Uma Malla pelo mundo Interney.net/blogs/malla

sábado, março 31, 2007

Sonho revitalizado

"Dizem que o mundo é uma bola sem fim, mas a América do Sul tem uma ponta, sim:
Ushuaia, na Patagônia Argentina, onde o vento dobra a esquina, onde frio é boa sina, com pinguim que patina
- um sonho de aventuras num mar gelado e de ondas duras, para meu coração amante
da adrenalina pura."


Foi com esse versinho pataquá que entrei no concurso "Malas prontas", que concorria a duas passagens para um "destino dos sonhos" - você precisava responder por que aquele local era sua viagem dos sonhos. De uma lista limitada que eles deram (que incluía Paris, Nova Iorque, Bonito e Fernando de Noronha, entre outros) escolhi a Patagônia. Ontem descobri por acaso que já havia saído o resultado. Não ganhei, é óbvio. Mas curti participar, ficar pensando e elaborando essa viagem hipotética. Agradeço aos elaboradores do concurso pela oportunidade que deram (sem saber) de obrigar uma Malla a desenterrar velhos planos, remexer na poeira de arquivos e curiosidades, reconstruir o antigo sonho com tons mais contemporâneos; torná-lo um destino potencializado na minha lista já enorme. Ganhar um sonho revitalizado é nesse caso o prêmio mais-que-perfeito.

Tudo de bom sempre.

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sexta-feira, março 30, 2007

Parques nacionais americanos: Yosemite

Todos a quem eu perguntava sobre o parque de Yosemite, me diziam a mesma coisa: "é lindíssimo, vale a pena visitar, é enorme", etc. Mas... ninguém me dizia exatamente o que eu veria lá, e por mais que eu perguntasse, as respostas eram vagas, do tipo: "um visual lindo". Essa amplitude de definição me incomodava um pouco. Ficava na minha cabeça a incógnita, apesar da certeza de que seria belo, visto que 100% das pessoas que visitam parecem adorá-lo. Toda unanimidade é burra, já dizia Nelson Rodrigues. Mas resolvi arriscar: ver a suposta beleza para crer. Ou talvez ser uma nêmesis.

Saímos de um hotel de beira de estrada em Oakhurst praticamente de madrugada, para chegarmos cedo ao parque e aproveitarmos ao máximo o dia por lá. Um sol lindíssimo amanhecia à medida que dirigíamos. Logo na entrada, a descoberta: muitas das atrações do parque estariam fechadas; era inverno, e certas estradas estavam inacessíveis por causa da neve. Ao receber o mapa do parque, também percebemos que ele era imenso. Se quiséssemos rodar por tudo, teríamos que planejar direitinho o trajeto.

Começamos passando pelo Badger Pass, uma área de esqui muito linda. A neve branca e o céu super-azul realmente compunham um cenário alpino, embora estivéssemos na Califórnia. Muitas pessoas, a maioria com cara de profissionais do esqui, aproveitavam as ramponas do local. Não nos arriscamos a alugar um equipamento para umas descidas, embora a neve estivesse convidativa - jamais imaginei que escreveria essa frase na vida, já que eu não gosto de frio.

Yosemite 5©Yosemite 4©
A área de esqui do Badger Pass, com uma brancura de doer os olhos. Ao lado, a primeira visão mágica do vale do Yosemite. Ao fundo, o Half Dome, montanha em formato de concha, com neve.

De lá continuamos na estrada pelo parque. Subíamos sempre, até que em dado momento, chegamos a um ponto de observação alto com uma vista impressionante. Acho que ali começava a verdadeira faceta "maravilha da natureza" de Yosemite. A paisagem era composta de gigantescos rochedos de granito cobertos por neve do inverno e um vale no meio onde uma floresta de coníferas predominava, com um riozinho claríssimo láááá no fundo. Uma daquelas paisagens típica de zona temperada que todos vêem frequentemente em calendários - levante o dedo quem já viu.

