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quinta-feira, dezembro 28, 2006

Babilônia maravilhosa

Eis que este blog vai emendar o Natal com Ano Novo, dar um descanso necessário a essa Malla carimbada por n+1 alfândegas, que vai pra lá e pra cá de estrada em estrada. Finalmente relaxar um pouco, desencanar por completo os neurônios, recuperar energias. E para tirar mini-férias virtuais, nada melhor que uma viagem de volta às raízes.

Sim, amigos, estou a caminho da minha cidade natal, o Rio de Janeiro: cidade maravilha mutante. E ele continua lindo.

Mais aventuras deste blog só em janeiro, depois que eu tiver adquirido um bronzeado típico de garota de Ipanema. :)

Feliz Ano Novo a todos que viajam comigo pelo mundo!

Tudo de bom sempre nesse 2007 que vem pela frente!

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quinta-feira, dezembro 21, 2006

Pequenas anotações de viagens virtuais 16 - É Natall!

1) Fim de ano chegando, e nessa época, é comum professores de todos os níveis entrarem em desespero com tantas provas, afazeres e trabalhos para corrigir dos seus alunos "queridos". Pois esse post é uma verdadeira pérola metodológica: ensina como dar notas de uma maneira simplificada e científica - basta jogar pela escada. É de rolar no chão de tanto rir. Não perca os comentários. (Via De gustibus non est disputandum e A blog around the clock)

2) Você é um Tofi? Se você não sabe o que a sigla significa, é bom aprender: Tofi são aquelas pessoas magras ou de peso normal (ou seja, índice de massa corpórea normal) mas que possuem grande quantidade de gordura abdominal, e que por isso têm risco muito parecido a obesos de adquirir diabetes tipo 2. Em geral, são pessoas que fazem dieta mas não complementam com exercício físico. Já há exames que identificam se você é um tofi e, é claro, basta o exercício para diminuir o risco de adquirir diabetes tipo 2. Eu prevejo que Tofi será uma dessas palavrinhas que a mídia vai arrebatar em 2007 e usar ad infinitum; portanto prepare-se para a overdose.

3) Eu sei que falar de obesidade às vésperas do Natal, o feriado mais glutônico que existe, chega a ser insano, mas essa semana saiu na Nature um trabalho onde mostram que uma das prováveis causas da obesidade podem ser as colônias de bactérias do intestino que cada um de nós possui. Há dois tipos de grupos de bactérias, e quando elas entram em desequilíbrio (uma população cresce mais que a outra), começam a absorver mais gordura, que se acumula no tecido adiposo. O trabalho foi feito em ratos, portanto ainda exige cuidado ao extrapolar os resultados para humanos, mas só de deixar cair por terra o paradigma de obesidade como doença unicamente metabólica e torná-la também uma doença infecciosa... já é um marco científico. (Eu adoro quebra de paradigmas...)

4) A Nature também publicou uma revisão dos fatos que marcaram a ciência em 2006. Vale a pena conferir e relembrar as discussões que nos fizeram pensar e rever conceitos.

5) A Lou Salomé organizou uma blogagem coletiva contra os 90% de aumento dos deputados. Como sempre eu, atrasada, deixo o link aqui, para aqueles que quiserem ler mais opiniões sobre o assunto.

6) Momento Sherlock Holmes: a polícia da Nova Zelândia está se empenhando num caso inusitado, o primeiro assassinato na Antarctica. Ocorreu na estação McMurdo no início da década, mas tudo é tão misterioso por aquelas bandas, que a polícia está tendo dificuldades até em definir se houve mesmo assassinato - e não suicídio. Aguardemos cenas dos próximos capítulos desse "Mistério no Pólo Sul".

7) Um resort embaixo d'água em Fiji. Precisa dizer que se tornou o mais novo sonho de consumo viajante da Lucia Malla? As fotos das suítes são simplesmente alucinantes. (Via Nemo Nox.)

8) Saiu no Guardian recentemente uma lista das 100 pessoas consideradas mais "ecologicamente engajadas" do mundo - ou seja, as mais "verdes" que passaram pela Terra. Como toda lista que se preza, faltam nomes e há nomes questionáveis, mas vale mesmo é a brincadeira. Dois brasileiros assassinados por defenderem florestas (Amazônica e Atlântica) estão lá: Chico Mendes (em lugar de destaque) e Dionísio Ribeiro Filho. Gostei de ver o nome de Stephen Jay Gould também, mas confesso que a nona posição para Al Gore me incomodou bastante. Enfim, é para isso que servem listas: para discutirmos e discordarmos e fazermos as nossas.

9) Nessa mesma onda verde, um editorial do Honolulu Advertiser pede aos americanos que tornem o final de ano mais ecológico, produzam menos lixo - para quem não sabe, essa é a época em que a quantidade de lixo se multiplica a níveis abusivos pelo planeta que celebra o Natal. Vamos lá pessoal, por festas mais verdes.

10) Será que Papai Noel vai conseguir tirar seu trenó da Lapônia? Ou vai alugar uma prancha de surf? A Mércia me avisa que o aquecimento global é realidade por aquelas bandas nórdicas... Acho que o bom velhinho vai ser obrigado a usar um calção havaiano esse ano - e nos anos que virão. E o que eu, Lucia Malla, quero que Papai Noel traga? Um presente simples: que o mundo tenha mais Clarisses e Aarons, mais Gabeiras, mais comunidades como essa na África do Sul, mais espécies saindo do risco de extinção, mais humanidade e respeito ao ambiente onde vivemos. Será que ele consegue me presentear?

Tudo de bom sempre nesse Natal para todos vocês!

Papai Noel havaiano
Mele Kalikimaka!

(Esse "Papai Noel da Era do aquecimento global" é um dos enfeites de Natal da árvore aqui de casa... já dá pra sentir o clima de verão pintando na área! Eeeba!)

