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segunda-feira, maio 28, 2007

Algumas considerações sobre raças e afins

Há muito tempo atrás, eu entrei numa discussão super-interessante por email com a querida Ana, sobre raças. Na época, sabia que ela estava com um livro pronto para ser lançado, mas eu não sabia sobre o que se tratava - e ela insistia em querer entender o conceito biológico de raças, espécies, etc. e eu, avoada como sou, não liguei aquele papo sequer ao tópico de seu livro. Continuei enviando links e mais links de sites que tratam de biologia, discussões intermináveis, que foram muito férteis, pelo menos para mim, sobre o conceito biológico de raça, população e até de espécie. Os emails depois de um tempo cessaram, por um motivo claro: ela se ocupou com o presente máximo à literatura brasileira, um dos maiores tratados sobre a escravidão e o racismo no Brasil, o livro "Um defeito de cor"; e eu percebi então o quanto aquela discussão internética poderia realmente ter se estendido - eu estava conversando com uma expert cultural no assunto e não me toquei. Shame on me.

Num desses emails, lembro de ter mencionado o quanto os coreanos não gostavam de misturar sua "raça" com a de outros povos, exemplificado brilhantemente com um acontecimento (na época, presente) na Coréia do Sul, envolvendo um jogador de futebol americano negro, chamado Hines Ward. Ward nasceu em Seul, filho de uma coreana com um afro-americano. Logo que nasceu, sua mãe foi vítima intensa de preconceitos por parte de coreanos - afinal, seu filho era negro (e acrescente aqui os adjetivos pejorativos aliados a tal), algo considerado uma vergonha na sociedade coreana do final da década de 70. As ameaças foram tão fortes que a mãe de Ward não aguentou a pressão social: fugiu para os EUA com o filho e nunca mais voltou à Coréia. Quis esquecer sua pátria.

O tempo passou, Ward cresceu, foi para a faculdade e se tornou um jogador de futebol americano. Não qualquer um: foi eleito em 2006 o MVP ("Most Valuable Player", ou o jogador mais valioso do torneio) do SuperBowl, a maior competição de futebol americano do planeta. Esse título foi o suficiente para iniciar uma mega-controvérsia na sociedade coreana. E por quê? Porque os coreanos queriam se sentir orgulhosos por um coreano ter sido eleito MVP nos EUA, ou seja, um vencedor. Entretanto, a Coréia, como já expliquei antes, não reconhece o jus solis para cidadania, e os filhos de um casamento multirracial até pouco tempo atrás não eram considerados coreanos. E agora? A sociedade clamou por mudanças, muito por vaidade - não queriam perder a chance da glória. Uma grande discussão tomou força, o que acarretou uma reforma (ainda em andamento) no conceito de cidadania do coreano. Mas para pelo menos amansar os mais exaltados na discussão, o governo deu rapidamente o título de cidadão honorário coreano a Ward e sua mãe (que àquela altura do campeonato, já era há muito uma cidadã americana). Ironicamente, após terem sido escurraçados do país em 1977, eis que os dois voltaram para um encontro cheio de pompa e honra com o presidente coreano em 2006. A vida é mesmo uma caixinha de surpresas e hipocrisias.

Quando Ward visitou Seul, foi tratado como ídolo, e se tranformou no símbolo de uma campanha pelo multirracialismo do país - o que gerou uma resposta ácida do irmão do Norte, que não aceita de forma alguma a mistura da "raça coreana" com qualquer outra. Ou seja, uma demonstração clara do quanto o conceito (e valor) de uma "raça" é algo intrinsicamente forte para a sociedade por aquelas bandas.

Essa historinha me fez pensar muito na época. O tempo passou um pouco mais, e eu já trabalhava com diabetes tipo 2 na Coréia, quando fui a um Congresso de Diabetes em Seul e um consenso parecia claro entre os médicos: boa parte dos diabéticos asiáticos não eram necessariamente obesos. A maior parte, aliás, tem índice de massa corpórea normal, o que, pelo parâmetro ocidental, significaria que eles são saudáveis. Existe um componente genético que intrinsicamente faz com que o grupo asiático apresente muito mais problemas cardiovasculares quando diabético que os ocidentais em geral, que têm muito mais as "patias" que acompanham também a obesidade - mas mesmo no ocidente, genética não é o componente único para determinar que a pessoa seja obesa.

Os médicos concluíram naquele congresso que os métodos usados para diagnosticar um diabético no Ocidente precisavam ser modificados para ser eficientes na Ásia. Ou reinventados, mas não os mesmos. Muito mais que pensar apenas em relação à diabetes tipo 2, o que aquele consenso indicava para mim era que o grupo asiático possui intrinsicamente características biológicas que o tornam diferente dos demais do mundo - assim como os ameríndios, os anglo-saxões, os africanos, etc. também provavelmente têm características fenotípicas únicas em relação a outros parâmetros.

