios, mas mais intensamente agora, de algumas décadas para cá. E ao poluirmos, fazendo do mar nossa lata de lixo universal, estamos contribuindo diretamente para a destruição de ecossistemas, e com eles vão-se muitas espécies únicas. Ou espécies novas, que já são descobertas pela ciência ameaçadas de extinção, ou seja, nem temos tempo suficiente para entendê-las e já estamos fadados a batalhar por sua preservação. Inúmeras hoje são as zonas mortas de oceano no planeta, muitas delas irreversíveis. O mar está chegando no limite do suportável de destruição. Será que assistiremos a sua transformação em deserto de braços cruzados? Assim como Dr. Worm, eu espero imensamente que não.

Tudo de bom sempre.

**********************************

Para viajar mais...


- Quero mais uma vez ressaltar o caso dos tubarões, que são trazidos ilegalmente nos barcos de pesca rotulados como "lixo" ou "bycatch", mas são comercializados de forma voraz. Calcula-se oficialmente que 73 milhões de tubarões são mortos anualmente para a - nesse momento supérflua - manutenção da tradição chinesa, mas sabemos empiricamente que o mercado negro é muito maior que isso. Mesmo em lugares onde há garantia plena jurídica de não-comercialização do produto, como nos EUA, encontram-se
evidências científicas de que há aporte de subprodutos de tubarão espalhados pelos mercados.

- O dado de que 90% da Ásia, a região mais populosa do mundo, joga esgoto no mar, assusta o blogspectador? Então dê uma olhada no que o Greenpeace vem descobrindo boiando à deriva ou em áreas remotas do Pacífico - em tese lugares quase desabitados do planeta.

- Quanto vale 1 milha quadrada de recife de coral protegido: finalmente saiu um estudo (em português, comentário aqui) que mostra que é economicamente melhor preservar que destruir um ecossistema. Mas isso, se até o humilde pescador com quem conversei já aprendeu, que dirá os demais intelectuais e intelectualóides do nosso mundo, não é mesmo?

- 2 viagens off-topic: 1) Amanhã, 14 de novembro, é o dia internacional da diabetes. Ano passado, fizemos uma blogagem coletiva sobre a data, muito bonita. Esse ano, por motivos diversos, estou impossibilitada de organizar. Mas fica a dica para ler o post do ano passado, que ainda está relativamente atual e faz jus à importância da discussão;

2) Parabéns, meu amigo e comentarista Gabriel! Hoje é dia de festa nas montanhas mineiras!

Marcadores: , , , ,

segunda-feira, novembro 06, 2006

Um gato pelo mundo

Tudo começou com um pequeno dilema: levar ou não o gato para o Brasil.

A opção mais fácil era sem dúvida deixá-lo na Coréia do Sul, já que ele está meio velho (9 anos) e diabético, condição que torna uma viagem longa de avião praticamente letal para o animal. Há 3 anos, quando ele chegou bastante estressado na Coréia vindo do Havaí após uma viagem de 10 horas num bagageiro de avião, olhos esbugalhados, ficara assombrado no primeiro dia em terras coreanas com o admirável mundo novo em que viveria: recusou-se a sair de sua casinha, mal bebeu água, não comeu - mas sobreviveu, e não era diabético na época. Depois acostumou-se com a terra do kimchi, é claro. Mas imaginá-lo (re)vivendo todo aquele stress de novo - e acrescido de que agora ele realmente requeria cuidados especiais - me desanimou deveras, e confesso que comecei a achar que melhor pro bichinho seria ficar por Seul mesmo. Menos sofrimento para ele, aperto no coração para mim.

Fui então conversar com o veterinário. Perguntei sobre a Sociedade Protetora dos Animais da Coréia, se eles recebiam gatos, etc. O veterinário foi muito sincero: os coreanos não gostam de gatos, em geral. No passado, gatos eram considerados animais de mau agouro, e tê-los em casa era sinônimo de azar pra família. Essa falácia ainda paira sobre boa parte dos coreanos, de modo que eles quase não têm gatos como animais de estimação. O veterinário acrescentou ainda que a situação dos gatos entregues aos grupos de proteção de lá não era das melhores, em geral os bichinhos sofriam muito e chegavam até a morrer por lá mesmo.

Com essas palavras nada encorajadoras, comecei então a procurar alguém que quisesse ficar com o gato de presente (de grego, eu sei). Coreano não adiantava perguntar, porque eles culturalmente não gostam do bicho. Ofereci a alguns brasileiros, e tirando os que já não gostavam de gato de cara, os demais deram a mesma resposta: estavam de passagem pela Coréia, não poderiam se comprometer com um bicho. Justo. A infrutífera tentativa de deixá-lo na Coréia pôs fim ao dilema: levá-lo-ia para o Brasil.