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terça-feira, dezembro 19, 2006

Malla versão 3.2

Mais um ano se passou. Com ele, vieram novas experiências, novas viagens, novos encantos, novas aprendizagens. Muitas aventuras e mais ainda emoções. Um ano marcante e inesquecível em vários aspectos.

E é hora de celebraridade: comemorar um número novo que chega.

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Com 3 dias de antecipação, recebi um grande presente no sábado: um dia surreal. Depois de não dormir (ou não-acordar) e ficar dando risada enquanto atolada na lama numa estrada de terra no meio do nada com 2 amigas (uma delas, minha irmã de coração), depois de passar a tarde discutindo caixas da sociedade e o não-trabalhar com meu professor de Evolução e amigo querido tomando cerveja com café, depois de aprender sobre o congado e sobre o valor de um ciclo que termina no interior de Minas, depois de dar a volta ao mundo com escalas em Boston e Maui, depois de tanta emoção e viagens na maionese... eu ainda pude ganhar um dos melhores presentes de aniversário do mundo: rever meus grandes amigos de faculdade que andavam espalhados pelo mundo - como eu, aliás. Após 10 anos de formada, reencontrar momentos e dividir saudades num baile de arromba que foi até o amanhecer - e com direito à fonte de chocolate no café da manhã! Só uma certeza que fica: a amizade é rejuvenescedora.

Obrigada a todos os meus amigos, reais ou virtuais, presentes ou ausentes, próximos ou distantes: porque vocês existem e me presenteiam todos os dias com sorrisos únicos que me emocionam.

Amigos de 10 anos
Foi uma louca alegria - e eu nem podia imaginar.

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Atol de RongelapRongelap - Ilhas Marshall

Enquanto isso, no remoto atol de Rongelap, no meio do Pacífico, a pessoa mais importante da vida Malla também está me dando parabéns via sinal de fumaça, enquanto nada em meio a tubarões, nemos e corais maravilhosos. Apesar de ouvi-lo apenas no coração, sinto-me abraçada por ele nessa primavera-quase-verão... Amor viaja. Amor não tem distância. Amor celebraridade.

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Auto-feliz aniversário para mim, Lucia Malla!

Tudo em festa sempre.

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segunda-feira, dezembro 18, 2006

Amanhã

"Amanhã
Será um lindo dia
Da mais louca alegria
Que se possa imaginar..."

São apenas cores o que vejo hoje. Porque o amanhã será uma bela viagem.

E deixo cores com vocês!

Penas de arara


Tudo de bom sempre.

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sexta-feira, dezembro 15, 2006

Akamai

Dia desses li num jornal havaiano:

"Vastly improved maps and global positioning systems make it easier to figure out what the risks might be, and people are now "way more akamai about at least assessing" where they are in relation to the rift zone, he said."

Akamai. Tenho certeza que a palavra deixa mesmo aqueles que têm vivência da língua inglesa com dúvidas. Afinal, o que é "akamai" nesse contexto? Está num jornal de circulação razoável dos EUA, um veículo de informação que requer um tratamento jornalístico claro da língua. Entretanto, o uso de um termo 100% havaiano já nos mostra que mesmo onde a clareza deve ser lei, a realidade local fala muito alto.

Essa flexibilidade da língua entre os povos me fascina. Percebo isso principalmente com o inglês, tão difundido, que tropeça, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima, apesar de tudo. Molda-se nos diferentes locais do planeta por onde passa - e se enriquece.

Na ciência, o inglês é a língua oficial por excelência. Desde os primórdios do meu curso de graduação, todos os professores faziam questão de frisar que um bom inglês era essencial para um bom cientista - fato que comprovei quando saí do país. Mas, paralelo ao inglês, existe uma pseudo-língua que permeia a ciência: o cientifiquês.

O cientifiquês é um dialeto formado principalmente pelos termos técnicos da ciência. Subdivide-se inúmeras vezes: existe o biologuês, o quimiquês, e dentro deles outras divisões, como o genetiquês, o bioinformatiano, etc. Em geral, o dialeto é apenas acessível ao cientista especialista, embora sua construção gramatical seja a mesma do inglês. Veja esse exemplo de fisiologuês, subdialeto do biologuês:

"Here we report that despite a normal plasma 3,5,3'-triiodothyronine (T3) concentration, cold-exposed mice with targeted disruption of the Dio2 gene (Dio2(-/-)) become hypothermic due to impaired BAT thermogenesis and survive by compensatory shivering with consequent acute weight loss." (Tirei daqui.)

É claro, aos cientistas da área, esse parágrafo está cristalino como água. Mas se você perguntar a um cientista de outra área, ele provavelmente terá dificulades em entender o significado geral do que foi dito. Ou seja, o cientifiquês é tão hermético que gera compartimentalização mesmo dentro da ciência. Ao público em geral, que não lida ou não está acostumado com o linguajar, só resta confiar nos meios de comunicação e nos seus jornalistas científicos para "traduzir" aquela mensagem do cientifiquês geral para a língua corrente (escrita ou falada), um processo não tão simples e em geral frustrante. Basta abrir qualquer caderno de ciências dos grandes jornais em circulação no país para perceber essa realidade: cientistas frustram-se porque suas idéias não foram compreendidas adequadamente pelos jornalistas, e jornalistas frustram-se porque não conseguem simplificar uma idéia complexa sem banalizá-la ou reduzi-la a um chavão (muitas vezes errôneo). No final, quem sai perdendo é o leitor. Esse problema em geral deve-se a uma falha na comunicação: o cientista fala um dos subdialetos do cientifiquês, e o jornalista só aprendeu a lidar com o cientifiquês, e não detecta que existe um subdialeto no que o cientista fala. Fica realmente como se estviessem falando línguas diferentes, e o que sai dessa salada da comunicação é o que temos no momento como divulgação da ciência na grande mídia.

