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segunda-feira, abril 16, 2007

Everest entre médicos

Eis que estamos em abril, e como todo ano, essa é a época em que a febre do Everest me ataca - e eu assumidamente adoro sucumbir a ela. Ano passado, a letal temporada foi classificada como "um circo" (principalmente do lado do Tibet), houve vários protestos das comunidades montanhistas, e as equipes esse ano estão provavelmente tentando ser mais zelosas com os fatos que ocorrerão, e principalmente com as mortes - porque elas são inevitáveis, infelizmente. No Himalaia agora, as equipes já estão a todo vapor, e, claro, temos algumas expedições bem interessantes.

A mais diferente delas é a expedição Caudwell Xtreme Everest 2007. São médicos (anestesistas em sua maioria) do Centro de Medicina de Altitude, Espacial e de Ambientes Extremos da Universidade de Londres, e estarão desenvolvendo um projeto científico muito ambicioso: medir parâmetros cardiovasculares e o volume de oxigênio de uma pessoa no topo do Everest. Para tal feito, o time está levando um pequeno laboratório de fisiologia (com direito a centrífugas e afins) para o acampamento-base, além de aparelhos de medição de consumo de oxigênio, de exames oftalmológicos e uma série de bicicletas ergométricas, que serão instaladas em diversas altitudes da montanha. Um voluntário da equipe de alpinismo (médico também) terá que andar na bicicleta ergométrica no cume, para que seus parâmetros sejam medidos e computados - talvez a maior loucura da temporada, já que chegar ao cume já é um exercício extremamente extenuante. Como é uma expedição de cunho científico, a Nature está hospedando o blog da equipe médica - e eu recomendo a leitura, porque os relatos têm uma perpsectiva de certa forma diferente do tradicional "diário na montanha". Os médicos já tiveram o primeiro contratempo, pois sua permissão para fazer pesquisa no Nepal estava irregular, mas aparentemente o problema já foi resolvido. Eu, é claro, estou torcendo para que essa expedição dê certo, porque os dados serão preciosos - o objetivo final de todo esse "sacrifício" pela Medicina é entender como algumas patologias que acarretam diminuição do consumo de oxigênio ao nível do mar podem ser amenizadas, além de saber um pouco mais sobre a fisiologia do próprio organismo humano em situações limites. Eu, apaixonada por ciência e por Everest, estarei ligada nos relatos do grupo.

Um outro time que está no Himalaia - mas aparentemente com problemas também de permissão - é o que conta com o prefeito de Praga Pavel Bem. O prefeito pediu férias não-remuneradas à cidade, e está agora no Tibet como membro de uma das expedições que tentarão escalar o Everest. Óbvio, essa atitude gerou uma série de protestos, editoriais ácidos, acusações de descaso e afins. O prefeito quer levar o nome da cidade ao topo do mundo. Cada político louco com sua montanhosa mania.

Fora do Everest, mas ainda no Himalaia, quem também está por lá é Waldemar Niclevicz, o brasileiro que escalou duas vezes o Everest - e que eu já entrevistei em 2005. Esse ano, o brasileiro vai tentar escalar o Makalu, de 8643 m de altitude. O time conta também com Irivan Gustavo Burda, fiel parceiro de Niclevicz em outras escaladas, e eles já estão no acampamento-base da montanha. Niclevicz conta tudo sobre a escalada em seu site, que obviamente eu recomendo. Caso tenha sucesso, o Makalu será a sétima montanha acima de 8,000m que Niclevicz alcança, o que o coloca na metade do caminho para o grande desafio de escalar os 14 picos acima de 8,000m do mundo, panteão de ouro em que apenas 13 alpinistas até hoje chegaram. Vamos torcer, porque esse ano pode dar Brasil no Himalaia mais uma vez.

As outras expedições comerciais já estão em aquecimento, e eu, aqui da minha confortável e aquecida poltrona, estou acompanhando online a movimentação delas, "respirando" o ar rarefeito que elas emanam em seus relatos. Agora é aguardar em maio, quando a janela de oportunidade para o cume do Everest chegar, e ver quem serão os heróis da temporada.

Tudo de bom sempre aos alpinistas de 2007.

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