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terça-feira, dezembro 18, 2007

O mar em reservas

Em setembro passado, voltando do Arquipélago de São Pedro e São Paulo, André passou por Fernando de Noronha e ficou 3 dias mergulhando por lá. Quando lá estivemos em 2003, a ilha nos presenteou com um estado de conservação primoroso. Saímos de lá muito satisfeitos. Ali estava um exemplo de projeto de reserva marinha bem executado e gerenciado. Dessa última vez, André relatou que as coisas aparentemente até melhoraram - mais animais saudáveis, pelo menos embaixo d'água, são vistos em cada vez maior abundância. Maravilhoso.

Diversidade - NoronhaTide pool-Noronha
Visões do ambiente marinho em Fernando de Noronha: cada vez mais lindo! (E abundante, o que é melhor ainda.)

Há poucos dias, eis que me cai nas mãos uma série de relatórios didáticos sobre o estado das reservas marinhas nos EUA e no mundo, feito por um consórcio de pesquisadores das universidades de Stanford, Oregon e California (Santa Barbara e Santa Cruz). Em grossas linhas, sugere-se que o número total de reservas marinhas pelo mundo é ínfimo, a eficiência das áreas protegidas ainda precisa melhorar e o maior desafio à implementação das mesmas são entraves econômicos e sociais. Nada disso soa como novidade, eu sei, mas acredito que algumas elucidações trazidas pelo relatório cabem aqui ser discutidas.

A mais interessante delas é a distinção entre reserva marinha e área de proteção ambiental em parâmetros mundiais. Não apenas a distinção conceitual, mas a distinção de resultados para o ambiente. Nas reservas marinhas, a única atividade econômica permitida é o ecoturismo, mesmo assim com restrições. Conceitualmente, as reservas são protegidas completamente e têm acesso controlado rigoroso. Nas áreas de proteção, por outro lado, há a possibilidade de pesca (nem que seja por um período do ano apenas), há o turismo com menos rigor e a proteção pode ser apenas parcial (a determinadas espécies, épocas do ano e afins). Mas por que existe essa diferença na hora de se determinar uma área marinha necessitada de proteção?

Basicamente, por causa do fator humano. A vontade geral dos ambientalistas e cientistas envolvidos em questões de conservação é proteger tudo, mas é claro, não se deve esquecer das pessoas que moram/vivem dos recursos que aquele pedaço do oceano dispõe - além dos interesses macroeconômicos de desenvolvimento, como no caso do porto de Suape, que todos sabemos o problema que gerou. Mas comunidades pesqueiras, em sua maioria, dependem do mar para sobreviver, e é baseado nessa realidade primária, nessa preocupação social, que as políticas de proteção em geral escolhem o que a área será, se haverá impedimento total de acesso pesqueiro (reserva) ou parcial (área de proteção).

Dos 2.2 milhões de km quadrados de mar protegidos do planeta (isso dá ~0.6% do mar inteiro, o que por si só já é um número ínfimo), apenas 36,000 km quadrados são reservas marinhas. É menos de 0.01% desses já minúsculos 0.6% do oceano. Todo o resto nesses 0.6% são áreas de proteção, onde há uma flexibilidade maior que permite o uso dos recursos da região. Entretanto, no mesmo relatório, comparam-se as duas formas de gerenciamento ambiental em relação às melhorias para a biodiversidade, para o ecossistema e até para as populações vizinhas. O resultado é impressionante.

Devido à inexistência de barreiras geográficas embaixo d'água para a maioria dos animais que lá habitam, a proteção total de uma área permite que os mesmos aumentem em número e extravazem seus limites de hábitat para áreas nas redondezas - o que faz aumentar a população de uma espécie como um todo num raio maior do que o da reserva em si. Ao extravasar para áreas não-protegidas vizinhas, beneficiam os moradores da região. Um belo exemplo desse tipo de enfoque aconteceu na ilha de Apo, nas Filipinas. A região de reserva é intocável (aberta apenas a mergulhos recreativos), mesmo pelos pescadores da ilha. Mas como a reserva permite que os peixes vivam e cresçam bem, depois da instalação da reserva, os pescadores conseguiram aumentar a longo prazo a produção pesqueira local, principalmente em qualidade - o problema dessa estratégia está no "longo prazo", que muitos não conseguem visualizar muito menos têm paciência de esperar. Educar os pescadores a entenderem que dá certo é o desafio maior.

Em áreas designadas "reservas", os animais também têm a possibilidade de completar seu ciclo de vida sem interrupção temporal, e com isso, crescerem mais. Peixes que crescem mais geram mais filhotes, como mostra claramente o gráfico abaixo, que usa como exemplo a garoupa de coral.

Tamanho do peixe X reproducao

Ou seja, há uma diminuição do perigo de extinção não apenas pela proteção daquele indivíduo, mas por um aumento populacional saudável, de acordo com as leis naturais. Tamanho é documento para as garoupas. Pelo menos, maior garantia de prole, maior probabilidade de deixar herdeiros.