Já existem iniciativas interessantes que tentam "traduzir" os subdialetos do cientifiquês a pessoas de outras áreas - vejo isso muito, por exemplo, nos blogs de ciência, com seu potencial de discutir assuntos até então restritos à academia com um leque maior de pessoas, leigas ou não. A discussão abrange a todos nesse caso, e em geral, são nessas caixas de comentários que vemos a idéia complexa ser digerida e repassada da maneira mais simples, com um linguajar adequado ao público geral. Ou seja, a transição perfeita do subdialeto do cientifiquês para a linguagem corrente, simples e adequada, feita da forma mais orgânica e colaborativa possível.

Entretanto, gostaria de frisar que, em minha opinião, cabe também ao cientista tentar ser o mais claro possível, sem perder a essência do seu trabalho; adaptar seu linguajar ao seu público. Não é tarefa só do jornalista a tradução da idéia complexa em dialetos do dialeto: quando o cientista a passa de maneira clara, a informação chega muito mais facilmente ao público geral. A existência do cientifiquês, em minha opinião, é necessária, para que a velocidade de comunicação entre 2 especialistas seja mais fluida e permita maior assimilação de conceitos mais profundos entre eles. Mas isso não significa que ela deva se estender a todos. É necessário que o o cientista exerça bom-senso e não faça uso das mesmas expressões complicadas, e principalmente, assuma que a pessoa o entendeu perfeitamente. O cientista precisa se desligar do cientifiquês hardcore em certos momentos, principalmente na divulgação da ciência. Parece que estou falando o óbvio, mas canso de encontrar colegas que discorrem sobre seu tema fervorosamente como se o interlocutor fosse quase obrigado a entender tudo o que ele está dizendo. E vejo principalmente o interlocutor tímido, apenas balançando a cabeça, com cara de ponto de interrogação; ou seja, nada entendendo.

Para reverter esse quadro, talvez a solução esteja na arte de falar simples, arte que poucos dominam na ciência - o cientista se acostuma a só conversar com seus pares, e infelizmente perde o tato com o grande público. Isola-se em seu dialeto que apenas meia dúzia entendem. Ser claro, conciso e direto ao seu objetivo, sem rodopios ou palavras difíceis, especializadas deveria ser um objetivo preponderante nas conversas fora de seu círculo dialético. Muitas vezes o interlocutor não quer saber o detalhe do detalhe do seu trabalho: ele quer saber o seu objetivo geral - e é esse objetivo, seus resultados e afins que irão talvez chegar na grande imprensa, traduzidos do cientifiquês para o linguajar corrente por um jornalista ou divulgador. São os objetivos e resultados que precisam estar claros como água, para que o processo educativo e de conhecimento seja pleno para ambos os lados, cientistas e não-cientistas, sem mal-entendidos que geram frustrações. Para que ao lermos um texto especializado, o cientifiquês se flexibilize e seja incorporado à língua vigente tanto como o havaiano ao inglês: em ritmo de aloha.

Tudo de akamai sempre que possível.

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- Esse texto faz parte das discussões no Roda de Ciência nesse mês de dezembro, cujo tema é "a arte de falar simples". Os comentários podem ser feitos no Roda: a intenção é discutir e construir por lá. :)

- Akamai = vocábulo havaiano que funciona como substantivo, adjetivo ou advérbio: inteligente, esperto, ou inteligentemente, espertamente.

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quarta-feira, dezembro 13, 2006

As novas 7 maravilhas do mundo

Para quem ainda não sabe, as novas 7 maravilhas do mundo estão sendo escolhidas num site, com direito a votação popular e tudo. Haverá até uma cerimônia oficial que anunciará as novas mais votadas 7 maravilhas do mundo moderno, em julho/2007 em Lisboa. Organizado por uma fundação chamada New7Wonders e patrocinada por empresas absolutamente desconhecidas por mim, o New7Wonders tem como objetivo educar as pessoas sobre as jóias arquitetônicas do nosso tempo e mostrar o quanto elas vêm sendo destruídas por nós mesmos. Achei a idéia do site em geral, bacana - apesar de desconhecer a idoneidade de tal fundação e tudo cheirar a uma oportunidade de ouro de lucro. Achei também a idéia da votação bastante democrática. Afinal, voto popular não mente - mas pode ser manipulado, e é aí que mora o perigo.

Desconsidere meu ceticismo científico quanto à empreitada - advindo principalmente do fato que é necessário registrar-se para votar. Imagine, por exemplo, que os chineses conectados votarão em massa na Muralha da China - que é mesmo uma maravilha, e portanto merece o voto. Ou, por exemplo, os americanos votando em massa na Estátua da Liberdade, que, convenhamos, não é lá essas maravilhas - é muito mais simbólica do que uma "gigante da arquitetura" como as maravilhas do mundo antigo o eram. Tenho receio de bairrismos extremados que tirarão o jus de lugares maravilhosos menos conhecidos do público, onde talvez o público esteja menos ligado à internet e nem saiba que tal votação esteja ocorrendo (como na Ilha de Páscoa, talvez). Tenho receio, enfim, daquele voto de ocasião, do turista internético acidental.

Pense bem: quantas pessoas efetivamente visitaram todos os lugares dos 21 concorrentes? Imagino que poucas. E quantas visitaram a Torre Eiffel? Muito mais, com certeza, do que as que visitaram o Timbuktu, no Mali. Entretanto, na hora de votar, as pessoas provavelmente não se preocuparão com isso, e sim com a simbologia ou com os locais que elas conhecem, com os quais estão ligadas emocionalmente. Eu visitei 6 apenas dos lugares listados, e na hora de dar meu voto, me senti toda embananada, numa dúvida cruel sobre qual maravilha escolher dentre as que não visitei - você vota em 7, mas eu no fundo queria deixar 2 das que conhecia de fora, ou seja votar em 3 não-visitadas. Não me sinto confortável dando crédito a um lugar pra mim desconhecido, embora provavelmente impressionante em arquitetura, já que foi finalista. Mas enfim, contradizendo a mim mesma, votei, e fiquei satisfeita com meu voto - a gente se alegra com cada coisa nessa vida... Apesar de tudo, é uma oportunidade divertida e diferente de participação em algo. Fica a sugestão.

