Uma Malla pelo mundo Interney.net/blogs/malla

quinta-feira, agosto 30, 2007

Em Mamirauá

MamirauaPássaros

Quando chegamos no aeroporto de Tefé, era praticamente meio-dia. Um calor amazônico típico nos abraçava ao sair do ATL da Trip. A mocinha do Mamirauá Ecoturismo já nos esperava, e nos levou até o escritório principal da reserva em Tefé, onde tínhamos que aguardar por uma hora o outro turista que vinha num vôo seguinte pela Rico. Isso porque a reserva de Mamirauá recebe poucos turistas de uma vez, e precisávamos ir todos de uma vez só. O traslado até a reserva é feito de lancha voadeira, e não cabem mais de 10 por ali.

Depois que o outro turista chegou - e eu e André aproveitamos o tempo de espera para encher um pouco a Alline na casa dela -, encaminhamo-nos em direção ao portinho de Tefé, para pegar a tal voadeira. Trajeto de 1 hora e meia rio Solimões a dentro. Em certo trecho, passa-se para outro rio, o Japurá, e muitos outros afluem a este rio principal, e a imensidão de água para todo lado é um espetáculo à parte, que precisa ser apreciado por quem vai até lá: estamos no maior reservatório de água doce inland e na maior diversidade de peixes de água doce do planeta.

RibeirinhosMamirauá e guia
No início do trajeto de voadeira, ainda vemos muitos ribeirinhos se deslocando pelo rio, que é a principal via de acesso aos diversos meandros da região. Quando adentramos na reserva, a paisagem muda e a mata toma conta do visual.

A paisagem ao adentrarmos na área da reserva começa a ficar cada vez mais exuberante. É a famosa floresta Amazônica se descortinando na nossa frente. Se antes tínhamos árvores descomunais espaçadas pelas bordas do rio, agora estas eram cada vez em maior densidade. Até que se avista o primeiro casal de araras vermelhas ou de tucanos voando livremente pela selva, sem pudor nem medo do caçador: chegamos.

Mamirauá é um modelo de reserva de desenvolvimento sustentável que deu certo. A reserva foi criada em 1994, muito em função da preservação do uacari-branco (Cacajao calvus calvus), macaco endêmico da região e ameaçado de extinção, estudado extensivamente pelo biólogo José Márcio Ayres, que dedicou sua vida a esse recanto do planeta. O primeiro estagiário do Mamirauá foi meu amigo Bião DOS, que hoje é presidente da Sociedade Brasileira de Primatologia. Para fazer o projeto de reserva dar certo, a comunidade ribeirinha foi envolvida no projeto, e hoje eles tomam conta da pousada em comum acordo com os pesquisadores. Ou seja, é um projeto de gerenciamento repartido, entre pesquisadores e a comunidade. Os lucros ficam todos para a comunidade local - e o uso adequado desses recursos é fiscalizado pelo pesquisador responsável atualmente pelo Mamirauá, o Elder (que coincidentemente eu conheço de nome, pois é um ex-viçosense e ex-aluno do Lúcio). Mamirauá é um modelo que deu certo - e aqui eu ressalto a importância que, no início de tudo, a esposa do Márcio Ayres, uma antropóloga, teve na concepção desse modelo. Ele foi o grande elaborador do projeto, mas foi ela quem "humanizou" a idéia da preservação, insistindo no envolvimento dos ribeirinhos no projeto. Minhas palmas pessoais vão para essa pioneira de ambientalismo sociológico no Brasil.

Hoje, Mamirauá faz parte do chamado "corredor central de biodiversidade da Amazônia", que engloba mais 2 outras reservas ecológicas, a de Jaú e de Aruanã Amanã (obrigada, Alline!), e que estuda-se ampliar para outras áreas. Já é a maior área protegida contígua de floresta tropical do planeta, e algo do qual o brasileiro devia se sentir orgulhoso de ter. A biodiversidade ali, principalmente de insetos, aves e peixes, é gritante.

Pousada geralPousada e rede
Vista geral da pousada flutuante Uacari. Ao lado, descanso na rede à beira do lago, em um bangalô. A paisagem da varanda é sensacional.

A Pousada Uacari é uma consequência da idéia do envolvimento da comunidade com o ecoturismo, uma forma de educação ambiental. A pousada fica na curva de um rio e está sempre sobre a água. Ao avistarmos de longe, a sensação clara é de que chegamos num daqueles bangalôs flutuantes da Polinésia Francesa em versão jungle. São 5 bangalôs grandes, cada um com 2 quartos. Quando lá estivemos, alguns estavam em reforma, e só 4 ocupados. Tudo ali está ancorado ao fundo do lago, e de vez em quando, sentíamos o balançar da corrente do rio ou ouvíamos o barulho do ranger das cordas que seguram toda a estrutura. Não aconselhável se você sofre muito de labirintite. Minha diversão pós-almoço era ver os redemoinhos que se formavam na frente do bangalô.

PousadaPalestra
Um dos bangalôs da pousada e o Otávio dando uma das palestras à noite.

Na pousada, tudo é pensado ecologicamente: não há TV ou internet, mas há um dvd player para filmes ecoconscientes. A energia é toda produzida por painéis solares, que também esquentam a água do chuveiro. A alimentação é à base de produtos que os próprios ribeirinhos produzem ou caçam (peixes abundam), e o lixo é reciclado ao máximo ou feita a compostagem, para que o mínimo seja jogado fora. Sucos coloridos de frutas bem exóticas, como bacuri, açaí e carambola (que eu amo!). O irlandês ficava impressionado com todos os sabores. De quebra, há ainda um jacaré-açu enorme de estimação, que está sempre ao redor da pousada, para alegria dos visitantes. Embora considerado dócil, ele vive na mata, e aventurar-se a chegar perto demais dele é bote certo.