Garoupa FilipinasCoral grouper-Tailandia
Garoupa de coral: quanto maior, mais filhotes viáveis.

Um outro dado interessante levantado é que não interessa muito o tamanho da reserva nem sua localização. Tanto reservas em águas temperadas como em águas tropicais são igualmente eficientes na melhoria da biomassa. Mesmo reservas minúsculas trazem benefícios a espécies pequenas - as espécies maiores requerem inevitavelmente áreas maiores, para novo desconforto político-ambiental. Há de se olhar portanto as espécies-alvo, mais necessitadas de proteção - se forem invertebrados, pode-se cogitar diminuir o tamanho da reserva para prejudicar menos a população humana.

E quantas reservas devem existir? Quanto mais, melhor? Em minha opinião pessoal, na atual conjuntura de calamidade que o mar se encontra, quanto mais definirmos áreas como reservas, melhor. Elas podem ser nossa última alternativa para solucionar a questão da destruição dos oceanos. Entretanto, a necessidade de sustentabilidade com os humanos ao redor nos leva a ter que elaborar um pouco mais para obtermos um bom resultado sem prejudicar pessoas. O ideal é usar um conceito muito popular na ecologia hoje em dia e fazer uma série de áreas interconectadas e adjacentes, numa espécie de corredor ecológico, que liga uma reserva a outra, sucessivamente - no ambiente terrestre, temos na região norte do Brasil o maior corredor de floresta tropical do mundo, que liga diversos fragmentos de reserva incluindo Amanã, Mamirauá e Jaú. O conceito de corredor não se aplica no mar da mesma forma, pois o mar não tem fronteiras tão claras e delimitadas como em terra; mas a idéia de ter reservas de localização próximas permitiria a formação de uma rede de troca genética e de espécies entre as reservas, aumentando a biodiversidade de forma saudável, sem a intervenção humana predatória e mantendo as leis de seleção natural como únicas responsáveis pelo aumento/decréscimo de populações. Deixando a vida rolar.

Mas nem sempre a intervenção humana é predatória. São os pescadores que mais sofrem quando o peixe acaba, e são eles que se organizam em associações e pedem soluções inteligentes aos governos. São os cientistas que fazem levantamentos, estudam espécies e possuem um maior aparato de informação para julgar a validade de uma reserva em certa região. São os governos que têm o poder de definir uma reserva, implementar políticas conservacionistas e garantir fiscalização contra pesca ilegal e quetais. Portanto, está nas mãos de humanos a gestação de uma reserva. Mais que problema, somos também a esperança de solução.

Rongelap surveyNamu-survey
Pesquisadores em ação, angariando dados para a criação de áreas de proteção ou reservas em atóis das Ilhas Marshall... (Mais fotos dos atóis estudados aqui, aqui e aqui.)


NoronhaAjuma com peixe
... e pescadores, os primeiros beneficitários com a criação das mesmas - embora num primeiro momento, haja relutância. Questão de ensinar e explicar com clareza, portanto.

Digo isso porque é muito fácil apontar o dedo e dizer que o governo deveria se mobilizar para criar uma reserva na área x, os pescadores deveriam parar de pescar, etc e tal, mas esquecemos frequentemente que muitas dessas ações começam da vontade e/ou necessidade popular expressa de alguma forma. O político não vai simplesmente um dia acordar e definir uma reserva. Ele precisa de respaldo científico, social e principalmente econômica, já que implementar e manter uma reserva custa dinheiro e deve gerar (na mentalidade vigente) algum tipo de benefício como retorno.

No Brasil, há apenas 2 reservas marinhas: o complexo Fernando de Noronha/Atol das Rocas e Abrolhos. Todas as demais áreas do litoral ambientalmente importantes são apenas "de proteção" ou não englobam o ecossistema marinho em sua completude, sendo apenas reservas "terrestres" (os Lençóis Maranhenses são um exemplo bom nesse caso). Em ambos os casos, o governo explora o ecoturismo como forma de gerar renda para manter a área como reserva. É uma alternativa - talvez não a mais eficiente, mas já é algo.

E Fernando de Noronha a cada ano que passa parece corroborar mais na prática a importância das reservas como a melhor alternativa tanto para a população quanto para o ambiente. É o melhor meio-termo que se pode imaginar no caos azul que nos encontramos - o único pré-requisito para essa solução é aprender a pensar em longo prazo nos seus resultados. Só assim, a gente terá chance de resgatar o pote de ouro do fim do arco-íris.

Arco-iris

Tudo de mar sempre.

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- E eis que mais uma reserva ambiental está sendo invadida por pescadores ilegais. Dessa vez, em Palau, para o comércio de animais vivos em Hong Kong. Deprimente. Quem deu o alerta ao mundo foi o pessoal da Sam's, com quem mergulhamos em Palau.

- Esse post é minha contribuição ultra-super tardia ao Roda de Ciência do mês de novembro e dezembro, que discutiu os mares do planeta. Mesmo atrasadérrima, eu não podia deixar de dar meu pitaco sobre esse tema que para mim é de importância máxima. Se quiserem atiçar a discussão, comentem lá.

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