Tudo de bom sempre.

Muralha da China
Um voto declarado: a Muralha da China merece todo o hype que existe em torno dela. É uma das maiores obras arquitetônicas da civilização humana, uma construção digna da nossa capacidade cerebral.

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UPDATE: O João Carlos deixou em seu comentário um link excelente da Wikipedia sobre as 7 maravilhas do mundo, onde estão marcadas não só as 7 do mundo antigo, como outras diversas (Idade Média, Moderna, Obras de Engenharia...) - incluindo as 7 maravilhas do mundo subaquático!! Dessa lista do mundo azul, conheço Palau - e recomendo, pois é talvez o lugar mais exótico do planeta que visitei. Valeu, João, pelo link!

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segunda-feira, dezembro 11, 2006

Domingo à noite, numa churrascaria na Av. Rebouças

Cação ao molho

Fui jantar numa churrascaria na esquina da João Moura com a Av. Rebouças, em São Paulo, e ao passar pelos pratos quentes, eis que me deparo com um refogado de postas de cação - que é o mesmo que tubarão. Sim, tubarão no menu não é só exclusividade chinesa.

Chamei o maître e conversei educadamente em poucas palavras sobre o problema da pesca do cação. Sei que o maître não tem absolutamente nada a ver com com a compra das postas de cação pela churrascaria, muito menos com a seleção do menu. Principalmente, sei que no fundo é a pressão do mercado consumidor que incentiva o restaurante a cozinhar um prato com tubarão. Ou seja, é porque muitos consomem que ali está; é porque compramos no mercado - o comércio não é ilegal, embora bizarramente a pesca intencional o seja.

Para mudar esse cenário? Começa com uma lei mais rigorosa de fiscalização dos barcos pesqueiros, passa pelo avanço tecnológico das redes para melhor evitar o "bycatch", e termina com a necessidade de melhor educação ambiental nossa, os consumidores. Eu acredito que são as pequenas ações do dia-a-dia que contribuem para, quem sabe, um mundo melhor no futuro.

Da próxima vez que for à peixaria, pergunte despretenciosamente ao pescador de plantão como o cação à mostra veio parar ali. E pergunte por que estão todos curiosamente sem barbatanas (arquivo pdf).

Tudo de bom sempre.

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- Mais uma contribuição minha já está lá no Goitacá: "Presépada coreana".

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quinta-feira, dezembro 07, 2006

De barco pelo Tâmisa

Big Ben fim de tarde©Big Ben noturna©
O maior símbolo de Londres, o relógio do Big Ben, em dois momentos: ao entardecer e à noite, iluminado. Londres é afinal como o Big Ben: pontualmente bela.

Eis que em uma das tardes em Londres, após a entrevista do André no museu, resolvemos nos encontrar com a Alessandra e o Stu para um passeio pela cidade. Depois de algumas perguntas sobre lugares onde poderíamos ir, decidimos por um passeio de barco pelo Tâmisa. Não poderíamos ter acertado mais na escolha.

Estava um tempo meio chuvoso, mas assim que chegamos à beira do rio o sol abriu com uma força inacreditável para os padrões londrinos. Afinal, a cidade é famosa pelo fog e pela garoa, e tínhamos testemunhado isso nos dias anteriores com uma irritante constância. O sol e o céu azul contribuíram para uma das visões mais espetaculares que pude ter da capital londrina: o London Eye (aquela roda gigante da virada do milênio que fica em frente ao Aquário de Londres) em toda sua força-motriz arquitetônica. Desnecessário comentar que tanto André quanto a Alê, ávidos fotógrafos que são, ficaram boa parte do início do trajeto clicando tudo ao redor, aproveitando o espetáculo colorido que o sol proporcionava. Realmente uma beleza ver o Big Ben reluzindo como jóia.

Londo Eye em dia de sol©Londres noturna©
Duas visões lindas da London Eye: com o sol da tarde reluzindo em sua estrutura e à noite, iluminada e refletindo no Tâmisa todas as lampadinhas coloridas. Londres é mesmo marcante.

Mas durou pouco. O barco tomou seu rumo para Greenwich, destino final, e quando chegamos a Tower Bridge, em frente ao Castelo de Londres e à vanguardista área da prefeitura de Londres, eis que o tempo fechou de novo e começou a chover. Sem problemas, porque mesmo com a chuva, as duas margens do rio nessa área proporcionaram fotos ótimas da cidade. A Tower Bridge é uma das pontes mais reconhecidas no mundo, e de acordo com um folheto que li, ela se abre em média 900 vezes por ano, para passagem de navios maiores. Mas, no período curto em que lá estivemos, não vimos nenhuma vez a ponte levantada, infelizmente.

London Tower bridge©London Eye no fog©
Vista da Tower Bridge de dentro do rio, com o céu já escurecendo, prelúdio de chuva. Ao lado, uma visão meio Duchampiana da London Eye, num dia de fog.