Rola a fita: o tempo passa mais e chegamos à temporada 2007 no Everest, quando um grupo de médicos de Londres decidiu fazer um experimento científico para estudar a hipóxia e a resposta cardiovascular em condições extremas, ao longo do Everest. Levaram bicicletas ergométricas, tiraram amostras de sangue e outras peripécias em diferentes elevações da montanha, incluindo uma área acima de 8,000m, na chamada "Zona da Morte" (as medições foram feitas no Balcony, a 8,400m de altura, e não no cume, mas alguns membros da equipe chegaram ao cume como recompensa). Nesse experimento fisiológico, embora não desenhado para estudar especificamente a adaptação natural à altitude e sim as patologias que se caracterizam por hipóxia, algumas informações podem trazer luz sobre uma população muito conhecida quando o assunto é adaptação à altitude: os sherpas.

Sabemos que há uma adaptação fisiológica à altitude, em geral de curto prazo quando saímos do nível do mar e vamos para zonas mais altas. Entretanto, os povos que vivem em altitudes terminam por adaptar-se fenotipicamente de diversas formas à falta de oxigênio característica dessas áreas altas do planeta, como os andinos na América do Sul, os sherpas no Nepal e os tibetanos, e os etíopes na África. Todos esses povos possuem diferentes concentrações de hemoglobina, por exemplo, para aumentar a eficiência do carregamento de oxigênio no organismo se comparados com as populações que vivem ao nível do mar. Os sherpas, em particular, possuem também um aumento significativo da capacidade respiratória e menores danos neurológicos que os habitantes do nível do mar quando expostos às zonas altas, o que os torna um povo ideal para a vida na montanha. Muito se pode aprender estudando o povo sherpa e suas adaptações à hipóxia das montanhas. Principalmente sobre estresse oxidativo, o mecanismo por trás de processos biológicos tão importantes como as defesas imunes e de patologias como diabetes e mal de Alzheimer, entre outras.

Os sherpas são considerados hoje um grupo étnico do Nepal, dos extremamente adaptados à altitude e com fenótipo de melhor eficiência neuro-cardio-respiratória sob hipóxia - e são super-atletas quando expostos às condições normais de oxigênio. Seria essa característica suficiente para determiná-los como uma nova raça e não apenas como um grupo étnico? Acho que essa distinção, diferente de ser discriminatória, deveria ser encarada como um fato positivo, pois é exatamente a existência de um maior pool de diversidade biológica humana, em geografias distintas, o fator que permite a evolução natural humana.

Entretanto, uma característica quando existente em apenas um grupo, embora valiosa para um determinado ambiente, não fornece amplitude adaptativa suficiente. De repente, os sherpas são mais suscetíveis a uma doença que a gente não é - ou vice-versa. E é nesse ponto que o trabalho publicado pelo Sérgio Pena - e muito claramente comentado pela Maria aqui - se torna super-interessante: fala em apenas 3 raças gerais formadoras da espécie humana, analisando-se pelas características do DNA mitocondrial de diferentes grupos. Pena recentemente mapeou de forma muito elegante o povo brasileiro, concluindo que não faz sentido algum falarmos em raças no país, que é geneticamente uma mistureba só. Ponto para nós na miscigenação e na assimilação dessa em nossos genes, que terminam nos dando maior amplitude adaptativa. Mas estaremos nós preparados para viver nas montanhas como os sherpas? Eu aposto que não.

Há claramente uma diferença pelo menos a nível populacional - mais extensamente, eu gostaria de chamar essa diferença de racial, mas sem contexto algum sócio-histórico, e sim puramente biológico. Parece um tabu falar em diferença racial nos dias de hoje por causa das consequências sociais - e sabemos pelo exemplo do incidente de Ward que elas existem - mas as diferenças podem ser de extremo valor para a melhoria das condições de saúde e de vida de muitos povos - como o exemplo da diabetes na raça asiática. A gente precisa parar de pensar em raça como problema e pensar nela como solução para um mundo melhor - para todos, igualmente. Quando nós, humanos, conseguirmos alcançar esse nível de preocupação, nossas hipocrisias mais racistas poderão desaparecer, e as raças serão o que sempre deveriam ter sido: um conceito biológico de diversidade, tão importante para a seleção natural a qual estamos tão arraigadamente comprometidos.

Tudo de bom sempre.

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*Esse texto é minha contribuição para as discussões do Roda de Ciência neste mês de maio, cujo tema central é "Existem Raças na espécie humana?"
. Os comentários podem ser deixados por lá, para que a discussão se enriqueça mais e se agrupe as demais do mês.

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