CiganaJacaré
Os animais de estimação da pousada Uacari: as ciganas (Opisthocomus hoazin), aves que se agregam atrás da pousada e têm essa aparência punk-berlinense, e o jacaré-açu (Melanosuchus niger) que ronda pelo local atrás de alimento. Lindos demais.

Fomos na época da cheia, e a floresta no Mamirauá estava toda inundada. As trilhas foram feitas de canoa, pois terra firme não há por aquelas bandas durante a cheia. A vantagem de ir na época da cheia é que ficamos mais perto da copa das árvores - que mesmo assim ainda são muito altas - e com isso, podemos ver os bichos mais de perto. Porém, eles estão mais dispersos por toda a mata. Já a vantagem do período de seca é que é a época de pouca água, e muitos bichos precisam descer das árvores para matar a sede e a fome, ficando mais concentrados ao redor dos poucos veios de água que existem. Uma vantagem adicional, para mim, é que você anda pela mata, põe o pé naquele terreno tão especial. Por outro lado, na seca a copa das árvores está inalcançável ao olho nu, você precisa mesmo de um binóculo para ver bichos no alto. Moral da história: em ambos os períodos há vantagens e desvantagens. (Lembrando que a oscilação do nível da água é de 10 a 12m, ou seja há uma diferença enorme em cada período.)

Amazonia inundadaFloresta
Visões da floresta Amazônica inundada.

O ciclo de atividades é coordenado pelo guia principal do grupo, e o nosso foi o biólogo Otávio, que entende muito das espécies da reserva. Mas é claro, com a Alline também ao redor, estávamos super-bem-assessorados. Mais 2 turistas apenas nos faziam companhia, um britânico de Londres (que descera de Tabatinga a Tefé de barco por 4 dias) e um irlandês a caminho da Austrália (!). Galera de bons papos. Cada dia fizemos uma trilha diferente, em um dos dias fomos ver o pôr-do-sol no lago do Mamirauá, onde abundam jacarés e botos-rosa. As noites são ocupadas por palestras educativas sobre a fauna e o ecossistema locais, em meio aos muitos insetos que por lá existem. Os pesquisadores tentam não interferir muito no ecossistema, e como aquela região não tem malária, os insetos não são exatamente tolidos de cohabitarem com os humanos. Há protetores com tela e mosquiteiros, mas a maioria dos insetos passeia à vontade por entre os bangalôs, e são um espetáculo à parte de cores e formas. Eu nunca vi insetos tão malucos quanto os de Mamirauá. Tudo era muito exótico, e por alguns segundos, me arrependi amargamente de não ter levado à sério minhas aulas de entomologia: eu queria identificar cada um daqueles bichos estranhos. Shame on me.

Em uma das noites, sob chuva torrencial, ficamos conversando com o pesquisador dos botos-rosa, que nos contou um pouco dos inúmeros comportamentos que ele já presenciou estudando esses bichos. Fascinante. Na outra noite, fizemos uma trilha de barco, para ver a mata à noite. É completamente diferente do que vemos de dia. Outros bichos aparecem, a escuridão total é ao mesmo tempo assustadora, adrenalizante e relaxadora (eu amei!), e a constatação é uma só: a Amazônia é o paraíso é dos insetos e das aranhas. Muitas aranhas de todos os tamanhos e cores, escondidas a cada tronco. Foi o passeio mais legal de todos que fizemos por lá.

FlorCogumelos
A estranha flor que as preguiças adoram comer. Ao lado, cogumelos boiando em um tronco no meio da mata.

Um dos dias é dedicado à visita à comunidade, para ver o artesanato local de coquinho e açaí. Eu e André, entretanto, queríamos nos esbaldar na floresta, e pedimos para fazermos mais trilhas. Ainda não tínhamos visto o uacari, bicho-símbolo da reserva, e saímos com um mateiro ótimo atrás do tal macaquinho. Terminamos vendo de longe apenas, o animal ficou a distância infotografável. Mas outros animais se aproximaram das lentes, e mais que isso, estar ali no meio daquela floresta inundada, ouvindo o rugir alto dos bugios e o piu-piu das aves mais variadas possíveis já bastava: a Amazônia do Mamirauá é tudo que eu imaginava e muito mais.

Tudo de Amazônia sempre.

Textura vitoria-regia
A textura de uma folha de vitória-régia, planta-símbolo da Amazônia.

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...E para não dizer que não falei as flores:

- Muitos brasileiros têm idéias viajantes na maionese sobre a Amazônia. A estes que querem defender a Amazônia a todo custo sem nunca sequer terem visto um pé de açaí de verdade ou conversado com uma família ribeirinha, eu aconselho lerem o excelente post da Alline sobre a experiência dela por aquelas bandas verdes. Eu, bióloga de laboratório, confesso que não sabia metade dos problemas e dificulades que a realidade na Amazônia oferecia, mesmo depois de tanta aula teórica na faculdade e tanto artigo lido sobre o tema. Ver e viver ali fazem a diferença na hora de entender toda a problemática atual de devastação e afins, e não é para qualquer um, e eu bato palmas de pé aos biólogos que se dedicam àquela área com tanto afinco, sejam eles de onde forem - são os heróis sem nome de um país que lhes deve muito.