O fotógrafo que iniciou boa parte dessa invasão de paisagem de coníferas americanas pelos calendários mundo a fora foi Ansel Adams, que durante as décadas de 30 e 40 se dedicou a fotografar em preto-e-branco o Yosemite - a maioria dos fotógrafos que vieram depois se inspiraram em ângulos desbravados primeiro pelas lentes de Adams. Suas fotos se tornaram tão famosas, e ele ficou tão reconhecido por divulgar a paisagem da Sierra Nevada, que hoje uma das reservas que fazem divisa com Yosemite chama-se Ansel Adams Wilderness, uma forma de homenageá-lo após sua morte em 1984. Não é um barato que um fotógrafo tenha virado nome de parque?

Yosemite 2©Yosemite 1©
Paisagens de calendário, nem por isso menos belas ao vivo e a cores. A inspiração ao redor e dos primeiros cliques de Ansel Adams é evidente por todos os lados.

E faz sentido. Yosemite é realmente fotogênico. Com toda aquela paisagem bucólica tão batida, o granito Half Dome enorme formando uma espécie de catedral natural, o ambiente pede por contemplação, em toda sua majestade. A sensação mais forte em Yosemite é: somos um nada perante a grandeza daquele ambiente natural.

Depois de rodear por todo o vale principal lá do alto - e perceber que há vários hotéis e cabanas para aluguel dentro do parque -, foi hora de descer e ver de perto o riozinho. Água cristalina, refletindo todo o colorido ao redor. Uma das cachoeiras do parque caía em cima de um monte de neve, numa dessas descobertas surpresas que um trajeto pode oferecer. Fizemos algumas pequenas caminhadas, aproveitando o frescor do dia, que passara tão rápido no meio de toda aquela vegetação bela. Já era de tardinha quando dei tchau a Yosemite. O que ficou da visita para mim? Uma "paisagem lindíssima, que vale a pena visitar, enorme". Não à toa nomeado Patrimônio Natural da Humanidade. Mas de difícil definição - tem que realmente ver pra crer.

Yosemite 3©Yosemite 6©
Mais Yosemite: cachoeira caindo sobre a neve e o rio de águas super-claras, com fundo rochoso e pinheiros na margem. Paisagem mais temperada, impossível.

E não adianta tentar ser nêmesis e parafrasear Nelson Rodrigues de que toda unanimidade é burra, porque simplesmente não cabe para lá. A unanimidade nesse caso é deveras inteligente, ao deixar apenas vagamente revelar a beleza em comentários a terceiros. Veja por si mesmo.

Tudo de bom sempre.

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- Pergunta malla: Por que toda cachoeira grande que se preze chama-se "Véu da Noiva"? Será que a criatividade humana de nomeação se dissipa junto com as águas que caem da cachoeira?

- Infelizmente, não vimos nenhum urso por lá... embora eles existam aos montes na região! :(

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quinta-feira, março 29, 2007

Entrevista em Limeira

Semana passada, estive em Limeira para encontrar 2 figuras implacáveis da blogosfera: Flávio Prada e Biajoni. Ambos no momento travam um duelo por quem tem o relato mais engraçado do encontro com o outro, mas eu, tranquila que sou, deixo aqui a minha história simples de como tudo realmente aconteceu - pelo menos na parte em que eu estive envolvida.

Recebi um telefonema de Flávio Prada na quarta-feira. Ele estava de passagem pelo Brasil, e quinta seria seu último dia no país - voltava à noite a sua prima Itália. Eu já havia comentado pelo Google Talk com ele que estaria viajando pra São Paulo na quinta, e ele obviamente me convenceu a passar por Limeira. Algumas horas depois, ligou de volta, dizendo que Biajoni sugerira uma entrevista na TV Local onde trabalha. "Entrevista de quê?" perguntei, com cara de ponto de interrogação. "Ah, sobre blogs, etc." Flávio não sabia sobre o quê também, logo percebi. Mas, como adoro uma aventura, ainda mais em companhias tão especiais, topei. E assim, fomos na quinta de manhã rumo a Limeira.

Chegamos e encontramos Flávio nos esperando na porta da casa dele no centro de Limeira. Já estávamos atrasados para a entrevista, mas Flávio acalmou dizendo que não era para nos preocuparmos. Na TV, ficamos na sala de espera enquanto outros convidados eram entrevistados antes da gente - gente, eu ia mesmo aparecer numa TV pela primeira vez na vida! (Sim, porque a vez que meu colégio foi ao extinto "Bobeou Dançou" da Xuxa não conta, já que eu nem apareci na tela. Valeu só pela bagunça adolescente no estúdio da Globo.)

