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sexta-feira, outubro 05, 2007

Semana Nacional da Pesca - Insustentável, entenda-se

Barbatanas secando
Barbatanas de tubarão secando. Foto tirada em um navio na costa brasileira.

Com a lúcida palavra, o biólogo marinho Marcelo Szpilman, do Pró-Tuba (os grifos são meus):

"No final de setembro, em cadeia nacional, o ministro da Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca (SEAP), Altemir Gregorin, lançou a Semana Nacional da Pesca para incentivar o consumo de pescado no país e, é claro, dar uma "força" para a indústria da pesca que vem sendo agraciada com recursos para financiar a renovação e modernização de sua frota e com subsídios para aumentar o esforço de pesca.

A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) informa que o brasileiro consome em média 7 quilos de pescado por ano. Se o objetivo da SEAP é aumentar o consumo e, supondo que tenha êxito, com isso ter um crescimento de 30% na demanda, o Brasil, com seus 190 milhões de habitantes, passaria a consumir 1,7 milhões de toneladas de pescado por ano, fora outras tantas toneladas para exportação e os habituais 30% de desperdício. Nossos mares têm condições de suportar tais níveis de exploração? Por quanto tempo? A SEAP tem conhecimento técnico para responder a essas questões?

Se não temos noção da real capacidade de nossos estoques pesqueiros, por total falta de investimentos em pesquisas, e se não temos uma verdadeira política de gerenciamento pesqueiro, estipulando cotas e fiscalizando sua correta aplicação, por que então o governo incentiva o aumento do consumo de peixes e, consequentemente, da atividade pesqueira? Como é que alguém pode sair gastando sem antes saber quanto tem? O contra-senso torna-se ainda mais evidente quando vemos o que realmente está ocorrendo nos mares do nosso Planeta.

Os vastos oceanos vêm sendo explorados há centenas de anos, sempre com a noção errada de que seus recursos são inesgotáveis. Ainda que existam gigantescas áreas desconhecidas e milhões de espécies a serem descobertas pela ciência, boa parte das regiões exploradas pelo homem estão muito perto do esgotamento total de seus recursos pesqueiros. Segundo um relatório sobre a situação dos oceanos, lançado recentemente pelo World Watch Institute, de Washington (EUA), 76% dos pesqueiros mundiais ou já se esgotaram ou estão bem perto da exaustão total. Cerca de 2.700 espécies já foram varridas pela pesca entre a Austrália e a Nova Zelândia. Pesqueiros no nordeste do Atlântico e no sul do Pacífico já entraram em colapso. Na costa leste do Canadá, a famosa Terranova, um dos mais importantes pesqueiros de bacalhau nos últimos séculos, foi fechada em 1991, liquidando 20 mil empregos, e continua fechada até hoje.

Segundo a última lista do IBAMA, o Brasil já tem 145 espécies de peixes e 12 de tubarões ameaçadas de extinção e 31 espécies de peixes e 6 de tubarão sobrepescados. E esses números só não são maiores devido à já conhecida falta de estudos e pesquisas em nosso país. No final de setembro, o IBAMA publicou uma portaria proibindo a captura e desembarque de corvinas, castanhas, pescadinhas e pescadas pelas embarcações que operam na pesca de cerco no Sul e Sudeste do Brasil. E, obviamente, a motivação é simples: como diversos outros peixes muito comuns na mesa dos brasileiros em tempos passados, como a sardinha, o pargo, a cioba, a tainha, a enchova, o namorado e a garoupa, os estoques desses peixes estão sendo rapidamente esgotados pela pesca predatória e pela sobrepesca. Mas a SEAP, que parece viver em outro Planeta, acha que deve incentivar o consumo de peixes.

Apesar de a pesca ser uma das mais antigas atividades desenvolvidas pelo homem, todo esse tempo ainda não foi suficiente para evitar que ela seja realizada da forma predatória como vem ocorrendo. A tecnologia, que poderia ser empregada para evitar a matança insustentável, é utilizada de forma gananciosa e destrutiva. Levantamentos recentes indicam que hoje a captura indiscriminada mata e desperdiça entre 18 e 40 milhões de toneladas de peixes e tubarões todos os anos, o que representa boa parcela da pesca mundial. Além disso, milhares de golfinhos, tartarugas e aves marinhas são mortos pelos espinhéis (longas linhas com centenas de anzóis) empregados na pesca industrial.

A FAO nos informa ainda que em 2005, a pesca ceifou 158 milhões de toneladas de peixes dos oceanos, o que representa sete vezes mais do que se pescava há 50 anos. Mas se os estoques das principais espécies exploradas pela pesca estão se esgotando, como então a indústria da pesca conseguiu aumentar sua produção de pescado? A resposta é assustadoramente simples: historicamente, a indústria da pesca vem "limpando" os estoques dos oceanos de forma sistemática, silenciosa e burra para manter sua atividade lucrativa.

Quando uma espécie alvo começa a apresentar sinais de esgotamento, quando então seria mais do que razoável diminuir ou interromper sua captura, a indústria da pesca aumenta o esforço de pesca, empregando mais embarcações e barcos maiores e mais bem equipados, para tentar manter os níveis de captura. Mas logo após a recuperação parcial do volume de pesca, tem-se uma nova queda na captura. Cria, assim, um círculo vicioso em que o processo continua até o esgotamento total da espécie alvo.

Quando a espécie alvo se esgota, a indústria da pesca redireciona então seu alvo para outra espécie e passa a explorá-la até o seu limite. Depois de esgotada, redireciona mais uma vez e parte pra cima de outra espécie até esgotá-la também. Muitas vezes, ao esgotar as espécies predadoras de topo de cadeia, como os grandes peixes oceânicos, partem para a exploração das espécies que estão abaixo delas na cadeia, ou seja, suas presas. O processo segue em uma escala de declínios que se acentuam a cada nível trófico da cadeia.

Os dois processos deletérios empregados, acima citados, são complementares e têm provocado o rápido desequilibrio ambiental das regiões exploradas e a extinção das espécies envolvidas. Ou seja, em mais alguns anos a indústria da pesca atingirá seu objetivo suicida: terá limpado os oceanos e afundado seu negócio, mas todos nós pagaremos o preço.

Se já sabemos que o mar, apesar de seu tamanho, não é um provedor com recursos inesgotáveis, uma boa solução sustentável é a reprodução e criação de espécies marinhas herbívoras em cativeiro, mas, infelizmente, não há recursos ou incentivos para estudos e projetos nesse sentido. Atualmente, o que existe, em função da demanda de mercado, são peixes carnívoros nobres capturados na natureza, como atuns e garoupas, engordados em currais marinhos. Mas a engorda consome grandes quantidades de peixes. Para produzir um quilo de peixe nobre para o abate são necessários pelo menos dez quilos de peixes processados em ração. Ou seja, essas criações de peixe, ao contrário do que se esperaria delas, estão aumentando ainda mais a demanda por peixes e, conseqüentemente, por sua pesca. É mais um contra-senso. Vale a pena pescar e consumir 10 quilos de peixe comum para produzir 1 quilo de peixe nobre? A natureza tem capacidade para sustentar esse luxo? Por quanto tempo?

Devemos entender que muitos dos antigos e insustentáveis hábitos de consumo, seja de peixe ou de qualquer outro recurso natural, não cabem mais nos tempos atuais e que os interesses econômicos não podem mais sobrepujar os interesses conservacionistas. Para haver sustentabilidade, os dois interesses devem caminhar juntos."



Tudo de peixe sempre?

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