- Para comprovar que ainda não conhecemos a Amazônia, mais espécies novas foram descobertas recentemente. De acordo com o que ouvi de alguns pesquisadores, a Amazônia do Amazonas, Acre e Colômbia ainda está bem preservada. A situação fica deprê quando olhamos para a Amazônia do Pará, Maranhão e Mato Grosso - esses são os alvos das grandes queimadas que podem transformar tudo em uma grande savana em pouco tempo. Mas há esperança, e ela vem de dentro.

- O preço da pousada é salgadíssimo para brasileiros. Nós tivemos um descontinho, mas há de se pensar no todo: acredito que se o preço abaixasse um pouco mais, haveria mais brasileiros interessados em conhecer a área e mais divulgação do belo trabalho que lá é realizado, propagando as idéias da preservação com desenvolvimento sustentável aos moldes de Mamirauá talvez por outras bandas necessitadas. Ou será que o objetivo é deixar como point de ecoturismo "seleto"?

- Algumas celebridades já visitaram Mamirauá, entre elas Bill Gates e Victor Fasano, além de inúmeros fotógrafos e repórteres de vida selvagem renomados da National Geographic, BBC Wildlife e afins. Mas o encontro mais hilário (e eu gostaria de ter presenciado isso!) foi a reunião casual entre o presidente mundial do McDonald´s e o líder mundial do Greenpeace. Discutiu-se Amazônia, é claro. Diz a lenda que eles não combinaram de estar juntos ali na mesma época, mas o encontro casual é uma demonstração clara do quanto a vida é mesmo muito irônica...


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A Amazônia é dos insetos e das aranhas...


BorboletaLibelula

AranhaBorboletas

LagartaLouva-deus

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quarta-feira, agosto 29, 2007

Cheguei!

Ontem foi aniversário do meu querido pai e eu, depois de mais de 10 anos ausente de casa nessa data (porque é meio de ano, e estou sempre na estrada em algum lugar), resolvi fazê-lo uma surpresa e cheguei para a festa de repente, em Vila Velha (ES). Mas meu pai merece muito mais que apenas a minha humilde presença: merece toda a felicidade do mundo. E nada me deixou mais satisfeita que curtir esse momento especial ao seu lado de novo, depois de tanto tempo, e ver a felicidade em seus olhinhos de pai coruja.

Parabéns, papai!!!


Papi e eu

Tudo de bom sempre ao melhor pai do mundo!!

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P.S.: Eu estava esperando que André fosse ficar isolado em São Pedro e São Paulo, afinal são rochedos no meio do nada, sem vegetação, apenas com um rádio para comunicações de emergência. Mas ontem à noite ele me ligou para dizer que estava tudo bem, que já tinha começado a fotografar. Isso foi possível porque bizarramente há um orelhão da Embratel (!!!) no arquipélago, graças à mãe Marinha - é, já não se fazem mais ilhas remotas como antigamente... O orelhão está à disposição dos que lá se alojam no período de pesquisa. Inacreditável. Eu achei ótima essa novidade, porque ele poderá me dar updates frequentes do que está vendo, situação bem diferente das expedições pras Ilhas Marshall, quando ele fica incomunicável mesmo, por mais de um mês. Já disse a ele também que quero fotos desse orelhão histórico para minha singela coleção.

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terça-feira, agosto 28, 2007

Desconferência

BlogCampBR

Eis que estive no Blogcamp em São Paulo neste fim-de-semana. Quer dizer, só fui no sábado, já que no domingo me entreti em um almoço com sogros e um casal de taiuaneses - que nos receberam em Taipei, quando lá estivemos.

Mas eis que eu caí no Espaço Gafanhoto de para-quedas em um campo repleto de caça-paraquedistas naquele momento. Fui disposta a ouvir muito mais que falar, a aprender com a experiência alheia, e extremamente cética quanto ao modelo de desconferência - afinal, em toda minha vida sempre fui a conferências, onde a organização prévia principalmente dos temas a serem abordados era cristalina. A desconferência, no fim das contas, me surpreendeu: o modelo funciona.

Assim que chegamos, enquanto tomávamos sucos, algumas pessoas iam espontaneamente colocando em um quadro branco o que elas achavam que deveria ser discutido naquele dia. Num primeiro momento, todos se reuniram na sala principal para ouvir as boas-vindas dos organizadores, entre eles a xará Lúcia. Depois, um mocinho carioca começou falando do Wasabi, um agregador de conteúdo que eu não conhecia, e sinceramente, não tive vontade de conhecer: agregação demais pro meu gosto internético light.

Resolvi me encaminhar para a edícula (off-topic:acho essa palavra muito estranha) da casa, onde meu amigo Marmota parecia comandar uma discussão sobre o perfil do leitor de blogs. Estava cheia a sala, e eu fiquei do lado de fora, acompanhando as discussões (e torrando ao sol) pela janela. Além do Marmota, não conhecia ninguém. A discussão foi interessante, mas em vários momentos eu tinha a impressão de estar lendo um emaranhado de posts de uma vez só: as idéias já haviam sido ditas em algum recanto da internet, e foram ali recicladas, para a versão ao vivo e a cores. Sinal de maturidade, sem dúvida. Mas eis que a discussão descambou pro fatídico caso da campanha do Estadão contra blogs (que aparentemente só eu não conhecia direito - eu sou mesmo uma avoada) e deixaram o mocinho do Estadão falar um pouco. Edney fez a pergunta-chave pro moço: "Você está aqui representando o jornal ou a si mesmo? Por que eu diferencio bem as duas coisas", numa tentativa light de deixar o moço mais confortável para falar o que quisesse. Entretanto, o moço foi infeliz, e enrolou bastante na resposta, deixando a entender que representava, de certa forma, o Estadão. Fiquei com pena dele, que ao final da roleta russa estava com os olhos lacrimejantes.

