Uma Malla pelo mundo Interney.net/blogs/malla

quinta-feira, maio 31, 2007

"If you go to San Francisco...

...be sure to wear some flower in your hair!"

© SF 02

(Se quiser matar a saudade da cidade ao som de The Mamas & The Papas, clique aqui.)


Para combinar com a festa que é San Francisco, só mesmo muitas flores e cores. Em todas as esquinas, a cidade parece sorrir. E sempre com o glamour de uma estréia naquelas ladeiras, mesmo quando já as conhecíamos de viagens anteriores.

Chegamos à noite, atravessando a Bay Bridge num engarrafamento monumental. A casa onde íamos ficar, dum amigo meu de faculdade, era no alto do morro, perto do Twin Peaks - o que já era garantia de um visual nota 10 da cidade. Entretanto, a névoa tomava conta do horizonte noturno, e o frio convidava a um restaurante aconchegante. Fomos então a um italiano ("na dúvida, não ultrapasse"), perto da casa dele. Delicioso.

No dia seguinte, a primeira constatação é que meu amigo morava numa sucursal de Campos do Jordão em San Francisco. Cabanas de madeira, entre árvores enormes, um lugar muito agradável. De lá, começamos nossa jornada na cidade mais iluminada do mundo. O dia estava lindo, céu azul e sol brilhando, e mesmo com frio, prometia boas fotos. Tivemos sorte, afinal San Francisco é conhecida por seu intermitente fog.

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Vista da cidade de cima do Twin Peaks. A cidade naquele dia, miraculosamente, estava sem fog. Ao lado, uma das inúmeras ladeiras pelas quais San Francisco é famosa.

A primeira parada foi no Twin Peaks (afinal, era ali do lado). De cima, pude ter uma melhor noção geográfica da cidade, seus contornos e a intrincada baía. Éramos os únicos no pico àquela hora, até que um ônibus de coreanos chegou ao local, e resolvemos descer e encarar a cidade por dentro.

Dirigimo-nos para o centro da cidade, cruzando a rua Castro - que aquela hora estava numa calma só. Para quem não sabe, à noite, a rua é a esquina gay mais famosa do mundo, e está sempre agitada, numa festa só, demonstrando o verdadeiro significado da palavra gay - alegre, em inglês. Os gays chegaram ali no início do século XX, principalmente militares, e fizeram de San Francisco seu lar. Na década de 60, junto à revoada de hippies que escolheram San Francisco para florescer seu movimento de contra-cultura "paz e amor" (entre eles, o gênio Frank Zappa), vieram com força total também os gays e a cidade passou a abrigar um bairro estabelecido para eles, e foi eleita então a capital gay do mundo. Hoje, próximo à rua Castro, há uma enorme bandeira do arco-íris, afirmando e celebrando o multiculturalismo tolerante da cidade e, principalmente, simbolizando de forma bela e colorida (como San Francisco pede) de que viver sem preconceito é a receita para a alegria social.

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A bandeira colorida que indica a saudável tolerância aos GLBT, numa rua do distrito de Castro. Ao lado, uma cena do centro de San Francisco, com o prédio triangular que é uma das marcas registradas da cidade.

Após passarmos pela Castro, seguimos a Market Street até o centro financeiro da cidade. Paramos no centro para um café, um deslumbramento básico na loja da Apple e umas fotos da região, cheia de figuras que pareciam saídas do túnel do tempo, vindas de Woodstock ou de uma cena de "Hair". Ali também vimos a parada do famoso bondinho de San Francisco. Tanto eu quanto André já andáramos nesse bondinho antes, então nos satisfizemos apenas olhando a massa de gente em fila que esperava a curva famosa que ele faz aos moldes antigos, em cima da plataforma de madeira no ponto final do trajeto. Uma cena típica de San Francisco.

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O terminal de navios e barcos de turismo que passeiam pela baía de San Francisco, no final da Market Street. Ao lado, vista do antigo presídio-ilha de Alcatraz, do topo de uma ladeira.

Do centro, começamos nossa incursão por Chinatown, um dos bairros mais famosos de San Francisco. São uma inclusão que trouxe multiculturalismo à cidade, o que é, hoje em dia, uma riqueza. Os chineses (a maioria vindos do Cantão) chegaram na cidade para ajudá-la a construir no século XIX, e nunca mais quiseram sair dela, criando um dos maiores entrepostos da cultura chinesa nas Américas. Fizeram de San Francisco seu lar. Após o grande terremoto de 1906 que destruiu San Francisco, os chineses colaboraram maciçamente na reconstrução de toda a cidade, inclusive Chinatown, onde um portal foi erguido que embeleza até hoje a entrada do bairro. A Chinatown de San Francisco é definitivamente diferente: enquanto a Chinatown de Seul, Boston, etc. te fazem ter a sensação de que você está num bairro americano dominado por chineses, na Chinatown de San Francisco você tem a sensação de realmente estar na China. Até o cheiro do bairro é igual à miscelânea de cheiros que senti na Dihua st. de Taipei, por exemplo. Incrível como o bairro é autêntico em tudo: nas suas lojas de miudezas, na culinária exótica e cartazes espalhafatosos, nas placas de sinalização em cantonês, nas pessoas andando pelas ruas como se estivessem num hutong de Beijing. Quando lá estivemos, faltavam 4 dias pro Ano Novo Chinês, a festa máxima do calendário asiático, e tudo estava enfeitado de vermelho celebrando o porco, animal representante desse ano que entrou.

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Placa de rua sinalizada em inglês e cantonês: um pedaço da China está aqui, em Chinatown. Ao lado, ruas enfeitadas para os festejos do Ano Novo Chinês, onde o vermelho, cor da felicidade na cultura chinesa, predomina e inebria.

Andamos muito à pé pelas ruas do bairro, por várias ruelas e calçadinhas típicas da mãe-China. Decidimos almoçar por ali, num dos zilhares de restaurantes familiares. Confesso que ainda não estou de todo recuperada da overdose de comida asiática dos meus anos de Coréia (o tempero é muito peculiar), mas não deixei de provar uns bolinhos de dim-sum que pareciam apetitosos. E estavam. Depois do almoço, hora de deixar Chinatown e visitar outro marco da cidade: a Lombard street.

A rua Lombard é considerada a mais cheia de curvas do planeta - pelo menos, é o que está na placa dela. É uma pequena ladeira bem inclinada, com muitos jardins e mansões, onde os carros fazem uma ginástica para descerem. A velocidade máxima permitida é de ~20 km/hora, e acredite, é muito naquele monte de curva. Eu visitei a Lombard da primeira vez na primavera, e a rua estava toda florida, com cada buquê mais lindo que o outro. Dessa vez, era inverno, e as plantas havia sido podadas. A rua estava meio sem-graça sem as flores - afinal, San Francisco pede flores, sempre.

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O tradicional bondinho nas ruas de San Francisco. Ao lado, o mesmo fazendo o contorno ~a moda antiga no centro da cidade.

Próxima parada: Fisherman's Wharf. O Fisherman's Wharf é uma área muito turística, e os moradores de San Francisco parecem não gostar muito de andar por lá. Mas, como éramos turistas por aqueles dias, nós fomos sem medo de ser feliz - apesar da dificuldade de estacionamento. Lá, a idéia é perder a noção de tempo. Ao longe, vemos Alcatraz, que eu visitara anteriormente - e não queria ir lá de novo, por causa do vento gelado cortante da ilha. Decidimos andar pelas ruas do bairro, e depois de tanta andança, era obrigatória uma parada para comer uma autêntica sopa de clam chowder servida dentro do sourdough. Afinal, o sourdough é o pão típico de San Francisco, e estávamos nas redondezas de onde ele havia sido criado. Para quem não conhece, experimente: é simplesmente divino.

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O píer 39, onde os leões marinhos habitam e alegram a cidade. Ao lado, uma visão de cima da Lombard street, a rua auto-intitulada mais inclinada e curva do planeta. Repare nos carros descendo esse zigue-zague maluco...

Muitas lojinhas de souvenirs (armadilhas para turistas), alguns museus bizarros e gaivotas aos montes. Num cantinho do píer 39, a delícia é ver os leões marinhos, que chegaram ali há quase 20 anos depois do terremoto de Loma Prieta, e nunca mais saíram. Fizeram de San Francisco seu lar. São inúmeros, e podem ser vistos por uma webcam que fica ligada direto. Como o sol brilhava naquela tarde, os leões marinhos se divertiam e gritavam loucamente, brincando entre eles e com a platéia, que era relativamente grande. Decidimos ver os leões marinhos por outra perspectiva, do outro lado, porque muita gente se aglomerava de um lado só do píer.

Depois de observar gaivotas e outros pássaros que ficam por ali, pegamos o carro e fomos dar umas voltas no Marina District, o bairro mais propenso a se liquefazer (devido ao seu solo) quando o grande terremoto acontecer de novo em San Francisco. As casas ali são uma gracinha, lindas, enormes e claras, mas de acordo com meu amigo, valem pouco (quando comparadas com o resto de San Fran), por causa dessa intrínseca potencialidade de destruição completa. No Marina District, o monumento mais incrível é sem dúvida o Palácio de Artes. Um prédio inspirado na arquitetura greco-romana, e com um lago bucólico a circundar. Belíssimo, mas também fadado à liquefação - uma placa enorme no gramado conclamava a população a colaborar com doações para obras de reestruturação do museu, que está também afundando.