Fatos e Noticias2Fatos e Noticas4
Aguardando a hora da entrevista na sala de espera do estúdio, com o ilustre arquiteto Flávio Prada. Ao lado, já no estúdio, com a entrevistadora, em clima de Jô.

Flávio tem uma voz muito pacata e firme, e é exatamente a pessoa maravilhosa e engraçada que seus textos, emails e papos no MSN sugere. Conversamos um pouco na sala de espera e logo fomos chamados pro estúdio do "Fatos & Notícias". Sentamos no sofá dos entrevistados - fiquei nervosa, confesso, e fico imaginando o que sentem as pessoas que sentam no sofá do Jô ou do David Letterman. Bia comenta que a Viva e a Luluzita estavam no MSN mandando beijos, e eu fico mais nervosa ainda. O programa voltou do intervalo comercial e começa a sessão de perguntas com Flávio e comigo. Tudo light. "Qual seu post mais lido?" e afins. Bia faz questão de mostrar a página dos 2 blogs no ar, e comenta sobre a foto do lambaru na Flórida - e eu completo que nesse caso específico é mais interessante focar na garoupa que está atrás de mim, porque aquela espécie está criticamente em risco de extinção, pelo Red List, a um pequeno passo da extinção completa.

A entrevista correu bem, e quando o programa terminou (éramos os últimos entrevistados do dia), fomos conversar com Bia sobre a fantastiqueza daquele encontro: enfim, eu, Flávio e Bia, num estúdio de TV em Limeira. O nervosismo da timidez passara. Flávio ofereceu-nos almoço em sua casa para comemoração de tal encontro. Fomos.

Desnecessário comentar o quanto a mãe do Flávio é um doce. Fez a melhor das comidas caseiras, e o almoço foi nota 10. Papo descontraído, nada de surrealidades, Bia comentando sobre Henry Miller e o Big Sur, Flávio debulhando sua rota até a Itália. Infelizmente, logo tivemos que nos separar, pois Flávio ia pra Campinas pegar o ônibus pra Guarulhos, eu e André íamos para São Paulo, e Bia ia voltar pro trabalho na TV. Aos 45 minutos do segundo tempo, eu havia conseguido conhecer Flávio e Bia. Inacreditável.

Fatos e Noticias1Fatos e Noticias3
Eu e Flávio no divã de entrevistados. Ao lado, o registro histórico daquela manhã: com Mr. Biajoni, em Limeira.

Mas fica a nostalgia: deliciosa manhã que passamos juntos, vai dizer?

Tudo de bom sempre.

******************

P.S.: O link com o vídeo da entrevista eu coloco aqui assim que o Bia conseguir uploadeá-lo no You Tube. Me ajudem a apertar o Bia pra fazer isso logo, hehehehe. (Brincadeirinha, viu, Biajoni?)

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quinta-feira, março 22, 2007

Parques nacionais americanos: Parque das Sequóias

Visitar as "grandonas", como bem colocou a Menina Eva nos comentários do meu outro post sequoiano, era um pequeno sonho da minha infância. Quando criança, sempre imaginava o problema da proporção, uma árvore tão grande que muitos homens não conseguiam abraçá-la, etc. Essas viagens na maionese que as crianças espertamente fazem sozinhas.

Mas aí eu cresci, e meu interesse nas sequóias passou a ser estritamente biológico. Como chegava nutrição no último galho lá de cima? Por que o tronco à medida que cresce não afina como as demais árvores? Qual a vantagem de seu gigantismo? Como seria a competição por espaço entre as sequóias? Por que só existem lá na Sierra Nevada?

E foi com esse arsenal de perguntas, misturada à curiosidade infantil restaurada, que cheguei no Parque Nacional das Sequóias, no interior da Califórnia. Eram 3 da tarde, o parque fechava às 5, e logo na entrada, uma placa dizia: "We require tire chains". Precisava ter correntes nos pneus para poder dirigir em determinadas áreas do parque, que estavam atoladas de neve. Conversamos com o guarda, que nos indicou uma lojinha uma milha pra trás, onde alugavam-se correntes. Fomos até a lojinha, e o mocinho que nos atendeu, depois de fornecer um preço aviltante pelas correntes (que quase nos desanimou a empreitada), comentou: "Olha, eles não checam se você tem ou não corrente. Se perguntarem, diga que tem e vá até onde a neve deixar." Jeitinho brasileiro entre americanos.