Saí pro almoço com Marmota, Doni, Edney e Ian Black. Edney é mesmo um fera. Basta conversar com ele alguns minutos para percebermos o quanto ele entende desse mundo virtual sem porteira - e para mim, uma analfabytica, ele é o que mais facilmente consegue converter toda a dificuldade da web em palavras simples, que eu, leiga no tema, entenda. Já o Ian Black foi a maior surpresa do Blogcamp. Ele é completamente diferente do que minha imaginação elocubrava lendo o blog dele: ele é um doce de pessoa, educado, de fala mansa e muito gentleman, daqueles que puxam a cadeira das damas na hora de sentar. Adorei conversar com ele, trocar idéias sobre livros e afins. Aproveitando que era McDia Feliz, comi um Big Mac para ajudar as crianças com câncer - e colaborar na aquisição de um, ingerindo aquele plástico que eles chamam de pão.

Depois do almoço, voltamos ao Espaço Gafanhoto e eu voltei também à edícula da casa, para discutir agora sobre blogs sociais. Ouvimos algumas experiências interessantes, e a que mais me chamou a atenção foi a do Observatório do Tietê, mas infelizmente não anotei o nome do mocinho responsável para linká-lo aqui (e não achei no Google). O projeto incita as próprias crianças que moram nas proximidades do rio Tietê a reportarem como estão as condições do rio naquele momento, e fazer uma análise mais geral da água. Ecologicamente envolvente.

Algo porém me deixou um pouco frustrada, e acredito que isso seja muito pelo meu jeito de ser aliado à minha formação científica, extremamente organizada para ouvir todos os lados: as pessoas, durante as discussões, em geral não respeitavam o dedo levantado, sinal clássico de que alguém quer falar. Elas simplesmente falavam, interrompendo algumas vezes o discurso alheio. Talvez isso também faça parte do "ser uma desconferência", e eu que devesse ter me adaptado. Enfim.

A desconferência fechou no sábado de forma não muito agradável: roubaram o projetor de slides do Espaço Gafanhoto enquanto tínhamos ido almoçar - a suspeita maior é de que alguém tenha entrado enquanto a casa estava vazia. Quando o Ina me falou, achei que era brincadeira, mas não, infelizmente era sério. Caos urbano da segurança sob nossos olhos. Triste constatação.

Depois de discutir o que seria feito para repor o projetor (há uma mobilização pra doação aqui), fomos ao esperado momento happy hour no Pinheirinho. A mesa era enorme, e obviamente não dava pra papear com todos. Conversei bastante na mesa de bar com o casal responsável pelo Ouvindo.com, um blog profissinalizado de músicas. Eles me alertaram sobre segurança na web, e discutimos muito as questões ecológicas da pesca e abate de animais - finalmente, pude abrir o verbo sobre a minha praia, já que durante o dia inteiro eu basicamente só ouvi e nada falei. Eles são ótimos, e desejo sucesso ao empreendimento musical que planejam. Depois conversei com 2 mocinhos que esqueci o nome, sobre viagens - mais uma vez, a minha praia. E no fim, eu e Ina ficamos falando de blogs um pouco mais, e ele tentando convencer Tiago Dória a abrir outro blog - não me perguntem o tema.

No resumo da desópera, eu achei boa a reunião. Muito voltada para a profissionalização dos blogs, monetização e afins (um papo que ainda não digiro muito bem), com uma maioria gritante de blogs de tecnologia que muitas vezes traziam a discussão para um patamar ininteligível para mim (uma sopa de letrinhas de widgets e afins), mas também muitos discursos sociais, experências legais que estão dando certo em comunidades carentes e cidadezinhas minúsculas do interior. Um modelo de comunicação, sem dúvida. Para mim, valeu a oportunidade de conversar e conhecer pessoas antenadas com o que vem por aí. É sempre legal compartilhar experiências. E as desexperiências, numa desconferência.

Tudo de bom (des)sempre.

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domingo, agosto 26, 2007

Amigos de viagem

Na quinta passada, houve a ConVnVenção do blog Viaje na Viagem, capitaneado pelo super-Ricardo Freire (que só confirmou a suspeita geral: é um verdadeiro gentleman). Foram vários amigos que frequentam o blog de trocas de idéias viajantes mais agitado do Brasil, que emana leveza em cada palavra. O Terraço Itália ficou iluminado não só pelas luzes da cidade - que são lindas lá de cima! -, mas principalmente pela alegria da galera presente, sem dúvida os grandes viajantes (literalmente!) da blogosfera brasileira. Eu fiquei extremamente feliz de conhecer ao vivo e a cores todos os que lá estavam, e mais uma vez a sensação era de que nos conhecíamos há tempos - o que no fundo é verdade, já que conversamos sempre nas caixas de comentário do VnV. Foram muitos papos legais sobre o tema que nos une: viagens, viagens e mais viagens. Cada um com sua experiência, compartilhando e sendo compartilhado. A internet, nesse caso, é uma festa leve, agradável e cheia de animação!

Foi um prazer enorme conhecer a todos e fica aqui o meu agradecimento especial ao Ricardo, pelo excelente trabalho agregador e de qualidade que permitiu a união de tantas pessoas legais em torno de um objetivo único e apaixonante: viajar.

Tudo de bom sempre aos tripulantes do VnV!