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Monumento do Palácio das Artes no Marina District. Bucolismo em dose máxima. Ao lado, a ponte de Golden Gate, esplendorosamente vermelha.

Relaxados pelo bucolismo do bairro, fomos fazer o passeio pela Golden Gate Bridge. Já era quase entardecer, a hora perfeita para ver a ponte ficar mais vermelha ainda. Primeiro, ficamos do lado de San Francisco, com o Oceano Pacífico batendo nas rochas da praia. Um fotógrafo da velha-guarda, com uma máquina antigae um tripé coberto, registrava a ponte dali - de acordo com meu amigo, há fotógrafos especializados em Golden Gate em San Francisco, e desses, as fotos que mais gostei foram as de Ron Henggeler. Pouco depois, resolvemos cruzar a ponte o mais rápido possível, e ver o pôr-do-sol do lado do condado de Marin, com a ponte e San Francisco ao fundo. Os dois lados são lindos, porque a ponte é linda. O interessante do Marin Heads, onde estávamos, é observar a cidade aos poucos acender suas luzes, num ritmo poético de caos urbano. Com as cores do pôr-do-sol, o cenário é simplesmente espetacular.

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A noite caiu e nós voltamos para a casa do meu amigo rapidamente e depois saímos para jantar num restaurante de comida mediterrânea/oriente-médio, na Noe st. Eu adoro comida mediterrânea, e aquela não deixou a desejar.

No dia seguinte, era hora de seguir viagem, rumo ao norte da Califórnia. Mas San Francisco, com suas cores e alegria, deixa sempre saudades. A cidade é iluminada por um sol que parece irradiar mais intensamente ali, na reflexão daqueles casarios branquinhos e ladeiras tortuosas. San Francisco tem luz própria: brilha e faz brilhar.

© SF 1

Tudo de San Francisco sempre.

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- Se você for a San Francisco e tiver apenas um dia de passeio, não deixe de seguir a 49-mile Scenic Drive. É um passeio de carro, que você faz na velocidade que quiser, passando pelos principais pontos turísticos da cidade. Há placas indicativas da rota por toda San Fran, não dá para se perder. Ou dá, dependendo da sua intenção. ;)

- A música "If you go to San Francisco", do The Mamas & The Papas, foi uma das primeiras que aprendi nas minhas aulas de inglês quando criança. Achava a letra muito bonitinha, e hoje, percebo que ela se encaixa perfeitamente no estilo hippie da cidade. San Francisco também foi onde eu primeiro vi o oceano Pacífico na vida, na primavera de 2002, e foi amor à primeira vista, que me acompanha até hoje. Por essas e outras, fiz de San Francisco o meu lar, mesmo que só de passagem.

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segunda-feira, maio 28, 2007

Algumas considerações sobre raças e afins

Há muito tempo atrás, eu entrei numa discussão super-interessante por email com a querida Ana, sobre raças. Na época, sabia que ela estava com um livro pronto para ser lançado, mas eu não sabia sobre o que se tratava - e ela insistia em querer entender o conceito biológico de raças, espécies, etc. e eu, avoada como sou, não liguei aquele papo sequer ao tópico de seu livro. Continuei enviando links e mais links de sites que tratam de biologia, discussões intermináveis, que foram muito férteis, pelo menos para mim, sobre o conceito biológico de raça, população e até de espécie. Os emails depois de um tempo cessaram, por um motivo claro: ela se ocupou com o presente máximo à literatura brasileira, um dos maiores tratados sobre a escravidão e o racismo no Brasil, o livro "Um defeito de cor"; e eu percebi então o quanto aquela discussão internética poderia realmente ter se estendido - eu estava conversando com uma expert cultural no assunto e não me toquei. Shame on me.

Num desses emails, lembro de ter mencionado o quanto os coreanos não gostavam de misturar sua "raça" com a de outros povos, exemplificado brilhantemente com um acontecimento (na época, presente) na Coréia do Sul, envolvendo um jogador de futebol americano negro, chamado Hines Ward. Ward nasceu em Seul, filho de uma coreana com um afro-americano. Logo que nasceu, sua mãe foi vítima intensa de preconceitos por parte de coreanos - afinal, seu filho era negro (e acrescente aqui os adjetivos pejorativos aliados a tal), algo considerado uma vergonha na sociedade coreana do final da década de 70. As ameaças foram tão fortes que a mãe de Ward não aguentou a pressão social: fugiu para os EUA com o filho e nunca mais voltou à Coréia. Quis esquecer sua pátria.

O tempo passou, Ward cresceu, foi para a faculdade e se tornou um jogador de futebol americano. Não qualquer um: foi eleito em 2006 o MVP ("Most Valuable Player", ou o jogador mais valioso do torneio) do SuperBowl, a maior competição de futebol americano do planeta. Esse título foi o suficiente para iniciar uma mega-controvérsia na sociedade coreana. E por quê? Porque os coreanos queriam se sentir orgulhosos por um coreano ter sido eleito MVP nos EUA, ou seja, um vencedor. Entretanto, a Coréia, como já expliquei antes, não reconhece o jus solis para cidadania, e os filhos de um casamento multirracial até pouco tempo atrás não eram considerados coreanos. E agora? A sociedade clamou por mudanças, muito por vaidade - não queriam perder a chance da glória. Uma grande discussão tomou força, o que acarretou uma reforma (ainda em andamento) no conceito de cidadania do coreano. Mas para pelo menos amansar os mais exaltados na discussão, o governo deu rapidamente o título de cidadão honorário coreano a Ward e sua mãe (que àquela altura do campeonato, já era há muito uma cidadã americana). Ironicamente, após terem sido escurraçados do país em 1977, eis que os dois voltaram para um encontro cheio de pompa e honra com o presidente coreano em 2006. A vida é mesmo uma caixinha de surpresas e hipocrisias.

Quando Ward visitou Seul, foi tratado como ídolo, e se tranformou no símbolo de uma campanha pelo multirracialismo do país - o que gerou uma resposta ácida do irmão do Norte, que não aceita de forma alguma a mistura da "raça coreana" com qualquer outra. Ou seja, uma demonstração clara do quanto o conceito (e valor) de uma "raça" é algo intrinsicamente forte para a sociedade por aquelas bandas.

Essa historinha me fez pensar muito na época. O tempo passou um pouco mais, e eu já trabalhava com diabetes tipo 2 na Coréia, quando fui a um Congresso de Diabetes em Seul e um consenso parecia claro entre os médicos: boa parte dos diabéticos asiáticos não eram necessariamente obesos. A maior parte, aliás, tem índice de massa corpórea normal, o que, pelo parâmetro ocidental, significaria que eles são saudáveis. Existe um componente genético que intrinsicamente faz com que o grupo asiático apresente muito mais problemas cardiovasculares quando diabético que os ocidentais em geral, que têm muito mais as "patias" que acompanham também a obesidade - mas mesmo no ocidente, genética não é o componente único para determinar que a pessoa seja obesa.

Os médicos concluíram naquele congresso que os métodos usados para diagnosticar um diabético no Ocidente precisavam ser modificados para ser eficientes na Ásia. Ou reinventados, mas não os mesmos. Muito mais que pensar apenas em relação à diabetes tipo 2, o que aquele consenso indicava para mim era que o grupo asiático possui intrinsicamente características biológicas que o tornam diferente dos demais do mundo - assim como os ameríndios, os anglo-saxões, os africanos, etc. também provavelmente têm características fenotípicas únicas em relação a outros parâmetros.

Rola a fita: o tempo passa mais e chegamos à temporada 2007 no Everest, quando um grupo de médicos de Londres decidiu fazer um experimento científico para estudar a hipóxia e a resposta cardiovascular em condições extremas, ao longo do Everest. Levaram bicicletas ergométricas, tiraram amostras de sangue e outras peripécias em diferentes elevações da montanha, incluindo uma área acima de 8,000m, na chamada "Zona da Morte" (as medições foram feitas no Balcony, a 8,400m de altura, e não no cume, mas alguns membros da equipe chegaram ao cume como recompensa). Nesse experimento fisiológico, embora não desenhado para estudar especificamente a adaptação natural à altitude e sim as patologias que se caracterizam por hipóxia, algumas informações podem trazer luz sobre uma população muito conhecida quando o assunto é adaptação à altitude: os sherpas.

Sabemos que há uma adaptação fisiológica à altitude, em geral de curto prazo quando saímos do nível do mar e vamos para zonas mais altas. Entretanto, os povos que vivem em altitudes terminam por adaptar-se fenotipicamente de diversas formas à falta de oxigênio característica dessas áreas altas do planeta, como os andinos na América do Sul, os sherpas no Nepal e os tibetanos, e os etíopes na África. Todos esses povos possuem diferentes concentrações de hemoglobina, por exemplo, para aumentar a eficiência do carregamento de oxigênio no organismo se comparados com as populações que vivem ao nível do mar. Os sherpas, em particular, possuem também um aumento significativo da capacidade respiratória e menores danos neurológicos que os habitantes do nível do mar quando expostos às zonas altas, o que os torna um povo ideal para a vida na montanha. Muito se pode aprender estudando o povo sherpa e suas adaptações à hipóxia das montanhas. Principalmente sobre estresse oxidativo, o mecanismo por trás de processos biológicos tão importantes como as defesas imunes e de patologias como diabetes e mal de Alzheimer, entre outras.