E foi isso que fizemos. Voltamos à entrada do parque, o guarda nada perguntou sobre correntes (provavelmente assumiu que tínhamos as tais no bagageiro) e nós nada falamos. Pagamos o ingresso e lá fomos atrás das sequóias.

A estrada que dá acesso às sequóias propriamente ditas estava em reforma, com um trecho considerável em pista única, e tivemos que ficar mais de 15 minutos esperando num sinal vermelho que permitiria continuar nosso trajeto. Já passava das 4 da tarde, e a luz do dia daqui a pouco seria perdida - o que para tornaria inútil o esforço para fotografar sequóias. À medida que subíamos a serra Nevada, o frio começava a predominar; de repente apareceu um pouquinho de neve, mais um ppouco, mais um tanto... e de repente estávamos numa área completamnete branca, com muitas árvores secas e outras árvores gigantes e verdes ao nosso redor: chegamos nas sequóias.

Você não encontrará sequóia por boa parte da área do parque; elas habitam apenas as regiões mais altas, mais frias e rarefeitas, que estão no centro do parque. Embora frio, o visual da estrada àquela hora da tarde com fog e neve estava simplesmente mágico, lindíssimo. Fiquei admirada com a beleza mística que tomava conta dos arredores das árvores. A neve branca e nunca pisada compunha um cenário perfeito. Mais fotogênico, impossível.

Sequoia 1©Sequoia 3©
Cenas da estrada do parque. O cenário estava realmente mágico com todo o fog e o branco neve... Só faltava um urso aparecer para ficar mais surreal ainda.

Não dava para fazer trilha alguma (já era tarde do dia, não podíamos entrar no mato e correr o risco de anoitecer; além do frio, é claro), mas andamos um pouco até acharmos a sequóia Shermann, considerada o ser vivo de maior massa do mundo - pesa cerca de 2000 toneladas! A maior árvore do mundo. Sua idade, calculada por dendrocronologistas, é motivo de controvérsia, mas está estimada em cerca de 2500 anos, e boa parte das sequóias maiores por lá tem mais ou menos a mesma idade; são "jovens senhoras". A árvore é muito alta (~90m) e não vemos o final dela. Entretanto, ela não é a sequóia mais bonita. Há muitas na beira da estrada que têm um colorido todo diferente nos troncos, e muitas habitam em grupos - podemos perceber que a competição por espaço é intensa, dado que nesses grupos, sempre tem uma ou duas árvores que são pequenas, não crescem adequadamente porque as gigantes irmãs simplesmente dominam o pedaço.

Sequoia 5©
General Sherman, a maior sequóia do mundo: tentativa de vista dela completa. Repare na enorme cicatriz de incêndio que ela tem no tronco.

O tronco da sequóia é bem espesso, mas a madeira é mole, provavelmente a razão pela qual não foram utilizadas (e dizimadas) nos primórdios da civilização americana. Seu predador natural são insetos, fungos e bactérias - são eles que em geral matam a árvore, por doenças e herbivoria. Ou quando uma evento natural atua: uma tempestade derruba, um incêndio queima (curiosamente, em geral ela regenera de incêndios), um terremoto fragiliza o solo e ela cai. Mas quando cai, gera verdadeiras esculturas espalhadas pelo parque, e em uma dessas árvores "caídas", foi construído um túnel, por onde passamos à pé. Muito interessante, porque vemos exatamente a estrutura interna do tronco e/ou da raiz nesses cortes.

O parque estava praticamente vazio, e nos sentimos sozinhos entre as gigantescas árvores, curtindo aquele visual mágico de neve e fog. De repente, a sensação de estarmos em outro planeta, onde nós éramos as formigas e os seres maiores predominavam. O fog ainda predominava, quando enfim anoiteceu e chegou a hora de dar tchau às grandonas.