O barco continuou indo pelo rio Tâmisa - que tem uma impressionante linha de maré: a variação chega a 7m. Passamos pelo teatro de Shakespeare, pelas docas antigas - que hoje são simpáticas áreas de lazer da cidade -, pelo pub com a vista mais linda do mundo, até chegarmos no distrito de Canary Wharf, o bairro modernoso de Londres, espécie de La Defense inglês, onde o business predomina. Mais poucos minutos, e encostamos no píer de Greenwich, onde fica o famoso Observatório Astronômico Real que é referência mundial do tempo-espaço. Para chegarmos até o meridiano de Greenwich em si, uma prazeirosa caminhada de uns 20 minutos pelos jardins do Museu Marítimo Britânico e pelo parque de Greenwich. No topo do morro, o observatório - hoje apenas um museu; toda a área é tombada pela UNESCO como Patrimônio Histórico da Humanidade. E a famosa linha imaginária que corta o mundo ao meio, que define e padroniza a contagem do tempo no nosso planetinha: o meridiano de Greenwich (GMT = Greenwich Meridian Time). Por alguma razão que nenhuma lógica explica, eu sempre fui fascinada pela linha do tempo. Já cruzei algumas vezes o outro lado de Greenwich, o meridiano que representa a Linha Internacional da Data (que passa pelo meio do oceano Pacífico), mas saber que estava ali onde "o ocidente encontra o oriente", com um pé lá e outro cá, onde o tempo zero é aferido para todos os relógios do mundo, onde a longitude zero é padronizada para todos os GPS's do planeta, me deu a sensação infantil de sonho realizado.

No meridiano de Greenwich©Canary e museu naval britanico©
Folhas de outono colorem a linha imaginária que sonhei tanto em pisar, o meridiano de Greenwich. Com um pé no ocidente e outro no oriente - que representa filosofica e viajantemente o ápice da visão global/mundo de todas as esquinas que um bom viajante deve ter. A linha em si nada mais é que um traço na parede e no chão, mas o significado dela para mim... é incalculável. Ao lado, uma visão do Museu Marítimo Britânico com o distrito de Canary Wharf atrás, seus arranha-céus iluminados pelo pôr-do-sol.

Para completar a magia, a mistura chuva com sol ("casamento de espanhol") trouxe um fenômeno natural lindo de se apreciar: um arco-íris. Que iniciava no London Dome (o mico do milênio) e rechaçava suas cores pelas árvores do parque de Greenwich. A tarde se esvaía de forma simplesmente esplêndida.

E já era hora de voltar para casa. A noite caíra. Pegamos o último barco que saía de Greenwich, e ao chegarmos no píer do Parlamento Inglês, decidimos por jantar num restaurante libanês cujos pratos cheios de temperos do oriente médio iam da gastronomia requintada à divina em poucas garfadas. Depois de tão prazeirosa noite, nos despedimos e André e eu entramos no Tube, rumo a Killburn.

Tudo de bom sempre.

Símbolos de Londres
Símbolos de Londres, capturados poeticamente pela lente da Alê: o Big Ben, o ônibus vermelho e o dinamismo que a cidade inspira. "Modelo" da foto: André. Foto gentilmente cedida pela Alê.

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terça-feira, dezembro 05, 2006

Pelas ruas de Londres - parte 2

Em nosso segundo dia nos perdendo pelas ruas de Londres, tínhamos mais uma vez apenas o primeiro destino certo: queríamos presenciar a tradicionalíssima troca da guarda no Castelo de Buckingham. Afinal, vir a Londres e não ver os tais guardinhas com chapéu de casa de marimbondo é quase o mesmo de ir ao Rio e não visitar Copacabana.

Para chegar até o castelo de Buckingham (que, aliás, não é dos mais bonitos que já vi), fomos até a estação Green Park e ao sair, atravessamos o Green Park que dá nome à estação, uma caminhada super-agradável em meio a árvores e esquilos. Não é difícil perceber que estávamos chegando ao palácio: a quantidade de gente (principalmente turistas e policiais, à caráter e à paisana) nas ruas, calçadas e nos portões do palácio era inacreditável. Era dia da troca da guarda escocesa, e soldados com gaitas de fole (talvez o som mais irritante do mundo para os meus ouvidos) vinham pela praça central, também lotada. Com minha estatura baixa, a primeira parte da troca depois dos portões eu simplesmente não vi, em meio a cabeças, máquinas fotográficas e celulares. Procurei diferentes ângulos, mas nenhum buraco plausível aparecia que me permitisse boa visão. Paciência. Entretanto, assim que a troca da guarda dentro da área do palácio acabou, a multidão começou a dispersar - e foi aí que pude ver finalmente os tão-famosos soldadinhos de chumbo da rainha. Eles saíram pela mesma praça central, e nesse momento, já com menos da metade do povaréu inicial, pude efetivamente aproveitar a troca da guarda.

Após o desfile, andamos em direção a uma grande avenida em frente ao palácio de Buckingham, e nos adentramos no parque St. James (que minha ignorância momentânea achava ser o Hyde Park). Nesse parque, havia um laguinho onde um grupo bizarro de pelicanos (redundância, porque para mim pelicanos e bizarrice poderiam ser quase-sinônimos) interagia com o público e com outras aves. Muitas aves diferentes, aliás; uma pequena fauna divertida para o meio de cidade em que estávamos. Um dos pelicanos era mais "aparecido" e chegava próximo à grade, sempre tentando mordiscar a comida de quem passava. Uma graça. Mas eu, com minha mentalidade maionesística, sempre me pergunto quanto será o nível de colesterol e afins no sangue dessas aves urbanas que obviamente não evoluíram o metabolismo com dieta de Cheetos de visitantes. Viagens minhas...

Guarda realPelicano no Hyde Park
Os guardas escoceses da realeza britânica, deixando o seu turno de trabalho no Palácio de Buckingham. A praça já estava mais vazia nesse momento. Mas o som das gaitas de fole... ai. Ao lado, um pelicano sendo alimentado por uma criança. Pelicanos são aves muito bizarras e esse tinha uma cara de louco muito peculiar.

Andando pelo parque, tivemos visões simplesmente magníficas da cidade. Em dado momento, um castelo londrino apareceu meio que por entre árvores banhado por raio de sol, e parecia que estávamos vendo cinematografia de filme épico. Aliás, nem parecia que eu estava numa metrópole: o ar de vilarejo feudal à distância era a sensação predominante naquele momento. O cheiro e a cor das folhas ajudava um pouco nessa sensação, talvez, porque o cenário parecia de contos de fadas.