Os sherpas são considerados hoje um grupo étnico do Nepal, dos extremamente adaptados à altitude e com fenótipo de melhor eficiência neuro-cardio-respiratória sob hipóxia - e são super-atletas quando expostos às condições normais de oxigênio. Seria essa característica suficiente para determiná-los como uma nova raça e não apenas como um grupo étnico? Acho que essa distinção, diferente de ser discriminatória, deveria ser encarada como um fato positivo, pois é exatamente a existência de um maior pool de diversidade biológica humana, em geografias distintas, o fator que permite a evolução natural humana.

Entretanto, uma característica quando existente em apenas um grupo, embora valiosa para um determinado ambiente, não fornece amplitude adaptativa suficiente. De repente, os sherpas são mais suscetíveis a uma doença que a gente não é - ou vice-versa. E é nesse ponto que o trabalho publicado pelo Sérgio Pena - e muito claramente comentado pela Maria aqui - se torna super-interessante: fala em apenas 3 raças gerais formadoras da espécie humana, analisando-se pelas características do DNA mitocondrial de diferentes grupos. Pena recentemente mapeou de forma muito elegante o povo brasileiro, concluindo que não faz sentido algum falarmos em raças no país, que é geneticamente uma mistureba só. Ponto para nós na miscigenação e na assimilação dessa em nossos genes, que terminam nos dando maior amplitude adaptativa. Mas estaremos nós preparados para viver nas montanhas como os sherpas? Eu aposto que não.

Há claramente uma diferença pelo menos a nível populacional - mais extensamente, eu gostaria de chamar essa diferença de racial, mas sem contexto algum sócio-histórico, e sim puramente biológico. Parece um tabu falar em diferença racial nos dias de hoje por causa das consequências sociais - e sabemos pelo exemplo do incidente de Ward que elas existem - mas as diferenças podem ser de extremo valor para a melhoria das condições de saúde e de vida de muitos povos - como o exemplo da diabetes na raça asiática. A gente precisa parar de pensar em raça como problema e pensar nela como solução para um mundo melhor - para todos, igualmente. Quando nós, humanos, conseguirmos alcançar esse nível de preocupação, nossas hipocrisias mais racistas poderão desaparecer, e as raças serão o que sempre deveriam ter sido: um conceito biológico de diversidade, tão importante para a seleção natural a qual estamos tão arraigadamente comprometidos.

Tudo de bom sempre.

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*Esse texto é minha contribuição para as discussões do Roda de Ciência neste mês de maio, cujo tema central é "Existem Raças na espécie humana?"
. Os comentários podem ser deixados por lá, para que a discussão se enriqueça mais e se agrupe as demais do mês.

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sexta-feira, maio 25, 2007

We love sharks!

©Key Largo  10

Na Flórida por uma semana em março passado, não perdemos a oportunidade de ouro de visitar o parque estadual John Pennekamp, um santuário de recife de corais na região dos Keys. Como fomos apenas a Key Largo, foi de lá que saímos para uma série de mergulhos naquelas águas novas para mim - foi a primeira vez que mergulhei na Flórida.

A primeira constatação é que mergulho é um grande negócio na região dos Keys. Grandes lojas de equipamentos, muitas operadoras, promoções, etc. todo um marketing em cima do melhor "point". Profissionalismo "made in USA" típico, que repercutia em todos os detalhes de todos os dive sites descritos em cada lojinha que visitávamos. Seguramente, a atmosfera inspirava cair na água já - e foi o que fizemos, é claro.

Nossos mergulhos foram conduzidos por duas operadoras. A primeira, Island Ventures, nos levou até o Spiegel Grove numa tarde de vento frio, para conhecer esse belíssimo naufrágio. Mergulho intenso, mas super-legal. Indico a operadora a todos que mergulham, são a cara da Flórida, bem basicão americanóide. A segunda operadora, a Captain Slate Atlantis Dive Center, era a nossa escolha inicial, por isso a expectativa foi crescendo com os mergulhos que ofereciam. Principalmente um deles.

Quando decidimos passar pela Flórida, ainda elaborando planos de viagem, a razão principal era exatamente o "Creature Feature", tipo de mergulho que só o Captain Slate oferecia na região: uma vez por semana, eles saem para alimentar com peixes alguns animais marinhos de grande porte do recife (os que aparecerem no dia), em uma certa área de fundo arenoso do parque de Pennekamp, a 11 metros de profundidade. O mais incrível é que os animais estão incrivelmente condicionados, e estão (quase) sempre lá, no mesmo bat-dia e bat-local, à espera do alimento. Há controvérsias quanto à prática, que eu, como bióloga, vejo com um certo receio; mas fato é que, como experiência, é de certa forma educativo.

Tubarões abundam. Ao sentir o cheiro do peixe, vários aparecem; afinal, fartura e facilidade de alimento não acontecem todo dia. É uma excelente oportunidade para os humanos que têm medo dessa "fera dócil" se aproximarem, e perceberem o quanto o tubarão é um bicho mal compreendido pelos humanos: podem ser muito tranquilos. Têm dentes afiados, é claro, e isso deve ser informação suficiente para que qualquer pessoa de bom senso mantenha uma distância mínima, mas a maioria deles não te atacam se você não os incomodar. Respeito ao espaço alheio é fundamental. E embora seja uma situação artificial de alimentação do bicho, eles parecem não ligar para nenhum dos humanos ali, querem mesmo é fuçar no balde de peixes. Resultado: o divemaster pega os tubarões, faz com que cada mergulhador passe a mão na barriga de um deles, e ainda brinca com os mesmos - em mim, ele colocou o tubarão na cabeça, fazendo um chapéu de tubarão, nova tendência da moda fashion-eco-oceânica. As passarelas de Milão que se cuidem... É emocionante segurar um tubarão, e eu vibrava alucinadamente embaixo d'água com aquela farra toda.

Outro animal que merece destaque nesse mergulho é um mero (ou garoupa-gigante), animal criticamente ameaçado de extinção, que passeia por entre os mergulhadores enquanto o divemaster oferece peixe aos tubarões. "Bruiser", como é carinhosamente chamado pelo pessoal da Captain Slate's, nada vagarosamente com olhar curioso, como a divagar o que aquele monte de seres soltando bolhinhas de ar pela boca são realmente. Bruiser parece adorar que as pessoas passem a mão pelas suas escamas, e, apesar do seu tamanho intimidante, é um amor de peixe, muito dócil. De vez em quando, eu tomava um susto, porque Bruiser aparecia do nada ao meu lado. Em dado momento, passou por debaixo das minhas pernas - e uma criatura algumas vezes maior que eu corre o risco de entalar ali, já pensou?

Nessa festa submarina, aparecem também barracudas. Elas vêm atrás dos peixes que os divemasters trazem; entretanto, os tubarões são sempre mais rápidos que elas, que terminam ficando com os "restos" do que os tubarões comem. Naquele banquete fuzuê, é difícil escolher quem ganha o quê, vale a lei do mais rápido e mais esperto. E os tubarões ganham.

A operação do Captain Slate é muito popular e eficiente, atrai bastante gente querendo um pouco de "adrenalina" - embora eu não ache que seja realmente uma "aventura radical". É mais emoção mesmo, de tocar os tubarões, sentir a pele áspera do animal, sua agilidade, sua perspicácia e sua fragilidade perante nós, tudo isso sem medo, apenas com respeito e bom senso. Durante toda a duração do mergulho, a gente fica ajoelhado no fundo de areia, vendo toda aquela movimentação. No final, quando os peixes-comida acabam, os animais sorrateiramente se dispersam, satisfeitos. O show acabou. (Mas todo o mergulho é registrado por um videógrafo que, óbvio, depois vende o dvd para você na lojinha do Captain Slate - afinal, estamos nos EUA - por módicos 100 dólares! Não compramos, é claro.)

Mas o legal é que a aventura com o Captain Slate não termina com o Creature Feature. Um segundo mergulho é permitido, dessa vez num recife de coral próximo, o Molasses. Foi uma boa oportunidade de explorar um pouco a fauna subaquática da Flórida, e eu confesso que depois que você mergulha no Pacífico, fica difícil se impressionar com os corais dos Keys: embora eles sejam bonitos, não são tão biodiversos como os filipinos, e perdem muito no quesito coloração exótica.

Entretanto, os recifes de corais desse parque sofrem anualmente a cada temporada de furacões, o que provavelmente explica sua maior insipiência. Os ventos em geral arrancam substratos consideráveis, misturam muito a água, e as espécies da região terminam sendo carregadas abruptamente de um local para outro. Um efeito indireto do aquecimento global, já que o aumento de furacões está em parte ligado a esse fenômeno. Além disso, os corais da Flórida recebem um volume de cerca de 30,000 mergulhadores por mês (é o local mais visitado para mergulho do mundo), o que, é claro, traz um impacto ao ambiente nem sempre positivo.

Depois do mergulho, hora de voltar pra estrada. Deixamos Key Largo para continuar nossa aventura pelo norte da Flórida, cujos detalhes ficam para um capítulo futuro...

Tudo de bom sempre.

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- Algumas cenas dessa aventura subaquática deliciosa com tubarões, barracudas e "Bruiser", o mero gigante para vocês...