Sequoia 2©Sequoia 4©
Parque praticamente abandonado, poucas pessoas andavam por lá, e muitas das cabanas estavam trancadas - o banheiro estava funcionando, mas com chave para evitar que os ursos sejam atraídos. Ao lado, um pouco dos troncos de sequóia quando elas aparecem em grupos. Um colorido incrível no meio desse cenário branco. Totalmente Lord of the rings... Só faltou um elfo saindo do bosque.

Ficou a vontade no fundinho do coração de que os humanos continuem não mexendo nelas, de que elas continuem embelezando a região por pelo menos mais 1000 anos, e que um dia eu volte lá para visitá-las de novo e matar as saudades.

Tudo de bom sempre.

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terça-feira, março 20, 2007

Moinhos de vento californianos

"Mas quem tem coragem de ouvir?/ Amanheceu o pensamento/ que vai mudar o mundo/ com seus moinhos de vento." (Frejat & Quental)

Deparei-me hoje com um post do Allan em que ele comenta a implantação de usinas de energia eólica no sul da Itália, e me lembrei de uma cena marcante que vi mês passado na Califórnia. Estávamos vindo do Parque Nacional de Yosemite em direção a San Francisco, quando num trecho da rodovia US-580 (na altura de Pleasanton) começamos a ver moinhos de vento. Não um nem dois: centenas, no topo de todos os morros ao redor. Uma cena impressionante.

Moinhos de vento©

O que me relembrou que eu estava no estado americano que mais tem implantado leis ambientais nos últimos anos, repensado o modelo atual e tentado minimizar os impactos ao ambiente. Investir na energia limpa dos ventos é uma excelente tentativa de amenizar o problema do aquecimento global, mas numa perspectiva mais política, uma excelente forma também de desviar um pouco o olhar do principal problema que a própria Califórnia enfrenta: o excessivo consumo de gasolina e combustíveis fósseis. A Califórnia e sua intricada profusão de highways é para mim o epíteto do modelo americano malfadado, que privilegiou o uso do automóvel e da energia termelétrica em suprimento do pensamento coletivo. (Parênteses: Imagine que, dirigindo por lá, nós tínhamos privilégios rodoviários apenas pelo fato de sermos 2 pessoas no carro - a maior parte dos motoristas está sozinho em seu mundo fechado de 4 rodas, consumindo gasolina e poluindo para o transporte somente de si próprio. Deplorável modelo. Fim do parênteses.)

A energia termelétrica ainda é a fonte energética primária que sustenta a maior parte das cidades americanas (a que mais polui também, e maior responsável pelos imensos valores de CO2 na atmosfera), mas esse perfil americano pode mudar, basta que: haja mais incentivos para desenvolvimento e uso de fontes alternativas, haja mais pesquisa por novas fontes menos poluidoras e essas novas fontes não sejam tremendamente caras - embora um dia petróleo será tremendamente caro, então a opção por ele pode simplesmente se tornar mais inviável que as demais. Wishful thinking...

Gosto de pensar que, pelo menos, os californianos estão investindo em alternativas, e isso é visível. Fazendo a sua parte - pequena, mas já é algo. E nós, brasileiros, será que um dia faremos também a nossa parte nesse sentido? Quando é que deixaremos de abusar dos combustíveis fósseis, abandonando o transporte de carga rodoviário com caminhões (muito menos eficiente) e adotaremos mais intensamente as vias férreas ou náuticas, em que se gasta o mesmo combustível, mas pelo menos carrega-se muito mais volume de carga de uma vez só? Já usamos como centro de nosso modelo energético as usinas hidrelétricas, que já são mais limpas que as termelétricas (embora não menos ambientalmente problemática ao local). As usinas nucleares já estão sendo defendidas até por ambientalistas de carteirinha, e sem dúvida são, na atual conjuntura, uma melhor opção que as que queimam combustível fóssil. Mas ainda há uma longa estrada a ser trilhada nessa jornada em busca de uma energia mais limpa.

Modelos de energia limpa precisam de incentivo, mesmo dentro de nossas casas. Mas cabe também ao governo incentivar o surgimento e propagação dos mesmos, diminuindo talvez os impostos que recaem sobre quem quer colocar um painel solar e casa, por exemplo. O governo da Califórnia deu um passo inicial - minúsculo, mas deu. Pelo menos, já amanheceu o pensamento.

Tudo de bom sempre.