London Eye visto do Hyde ParkCastelo de Londres visto do Hyde Park
Primeiro, o London Eye visto do St. James Park, e ao lado, a visão mágica do castelo em meio ao verde do parque. Medieval, para dizer o mínimo.

Após andar por dentro do parque, chegamos a um prédio magistral onde a realeza guarda seus estimados cavalos. Sim, uma cavalaria chique, com direito a guardinha sisudo vestido à caráter século XVII e tudo. Mas o prédio é simplesmente lindo por fora. Passamos por dentro para ver o tal "guardinha da espora", que nunca sorri ou olha para as pessoas, e chegamos do outro lado do quarteirão. A caminhada continuou pela Whitehall street e de repente, um susto: estávamos em Trafalgar Square. (E o sol aparecera!)

Sem um mapa em mãos (afinal, estávamos a fim de nos perder), eu não tinha noção de que a famosa praça estava tão perto do palácio de Buckingham. Nós terminamos fazendo um caminho mais longo, mas se pegássemos o outro lado do St. James Park, teríamos dado direto no Admiralty Arch, outro ponto certo de turismo londrino. De qualquer forma, estávamos ali, no hotspot londrino, em meio a centenas de ônibus de 2 andares vermelhos, táxis pretos enormes, aquela mistura vanguarda e classicismo que tanto cheira a Londres. A praça vibrava, embora nenhuma manifestação específica nela acontecia. O prédio do Museu Nacional em frente parecia brilhar, com sua estátua de leão. Um momento de sensações incríveis: eu estava ali, no coração de Londres, uma das capitais do mundo, berço de tantos movimentos culturais, de tanta história, e isso me emocionou.

Em Trafalgar Square compramos um sanduíche e fomos comendo pela rua, apreciando a fauna urbana. Entramos em uma rua diagonal, e de repente, André tomou outro susto: encontrara a loja da Stanley Gibbons. Para quem não curte ou não entende muito de filatelia, não passa de mais uma loja numa rua de Londres. Mas para colecionadores de selo, é a visita mais almejada que se pode imaginar. E chegamos lá por acaso - ah! as maravilhas de se perder numa cidade! Entrar na loja foi uma experiência incrível para mim, uma outsider desse mundo. Entreti-me muito vendo catálogos de selos de vida marinha das ilhas do Pacífico (cada um mais lindo que o outro), selos comemorativos de eventos esdrúxulos em países longínquos e principalmente, percebi o quão viva a filatelia ainda está no mundo de hoje - pelo menos ali, naquele endereço. Pedaço de história popular.

Após a parada na Stanley Gibbons, continuamos a caminhada e percebi o tradicional hotel Savoy e muitos teatros. Estávamos no centro nervoso da produção teatral de Londres, onde as peças famosas são expostas ao público. Respirava arte no ar, era lindo. Mais uns quarteirões andando e de repente, outro susto: chegamos em Piccadilly Circus, outro point de Londres - esse, com mais cara da Times Square novaiorquina, sem o charme histórico de Trafalgar. Piccadilly Circus estava lotada, muitos jovens e um telão enorme, ícone-mor da era cyber, piscava as marcas mais famosas do nosso tempo. Eu estava numa metrópole, e o ar de tudo-ao-mesmo-tempo-agora-aqui era o predominante naquele momento.

Trafalgar SquarePiccadilly circus
E vejo flores em Trafalgar Square! Ao lado, a agitação dos painéis em Piccadilly Circus, outra praça chave do dinamismo londrino.

Em Piccadilly, resolvemos pegar um ônibus vermelho de 2 andares - eles agora são híbridos, ecologicamente mais eficientes. Entramos em qualquer um que passava, subimos no segundo andar. Começava a chover, então a opção do ônibus foi acertada. Depois de um tempo nos divertindo vendo a cidade "de cima", saltamos do ônibus e nos dirigimos a uma estação do metrô. Afinal, precisávamos voltar para casa, porque mais comemorações no Museu de História Natural Britânico nos aguardavam. (Parênteses: tomar café no Museu de História Natural ao lado das estátuas de Darwin e de Wallace não tem preço. Pelo menos, para cientistas, como eu. Não perca o capuccino deles, é muito gostoso.)

Museu de História NaturalCharles Darwin no café do museu
O prédio do Museu de História Natural de Londres por si só já impressiona: um castelo de ciência. Ao lado, a estátua de Darwin observa de seu patamar os visitantes que param no café do museu. Lovely!

Londres é uma festa monárquica. Ou seria anárquica?

Tudo de bom sempre.

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segunda-feira, dezembro 04, 2006

Pelas ruas de Londres

Sem nenhum motivo aparente, Londres nunca foi minha cidade predileta. Quando mochilei pela Europa, ouvi muitos outros mochileiros em albergues pela França comentando que o custo da estadia por lá era absurdamente caro, e isso meio que me afastou naquela época de visitar a cidade. Heresia máxima de uma viajante, não tinha plano algum de um dia sequer na vida ir a Londres. Simplesmente não me atraía, achava-a... boring.

Assim que soubemos que íamos para Londres por uma causa tão ilustre, tive que fazer o dever-de-casa e começar a buscar informações sobre a cidade - isso em meio às confusões logísticas para levar o gato pro Brasil. Ou seja, procurei aprender sobre pontos legais de se visitar na cidade, mas no fundo, não pesquisei muita coisa por absoluta falta de tempo. E foi com esse espírito cru, com esse pré-conceito pessoal de que a cidade não era lá esses balaios, fingindo a mim mesma não ter ouvido o Idelber e mais uma meia dúzia de amigos afirmarem que era uma das melhores cidades da Europa, que eu amaria, desconfiando de overhype por todos os lados, que desembarquei no aeroporto de Gatwick.