(Aviso vaidoso: não reparem no cabelo mal-prendido da modelo, totalmente ao sabor das correntes marinhas. É um o estilo fashion-eco-oceânico de novo, agora com temática aquecimento global/elevação dos mares-e-cabelos que eu, uma figura de pós-vanguarda, estou propagandeando para a moda 2050... mas que ainda não é devidamente compreendido pelo eixo Milão-Nova Iorque-Tóquio, claro! hahahaha!)


©Key Largo  09©Key Largo  11
©Key Largo  12©Key Largo  13
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©Key Largo  15©Key Largo 1
Cenas de um mergulho alucinante!

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quinta-feira, maio 24, 2007

Malla no Yamicast

A Yami Trequesser, jornalista/blogueira/podcasteira brasileira em Londres, me convidou para uma pequena entrevista via Skype/iPod para seu Yamicast desse mês de maio (o número 5 do blog dela). Falei do que mais gosto: viagens. No podcast, a Yami fala também um pouco dos bastidores de como se faz o Yamicast e dá umas dicas legais. Vale a pena.

Aos curiosos, entretanto, fica a oportunidade para ligarem a minha imagem virtual com a voz real - aliás, eu particularmente detesto ouvir minha própria voz, miscelânea de sotaques e anasalamento; acho que a maioria das pessoas é assim, né? Mas não me desanimei, apesar disso, e encarei o desafio - e valeu demais pelo aprendizado da jornada. Corra lá e ouça a entrevista supimpa da Yami com a Lucia Malla.

Muito obrigada, Yami, pela oportunidade super-legal!

Tudo de bom sempre.

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terça-feira, maio 22, 2007

Parques estaduais americanos: Point Lobos

©Point Lobos 7

Um pouco ao sul de Monterey fica um parque que, de todos que visitei pelo litoral da Califórnia, é sem dúvida o mais impressionante: Point Lobos. (Sei que a Leila também é fã desse parque, com toda razão.) Impressiona pela magnitude de beleza do encontro do penhasco com o mar, das reentrâncias das baías, das plantas que lá habitam, da amplitude da paisagem. Point Lobos é a minha dica número 1 de parques na Califórnia, a qualquer um que perguntar. Um lugar onde a liberdade que só o mar nos faz sentir é elevada ao teto máximo.

O parque é a primeira parada para quem desce a US-1 vindo de Monterey. Antes dele, fica a cidadezinha de milionários Carmel que vale a pena o passeio - pelo menos para um café overpriced. A reserva fica aberta até meia hora depois do pôr-do-sol, e nós chegamos lá em torno de 1 da tarde. Pegamos o mapa que o guardinha florestal da guarita nos deu e começamos nossa pequena aventura.

Point Lobos tem diversas trilhas curtas, e como todo bom parque americano, as mesmas são extremamente bem-cuidadas e cheia de placas indicativas. Perder-se por lá é praticamente impossível. Começamos de forma light: indo de carro até a Whalers Cove, uma trilha pequena, de onde é possível sair para um mergulho de scuba que dizem ser divino, lotado de florestas de kelp - nós, entretanto, estávamos na pressa, e miraculosamente não mergulhamos na área, considerada uma das mais ricas em nutrientes da costa americana, devido à ressurgência vinda das profundezas marinhas que naquele ponto está a poucos quilômetros da praia.

Depois de Whalers Cove, deixamos o carro no estacionamento principal e encaramos a trilha do Cypress Grove, que é maior e mais cheia de visões espetaculares. Os penhascos são impressionantes, e o barulho das ondas batendo violentamente nas rochas e do vento zunindo fortemente dão um ar de filme de suspense ao local. A trilha é infestada de heras venenosas (poison ivy, em inglês), uma planta da mesma família da manga (Anacardiaceae) que causa reações alérgicas graves quando tocada - como uma urtiga (que, embora com a mesma capacidade de ardência, é de outra família, a Urticaceae). Portanto, é preciso cuidado ao caminhar por lá, principalmente se você gosta de ultrapassar as fronteiras da trilha padrão. Ou usar sempre trajes mais cobertos, como calça jeans e blusas de manga comprida.

O nome Cypress Cove foi dado pela existência ali dos últimos exemplares no planeta do cipreste-de-Monterey, árvores enormes e que foram a razão inicial para a criação do parque ali. No período em que lá estivemos, inverno, os ciprestes estavam ressecados e cobertos por uma camada avermelhada que os tornava ainda mais poeticamente áridos e muito fotogênicos. Esse tom avermelhado é advindo de uma alga que produz caroteno e fica encrustada não só nos troncos e galhos de cipreste, mas também em outras árvores da área. Na mesma trilha onde os ciprestes estão em maior quantidade, vimos também visitantes inusitados: dois veados-da-cauda-preta (Odocoileus hemionus). Estavam se alimentando de umas folhas de arbusto e inicialmente, não deram a mínima para a nossa presença. Entretanto, bastou que chegássemos a uma distância "perigosa" para que desaparecessem barranco abaixo. É interessante, aliás, como esses animais são bem adaptados para andar em trechos tão declinados.

©Point Lobos 3©Point Lobos 6
Diferentes visões do Cypress Cove, com seus penhascos.

©Point Lobos 5©Point Lobos 4
A árvore infestada por algas vira uma escultura viva, ressecada pelo inverno. Ao lado, o dono do pedaço: um veado-de-cauda-preta se alimentando pacatamente.

A trilha do Cypress Grove requer uma boa hora de andança. Não por que seja longa, mas porque as paradas para admiração são muitas. Mas nós não tínhamos muito tempo sobrando, então resolvemos seguir em frente e caminhar um pouco no Sea Lion Point, uma península mais rochosa do parque, onde os leões marinhos e lontras fazem a festa. Ali, a trilha fica mais árida: não há árvores grandes para um refresco de sombra, apenas arbustos, quando muito. A maior parte do terreno é de rochas amareladas, formadas por sedimentos marinhos, e formam esculturas naturais interessantes.

©Point Lobos 1©Point Lobos 2
As esculturas rochosas naturais na trilha do Sea Lion Point. Não parece um animal quadrúpede a pedra maior? Ao lado, outra visão do mar na área do Sea Lion Point.


(Parênteses: No caminho por essa trilha, vimos um senhor com uma camiseta do Bob Ross, um artista figuraça que fazia programas na TV americana na década de 80 ensinando a pintar paisagens naturais cheias de "happy little trees". Bob Ross morreu há mais de uma década, mas sua "escola de pintura" ainda permanece viva para muitos americanos. Não sei porque esse detalhe da visita a Point Lobos ficou tão marcado em mim, mas ao ver a camiseta do senhor, não me contive e dei um sorriso nostálgico. Fim do parênteses.)


Apesar de ser uma descida na rocha, tudo é muito facilitado pelo parque - afinal, estamos nos EUA. Há uma escada que permite que você chegue até próximo à praia do Headland Cove, que também é lindíssima. Os leões marinhos estavam afastados, só ouvíamos seus gritos distantes. Depois da subida íngreme de volta à trilha principal, seguimos para o Sand Hill Cove, onde há uma vista deliciosa de pequenos rochedos apanhando das ondas do mar.

©Point Lobos 10©Point Lobos 09
Piscinas de maré em Point Lobos abundam, como no Oregon. A diversidade de fauna de invertebrados também impressiona. Ao lado, um pouco do colorido das rochas que formam a praia de Sand Hill Cove.

No Sand Hill, várias piscinas de maré como as que vimos no Oregon - algumas até mais fotogênicas que as de lá. Não cansava de admirar a variedade de cores das rochas que ali formavam a praia, cada uma mais linda que a outra, bem arredondadinhas pelo polimento constante do mar. Após caminhar um pouco pelas piscinas e me divertir procurando os seres vivos exóticos que habitam nelas, foi chegada a hora de dizer tchau ao parque. Já eram quase 4 da tarde, e nós ainda queríamos passar pelos principais pontos do Big Sur antes do anoitecer. Mas essa história fica prum próximo post.

©Point Lobos 8

Tudo de bom sempre.

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- Outra cena que me emocionou muito foi quando vi, numa área mais plana da trilha para o Sea Lion Point, um casal de velhinhos na faixa de seus 90 anos. Ela, numa cadeira de rodas, nitidamente se recuperando de alguma enfermidade (um derrame, talvez?); ele, com uma dedicação e paciência tão enormes ao restabelecimento físico de seu amor, estimulava-a a dar alguns passinhos fora da cadeira, como reensinando-a a andar. E ele dizia com uma voz super-doce: "My darling, one step at a time, for your eternal love." Amor lindo e emocionante esse, como todos deveriam ser.

- Publicado também no Goitacá.

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segunda-feira, maio 21, 2007

Parada dos alces parados

Alces2©

Viajávamos pelo norte da Califórnia & sul do Oregon em fevereiro, no meio daquelas florestas de coníferas sem fim. Em dado momento, a estrada saiu um pouco do litoral, e nós então avistamos a seguinte placa: "Elk crossing". Engraçado, pensamos. E seguimos em frente, achando no fundo que um maroto qualquer colocara a placa ali de peraltice.