Cenas de uma noite supimpa:


ConVnVenção
(Para descobrir quem é cada um, basta ler o ótimo post do Ricardo sobre a festa. Tá todo mundo lá!)

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quinta-feira, agosto 23, 2007

Resposta do desafio Malla e blogueirices diversas

Estou em Sampa por alguns dias. Afinal, André embarcou em Guarulhos. Ele já viajou rumo a... um lugar longínquo, isolado e em alto-mar. Vai com o auxílio da Marinha brasileira até o arquipélago de São Pedro e São Paulo, que está a meio caminho entre o Brasil e a África, a mais de 600 km de Fernando de Noronha - e com isso, ninguém acertou o desafio. Na maquete do desafio, dá pra ver a casa dos pesquisadores (um mini-alojamento) e a passarela que leva ao portinho da enseada. Ao redor, mar bravio e muitos peixes grandes. E muita pesca de tubarão clandestina, infelizmente.

No mapa abaixo, uma pequena noção de onde ficam os tais rochedos que remetem a questões de soberania nacional - porque afinal, para o Brasil, é importante clamar como suas essas ilhotas no meio do nada, já que com isso a plataforma continental de 200 milhas se alarga um pouco mais naquela região, e a zona econômica aumenta em direção ao mar, garantindo a economia pesqueira. De curiosidade, lá é o único local do Brasil onde ocorrem terremotos com frequência, pela característica peculiar da geologia na região, sentada em cima de várias fissuras da crosta.

Mapa-SP-&-SP
A seta vermelha indica o arquipélago de São Pedro e São Paulo.

Tenho certeza que ele trará boas histórias dessa aventura, e depois eu conto pra vocês aqui.

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Aproveitando a temporada em Sampa, encontrei com a blogueira e amiga Vanessa ontem à tarde no Shopping Eldorado, e ela estava com o fofo do Mateus e a mãe. Foi um fim de tarde de bons papos e reflexões interessantes. Como a Vanessa é pé no chão! Eu, que viajo na maionese a maior parte do tempo, sempre admiro as pessoas que são menos dispersas. Obrigada, Vanessa, pela conversação deliciosa e força para enfrentar os desafios que vêm por aí!

(A foto que nós tiramos juntas será publicada posteriormente, quando eu sair da bagunça internética em que me encontro. E se a Vanessa liberar, é claro.)

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Hoje à noite tem "CoVnVescote" da galera do Viaje na Viagem, o blog que agrega em sua caixa de comentários os maiores viajantes (de verdade!) da blogosfera brasileira, liderados pelo capitão-timoneiro Ricardo Freire. Estou empolgadíssima para a coVnVenção que promete ser divertida.

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BlogCampBR

Nesse fim-de-semana, estarei no BlogCamp, em São Paulo. Será a primeira vez que participarei de uma "desconferência", e estou curiosa para ver como funciona esse modelo tão... modernoso. Não faço a menor idéia do que vai ser discutido. Será também uma oportunidade de ouro para rever alguns amigos e conhecer outros blogueiros que leio e admiro. Embora imagine que a predominância seja da blogosfera tecnológica, eu, com todo meu analfabytismo clássico chavão, acompanharei as discussões de perto. Tentarei não fazer feio perante tantos titãs.

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Tudo de bloguice sempre.

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segunda-feira, agosto 20, 2007

Mais um desafio Malla: para onde viajará o André?

Não queria deixar 2 desafios em seguida aqui, mas não posso perder a oportunidade de ouro. Coincidentemente, meu marido (e intenso colaborador fotográfico deste bloguinho) foi chamado às pressas para uma viagem a um arquipélago remoto do mundo, onde pouquíssimos vão. Vai para fotografar a fauna subaquática de lá. Não é a primeira vez que ele encara uma expedição em local inóspito do planeta; está acostumado ao "survivor style". Mas dessa vez, aproveito a deixa e desafio vocês a adivinharem para onde ele vai.

A pista principal: a foto abaixo, de uma maquete exata do local.

Maquete
A área branca ao redor das ilhas é uma representação das ondas batendo. Achei muito engraçado esse detalhe na maquete.

Pode pedir ajuda ao Google Earth. As coordenadas são na altura dos trópicos (pista bônus).

Tudo de desafio sempre.

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P.S.: O post de Mamirauá sai daqui a alguns dias. E se não sair, me cobrem, por favor! :)

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sexta-feira, agosto 17, 2007

Resposta do desafio Malla: o prédio antigo

Inacreditável. Ao mesmo tempo que eu achei que o desafio seria difícil, não imaginava que logo de primeira alguém ia chegar tão perto. Mas chegou. A Rô sugeriu que o prédio ficava em Manaus, próximo ao porto - na realidade, é mesmo perto do porto, mas da cidade de Tefé, segunda maior cidade do estado do Amazonas, que fica a 1h e meia de avião de Manaus, ou a 12h de lancha voadeira. Parabéns, Rô!!! :)

Mapa de Tefé
(Mapa retirado da Wikipedia, destacando o município de Tefé em vermelho.)

Tefé é considerada uma cidade estratégica pelas Forças Armadas brasileiras devido a sua localização central na Amazônia. Uma das cidades do Comando Militar da Amazônia (CMA), foi escolhida como sede da brigada de infantaria de selva, e é onde os soldados brasileiros fazem os treinamentos pesados de sobrevivência na mata em condições inóspitas de temperatura e pressão. Há quartéis espalhados pela cidade. Como a Amazônia é uma área vastíssima (que engloba desde o Equador, Colômbia até pedaços do Maranhão e Mato Grosso), para determinar seu quinhão, o Brasil precisa manter batalhões preparados para defender a soberania por aquelas áreas, principalmente próximo às fronteiras, caso algum presidente maluco decida ampliar suas terras. A Amazônia não é terra de ninguém, essa é a mensagem que os militares tentam passar.

