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quinta-feira, agosto 30, 2007

Em Mamirauá

MamirauaPássaros

Quando chegamos no aeroporto de Tefé, era praticamente meio-dia. Um calor amazônico típico nos abraçava ao sair do ATL da Trip. A mocinha do Mamirauá Ecoturismo já nos esperava, e nos levou até o escritório principal da reserva em Tefé, onde tínhamos que aguardar por uma hora o outro turista que vinha num vôo seguinte pela Rico. Isso porque a reserva de Mamirauá recebe poucos turistas de uma vez, e precisávamos ir todos de uma vez só. O traslado até a reserva é feito de lancha voadeira, e não cabem mais de 10 por ali.

Depois que o outro turista chegou - e eu e André aproveitamos o tempo de espera para encher um pouco a Alline na casa dela -, encaminhamo-nos em direção ao portinho de Tefé, para pegar a tal voadeira. Trajeto de 1 hora e meia rio Solimões a dentro. Em certo trecho, passa-se para outro rio, o Japurá, e muitos outros afluem a este rio principal, e a imensidão de água para todo lado é um espetáculo à parte, que precisa ser apreciado por quem vai até lá: estamos no maior reservatório de água doce inland e na maior diversidade de peixes de água doce do planeta.

RibeirinhosMamirauá e guia
No início do trajeto de voadeira, ainda vemos muitos ribeirinhos se deslocando pelo rio, que é a principal via de acesso aos diversos meandros da região. Quando adentramos na reserva, a paisagem muda e a mata toma conta do visual.

A paisagem ao adentrarmos na área da reserva começa a ficar cada vez mais exuberante. É a famosa floresta Amazônica se descortinando na nossa frente. Se antes tínhamos árvores descomunais espaçadas pelas bordas do rio, agora estas eram cada vez em maior densidade. Até que se avista o primeiro casal de araras vermelhas ou de tucanos voando livremente pela selva, sem pudor nem medo do caçador: chegamos.

Mamirauá é um modelo de reserva de desenvolvimento sustentável que deu certo. A reserva foi criada em 1994, muito em função da preservação do uacari-branco (Cacajao calvus calvus), macaco endêmico da região e ameaçado de extinção, estudado extensivamente pelo biólogo José Márcio Ayres, que dedicou sua vida a esse recanto do planeta. O primeiro estagiário do Mamirauá foi meu amigo Bião DOS, que hoje é presidente da Sociedade Brasileira de Primatologia. Para fazer o projeto de reserva dar certo, a comunidade ribeirinha foi envolvida no projeto, e hoje eles tomam conta da pousada em comum acordo com os pesquisadores. Ou seja, é um projeto de gerenciamento repartido, entre pesquisadores e a comunidade. Os lucros ficam todos para a comunidade local - e o uso adequado desses recursos é fiscalizado pelo pesquisador responsável atualmente pelo Mamirauá, o Elder (que coincidentemente eu conheço de nome, pois é um ex-viçosense e ex-aluno do Lúcio). Mamirauá é um modelo que deu certo - e aqui eu ressalto a importância que, no início de tudo, a esposa do Márcio Ayres, uma antropóloga, teve na concepção desse modelo. Ele foi o grande elaborador do projeto, mas foi ela quem "humanizou" a idéia da preservação, insistindo no envolvimento dos ribeirinhos no projeto. Minhas palmas pessoais vão para essa pioneira de ambientalismo sociológico no Brasil.

Hoje, Mamirauá faz parte do chamado "corredor central de biodiversidade da Amazônia", que engloba mais 2 outras reservas ecológicas, a de Jaú e de Aruanã Amanã (obrigada, Alline!), e que estuda-se ampliar para outras áreas. Já é a maior área protegida contígua de floresta tropical do planeta, e algo do qual o brasileiro devia se sentir orgulhoso de ter. A biodiversidade ali, principalmente de insetos, aves e peixes, é gritante.

Pousada geralPousada e rede
Vista geral da pousada flutuante Uacari. Ao lado, descanso na rede à beira do lago, em um bangalô. A paisagem da varanda é sensacional.