Eu não podia estar mais enganada sobre a cidade. Assim que pisei na capital britânica, apesar do agente de imigração quase ter me negado entrada (suei por mais de meia hora numa entrevista dura para conseguir o carimbo de aceite), senti logo no ar que a cidade ia ser muito especial para mim. Talvez fosse o sotaque meio-formal, talvez a mão inglesa de direção, talvez a cédula de 10 "quids" (libras) com a efígie de Darwin impressa. Não sei, mas fato é que gostei de Londres de cara, no primeiro contato.

Assim que chegamos, nos dirigimos à casa da nossa hostess e amiga Emma. Ainda estava meio atordoada do vôo e do fuso (o eterno jet-lag que me persegue) e decidimos que nessa primeira noite por lá íamos pegar "light": fomos jantar num pub. No dia seguinte, começamos nossas andarilhações pela capital, e aí é que a minha ficha caiu completamente: Londres é simplesmente demais. Que cidade!

Fica difícil enumerar algo específico que valorize a cidade e a caracterize unicamente. É todo o conjunto da modernidade aliado à tradição monárquica, é o novo e o velho se misturando nesse melting pot mundial, as diferentes etnias, a diversidade de personagens e ambientes que faz de Londres a mesma festa mutante que Hemingway usou para descrever Paris em seu célebre livro.

Em nosso primeiro dia de caminhada pelas ruas londrinas, resolvemos fazer o que todo bom turista deve fazer numa cidade assim: se perder. Apenas nosso destino inicial foi ligeiramente traçado: íamos ao London Eye. Pegamos o Tube (o metrô de Londres) até a estação de Westminster, e a escada de acesso à rua já deu um aperitivo do que viria pela frente: a imagem do Big Ben em todo esplendor. Andamos pela região, na esquina mais monumental da cidade. A cada lado uma atração mais incrível: de um lado, o Parlamento Britânico; em frente, o rio Tâmisa; na outra margem, o Aquário, o Museu Dalí e a London Eye; acima, o Big Ben. Precisa de mais? Atravessamos a ponte do Tâmisa e chegamos na região da London Eye. Resolvemos encarar a volta de quase 1 hora dentro das cápsulas jetsonianas dessa mega-roda-gigante, criada para comemorar a virada milênio. É a mais alta roda-gigante do mundo e esperávamos visões panorâmcicas perfeitas, mas infelizmente assim que a gente pôs o pé dentro da cápsula, uma leve névoa cobriu a cidade, e tudo que vimos lá de cima foi tons de cinza.

London eye viewTower bridge door
A vista cheia de fog que tivemos do topo da London Eye. Ao lado, uma porta intrigante na Tower Bridge. Será que leva para a casa de máquinas da torre?

Da London Eye, decidmos continuar em caminhada sem rumo. Pegamos o sentido do Southbank pela beira do Tâmisa, no chamado "The Queen's Walk". Mesmo com o tempo cinzento, a caminhada foi extremamente prazeirosa. Começou a chover na altura da ponte de Waterloo (que só me fazia lembrar minha tia sonhadora que sempre comenta que "o filme da vida dela é "A ponte de Waterloo", um romance super-açucarado com Vivien Leigh) e decidimos por um ônibus qualquer, entramos no primeiro e esperamos para ver onde ele ia nos deixar. Saltamos perto da London Bridge quando a chuva amenizou, e continuamos a andar pela beira do Tâmisa. Passamos pela Hay's Gallery, vimos o HMS Belfast, um navio da frota britânica da Segunda Guerra que participou do desembarque na Normandia e virou museu flutuante, o Museu Imperial da Guerra. Não entramos no navio, mas percebi que um número considerável de tours de escolas com crianças estava chegando para a visitação - acho muito legal esses tours para crianças, em geral ensinam muito aos adultos também. O HMS Belfast fica quase em frente à Prefeitura de Londres, um prédio novo de arquitetura arrojada muito interessante, que fica em frente ao ícone máximo da Londres dos folhetos de turismo: a Tower Bridge.

Prefeitura de LondresNa prefeitura
Prédio da Prefeitura de Londres, à beira do Tâmisa em dia de muito fog e chuva. Achei o prédio muito interessante. Ao lado, uma das esculturas no parque ao lado da Prefeitura era esse "ovo" caindo - e uma Malla tentando empurrá-lo mais ainda pra cair, hehehehehe!

A Tower Bridge é aquela ponte elevadiça com uma torre de cada lado construída no século XIX. Cruzamos a ponte, observando os detalhes da estrutura. A mim, me intrigou uma porta medieval que estava fechada. Será que ia para o antigo motor hidráulico que erguia a ponte? Enfim, a caminhada seguiu. Da ponte, é impossível não notar a sua frente a Torre de Londres, um castelo inicialmente construído no século XII e que foi destruído 2 vezes por incêndios, reconstruído, remodelado, e hoje é um pedaço enorme de história e arqueologia na beira do Tâmisa. Porta de entrada para a cidade, já funcionou também como prisão real. Hoje, ao invés do fosso com água ao redor separando a área do castelo do resto da cidade, a Torre apresenta um gramado enorme bem-cuidado, reflexo da moderna preocupação com focos de água "parada" pela cidade - embora eu me pergunte quão parada, já que o rio está ali na frente. A área é obviamente lotada de turistas, de todos os lugares imagináveis do mundo. Guardinhas e guias vestidos tradicionalmente dão o charme ao local. Sentamos e apreciamos a vista mágica.

A caminhada continuou e chegamos no S. Katherine's Docks, uma marina para barcos particulares (entenda-se: de magnatas londrinos) cheia de cafés, restaurantes e boas lojinhas. Uma exposição a céu aberto de azulejos me encantou, e eu fiquei um bom tempo tirando fotos dos diferentes azulejos, cada um com um tema, cada um mais colorido que o outro. Como Londres é uma cidade cara - e a lógica diz que os londrinos devem saber onde as coisas são mais baratas na cidade) - ficamos observando o brasserie em que entravam mais pessoas com "cara de londrinas" (não me perguntem como definimos isso, mas definimos). Logo escolhemos uma simpática loja cheia de sanduíches gostosos a preços amenos, e nosso almoço da tarde foi muito agradável, sentados à beira da marina, vendo barcos históricos, com uma cabine telefônica típica ao lado, e observando o movimento dos locais.