Rua de Tefé©Mercado de Tefé©
Porto de Tefé e rua nos arredores do prédio do desafio Malla. A lona azul da segunda foto é onde fica o mercado municipal de peixes, frutas e afins.

Já eu estive em Tefé por outros motivos, muito menos fardados. Tefé é a cidade mais próxima da reserva de Mamirauá, uma preciosidade para a manutenção da biodiversidade no meio do maior corredor verde tropical do mundo. Como fomos a Mamirauá (papo para um futuro post, sem dúvida), tivemos que passar por Tefé.

Em Tefé, tivemos a ótima receptividade da amiga Alline para nos ajudar com dicas - e de excelente quebra, muitas risadas, pizza, filmes e papos deliciosos nos dias em que ficamos em sua casa. A cidade não tem muito a oferecer aos visitantes, já que a maioria só está de passagem. Mas nos poucos dias que lá estivemos, tentamos entender um pouco aquele entreposto militar e comercial no meio da floresta. Tivemos poucas horas na ida e apenas 1 dia e meio na volta para andar por lá.

Tefé está à beira do rio Solimões, mais precisamente no lago de Tefé. Só vendo para entender a dimensão dessa via fluvial, e eu confesso que mesmo tendo todo o conhecimento teórico sobre a área, da importância de sua preservação, etc., as discussões ficam muito mais claras e óbvias quando você vê o tamanho do rio e da riqueza de biodiversidade ali encontrada. É muita água. Mas, como o rio Solimões é de água escura, infelizmente não dá para mergulhar - a não ser que você não se importe com visibilidade de 20 cm.

Porto de Tefé©Igreja de Tefé©
Porto no lago de Tefé, com um típico barco de viagens pela Amazônia ao fundo. Do lado, a igreja da praça central da cidade (chavão total).

O porto de Tefé, como se pode imaginar, é a área mais movimentada da cidade. Afinal, praticamente tudo passa por ali para chegar na cidade. O porto é pequeno, com arredores em franca decadência - entre os prédios caindo aos pedaços, o da foto do desafio, que funciona hoje como sucursal de uma paróquia (não me pergunte de quê). Duas peculiaridades entretanto, chamaram a minha atenção: o mercado de peixes e frutas, e as casas flutuantes. Até posto de gasolina flutuante no rio você vê! Muito interessante.

Já no mercado popular, a diversão fica por conta dos vendedores de açaí: por 1 real (!!!!!) você pode comprar um saco enorme de polpa de açaí moída na hora. Chega ainda sai meio "quentinho" da máquina de moer, de tão fresco. Esse açaí moído na hora tem um gosto muito mais forte e amargo que aquele que estamos acostumados a comer no resto do Brasil. E com uma diferença ainda mais gritante: na Amazônia açaí se come com tapioca. Eles acham super-estranho colocar granola, banana e afins. Afinal, açaí é comida de "sustância", não sobremesa.

Torrando açaí©Açaí à venda©
Vendedor moendo o açaí na hora, no mercado de Tefé. Ao lado, repare nos saquinhos de açaí no balcão. Cada saco custa só 1 real, e dá pra uma festa de suco de açaí.

Mototáxis abundam nas ruas mal calçadas. Muitos mesmo, numa densidade que eu nunca tinha visto na vida. O mais engraçado é que a maioria deles tem uma alcinha lateral no colete, pro passageiro se segurar. Uma inovação bem simpática. O preço da corrida é barato se comparado aos preços de sul e sudeste, mas é claro, para a realidade dali, deve ser um pouco salgado. A maior parte da população de Tefé é bem pobre.

Malla sem alça©Mototáxi©
Malla sem alça: corroborando as leis de Murphy, eu tinha que pegar um dos poucos mototáxis que não tinham a tal alcinha de plástico na lateral do colete... ao lado, dá pra ver um exemplo desse colete em outro taxista.

Com a Alline, para finalizar bem a estadia, fomos ver o pôr-do-sol à beira-rio na sede nova da Sociedade Civil Mamirauá (já tínhamos visitado a outra sede, de ecoturismo, da reserva quando chegamos em Tefé), ainda cheirando a tinta nova. Muitos papos agradáveis, sobre conservação, biodiversidade e afins - quando 3 biólogos se juntam para falar disso, vocês podem imaginar o que acontece... a conversa não quer terminar! A sede é um lugar agradável, com uma estátua engraçada na entrada (supostamente significa todos os povos indígenas...) e projetos que podem fazer a diferença para o futuro da nossa riqueza ecossistêmica. E um redário pra siesta pós-almoço, que ninguém é de ferro naquele calorão amazônico.

Sede do Mamirauá©Tefe-11
A estátua na sede do Mamirauá num belo dia de pôr-do-sol colorido.

Tudo de bom sempre. E muito obrigada, Alline , pela ótima estadia, papos e gargalhadas!!! :)

Alline
Olha o nosso mega-chapéu de telhado de cabana no blog!!! hahahaha!!

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quarta-feira, agosto 15, 2007

Desafio Malla: onde fica esse prédio?

Desafio-Malla-2

Dica 1:
Embora seja um prédio histórico no lugar onde está, a cidade onde ele fica não é nada histórica, mas tem muita história (e estória) militar para contar.