A Pousada Uacari é uma consequência da idéia do envolvimento da comunidade com o ecoturismo, uma forma de educação ambiental. A pousada fica na curva de um rio e está sempre sobre a água. Ao avistarmos de longe, a sensação clara é de que chegamos num daqueles bangalôs flutuantes da Polinésia Francesa em versão jungle. São 5 bangalôs grandes, cada um com 2 quartos. Quando lá estivemos, alguns estavam em reforma, e só 4 ocupados. Tudo ali está ancorado ao fundo do lago, e de vez em quando, sentíamos o balançar da corrente do rio ou ouvíamos o barulho do ranger das cordas que seguram toda a estrutura. Não aconselhável se você sofre muito de labirintite. Minha diversão pós-almoço era ver os redemoinhos que se formavam na frente do bangalô.

PousadaPalestra
Um dos bangalôs da pousada e o Otávio dando uma das palestras à noite.

Na pousada, tudo é pensado ecologicamente: não há TV ou internet, mas há um dvd player para filmes ecoconscientes. A energia é toda produzida por painéis solares, que também esquentam a água do chuveiro. A alimentação é à base de produtos que os próprios ribeirinhos produzem ou caçam (peixes abundam), e o lixo é reciclado ao máximo ou feita a compostagem, para que o mínimo seja jogado fora. Sucos coloridos de frutas bem exóticas, como bacuri, açaí e carambola (que eu amo!). O irlandês ficava impressionado com todos os sabores. De quebra, há ainda um jacaré-açu enorme de estimação, que está sempre ao redor da pousada, para alegria dos visitantes. Embora considerado dócil, ele vive na mata, e aventurar-se a chegar perto demais dele é bote certo.

CiganaJacaré
Os animais de estimação da pousada Uacari: as ciganas (Opisthocomus hoazin), aves que se agregam atrás da pousada e têm essa aparência punk-berlinense, e o jacaré-açu (Melanosuchus niger) que ronda pelo local atrás de alimento. Lindos demais.

Fomos na época da cheia, e a floresta no Mamirauá estava toda inundada. As trilhas foram feitas de canoa, pois terra firme não há por aquelas bandas durante a cheia. A vantagem de ir na época da cheia é que ficamos mais perto da copa das árvores - que mesmo assim ainda são muito altas - e com isso, podemos ver os bichos mais de perto. Porém, eles estão mais dispersos por toda a mata. Já a vantagem do período de seca é que é a época de pouca água, e muitos bichos precisam descer das árvores para matar a sede e a fome, ficando mais concentrados ao redor dos poucos veios de água que existem. Uma vantagem adicional, para mim, é que você anda pela mata, põe o pé naquele terreno tão especial. Por outro lado, na seca a copa das árvores está inalcançável ao olho nu, você precisa mesmo de um binóculo para ver bichos no alto. Moral da história: em ambos os períodos há vantagens e desvantagens. (Lembrando que a oscilação do nível da água é de 10 a 12m, ou seja há uma diferença enorme em cada período.)

Amazonia inundadaFloresta
Visões da floresta Amazônica inundada.

O ciclo de atividades é coordenado pelo guia principal do grupo, e o nosso foi o biólogo Otávio, que entende muito das espécies da reserva. Mas é claro, com a Alline também ao redor, estávamos super-bem-assessorados. Mais 2 turistas apenas nos faziam companhia, um britânico de Londres (que descera de Tabatinga a Tefé de barco por 4 dias) e um irlandês a caminho da Austrália (!). Galera de bons papos. Cada dia fizemos uma trilha diferente, em um dos dias fomos ver o pôr-do-sol no lago do Mamirauá, onde abundam jacarés e botos-rosa. As noites são ocupadas por palestras educativas sobre a fauna e o ecossistema locais, em meio aos muitos insetos que por lá existem. Os pesquisadores tentam não interferir muito no ecossistema, e como aquela região não tem malária, os insetos não são exatamente tolidos de cohabitarem com os humanos. Há protetores com tela e mosquiteiros, mas a maioria dos insetos passeia à vontade por entre os bangalôs, e são um espetáculo à parte de cores e formas. Eu nunca vi insetos tão malucos quanto os de Mamirauá. Tudo era muito exótico, e por alguns segundos, me arrependi amargamente de não ter levado à sério minhas aulas de entomologia: eu queria identificar cada um daqueles bichos estranhos. Shame on me.

