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quarta-feira, agosto 01, 2007

Doping patológico

Durante a cerimônia de encerramento do Jogos Panamericanos 2007, entremeado ao discurso de Carlos Artur Nuzmann, presidente do COB, apareceu um dado muito significativo e interessante: das mais de 1300 análises para detecção de doping realizadas durantes os Jogos, nenhuma delas deu positivo. Das duas, uma: ou os aparelhos de medição e equipamentos/reagentes para testes estavam mal-calibrados ou com alguma disfunção, ou o PAN do Rio foi realmente muito limpo. Gosto de acreditar na segunda hipótese, para benefício do esporte.

Entretanto, no Velho Mundo, o cenário de doping anda bem diferente. Tenho lido com estarrecimento o desenrolar da história do Tour de France (link em francês) desse ano. A mais famosa prova de ciclismo da Europa - talvez do mundo - se tornou um celeiro de uso de doping, ao ponto de um membro do Comitê Olímpico Internacional já confabular a possibilidade de retirar o ciclismo das Olimpíadas, por conta do enorme número de escândalos que ronda o esporte (embora a nota oficial liberada pelo Comitê seja bem entrelinhada). As TVs alemãs decidiram não mais transmitir a competição e retirar seu patrocínio da prova. Até a famosa "camiseta amarela", que define o líder do tour, foi retirada da competição na última etapa pelos organizadores como forma de protesto. What a shame.

Lendo sobre os casos de doping praticados no Tour de France, confesso que fiquei assustada. Os métodos tradicionais de usos de substâncias proibidas, como testosterona sintética, análogos de hormônio de crescimento, eritropoietina, estimulantes e anabolizantes já são conhecidos e identificados por espectrometria de massa de maneira relativamente precisa - mas mesmo assim ainda são bastante usados no esporte. (Para uma boa discussão sobre a metodologia de detecção, sugiro esse post do In the Pipeline.)

Entretanto, alguns ciclistas do ano passado ousaram, e estavam envolvidos num megaesquema de doping com sangue, categoria de doping existente já há alguns anos, mas que eu desconhecia completamente. Embora o esquema estivesse centralizado na Espanha, já se descobriram laboratórios fazendo o mesmo na Alemanha também. A prática é ilegal, mas os atletas vorazes por índices e vitórias, parecem cada vez mais interessados nela.

O doping com sangue é feito retirando-se um volume de cerca de 500ml de sangue do atleta semanas ou meses antes da competição. O sangue é então centrifugado, com as células vermelhas sendo concentradas, e guardado em geladeira ou freezer (dependendo do tempo que falta para a competição); na véspera da prova, o concentrado é reinjetado no atleta - uma auto-transfusão. Ao receber um elevado número de hemácias de uma vez só, o atleta aumenta "artificialmente" sua capacidade fisiológica de carregar oxigênio pelo sangue, o que se traduz no final das contas em melhor capacidade aeróbica = melhor performance, principalmente para uma prova de resistência como o Tour de France é. Seria o doping perfeito (afinal, nenhuma substância ilícita está sendo reintroduzida no atleta) se os atletas também não estivessem usando sangue de doadores compatíveis para aumentar ainda mais a quantidade de hemácia concentrada. Com isso, surgem dois pools de doadores diferentes de células vermelhas, e a detecção do doping fica um pouco mais fácil. Mas para a detecção do doping autológo (com sangue do próprio atleta), ainda não há uma metodologia eficaz. A Agência Mundial Anti-Doping está testando medir a razão entre células novas e velhas em circulação, para ver se esse método pode ser inserido oficialmente nas competições. Mas ainda não é 100% eficaz, e em tese, essa forma de doping ainda passa de certa forma indetectável - embora de conhecimento geral da mídia. Entretanto, o maior problema que eu vejo no doping com sangue é o risco: há a possibilidade alta de trombose, já que o sangue com mais hemácias fica mais viscoso e pode comprometer a boa circulação. O que, para um atleta que sobrecarrega o coração e a circulação numa prova de resistência, torna-se uma faca de dois gumes afiados.

O Tour de France esse ano já acabou, e o vencedor foi o espanhol Alberto Contador - que no ano passado por ironia estava colateralmente envolvido com o esquema de doping espanhol. É de se lamentar que a prova tenha passado por tantos baixos durante o percurso, com times inteiros desertando por vergonha do doping, atletas de renome tendo suas reputações jogadas ao vento. E a questão que fica é: por que o esporte deixou de ser saudável e limpo para se tornar um festival de design molecular, de estratégias frankenstenianas? A pressão econômica e de performance feita por patrocinadores, técnicos, etc. talvez seja parte da resposta, mas a outra parte infelizmente fala um pouco da natureza humana: queremos ser sempre os melhores. O valor adaptativo que ser "o melhor" em algo traz pode ser uma herança de nossos instintos mais rudimentares, mas numa sociedade que cobra alto pelo altruísmo, acho que, conscientemente ou não, são os próprios ciclistas quem, no final das contas, optam por se jogar na roda-viva do risco.

Como diz o editorial do Der Spiegel, "Que a exposição da realidade do Tour de France tenha sido não o fim, mas o começo de um novo tour." Aguardemos com esperança que sim.

Tudo de bom sempre.

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UPDATE:
Infelizmente, o Pan do Rio foi "batizado" pelo vudu do doping. O esporte? Ciclismo. Precisa dizer mais?

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