Dica 2: Tem praia, mas não é mergulhável - a visibilidade embaixo d'água é muito ruim.

Dica 3:
Hoje é a porta de entrada para uma área de ecoturismo importantíssima no mundo, mas ainda com baixa visitação.


Onde é que fica esse prédio? Serve qualquer indicação da proximidade (de cidade a continente), pois eu acho que dessa vez o desafio está mais difícil, então quem chegar mais próximo já fica como vencedor. O que vale é a brincadeira, afinal.

Vou deixar esse post aqui por uns dias esperando os palpites de vocês.

Tudo de desafio sempre.


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P.S.: A revista Mergulho desse mês de agosto traz mais uma vez uma pequena nota minha. Pequena mesmo, meia página com uma foto onde eu brinco de modelo. Está na seção Grandes Points, falando dos Lençóis Maranhenses. Dê uma chegada na banca pra ver, ler. Gisele Bündchen que se cuide... :D

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sábado, agosto 11, 2007

Pequenas anotações de viagens virtuais 21

Não, eu não estou saudosa de Boston. Meus amigos sabem o quanto eu passei frio por lá, o quanto chorei e xinguei aquela neve toda, e eu não nego que não gostaria de voltar a morar lá. Visitar, sim, porque Boston é uma cidade vibrante, mas morar, I really don't want to. Mas depois de ler um post pondo Jamaica Plain, o bairro onde vivi por quase 2 anos, como um exemplo para o futuro em matéria de organização da comunidade e de proteção ambiental, confesso que fiquei com vontade de pegar o ônibus 39, voltar lá e dar um hello básico pro mercado orgânico que ficava perto de casa e pros artistas de rua. Apesar dos índices de criminalidade não serem lá essas maravilhas, Jamaica Plain tinha realmente um vibe diferente de se viver. Só indo lá pra sentir. E me deu, de tabela, saudade da JPLicks. :)

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Peter Rost foi entrevistado pela Época. Para quem não se lembra dele, é o senhor que foi presidente de uma grande empresa farmacêutica e, depois de ser mandado embora porque discordara de um esquema de evasão de impostos, resolveu abrir o bico de todas as picaretagens que ocorrem na indústria. Hoje ele é escritor, e seu best-seller "The Whistlebower" é leitura obrigatória para quem lida na área biomédica. Além disso, continua alfinetando as farmacêuticas diariamente em seu blog, visitadíssimo e comentadíssimo na farmablogosfera, onde até festa online rola. O homem é fogo na roupa e vale muito ler o que ele tem a falar na Época.

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Esses meus amigos de faculdade são muito chiques... Fabiano Melo, vulgo "Bião DOS", meu co(m)panheiro de PET e Leão, virou presidente da Sociedade Brasileira de Primatologia. E deu uma entrevista supimpa na revista da FAPESP! Muito 10! Bião, você sabe que eu estou sempre torcendo por você e pelos seus macacos maravilhosos. Parabéns pelo feito!

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Eu sei que na atual conjuntura mundial, China e Taiwan não se dão muito bem... mas parece que a economia vem falando mais alto e "Chaiwan" já é um jargão entre os manufatureiros de plantão. Será o início para a aceitação chinesa da soberania taiwanesa? Sonhar não custa nada.

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Na Coréia do Sul, será construída a primeira "rodovia inteligente". A rodovia terá inclusive pavimentação especial para detectar problemas de manutenção, acidentes e afins. Quando uma destas chegará ao Brasil?

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Mais infra-estrutura - Enquanto no Brasil se discute infinitamente a construção de um terceiro terminal de passageiros no aeroporto de Guarulhos (e sabe-se lá quando essa obra vai sair efetivamente), no Aeroporto Internacional de Doha, no Qatar, há um terminal inteiro só para passageiros de primeira classe e classe executiva. Apenas lembrando, o aeroporto de Doha recebe em média 12 milhões de passageiros por ano, sendo que Guarulhos recebe 17 milhões e Congonhas, antes da tragédia da TAM, 15 milhões, pelos dados da página da InfraZero. (Via Gadling)

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O problema da invasão de espécies em um ecossistema que me é muito querido: o lago das Águas-vivas, em Palau, onde uma anêmona que provavelmente veio com algum turista sem querer, está tirando o sono dos políticos - afinal o lago é a principal atração do país, que depende do turismo para sobreviver. Para quem não se lembra, eu contei um pouco da história deste lago no início do ano passado, quando lá estive.

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A agência americana que regulamenta as atividades pesqueiras acaba de lançar um website com dicas ecológicas sobre os principais tipos de peixes e frutos do mar que nós consumimos. Uma ótima dica para escolhermos conscientemente o que comprar na peixaria.

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Eu adoro Ewan McGregor. Não só porque ele fez "A Ilha" e "Trainspotting", mas também por causa de seu estilo pouco hollywoodiano de viver a vida. Que outro ator famoso larga tudo para sair on the road in a motorcycle? Fun, fun, fun!!

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Alerta: nerdismo adiante! O sempre fantástico Carl Zimmer deu vivas à criatividade blogueira e começou a juntar em seu álbum no flickr fotos de tatuagens científicas - ou seja, tatuagens que as pessoas fazem com tópicos de ciência em seus corpos, ou por trabalharem com aquilo, ou por gostarem da temática (ou ambos). Se você tem uma tatuagem científica, pode enviar pra ele também. A minha predileta até agora é essa aqui, muito pela história da tatuagem. Agora tatuar a tabela periódica no braço é demais pro meu ecossistema! Tem que gostar muito mesmo...