Mas bastou dirigir 5 minutos e perceber que a parada era séria: do lado da estrada estava uma manada de alces. Havia no acostamento a entrada para um pequeno estacionamento, e nós paramos ali um pouco para ver esses bichos no pequeno alagado. Eram umas 10 da manhã e eles estavam ruminando/descansando. Só havia um macho ali (o único com galhos na cabeça), o resto do bando eram as fêmeas de seu harém - ter haréns é um comportamento comum dos alces. O macho, como chefe do bando, ficava de olho em todo e qualquer movimento ao redor, e quando chegamos, percebemos que a primeira placa próxima da área alertava para não nos aproximarmos, porque eles são agressivos: avançam tentando defender o harém. Entretanto, era inverno, quando os níveis de testosterona nos machos da espécie estão mais baixos (e a galhada está crescendo), então era mais provável que eles nada fizessem - podíamos tentar nos aproximar. Mas, seguro morreu de velho: preferi ficar de longe observando os alces; André chegou um pouco mais perto, para fotografar melhor. Ficamos um tempo no local, mas os alces pareciam não querer saber de conversa: dormir e comer eram prioridades naquele momento. Nenhum se movia, nada fizeram para ameaçar nossa visita, foram dóceis como pôneis.

Os alces ali, na beira da estrada, também me atiçaram a curiosidade: e se um deles resolve atravessar a estrada? Será que existem muitos acidentes causados por alces na Califórnia/Oregon? Por que gostam tanto da área que é adjacente à rodovia? Será que o barulho dos automóveis não os assusta/incomoda? E o que comem ali? Imaginei um alce saindo pelo acostamento à noite - um susto daqueles para qualquer motorista. Perigo galhado e bravio.

Além das divagações mallescas, aceito aqui também sugestões criativas de legenda para essa cena cervídea do Oregon, tão inusitada quanto (felizmente) pacata.

Alces©

Tudo de alce sempre.

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sábado, maio 19, 2007

Na Zdraví!

E não é que o prefeito de Praga Pavel Bém, 43 anos, hoje de manhã chegou ao cume do Everest? Parabéns a ele! É a primeira vez que um político em mandato consegue tal façanha. Portanto, Praga é a primeira cidade no planeta a ter sua bandeira junto ao seu representante oficial no topo do mundo. Que título inusitado! (Foto de Bém escalando aqui.)

Aliás, a República Checa nessa temporada está em festa. 3 dias atrás, a primeira mulher a nascer na República Checa (pós-queda separação da Eslováquia) conseguiu chegar também ao cume do Everest - e ela honrosamente o fez com Tashi Tenzing, neto de Tenzing Norgay, o primeiro homem a escalar essa montanha em 1953, com Sir Edmund Hillary. Honraria dupla.

Momentos imperdíveis no final dessa temporada alpinista no Himalaia, que parece estar sendo bastante benevolente com relação às oportunidades de ataque ao cume, pelo menos no Everest. Já é o quinto dia consecutivo de tempo bom, e as equipes estão praticamente todas na montanha, ansiosas subindo ou felizes descendo. E eu continuo ligada, é claro, porque a febre do Everest não cede... :)

Tudo de bom sempre à República Checa com seus marcos históricos no Nepal esse ano!


*O título do post é o brinde "Saúde!" em tcheco. Thanks to my old friend Zuzka for teaching me this one!

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quinta-feira, maio 17, 2007

Eventos paulistanos de ciência para todos

Estive por poucos dias na capital paulista. Mas nesses poucos dias, deixo duas dicas para os que por lá habitam (ou visitantes)...

- Vá ver a exposição "Darwin", no MASP. Montada pelo Museu Americano de História Natural e com curadoria do cientista Niles Eldredge, é um primor de organização e informação sobre esse homem maravilhoso e sua teoria mais maravilhosa ainda. Tudo corretamente colocado, cada palavra pensada e repensada para gerar entendimento geral pleno. Constatar o quanto a teoria da evolução das espécies por seleção natural foi elaborada com base em observações simples, inteligentes e quase lúdicas, é de vibrar. Ser lembrada a cada segundo que a elegante teoria da seleção natural proposta por Darwin é a única explicação científica que permite a compreender tamanha diversidade de vida que vemos e sua evolução no planeta. Milhares de dados são adicionados diariamente, usando técnicas que Darwin jamais podia imaginar, que corroboram a evolução, e isso também está colocado na exposição de forma magnânima. Saber que o mais conhecido museu do país está dedicando esse espaço nobre à divulgação científica é realmente emocionante. O país está de parabéns por abrigar tal exposição, que não deixa nada a dever a nenhum museu pelo mundo.

- "Encontros com a Pesquisa": uma vez por mês, a revista FAPESP organiza esse evento gratuito aberto ao público geral, na livraria Cultura do Shopping Villa-Lobos. A idéia é trazer um pesquisador de destaque no país e fazê-lo discutir um pouco de ciência com o público leigo. Estive lá nessa última terça-feira, quando o dr. Júlio Voltarelli palestrou sobre os avanços de seu trabalho com células-tronco hematopoiéticas no tratamento da diabetes tipo 1. A iniciativa da revista FAPESP é louvável na divulgação científica, e merece aplausos. Fique de olho para não perder no mês que vem.

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Entretanto, como estudiosa da diabetes, não poderia deixar de fazer aqui meus comentários e críticas pessoais sobre a palestra (e o trabalho) do dr. Voltarelli.

Sobre a palestra: Nitidamente, ele não estava preparado pra falar com o público leigo, pois gaguejou bastante no início para explicar conceitos simples de diabetes - e isso reforça a minha idéia de por quê o público geral não "gosta" de ciência: boa parte dos cientistas não aprendem a se comunicar direito com o leigo, não sabem explicar seus trabalhos de forma clara, simplificada e correta, e aí, o público não entende e se desinteressa, é claro. Os cientistas não estão treinados para a mídia (ou pior, não se importam com o que a mídia coloca). Há um claro problema de comunicação, e a palestra dele foi um excelente exemplo disso. Por vários momentos, ele comentou dados da literatura especializada de uma forma cheia de extrapolações e generalizações, o que é um perigo quando lidamos com o público não-especializado. Por exemplo, ao dizer que "índices de higiene se correlacionam positivamente com aparecimento de doenças auto-imunes como diabetes tipo 1 e asma na população" (um dado verdadeiro), há uma linha extremamente tênue que pode ser imediatamente pulada, e se utopicamente houvesse um político maquiavélico na platéia, ele arrumou um excelente argumento para deixar as áreas pobres como estão, sujas e sem infra-estrutura básica em nome de diminuir os índices de "asma e diabetes tipo 1". Do jeito que a frase foi colocada, parecia que a sujeira não era um problema, e sim a solução, esquecendo que há outras doenças e epidemias muito mais perigosas que se manifestam exatamente por causa das condições degradantes de um local com esgoto a céu aberto. Parece que o dr. Voltarelli não percebeu o peso dessa sentença para aquele público (ingenuidade com a imprensa?), mas para mim, foi a dedução lógica mais perigosa que ele podia ter dito a uma platéia não-especializada.

Sobre a divulgação do trabalho:
de acordo com o próprio dr. Voltarelli, a imprensa brasileira criticou menos sua pesquisa que a imprensa internacional especializada. Esse comentário dele me deixou com a impressão de que a mídia geral encarou essa vitória da ciência com um incômodo ar patriótico, e não se atentaram para o trabalho em si, sua metodologia, críticas e limitações, apenas para os headlines. Isso é uma atitude perigosa, pois pode criar falsas ilusões aos leigos. Eu acho que o trabalho tem muito mérito, merece ser discutido pela sociedade, mas não é obviamente a cura, e precisa ser analisado com olhos críticos também, para que melhorias futuras sejam incrementadas, principalmente pensando na relação custo-benefício para o paciente. Críticas construtivas devem ser bem-vindas, em minha opinião. Interessantemente, a revista FAPESP fez uma reportagem ponderada (e por isso, excelente) sobre o tema.

Sobre o trabalho em si: seu tratamento para diabetes tipo 1 consiste em retirar células-tronco hematopoiéticas (presentes na medula óssea e que formarão elementos do sangue) do paciente em estágio inicial da diabetes (recém-descoberto), congelá-las, tratá-las com um coquetel de indutores, e reinjetá-las no paciente - um autotransplante. Nesse meio-tempo, o diabético recebe uma carga quimioterápica pesada para suprimir completamente o sistema imune. Ou seja, o paciente fica exposto e indefeso a qualquer patologia infecciosa por alguns dias, o que qualquer médico sabe que é um perigo potencialmente letal. Aliás, o dr. Voltarelli comentou que um de seus pacientes infelizmente morreu nessa etapa, porque contraiu septicemia - e sem as defesas imunes funcionando, o paciente não teve como lidar com o problema da infecção simples por citomegalovírus (um vírus que quase toda a população possui latente no corpo) que o acometeu. Entretanto, uma vez reinjetado com as células-tronco hematopoiéticas, o paciente se recupera, pois inicia o processo de síntese de novas células imunes sadias, eliminando provavelmente o anticorpo causador da destruição do pâncreas. A pessoa, em termos de sistema imune, renasce. Essa estratégia já foi usada em outras doenças auto-imunes, como lupus e artrite reumatóide, e em (quase) todos os casos, parece ser eficiente.