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- A Califórnia é um dos estados americanos que adotam o imposto sobre o e-lixo (o lixo dos aparelhos eletrônicos e derivados), pago em geral no ato da compra de eletrônicos. Afinal, o que faremos com as baterias, monitores, celulares e outras maravilhas da modernidade quando estragam ou são simplesmente descartadas, ou seja, viram lixo? Na velocidade com que a tecnologia se repõe hoje em dia, essa é uma questão importante para qualquer política atual que queira ser o mínimo integrada com os problemas da sociedade.

- Post também publicado no Faça a sua parte.

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domingo, março 18, 2007

Mergulho no Spiegel Grove

Acordei essa manhã com a triste notícia da morte de 3 mergulhadores no naufrágio Spiegel Grove, na Flórida. Eles entraram no naufrágio e não conseguiram sair a tempo; o ar do tanque acabou antes de eles conseguirem voltar à superfície. A notícia seria apenas mais uma de "acidentes de mergulho" (que acontecem, infelizmente) para mim, se não fosse por um pequeno detalhe: há 10 dias atrás, eu estava lá, mergulhando no Spiegel Grove.

Spiegel Grove é o nome de um navio de suporte e aterrissagem de helicópteros da marinha americana que foi usado durante a guerra fria (fotos aqui), aposentado pelo governo, e afundado propositalmente em 2002 a 6 milhas da costa de Key Largo, na Flórida, com a intenção de que se formasse ali um recife de coral, usando o substrato metálico do navio como ponto de partida. Chama-se a isso recife artificial, e é uma forma muito utilizada pelo mundo como método de repovoar uma região ou ecossistema marinho cuja fauna foi previamente devastada. Além da idéia do recife artificial, o naufrágio em si é impressionante pelo tamanho do navio (mais de 100 metros de extensão), e tem uma curiosidade interessante. Quando foi afundado pela primeira vez, houve um erro de cálculo, e o naufrágio ficou de lado, não tão atraente para o mergulho. Aí passou o furacão Dennis pela Flórida gerando muitas ondas, maré altíssima e correntes no mar - e remexeu o navio, deixando finalmente o Spiegel Grove em posição correta como havia sido planejado, com o casco colado ao fundo.

© Spiegel Grove 6© Spiegel Grove 5

Desde que foi afundado, o navio tem sido a sensação dos mergulhos na região dos Keys da Flórida, e em torno dele, uma indústria super-estruturada de mergulho está desenvolvida. Uma das grandes vantagens do Spiegel Grove é permitir um mergulho em diferentes profundidades - atendendo bem desde mergulhadores semi-iniciantes até os mais avançados. No mundo do mergulho isso é uma vantagem para as operadoras, que em um mesmo local conseguem atender a quase todos os "clientes".

No dia em que fomos mergulhar por lá, o mar estava relativamente agitado, com ondas de mais de 1m. Na superfície, tive uma certa dificuldade em me manter estável; entretanto, ao descer, por sorte a calmaria prevaleceu: lá embaixo nem corrente direito havia e a visibilidade estava boa. Ao ver o navio, não teve como não se impressionar com aquele gigantismo todo. É impossível ver todo o navio em um só mergulho, de tão grande que ele é. No mergulho que fizemos, passeamos pelo deque e por parte da proa, vimos a cabine do comandante, e vários níveis da super-estrutura metálica, mas não passamos de 20m. Algumas garoupas e barracudas passeavam pelo local, peixes curiosos e muitas ostras, mas no geral, o coral ainda está no comecinho; daqui a alguns anos, imagino que estará bem vistoso (se os furacões deixarem, é claro). Foi um mergulho legal, em minha opinião.

© Spiegel Grove 7© Spiegel Grove 3

A regra básica que o guia nos passou foi estritamente seguida: só entre no navio se você vir luz ao final, ou seja, uma saída. Caso você encontre um compartimento escuro, não entre; volte. É provável que essa tenha sido a causa da morte dos 3 mergulhadores ontem, associada à narcose comum em mergulhos mais fundos. Eles estavam a uma profundidade de uns 40 m e provavelmente já narcosados, decidiram explorar áreas mais confinadas do navio e se perderam e/ou nem perceberam que o ar estava acabando. E infelizmente, não conseguiram achar uma saída. Um quarto mergulhador, que não estava no navio, conseguiu voltar à superfície vivo e avisou dos demais tripulantes do barco que os levara. Pêsames profundos aos familiares dos 3 mergulhadores.