Com a logística de viagem começando a expandir em volume e pressão na minha cabeça, liguei de novo pro veterinário: "E quanto tempo você acha que o meu gato agüenta sem água?" "Umas 24h, no máximo. Ele precisa beber água por causa da diabetes." 24 horas. Pressenti logo que viriam pela frente momentos típicos de Jack Bauer. Porque o vôo entre Seul e São Paulo obrigatoriamente faz uma parada (na Europa, na África ou nos EUA) e no total são pelo menos 25 horas de vôo continuado, sem contar tempo de trânsito em aeroportos, etc. Se eu tivesse a melhor das conexões possíveis, seriam umas 30 horas no mínimo, o que com certeza não daria muitas chances de sobrevivência ao meu gatinho. Pioravam o dilema dois fatos: 1) o fato do gato ser gordo - teria que viajar obrigatoriamente no bagageiro, longe de mim; 2) o fato de morarmos a 2 horas do aeroporto de Incheon, de onde sairíamos, acrescentando 2 horas de stress desnecessário ao gato perante a jornada dura que viria pela frente.

Várias noites sem dormir, pensando no problema. No meio-tempo, comecei a ver a papelada burocrática que precisaria para entrar com ele no Brasil. Todos os documentos dependiam da definição da data de saída, e aí começou outra dor de cabeça: achar uma empresa aérea que levasse um animal por trajeto tão longo. Indo pela Europa, a passagem era mais cara para mim, não compensava. Indo pela África, a South African Airways não aceitava animais a partir de Hong Kong (parada obrigatória). Indo pelos EUA, a Continental, notadamente a empresa aérea melhor renomada no transporte de animais, não faz vôos para Seul. Sobravam a United, a American Airlines, a Northwest Airlines e as empresas coreanas: Korean Air e Asiana. Logo descobri que a American não transportava bichos em vôos internacionais. A Northwest exigia uma conexâo com outra empresa da mesma aliança aérea, o que não seria simples. O gato tinha vindo pra Coréia de Korean Air, e foi super-bem-tratado, então comecei a pleitear comprar uma passagem pela Korean, com parada em alguma cidade americana para troca de avião. E aí começava o outro problema.

As (poucas) empresas aéreas que restavam só aceitavam carregar o animal se o trajeto inteiro de Seul até São Paulo fosse feito por elas. Ora, só a United e a JAL fazem isso. Quando me dei conta desse pepino, fiz uma reserva de passagem pela United e outra pela JAL. Mas o tempo de conexão pela United era enorme, mais de 8h em Chicago, e pela JAL eram 2 escalas, em Tóquio e em NY, sem possibilidade de ver o gato em nenhuma delas, o que minimizava a chance de sobrevivência dele, já que ele ficaria sem água por todo o tempo de traslado. Apesar das reservas feitas, ainda estava insatisfeita com a situação e decidi continuar procurando uma alternativa que me desse menos tempo de conexão.

A insistência me presenteou com um esquema vencedor: iria até Los Angeles pela Korean, e lá, após apenas 3 horas de conexão, pegaria um vôo da Lan Peru até Lima e de lá para o Brasil. A vantagem dessa alternativa era simples: em LA, eu seria obrigada a pegar o gato, passar pela alfândega com ele, e recolocá-lo no vôo da Lan. Pegando-o, eu teria o tempo fundamental para dar água ao bichinho. Além disso, eram apenas 3 horas de conexão. E Lima era apenas uma escala, não conexão. Decidi por esse esquema, finalmente.

Comecei então a papelada burocrática do bicho. 30 dias antes, vacina contra raiva. 7 dias antes da viagem, precisava ir ao aeroporto com o gato, para que o veterinário oficial coreano desse um parecer dizendo que o gato estava saudável para viajar - os 7 dias de antecedência são exigência da embaixada brasileira (se fosse pros EUA apenas, esse documento poderia ser pego na hora do embarque). De posse do certificado oficial, fui à embaixada brasileira em Seul para que eles emitissem o documento oficial da Vigilância Sanitária, requisitando a entrada no Brasil com o gato. O documento só ficava pronto 2 dias depois.

Tudo feito nos conformes. Faltando 5 dias para a viagem, recebo um telefonema do agente de viagens, me informando que o vôo até LA seria não mais feito pela Korean Air, e sim pela Asiana - o que a priori soou maravilhoso, porque a conexão em LA seria agora de apenas 2 horas. Menos stress pro gato.

Chega o dia da viagem. Na minha bagagem de mão, um potinho pequeno com ração a ser dada em LA, uma seringa sem agulha e algodão (2 utensílios diferentes para dar água ao animal). O gato estava insatisfeito no aeroporto de Seul. Dei água e despachei-o no balcão da Asiana. Era dada a largada à maratona de vida ou morte do meu bichinho amado. Agora só me restava mesmo confiar na fisiologia dele.