A escolha por pacientes recém-descobertos explica-se facilmente: são aqueles que ainda têm um pouco do pâncreas funcional, ou seja, ainda com algumas células beta (produtoras de insulina). Os pacientes mais antigos não têm mais células beta porque elas já foram totalmente destruídas pelo sistema imune da própria pessoa. Ou seja, a célula-tronco hematopoiética resolve o problema se ainda há algum resquício de pâncreas insulínico. No entanto, para que um órgão inteiro fosse regenerado após a sua destruição completa (um tratamento que serviria para todos diabéticos tipo 1), só se utilizando de células-tronco embrionárias - as mesmas que a igreja Católica parece ter ojeriza só de pensar. As células-tronco embrionárias são sem dúvida a maior esperança de cura efetiva para doenças auto-imunes mais complexas, pois elas reestruturariam tecidos e órgãos a partir do zero. No momento, essa discussão é travada em Brasília, e espero que os políticos ouçam a comunidade científica especializada, e ao finalizar o parecer tenham discernimento suficiente para entender o potencial de melhorias de saúde pública que eles têm em mãos aprovando seu uso pela ciência biomédica. Aguardemos, pois.

(Parênteses: O dr. Voltarelli comentou também que vem sendo alvo da típica burrocracia de Brasília. De acordo com o ele, seus últimos projetos têm sido sequencialmente rejeitados pela CONEP (Conselho Nacional de Ética em Pesquisa), um órgão essencialmente técnico do Ministério da Saúde, que pelo visto, não gosta que a palavra "célula-tronco" conste em trabalhos brasileiros e faz de tudo para inibi-los. A meu ver, uma certa contradição, já que é dever do ministétio zelar e torcer pela melhoria da saúde da sua população. Fim do parênteses.)

Outro adendo necessário é que todo o trabalho do dr. Voltarelli refere-se à diabetes tipo 1, doença auto-imune, que são 5 a 10% do total de casos de diabetes. A imensa maioria que vemos por aí é de diabéticos tipo 2, uma doença metabólica muito mais complexa que a tipo 1, e cujo tratamento preventivo é aparentemente tão simples: exercício físico e dieta equilibrada. Hoje, o governo brasileiro gasta cerca de 30 bilhões de reais com os diabéticos do país, quase metade dele em gastos indiretos (dados da palestra do dr Volatrelli). Em minha opinião, o governo deveria concentrar esforços em campanhas de educação em prol do exercício físico moderado e saudável. A longo prazo, a diminuição dos custos com a doença seria provavelmente notada, e sobraria aos cofres públicos arcar apenas com tratamento para os diabéticos tipo 1, que são em muito menor número. Seria economicamente interessante ao país incentivar uma política de prevenção. Aguardemos, pois.

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Uma surpresa ótima: na palestra de terça no shopping Villa-Lobos, terminei conhecendo a Maria Guimarães, blogueira de ciência e minha companheira de viagens científicas no Roda de Ciência. Tomamos um café rápido depois do evento e foi um imenso prazer extrapolar essa comunicação amigável da vida virtual para a real. Valeu Maria!

Tudo de bom sempre.

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quarta-feira, maio 16, 2007

Como deixar uma Malla vermelha

thinking

Basta eu me afastar por 4 dias da internet, e essas meninas queridas aprontam comigo e eu fico assim, com a bochecha da cor de hidrante. As duas carinhosamente me indicaram pro Thinking Blogger Award, uma premiação pessoal dada aos blogs que te fazem pensar. Saber que o que eu escrevo aqui, nessa fronteira virtual, efetivamente traz idéias e informações aos viajantes que por aqui passam é de uma alegria para mim sem fim. Obrigada mesmo do fundo do coração pelas palavras tocantes, Cris e Liliana. You both rock as well!

Mas a brincadeira dessa premiação memética é que eu, uma vez premiada, devo agora indicar quais os 5 blogs (que limitação!) que me fazem pensar também, e essa é a parte mais difícil pra mim, porque são muitos, e eu fatalmente deixarei alguém fundamental de fora. Por exemplo, eu listaria quase todos os membros do Scienceblogs, porque eu leio intensamente o portal deles, digiro e realmente penso a cada novo post dos meus favoritos de lá. Mas não quero nomear blogs estrangeiros, dessa vez. Por isso, como a Denise (que, aliás, merece essa indicação umas 10 vezes pela importância do seu Síndrome de Estocolmo para a blogosfera, ponto de discussão e diversão em doses certas), prefiro fazer uma lista de blogs "pensantes" de brasileiros que são injustamente pouco citados por mim, compartilhando essas esquinas virtuais tão valiosas. Eis os blogs que me fazem pensar:

1) O Dragão da Garagem - o Widson desvenda pseudociência com muita propriedade e embasamento em seu blog. Uma pena que ele demore para atualizar, mas cada vez que isso acontece, eu corro pra ler, porque sei que ele vai mostrar um ponto-de-vista interessante. Entre os blogs de ciência, é um dos meus favoritos. Mas como anda sem post novo ultimamente, não perca a visita: leia os arquivos, que são recheados de bons posts.

2) Transitórios - as aventuras e aprendizagens de Clarisse, uma defensora do transporte ciclístico, na Namíbia. Um dos meus blogs favoritos of all times, porque conta desse país que eu sonho imensamente conhecer um dia. A Clarisse recebeu a visita da cegonha recentemente, e agora seu blog se equilibra entre posts de futura mamãe e posts sobre a realidade da África. Um primor. Ah, e o post "The idea" é um must-read do blog dela, daqueles que realmente te fazem pensar.

3) Vidas e Imagens - o ex-Homem-Baile Ricardo Monteiro rege esse magnífico (e único!) projeto fotográfico-antropológico-cultural sobre brasileiros. Os posts são entrevistas simples com pessoas comuns, vivendo vidas comuns e compartilhando sonhos comuns - e de tão comuns eles terminam revelando um Brasil que boa parte dos brasileiros não presta atenção, cheio de nuances, problemas e soluções que te fundem a cuca com tantas inesperadas conclusões. Ou seja, um blog incomum, feito para quem se sensibiliza com a vida humana nesse país. Ricardo está de parabéns pela idéia, uma das grandes adições da blogosfera brasileira.

4) Viaje na viagem - Como não citar Ricardo Freire, o turista profissional que me faz sempre pensar na próxima viagem (e adicionar um novo roteiro a minha já imensa lista)? O blog dele é merecidamente visitadíssimo, com informações precisas e descoladas sobre os mais diferentes destinos; um verdadeiro guia de viagens que me faz ativar os neurônios andarilhos. Ah, e a caixa de comentários é muito interativa também, cheia de boas dicas. Pensou em viajar, passe pelo Ricardo Freire para sapear uma barbada única: é a minha dica pessoal.

5) Pras cabeças - eu até me envergonho de citar tão pouco o Dr. Cláudio aqui no meu blog (não consigo chamá-lo só de Cláudio, já desisiti de tentar). O "Pras cabeças" é um desses blogs que acrescentam um ponto-de-vista lateral a qualquer assunto, e o responsável por essa delícia é o dom intrínseco que o Dr. Cláudio tem de fazer a gente pensar pelo viés da psiquiatria. Aliás, discutir sobre a mente pensante é com ele mesmo: deite no divã sem medo.

Aos meus queridos premiados, obrigada por me oferecerem ótimos momentos de leitura e longa-vida aos seus respectivos blogs. :)

Tudo de bom sempre.

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UPDATE:
O querido Doni também quis me deixar cor de hidrante com palavras pra lá de gentis... Muito obrigada por lembrar dessa ecomalla!

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domingo, maio 13, 2007

Pequenas anotações de viagens virtuais 19

1) Simply, the best science post I've ever read. O über-blogueiro Bora escreveu praticamente um compêndio sobre relógio biológico, ao descrever, comentar e discutir detalhes inacreditáveis de um artigo fundamental da Cell em formato tão gostoso de ler. Resumindo a história, uma descoberta fenomenal: "O relógio biológico periférico é apenas um conjunto de células; o marcapasso circadiano é um network de células." Há uma diferença fundamental entre ambos, e vocês precisam ler o maravilhoso post do Bora para entender. E divertir-se com a incrível analogia da relojoaria de cidadezinha do interior.

2) Um estudo publicado recentemente no Journal of Clinical and Endocrinology & Metabolism pôs um balde de água fria em um dos tipos de drogas mais promissoras no tratamento de diabetes tipo 2, as glitazonas. A rosiglitazona mostrou nesse estudo ter uma ação significativa na diminuição da formação óssea em mulheres após a menopausa - o que significa mais fraturas ainda, numa idade em que o osso da mulher já fica naturalmente mais frágil. Esperemos por outras confirmações por estudos mais detalhados de como isso acontece, entretanto. (Via Pharmagossip)

3) A pequena e provavelmente paradisíaca ilha de St. Lucia, no Caribe, reconheceu Taiwan como país independente - uma decisão que revoltou (!?!?!?) o governo chinês. A sincera explicação dada pelo ministro das Relações Exteriores de St. Lucia para tal atitude merece ser incluída no rol das frases do ano: "Support those who give you the most." Só pra constar, o Brasil não mantém relações diplomáticas com Taiwan, provavelmente para não melindrar as relações comerciais e afins com a China; Taiwan é reconhecido como país independente por apenas 24 países, entre eles, os EUA. (Via Marmot's Hole)

4) O projeto TOPP (Tagging of Pacific Predators) tem um blog, onde dá updates constantes da localização dos diversos animais marinhos que eles marcam eletronicamente. Eles já determinaram, por exemplo, que um tubarão marcado na Califórnia nadou até o Havaí e lá ficou por 4 meses, até que voltou ao mesmo local onde foi marcado inicialmente. Fantástico, não?