Entretanto, ressalto que em minha opinião, o mergulho no Spiegel Grove é seguro - e olha que eu não sou muito fã de naufrágios, mas achei esse bem simples lá embaixo, pelo menos se visto com os cuidados devidos e sem burlar as regras básicas de segurança. Milhares de pessoas mergulham nele por ano, e o risco de acidente existe, mas é bastante minimizado se você não abusa da confiança. Vale a pena a experiência. Eu, pelo menos, gostei.

Quase tudo de bom sempre.

© Spiegel Grove 2

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sábado, março 17, 2007

Lucia em Lucia

Para começar, um detalhe inusitado.

Viajando pela US-1, a rodovia que corta a costa oeste americana, na altura do Big Sur (que vai de Monterrey a San Luis Obispo), encontrei uma cidadezinha chamada...

Lucia, CA.

Em geral, na California, ao passar pela divisa de uma cidade, aparece uma plaquinha com o nome da cidade, a população e a elevação. Pois eis que na plaquinha de Lucia não constava a população - talvez porque a cidade se resuma a um hotel de beira de estrada, e a população seja no máximo 5 habitantes. O que define que um vilarejo minúsculo absorva o título de "cidade" e passe a ter presença municipal? Por que não é um bairro de outra cidade maior próxima? (Aliás, são poucas nas redondezas.)

Fato é que em menos de 2 minutos passamos entre a entrada e a saída de Lucia, CA. E para não passar em branco por essa coincidência da viagem, tirei uma foto ao lado da placa, a chavão "Lucia em Lucia". Eis o registro:

Em Lucia

A vista do Pacífico que Lucia tem é bela (afinal, está no Big Sur), e o entardecer amarelado foi o toque colorido na pitoresca e estranha vila-de-uma-casa. Será que é "mal de Lucia" querer a proximidade do mar, seja ela pessoa ou cidade? Xará Franka e xará Freitas, vocês também são assim? Fica a questão pseudo-filosófica (e curiosa) pro devaneio luciano.

Tudo de bom sempre.

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quinta-feira, março 15, 2007

Em (re)organização

Estou de volta, com jet-lag e histórias a serem contadas. Passamos um mês entre a Califórnia, o Oregon, a Flórida e o Havaí. Viagem longa, objetivos disparatados - afinal, carregar equipamento de mergulho e fotografia, roupa social de gala (que não pode amassar!) e agasalhos de inverno pesados para andarilhações outdoors numa só viagem é um exercício eficaz de organização de malas, principalmente com os limites de poucos quilos que agora temos em viagens domésticas pelos EUA. Dentre as histórias hilárias de malas e empacotamentos que encaramos, o deslize clássico ficou com o esquecimento de uma pequena mochila com algumas roupas sujas na beira de uma rodovia na Flórida, depois de uma troca de pneu às 11 da noite de um dia que fora recheado de atividades físicas drenantes - o cérebro malla deslizou na escuridão do acostamento. Nada de valioso foi perdido, já que o mais valioso que carregamos é imaterial mesmo: as memórias dos momentos e lugares por onde passamos, os sonhos realizados.

A organização logística (ou tentativa de) me acompanhou nesses últimos dias. Agora, de volta pra casa, dois projetos nascentes me cercam, ambos supimpa, mas que requerem tempo. Talvez eu me absorva com eles por esses dias, mas paralelamente, a necessidade de logar essa viagem já começa a rondar meu ser, o que significa posts novos em breve. É hora de organizar-me virtualmente. Mas enquanto as fotos não vêm....

...tudo de bom sempre a todos.

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domingo, março 04, 2007

Clique da semana

Entre a garoupa e o lambaru

Enquanto Lucia Malla tenta em vao dar carinho a um tubarao lambaru para as cameras de um videografo em acao, uma garoupa gigante vem sorrateiramente por tras observar todo aquele movimento - e requerer a devida atencao. Trofeu de melhor (e maior!) coadjuvante para a garoupa, que roubou direitinho a cena, registrada em um mergulho no Key Largo, Florida, EUA.

Tudo de bom sempre.

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