Em uma das noites, sob chuva torrencial, ficamos conversando com o pesquisador dos botos-rosa, que nos contou um pouco dos inúmeros comportamentos que ele já presenciou estudando esses bichos. Fascinante. Na outra noite, fizemos uma trilha de barco, para ver a mata à noite. É completamente diferente do que vemos de dia. Outros bichos aparecem, a escuridão total é ao mesmo tempo assustadora, adrenalizante e relaxadora (eu amei!), e a constatação é uma só: a Amazônia é o paraíso é dos insetos e das aranhas. Muitas aranhas de todos os tamanhos e cores, escondidas a cada tronco. Foi o passeio mais legal de todos que fizemos por lá.

FlorCogumelos
A estranha flor que as preguiças adoram comer. Ao lado, cogumelos boiando em um tronco no meio da mata.

Um dos dias é dedicado à visita à comunidade, para ver o artesanato local de coquinho e açaí. Eu e André, entretanto, queríamos nos esbaldar na floresta, e pedimos para fazermos mais trilhas. Ainda não tínhamos visto o uacari, bicho-símbolo da reserva, e saímos com um mateiro ótimo atrás do tal macaquinho. Terminamos vendo de longe apenas, o animal ficou a distância infotografável. Mas outros animais se aproximaram das lentes, e mais que isso, estar ali no meio daquela floresta inundada, ouvindo o rugir alto dos bugios e o piu-piu das aves mais variadas possíveis já bastava: a Amazônia do Mamirauá é tudo que eu imaginava e muito mais.

Tudo de Amazônia sempre.

Textura vitoria-regia
A textura de uma folha de vitória-régia, planta-símbolo da Amazônia.

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...E para não dizer que não falei as flores:

- Muitos brasileiros têm idéias viajantes na maionese sobre a Amazônia. A estes que querem defender a Amazônia a todo custo sem nunca sequer terem visto um pé de açaí de verdade ou conversado com uma família ribeirinha, eu aconselho lerem o excelente post da Alline sobre a experiência dela por aquelas bandas verdes. Eu, bióloga de laboratório, confesso que não sabia metade dos problemas e dificulades que a realidade na Amazônia oferecia, mesmo depois de tanta aula teórica na faculdade e tanto artigo lido sobre o tema. Ver e viver ali fazem a diferença na hora de entender toda a problemática atual de devastação e afins, e não é para qualquer um, e eu bato palmas de pé aos biólogos que se dedicam àquela área com tanto afinco, sejam eles de onde forem - são os heróis sem nome de um país que lhes deve muito.

- Para comprovar que ainda não conhecemos a Amazônia, mais espécies novas foram descobertas recentemente. De acordo com o que ouvi de alguns pesquisadores, a Amazônia do Amazonas, Acre e Colômbia ainda está bem preservada. A situação fica deprê quando olhamos para a Amazônia do Pará, Maranhão e Mato Grosso - esses são os alvos das grandes queimadas que podem transformar tudo em uma grande savana em pouco tempo. Mas há esperança, e ela vem de dentro.

- O preço da pousada é salgadíssimo para brasileiros. Nós tivemos um descontinho, mas há de se pensar no todo: acredito que se o preço abaixasse um pouco mais, haveria mais brasileiros interessados em conhecer a área e mais divulgação do belo trabalho que lá é realizado, propagando as idéias da preservação com desenvolvimento sustentável aos moldes de Mamirauá talvez por outras bandas necessitadas. Ou será que o objetivo é deixar como point de ecoturismo "seleto"?

- Algumas celebridades já visitaram Mamirauá, entre elas Bill Gates e Victor Fasano, além de inúmeros fotógrafos e repórteres de vida selvagem renomados da National Geographic, BBC Wildlife e afins. Mas o encontro mais hilário (e eu gostaria de ter presenciado isso!) foi a reunião casual entre o presidente mundial do McDonald´s e o líder mundial do Greenpeace. Discutiu-se Amazônia, é claro. Diz a lenda que eles não combinaram de estar juntos ali na mesma época, mas o encontro casual é uma demonstração clara do quanto a vida é mesmo muito irônica...


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A Amazônia é dos insetos e das aranhas...


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