5) E já que o assunto são animais marinhos, não deixe de visitar a página do MySpace de Mr. Leatherback, Purple Lighting, Saphira, Freedom e Windy. Só tem um detalhe: eles não são pessoas, muito menos anônimos da blogosfera; são tartarugas-de-couro, espécie ameaçadíssima de extinção. A inteligente e antenada jogada de marketing ambiental de promover uma corrida entre elas pelos mares do mundo usando os dados de satélite do tagging de cada uma, já arrebanhou vários fãs e se tornou uma verdadeira mania virtual nos EUA. Dá-lhe, Dermochelys! Uhú!

6) Das incríveis "coincidências": 8 milhões de tubarões são pescados anualmente na costa oeste da África como "bycatch" - já cansei de explicar aqui no blog o quão patética é essa desculpa do bycatch. Interessante que no mesmo método de pesca utilizado pelos pescadores africanos, apenas 34,000 tartarugas foram registradas como bycatch, e um número menor ainda de aves marinhas. Será que os tubarões seriam "menos inteligentes" que as tartarugas para se desvencilharem das armadilhas? Conta outra, Pantaleão, porque essa desculpa não colou.

7) Das incríveis "coincidências" 2: nas Filipinas, está acontecendo um outbreak de estrelas-do-mar do tipo coroa-de-espinhos. Cada uma dessas estrelas destrói cerca de 6 metros quadrados de recife de coral por ano - e são milhares delas num outbreak. Interessantemente, a mesma revista da reportagem que eu linko, a Asia Divesite, traz a resposta para tal desequilíbrio numa outra reportagem: o comércio de peixes vivos em Hong Kong. Ligue os pontos.

8) Uma curiosidade culinária: churrasco brasileiro à la Coréia. Em Anyang, perto de onde morei. Fica a dica aos meus amigos brasileiros em Seul.

9) E já que o assunto é Coréia, um artigo que mostra um primeiro passo (aleluia!) para o fim do monopólio da Microsoft em terras coreanas. Para quem não sabe, tudo na Coréia só funciona em Windows: sites de bancos, governamentais, blogs, etc. Usar a internet significa unicamente abrir o Internet Explorer, em 99% dos casos. Na época em que estava lá, eu, uma "Mac user" de carteirinha, tive problemas sérios: não conseguia acessar quase nada via Safari. No escritório, eu instalei o Firefox numa máquina do Windows para tentar driblar essa bizarrice, mas o Firefox também não abria boa parte dos sites coreanos - não por falha do Firefox, é claro, mas por elaboração péssima dos sistemas locais. O que o artigo mostra é que parece que agora um movimento de abertura do mercado começa a engatinhar por lá. Antes tarde do que nunca...

10) O grande blogueiro Sergio Leo fez um memorável post em que sutilmente critica a política de turismo do Brasil - o deslize intencional no fim é de tirar o chapéu. Ainda conhecerei Brasília para concordar (ou não) com ele sobre pôres-do-sol, though.

11) Estou participando de uns "jogos culturais" no shopping aqui perto de casa. Semana passada, perdemos por uma pergunta: nosso time não sabia o que significava a sigla IGPM (agora sei, é Índice Geral de Preços do Mercado, calculado pela Fundação Getúlio Vargas). Economistas de plantão, podem puxar minha orelha à vontade. Mas pelo menos, acertamos o país em que foi inventado o volêi. :P

12) Momento confissão: eu curto muito Linkin Park, desde "Hybrid Theory". E através do website oficial da banda, descobri o "Music for relief", uma ONG que se preocupa em conscientizar as pessoas dos problemas do efeito estufa, além de manter a ajuda para a reconstrução das cidades afetadas pelo Katrina e pelo tsunami da Ásia. Jogada de marketing? Deve ser. Mas pelo menos é um marketing positivo, não-degradante, e isso é melhor que nada.

"No more lies/ I wanna shut the door/ And open up my mind."


Tudo de bom sempre.

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sexta-feira, maio 11, 2007

Resposta do desafio malla: a torre

Eis que ninguém acertou onde a torre do post-desafio fica. Uma surpresa, sem dúvida, porque muitos blogueiros moram nessa cidade, mas aparentemente ninguém se lembrou dela - e eu achei erroneamente que o primeiro comentário já ia acertar na mosca, principalmente se viesse de um morador da cidade. Talvez se eu colocar a vista que temos de cima da torre aqui, vocês descubram...

©BH noturno

Ou quem sabe, se eu entregar de vez dizendo que é a mesma cidade onde fica esse monumento arquitetônico do Oscar Niemeyer aqui... agora não dá para errar!

©BH Pampulha
Igrejinha da Pampulha

Pois é, a torre fica em Belo Horizonte! Para quem não conhece, a torre de AltaVila está situada na entrada da cidade (vindo de Ouro Preto), no alto de um morro, e lá de cima, a gente tem um visual de BH muito bonito, praticamente a cidade inteira iluminada.

Mas não posso deixar de tecer um comentário. No dia em que visitamos a torre, éramos os únicos no local. Fomos para o pôr-do-sol (belo lá de cima, por sinal), e ficamos pasmos com a falta de movimento. Confesso que fiquei meio deprê por ver um investimento tão interessante totalmente esquecido. Embaixo da torre, há um mini-shopping, cuja única loja que funciona é o Hard Rock Café. Todas as outras lojas estão fechadas, tudo às moscas. Conversei com os garçons do bar Sky, que fica no alto da torre, e eles disseram que a visitação é baixíssima. Um empreendimento desses em qualquer lugar do mundo traria muito lucro, movimentação, orgulho à cidade, etc. Tornar-se-ia um local de grande visitação e turismo, para constar em todos os guias da cidade (viajando na maionese, eu consigo até enxergar hordas de japoneses tirando fotos e mais fotos por entre as vidraças do bar-mirante). E em BH simplesmente não deu certo. Quais as razões? Pouca propaganda? Preço alto? (Custa 10 reais para subir na torre.) Distância do centro da cidade? (Mas o BH Shopping está ali do lado...) A razão pela qual o bar da torre "não pegou" é para mim um mistério, porque o lugar é muito bom, tem uma estrutura de primeira (incluindo uma parede de escalada de diferentes níveis de dificuldade!), e o visual... sensacional. Até o website da torre é super-decente. Realmente, uma charada a razão do fracasso nesse caso.

Mas fica a dica aos que passarem por BH - vá a torre Altavila antes que ela simplesmente feche e vire mais um desses elefantes brancos que de vez em quando a gente esbarra em cidades do mundo, infelizmente.

Tudo de bom sempre a BH, minha cidade adorada, que merece uma torre arrojada como essa - e muito mais.

Torre 2©

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P.S.: Pela Wikipedia, BH tem 2.399.920 habitantes (Dados do IBGE, 2006).

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quinta-feira, maio 10, 2007

Na Mergulho

A edição da revista Mergulho desse mês de maio (número 130) traz uma reportagem "muito boa" sobre as Filipinas, um país que é um paraíso tropical embaixo d'água. Essa reportagem é coincidentemente assinada por uma certa "malla", com imagens de um fotógrafo muito conhecido dos leitores deste blog. :)

Mergulho -Filipinas

Corra nas bancas e veja com seus próprios olhos esse mergulho. Modéstia à parte, ficou uma delícia. Aos que não podem ir à banca (a revista não é vendida em muitas cidades do país), fica o triste aviso de que a opção online infelizmente não existe, porque o site da revista não é muito atualizado e não permite ler as reportagens, só os headlines. Desculpa, pessoal.

UPDATE: O início da reportagem está aqui. Com uma foto de brinde. :)

Tudo de mergulho sempre.

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P.S.: Amanhã eu posto a resposta do desafio malla. Podem ir palpitando mais porque, por enquanto, ninguém acertou a localização da misteriosa torre... :D

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quarta-feira, maio 09, 2007

Desafio "malla": onde fica essa torre?

Gosto muito de torres em cidades. A vista lá de cima que elas nos dão é sempre uma surpresa - afinal, é uma perspectiva totalmente diferente que proporcionam, do alto, meio que isolada do caos urbano. E eu achei a torre da foto aí embaixo muito arrojada (principalmente considerando os arredores), numa cidade que eu particularmente ADORO. Dica: a cidade dessa torre tem menos de 3 milhões de habitantes, de acordo com a Wikipedia.

Torre 1©Torre 2©
De dia e de noite...

Será que vocês adivinham onde essa torre fica?

A caixa de comentários está aberta aos palpites. :)

Tudo de torre sempre, hehehehe!!

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terça-feira, maio 08, 2007

Como pode ser verde a Praça da Paz Celestial!

Numa das proposições mais interessantes dos últimos tempos na China (pelo menos, a meu ver), o arquiteto modernista Ma Yansong quer transformar o símbolo máximo da política comunista chinesa, a Praça da Paz Celestial em Beijing (onde fica o painel com a foto de Mao Tsé-Tung), num grande parque ou bosque. Suas razões para tal são consideráveis: a área, que recebe a visita de milhares de turistas anualmente, quase não é visitada pelos próprios habitantes da cidade, que a consideram "feia e desagradável". E eu concordo com os moradores de lá: é, realmente, um monte de prédios cinzas caixotões com inúmeras bandeiras vermelhas. O que salva é a entrada para a Cidade Proibida numa das pontas da praça, mas mesmo lá, aquela foto do Mao vigiando todos que por ali passam é meio assustadora. Se mais verde houvesse por ali, os moradores de Beijing poderiam considerá-la uma área a mais de lazer na cidade, que já anda tão pobre delas - estima-se que apenas 2.8% de Beijing seja verde. E estariam de certa forma trocando o statement político comunista histórico por um statement de política ambiental mais ativo na China.