Depois de lanchar, voltamos pela rua atrás do castelo, rumo a uma estação de metrô que nos levasse a Baker street. Depois da rápida visita, hora de ir para casa, preparar-se para a noitada que vinha pela frente.

Tudo de bom sempre.

Londres mosaico©
Mosaico colorido de azulejos que estava no St. Katherine's Docks. Apesar da cidade durante o dia ter ficado o tempo todo cinzenta, o mosaico reflete muito mais o astral que a cidade tem: colorida e cheia de energia. Em outras palavras, imperdível.

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sexta-feira, dezembro 01, 2006

Elementar, meu caro Watson!

Eu estou devendo a mim mesma e a todos que me dão a honra da visita mais relatos sobre a minha ida a Londres em outubro. Foram muitas atrações legais, muitos momentos mágicos - alguns já relatados em posts passados. Mas falta a visão de uma viajante andarilha que nunca tinha ido à essa capital do mundo antes, a opinião sobre a primeira vez pisando em ruas até então apenas lidas em guias de turismo. A perspectiva do novo. E são esses posts que eu pretendo publicar por esses dias.

Londres é uma festa - e eu não me canso de repetir esse chavão. Mas também é reconhecida por seus mistérios diversos. Jack, o Estripador é o mais famoso deles, e o que particularmente mais me fascina. Entretanto, foi um mistério "fictício" que me entreteu numa tarde de terça-feira por lá. Mais precisamente, em Baker Street, número 221b. Londres também é a casa de um dos meus detetives prediletos de livros de história policial: Sherlock Holmes.

Por isso, ao sair da estação de metrô Baker Street em Londres, não pude deixar de me alegrar ao ver a estátua do detetive no meio da calçada. A certeza de que a cidade alimenta o mito da forma que ele merece. E, é claro, como fã, parei para tirar uma foto ao lado da tal estátua.

Dobrei a esquina. Tarde ensolarada e ligeiramente fria. Já estava em Baker Street. Andei pela rua até o número 221, tombado pelo patrimônio histórico britânico e famoso por ser a residência fictícia de Sherlock - fictícia para quem acha que a imaginação não conta, é claro. Para mim, residência tão real quanto o castelo de Buckingham. Se não mais, já que nenhuma ligação emocional que a família real pudesse me proporcionar se compararia às memórias de adolescência que tenho lendo as obras de Sir Arthur Conan Doyle. Sherlock me trouxe, junto com Poirot de Agatha Christie, a necessidade do questionamento constante, o aguçar do pensamento lógico, a importância da boa observação dos fatos, o prazer da pesquisa e, em última instância, da ciência. "O Cão dos baskervilles" ainda é minha obra predileta, mas nada se compara às indagações constantes do Dr. Watson, o fiel escudeiro do detetive. Elas para mim davam o gosto e o tom da leitura, em todas as histórias do detetive.

A estátua do famoso detetive 221 Baker street
A estátua do detetive na saída da estação de metrô de Baker street. Ao lado, em frente ao famoso número 221. Momento sonhado por muitos anos, em tardes ganhas lendo aventuras detetivescas...

Ao chegar no museu Sherlock Holmes, um guarda vestido a caráter século XIX abre-nos a porta para o 221b, residência oficial de Sherlock - após comprarmos o ingresso na lojinha do museu, que fica no 221. O museu é minúsculo e bastante simpático - em pouco menos de 1h já tínhamos acabado de visitá-lo. Um pouco claustrofóbico, mas qual casa na Inglaterra antiga não deveria ser? Cheio de memorabilia do detetive, resquícios de casos e tudo nos conformes, como descrevia Sir Conan Doyle. Mas o mais interessante: um figurante fazendo as vezes de Dr. Watson, o querido parceiro de Sherlock. Que faz questão que tiremos muitas fotos, dele e dos objetos ali presentes. Me agarrei logo à lupa famosa, e pude deitar no divã de Sherlock por alguns momentos, refletir sobre (a falta de) limites da imaginação humana.

Com Dr. WatsonMemorabilia de Sherlock
Com Dr. Watson, em momento exaltado de fã. Ao lado, um pedaço da memorabilia em exposição no museu, objetos que "pertenceram" a Sherlock Holmes.

No primeiro andar, a sala onde ambos discutiam casos, Sherlock fazia suas análises químicas e estudava. Seu divã. No segundo andar, o quarto de Dr. Watson e de Mrs. Hudson. No terceiro andar, a exibição de modelos de cera dos personagens mais marcantes - incluindo vítimas de crimes. Confesso que ficava esperando a qualquer momento professor Moriarty dar uma piscada para mim, de tão realistas que são as imagens. E no sótão da casa, a bizarrice da casa: o banheiro, com uma prateleira enorme sobre a porta contendo as malas de viagem de Sherlock. Achei estranhérrimo armazenar malas perto da privada, principalmente porque não havia falta de espaço na casa. Coisas de Sherlock.

RecadoSherlock 01
Um recado descrito em livro de Sherlock e exposto no museu; ao lado, minha nada imaginativa assinatura no livro de visitas: já que era pra viver o mundo fictício, tentemos nos comportar como tal.

Após o passeio feito, assinei o livro de visitas. Hora de ir embora, mas com a pulga atrás da orelha: quem será que morou oficialmente nessa casa no final do século XIX? Será que Doyle se inspirou em alguém real? Mistério que só o próprio Sherlock poderia explicar um dia, se ainda estivesse vivo. E esquizofrenicamente não está, na nossa imaginação coletiva?

Tudo de bom sempre ao mais famoso detetive do mundo.

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