Vôo de 14h até LA. Fui a primeira a sair do avião, correndo para a imigração - queria agilizar tudo para ter mais tempo com o gato em terra. Como eu estava em trânsito pelos EUA, a aeromoça me informara que eu não precisaria do formulário de imigração para entrar nos EUA; ao chegar na imigração, a primeira pergunta do agente foi: "Where's the form?" Tive que entrar numa outra fila enorme para preencher o formulário, voltar até o mesmo agente e ele me liberar. Sair primeiro do avião de nada adiantara, gastei quase 1h ali entre fila, preenchimento de papel e interrogatório do agente - que foi até bem camarada. Quando cheguei na esteira de bagagens, uma das minhas malas ainda não aparecera. Enquanto esperava a mala e o gato, o cachorro farejador do policial começou a latir escandalosamente ao lado da minha mochila, que estava no chão. O policial: "Você tem comida na bolsa?" "Sim, tenho ração para gato." "Preciso ver." Abro a mochila e mostro o potinho, quase ao mesmo tempo que o gato aparece na esteira. O policial pega meu formulário de alfândega americana e escreve com caneta hidrocor em letras garrafais "Animal food". Pego as malas e o gato, ponho no carrinho, e vou para a alfândega correndo. Faltavam 40 minutos pro vôo da Lan Peru.

Na alfândega, o policial pede para abrir a mochila. Mostro a comida, e ele me fala que "aquela quantidade pode, mais de 1kg é proibido carregar." Ok, moço, mas estou atrasada, dá para me liberar logo? O policial dá o aval, e saio correndo com a gaiola em cima do carrinho em direção ao guichê da Lan Peru. No meio do caminho, devolvo as malas para o re-check-in automático, e continuo correndo apenas com a mochila e a casinha do gato. Ainda não havia tido tempo livre para dar água pro bicho.

Quando cheguei ao balcão da Lan (que pelas leis de Murphy era o mais distante existente no gigantesco aeroporto de LA), a atendente ao ver o gato, gritou no rádio: "The freaking cat arrived!" Bom, pelo menos eles estavam cientes do passageiro especial. Faltava menos de meia hora pro vôo, e a mocinha me falou: "Olha, você precisa fazer 3 coisas para pegar esse vôo ainda: passar a gaiola do gato no raio X especial, pagar a passagem do gato ali no caixa, e fazer o check-in do gato. Não dá pra fazer tudo isso em 20 minutos. Você vai perder esse vôo."

Respirei fundo. Ciente de que eu perderia o vôo, a Lan Peru foi finíssima e me garantiu que eu iria, sem nenhum custo adicional, no próximo vôo para Lima, que era meia hora depois - já que o meu atraso foi causado pela imigração americana, fora do meu controle. Fui levar a gaiola do gato para o raio X especial. Era só a gaiola que passava no raio X, não o gato. Tive que tirar o gato da gaiola - talvez o momento mais difícil de toda essa maratona, porque ele estava tão amedrontado que se agarrou ao travesseiro. Quando finalmente persuadi-o a sair e entreguei a gaiola ao agente do raio X, fiquei rodando com ele no colo pelo saguão do aeroporto. Ele, estranhando aquele monte de gente ao redor, se agarrava literalmente com as unhas no meu ombro. Um pouco de sangue começou a escorrer na minha blusa.

Dei água finalmente nesse meio-tempo, com o algodãozinho molhado. A gaiola voltou, e recoloquei-o em seu lar temporário. Voltei ao guichê da Lan. Paguei a passagem do gato, e entreguei-o a um rapaz muito bonzinho, que, mesmo já atrasada pro novo vôo ganho, me deixou dar água, ração e carinho pro bichinho num cantinho mais calmo do guichê. Ele pegou depois a gaiola e levou o gato para a segunda etapa da jornada.

Eu já estava dentro do avião numa janelinha do fundo quando vi a gaiola ser colocada no compartimento de bagagem aquecido do avião. O moço que o trouxe pôs a casa com o maior cuidado na esteira. Milhares de pontos para a Lan Peru. O vôo foi tranquilo, incluindo a conexão em Lima. 14 horas depois, eu aterrisava, exausta, em Guarulhos.

Cansada, mas não menos preocupada. Afinal, estaria o gato vivo? Passei pela imigração brasileira rapidamente, e corri para a esteira de bagagens. As malas vinham, de todos, menos as minhas. De repente, vejo uma mala, a outra... e finalmente, a casinha do gato. De olhos esbugalhados e rouco, ele parecia meio perdido no tempo e espaço, mas estava vivo. Dei mais água para ele, peguei as outras malas, e fui em direção à alfândega. Eram 5 da manhã, e o oficial teve que ir acordar a veterinária de plantão, que àquela hora esperava tudo por ali, menos um gato diabético vindo da Coréia do Sul num vôo de Lima. Sem passar mal, vomitar, ou desmaiar por 30 horas intermináveis. Vivo.

Ficou para mim o aprendizado: o apego de uma pessoa a um bichinho de estimação é mesmo incomensurável, incompreensível, transpõe barreiras (burocráticas, alfandegárias ou logísticas), e por ele, (quase) tudo vale a pena. Basta a alma não ser pequena, como já dizia o poeta.

Tudo de bom sempre ao Catupiry, um gato havaiano que viajou meio mundo. Literalmente.

Catupiry
Descansando em cima das malas depois da missão cumprida...

Marcadores: ,