Acho que eu apóio essa mudança radical (mesmo!) em Beijing. Mas a questão de verdade é se o governo apóia também... pelo que o artigo do Guardian conta, parece que não.

Tudo de bom sempre.

©Tianamen2©Tianamen1
Praça da Paz Celestial, Beijing, umbigo político da China: hoje, vermelha comunista; amanhã... verde? Sonhar não custa nada...


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- Publicado também no Faça a sua parte.

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domingo, maio 06, 2007

Piscinas de maré na costa do Oregon

Uma das curiosidades da viagem que fiz aos EUA em fevereiro foi a ida de carro até o estado do Oregon, pela costa. Digo curiosidade porque não nutria grandes esperanças de ver algo interessante por lá além de um sem-fim de florestas de coníferas. Mas André insistia, dizendo que existiam as "tide pools". (Mas piscinas de maré existem pelo mundo todo; por que ali seriam especiais?) Eu continuava sem esperar muito do lugar.

Enganei-me feio, ora pois. A subida pela costa já é um espetáculo à parte. Se o Big Sur, ao sul, é mais dramático, com penhascos gigantes e um recorte do litoral de sonho, a costa norte da Califórnia continua essa paisagem, mas de forma um pouco mais "abrandada". Há as coníferas; há penhascos, mas eles não são tão altos. Há pedras, e elas surgem como totens de dentro do mar. Há mais praias de areia, com possibilidades de encostarmos o pé no mar gelado. Brrrr!!

E foi isso que fizemos.

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Visões da rochosa e recortada costa do Oregon, região oeste americana, banhada pelo Pacífico - que ali não é muito pacífico, não...

Tínhamos dormido em Arcata, cidadezinha minúscula perto de Eureka - aliás, recomendo o restaurante italiano da praça principal de Arcata, muito bonzinho. Saímos cedinho rumo ao norte. A última cidade que passamos na Califórnia foi Crescent City, refúgio surfista e de estudiosos da biologia marinha. Mas a cidade tinha um ar meio de "assombrada" àquela hora da manhã - achei tudo muito vazio, estranho. Paramos no píer de Crescent City, brincamos um pouco com as gaivotas que ali estavam e caímos de novo na estrada rumo norte. Logo chegamos na costa do estado do Oregon. O dia estava ensolarado quando cruzamos a fronteira. A primeira cidade ali é Brookings, um vilarejo com um belo píer e muitos RV's (aqueles ônibus-casa móveis que os americanos tanto adoram). Parada estratégica para algumas fotos e seguimos em frente na highway 101. Pela costa do Oregon, é praticamente impossível andar mais de 5 milhas sem parar para tirar fotos, tamanha majestade da paisagem super-recortada, com parques e mais parques de coníferas, penhascos e rochas-totens. Com o céu azul e o mar mais azul ainda que estavam, íamos a uma velocidade de passeio total, despreocupados com o tempo.

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Um trailler parado em Brookings - nunca vi tantos desses veículos como andando pela costa oeste americana. Ao lado, a marina de Brookings.

Mais a frente, paramos no parque Samuel Boardman, que são 20 milhas pela costa com uma vista belíssima da Rocha em Arco, que desponta do mar. De lá, seguimos para Gold Beach, uma cidade que foi um grande entreposto comercial em épocas passadas, principalmente devido à atividade baleeira. Hoje, uma pacata cidade costeira na foz do rio Rogue. No píer, uma lembrança da época em que as baleias caçadas ali aportavam: um antiguérrimo barco baleeiro, atracado (ou quase semi-naufragado) para sempre ali no píer, recordando a todos que passam por ali um tempo em que Gold Beach floresceu comercialmente. O navio cortou o Pacífico por 97 anos, o barco de vida útil mais longa da história dessa costa americana e a última vez que navegou foi em 1978, quando foi finalmente aposentado ali, no píer de Gold Beach. Ainda se pesca muito na região, mas bem menos que no passado - o rio Rogue é um dos rios onde os salmões sobem para se reproduzir, e esse peixe também é o forte da culinária local. As baleias que antes eram caçadas agora movimentam um turismo de "whale watch" ao passarem pela região em sua migração anual.

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O antigo navio baleeiro "Mary Duncan Hume", atracado na marina de Gold Beach, com a ponte que cruza o rio Rogue no fundo. Ao lado, uma visão do alto do parque Samuel Boardman. Essas rochas-totens são realmente uma loucura.

Era domingo, e o escritório de informações turísticas estava fechado (?!?!). Nossa intenção no Oregon era achar uma boa praia com piscinas de maré, para fotografar os estranhos seres que habitam esse ecossistema em movimento, e sem as informações do escritório, tivemos que improvisar. A idéia inicial era dirigir até Coos Bay, mas já era tarde, então decidimos perguntar a uma jovem de uma lojinha de badulaques qual lugar ela indicaria. Ela nos disse 2 lugares, Harris Beach e Lone Ranch Beach, e nós decidimos ir até Lone Ranch (5 milhas norte de Brookings), que parecia mais fotogênico.

As piscinas de maré ficam na beira-mar, e são áreas rochosas cobertas pelo mar na maré alta e que acumulam água salgada em "piscininhas" durante a maré baixa, quando são expostas a rochas que as compõem. A existência dessas piscinas é totalmente dependente do ritmo das marés, então nada mais lógico que os animais que vivem nessa "fronteira" também o sejam. Ocorrem no mundo inteiro, mas a fauna de cada local varia. E todo um ecossistema diferente se desenvolveu ali, muito resistente a condições adversas para a maioria dos seres: muito vento, ondas fortes, sol torrando, rochas. Entretanto, os animais dos tide pools (a maioria invertebrados) adaptaram-se ao vai-e-vém da água do mar e a essa tripudiação: agarram-se bem às rochas. No dia em que lá estivemos, olhamos a tábua de marés e sabíamos que a maré ia começar a baixar em torno das 3 da tarde, e que o auge da maré baixa era no pôr-do-sol, lá pelas 5 e meia.

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A interface mar/rocha, parte vital desse ecossistema dinâmico dos tide pools. Ao lado, o mar bravíssimo em Lone Ranch. De longe, sentíamos o splash das ondas. Scary...

(Parênteses: É fundamental você verificar a tábua de marés para visitar os tidepools. Primeiro, porque se você chega na maré alta, você não vê nada, está tudo coberto pelo mar. Segundo, porque o mar no litoral do Oregon é muito violento, e no momento em que a maré começa a subir você precisa se retirar de onde estiver - há avisos pela costa inteira de que você deve respeitar os horários de maré baixa, e evitar se segurar em troncos de árvores caso o pior aconteça, porque esses troncos são jogados contra as rochas com toda a violência. O mar ali realmente amedronta, pela força e pela quantidade de rochas pontiagudas. Fim do parênteses.)

Eram quase 3 da tarde, então nos encaminhamos para a praia escolhida. Já víamos as piscinas antes mesmo de parar o carro: elas reluziam a água do mar. Rochas enormes seguravam o splash das ondas. Um frio cortante passava pelo meu rosto, e não tive coragem de tirar sequer o capuz, quiçá entrar no mar gelado. André, mais animado, pôs a bermuda e foi. Eu fiquei explorando o local sem encostar o pé na água, só de cima - o que, aliás, é o recomendado, para não danificarmos as formas de vida ali existentes. Ele se aventurou colocando a mão e a máquina dentro d'água com cuidado, e o resultado são as fotos que vocês vêem aqui, da fauna exótica e resistente que habita esse ecossistema limítrofe do mar:

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Uma anêmona-verde-gigante (Anthopleura xanthogrammica) dentro de uma das rasas piscininhas. Ao lado, estrelas-do-mar-ocres (Pisaster ochraceus) se agarram nas rochas enquanto a maré alta não vem.

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Mexilhões abundam nas piscinas e rochas. Esse aí da foto é o mexilhão californiano (Mytilus californianus). Repare como a rocha é completamente tomada por eles.

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Um casal de gaivotas arrisca-se na espuma da praia. Ao lado, hora do pôr-do-sol, com umas estrelas-do-mar estrategicamente camufladas na rocha - e posando para nossa câmera.

O sol já descia quando saímos da praia, e o frio piorara muito. Um vento absurdo congelava minhas extremidades. Um grupo de adolescentes acendeu uma fogueira na praia e começou a assar salsichas. Apesar do frio, resisti bravamente, e assisti ao pôr-do-sol belíssimo que se sucedeu, com a paisagem de rochas à beira-mar emoldurando o tom amarelo-alaranjado que tomava conta de tudo. A maré começava a subir, e as piscinas aos poucos desapareciam do horizonte. Deixavam saudade...

Anoiteceu e era hora de dirigir de volta para a Califórnia, onde mais aventuras nos esperavam.

Tudo de bom sempre.

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*Publicado também no Goitacá.

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