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quinta-feira, março 22, 2007

Parques nacionais americanos: Parque das Sequóias

Visitar as "grandonas", como bem colocou a Menina Eva nos comentários do meu outro post sequoiano, era um pequeno sonho da minha infância. Quando criança, sempre imaginava o problema da proporção, uma árvore tão grande que muitos homens não conseguiam abraçá-la, etc. Essas viagens na maionese que as crianças espertamente fazem sozinhas.

Mas aí eu cresci, e meu interesse nas sequóias passou a ser estritamente biológico. Como chegava nutrição no último galho lá de cima? Por que o tronco à medida que cresce não afina como as demais árvores? Qual a vantagem de seu gigantismo? Como seria a competição por espaço entre as sequóias? Por que só existem lá na Sierra Nevada?

E foi com esse arsenal de perguntas, misturada à curiosidade infantil restaurada, que cheguei no Parque Nacional das Sequóias, no interior da Califórnia. Eram 3 da tarde, o parque fechava às 5, e logo na entrada, uma placa dizia: "We require tire chains". Precisava ter correntes nos pneus para poder dirigir em determinadas áreas do parque, que estavam atoladas de neve. Conversamos com o guarda, que nos indicou uma lojinha uma milha pra trás, onde alugavam-se correntes. Fomos até a lojinha, e o mocinho que nos atendeu, depois de fornecer um preço aviltante pelas correntes (que quase nos desanimou a empreitada), comentou: "Olha, eles não checam se você tem ou não corrente. Se perguntarem, diga que tem e vá até onde a neve deixar." Jeitinho brasileiro entre americanos.

E foi isso que fizemos. Voltamos à entrada do parque, o guarda nada perguntou sobre correntes (provavelmente assumiu que tínhamos as tais no bagageiro) e nós nada falamos. Pagamos o ingresso e lá fomos atrás das sequóias.

A estrada que dá acesso às sequóias propriamente ditas estava em reforma, com um trecho considerável em pista única, e tivemos que ficar mais de 15 minutos esperando num sinal vermelho que permitiria continuar nosso trajeto. Já passava das 4 da tarde, e a luz do dia daqui a pouco seria perdida - o que para tornaria inútil o esforço para fotografar sequóias. À medida que subíamos a serra Nevada, o frio começava a predominar; de repente apareceu um pouquinho de neve, mais um ppouco, mais um tanto... e de repente estávamos numa área completamnete branca, com muitas árvores secas e outras árvores gigantes e verdes ao nosso redor: chegamos nas sequóias.

Você não encontrará sequóia por boa parte da área do parque; elas habitam apenas as regiões mais altas, mais frias e rarefeitas, que estão no centro do parque. Embora frio, o visual da estrada àquela hora da tarde com fog e neve estava simplesmente mágico, lindíssimo. Fiquei admirada com a beleza mística que tomava conta dos arredores das árvores. A neve branca e nunca pisada compunha um cenário perfeito. Mais fotogênico, impossível.

Sequoia 1©Sequoia 3©
Cenas da estrada do parque. O cenário estava realmente mágico com todo o fog e o branco neve... Só faltava um urso aparecer para ficar mais surreal ainda.

Não dava para fazer trilha alguma (já era tarde do dia, não podíamos entrar no mato e correr o risco de anoitecer; além do frio, é claro), mas andamos um pouco até acharmos a sequóia Shermann, considerada o ser vivo de maior massa do mundo - pesa cerca de 2000 toneladas! A maior árvore do mundo. Sua idade, calculada por dendrocronologistas, é motivo de controvérsia, mas está estimada em cerca de 2500 anos, e boa parte das sequóias maiores por lá tem mais ou menos a mesma idade; são "jovens senhoras". A árvore é muito alta (~90m) e não vemos o final dela. Entretanto, ela não é a sequóia mais bonita. Há muitas na beira da estrada que têm um colorido todo diferente nos troncos, e muitas habitam em grupos - podemos perceber que a competição por espaço é intensa, dado que nesses grupos, sempre tem uma ou duas árvores que são pequenas, não crescem adequadamente porque as gigantes irmãs simplesmente dominam o pedaço.

Sequoia 5©
General Sherman, a maior sequóia do mundo: tentativa de vista dela completa. Repare na enorme cicatriz de incêndio que ela tem no tronco.

O tronco da sequóia é bem espesso, mas a madeira é mole, provavelmente a razão pela qual não foram utilizadas (e dizimadas) nos primórdios da civilização americana. Seu predador natural são insetos, fungos e bactérias - são eles que em geral matam a árvore, por doenças e herbivoria. Ou quando uma evento natural atua: uma tempestade derruba, um incêndio queima (curiosamente, em geral ela regenera de incêndios), um terremoto fragiliza o solo e ela cai. Mas quando cai, gera verdadeiras esculturas espalhadas pelo parque, e em uma dessas árvores "caídas", foi construído um túnel, por onde passamos à pé. Muito interessante, porque vemos exatamente a estrutura interna do tronco e/ou da raiz nesses cortes.

O parque estava praticamente vazio, e nos sentimos sozinhos entre as gigantescas árvores, curtindo aquele visual mágico de neve e fog. De repente, a sensação de estarmos em outro planeta, onde nós éramos as formigas e os seres maiores predominavam. O fog ainda predominava, quando enfim anoiteceu e chegou a hora de dar tchau às grandonas.

Sequoia 2©Sequoia 4©
Parque praticamente abandonado, poucas pessoas andavam por lá, e muitas das cabanas estavam trancadas - o banheiro estava funcionando, mas com chave para evitar que os ursos sejam atraídos. Ao lado, um pouco dos troncos de sequóia quando elas aparecem em grupos. Um colorido incrível no meio desse cenário branco. Totalmente Lord of the rings... Só faltou um elfo saindo do bosque.

Ficou a vontade no fundinho do coração de que os humanos continuem não mexendo nelas, de que elas continuem embelezando a região por pelo menos mais 1000 anos, e que um dia eu volte lá para visitá-las de novo e matar as saudades.

Tudo de bom sempre.

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