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Um artigo recém-publicado mostra que açúcar é mais viciante que cocaína - em outras palavras, tem mais capacidade de aliviar um desejo cerebral e gerar uma recompensa prazeirosa pro seu organismo. Pelo menos em ratos de laboratório isso foi comprovado. Assustador, sem dúvida. (Via A blog around the clock)

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Um dos meus filmes prediletos na adolescência foi "Na Montanha dos Gorilas", que contava a história da bióloga Dian Fossey. Apesar dela ter dado literalmente sua vida na defesa dos animais, parece que mais uma vez os gorilas pedem socorro. Se até a UNESCO já está preocupada, não deveríamos estar também?

Curiosidade: a última frase no diário de Dian Fossey antes de ser assassinada foi
“When you realize the value of all life, you dwell less on what is past and concentrate more on the preservation of the future.”


Para pensar, não? Principalmente depois da deprimente notícia de que o golfinho do Yangtze na China foi oficialmente declarado extinto.

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Tudo de bom sempre.

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quinta-feira, agosto 09, 2007

Os 10 websites mais verdes

O Guardian publicou hoje uma lista daqueles que os repórteres consideraram os websites mais "verdes" do planeta (aqueles motivados de alguma forma na construção de um futuro melhor). Boa parte deles são baseados no Reino Unido, mas não deixa de ser interessante e útil se inspirar nas idéias que eles nos deixam. A lista segue abaixo:

- Grist - revista online com novidades e notícias sobre o ambiente, abrangendo desde dicas a política ambiental, tudo com muito humor. Uma espécie de portal verde.

- Real Climate - dessa lista, é meu site predileto. Cientistas de renome discutindo a ciência hardcore por trás das mudanças climáticas. Melhor e mais confiável fonte de informação sobre o tema atualmente na web.

- World Changing - o site do desenvolvimento sustentável por excelência. Está nos meus feeds há anos e nunca deixa de me surpreender, com visões pra lá de interessantes. Muitas análises de gadgets e arquitetura sustentável. De moda a biodiversidade. Discute-se de tudo por lá, enfim. As dicas ecoconscientes são fenomenais. Não perca.

- TreeHugger - dicas verdes sob formato blog, com destaque para a seção "Take action", que estimula a participação de todos. Eu não connhecia esse site antes, e estou no momento me deliciando com o enveredamento por lá.

- Free Cycle - um site de troca de produtos usados. O objetivo é diminuir a geração de lixo. Interessante.

- Liftshare - um organizador de caronas e afins. Se você quer dividir um táxi com alguém, coloque seu anúncio lá. Uma proposta para diminuir a circulação de carros com uma só pessoa dentro pelo mundo.

- Seat61 - um site de turismo responsável, utilizando principalmente a malha ferroviária pelo mundo. Aos viajantes de plantão, as dicas são fantásticas.

- Recycle now - dicas fantásticas sobre reciclagem, projetos em execução, etc. Lotado de idéias interessantes. Infelizmente a lista de pontos de reciclagem é para o Reino Unido apenas, mas desconsidere essa parte e leia os artigos sobre o tema. Vale a pena.

- Planet Ark - dedicado a diminuir o impacto humano cotidiano sobre o planeta. Dicas e afins.

- Adili - para estar na moda sem comprometer o ambiente.


Todos valem a pena ser visitados e frequentados, já que sempre trazem perspectivas, dicas e idéias novas sobre os dilemas sérios que enfrentamos no cotidiano em todos os níveis (político, científico, econômico, etc.) sobre a causa ambiental.

Tudo de verde sempre.


*Postado também no Faça a sua parte.

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quarta-feira, agosto 08, 2007

Kilauea em forma

Lava-1Lava-2

Kilauea acordou. Quer dizer, não dorme direito desde 1985, quando entrou em atividade vulcânica intensa e não parou mais. Cronicamente lava. Mas semana passada, teve outra daquelas "erupções fantásticas", piroclásticas, e dessa vez lançou sua lava pelo lado leste da Big Island no Hawaii. Lava vinda mais uma vez da cratera de Pu'u'o'o. Formou novos lagos de lava, rios caudalosos fervendo e escorrendo. Uma festa de fogo.

Se eu estivesse lá, com certeza não perderia a oportunidade de ver essa maravilha de perto...

(Sim, eu sou uma lava junkie. Não muito hardcore como um vulcanólogo de verdade, though.)

Pu'u'o'o

Tudo de lava sempre.

*Postado também no Goitacá.

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domingo, agosto 05, 2007

Somos mamíferos

Em geral, essa é uma das primeiras lições da aula de ciências na escola: você aprende logo cedo que o Homo sapiens, vulgarmente conhecido como espécie humana (você!), é um vertebrado que pertence à classe Mammalia - ou seja, em não-latim, somos mamíferos. Assim como morcegos, macacos, golfinhos, elefantes, cavalos e outras 5,400 espécies.

Temos notocorda como os demais vertebrados (sapos, peixes, jacarés, etc.), regulamos nossa temperatura corpórea como as aves o fazem também, mas a característica principal que nos separa dos demais grandes grupos de animais e nos faz adquirir uma classificação à parte, o que nos torna especialmente mamíferos, é a presença de glândula mamária na fêmea, uma glândula que evoluiu a partir das glândulas de suor, especializando-se na produção de leite. Mamar, portanto, é o que nos define biologicamente: o leite nos une.

Peixe-boi-3Golfinho-1
Filhotes de mamíferos aquáticos ao redor de suas mamães em busca de proteção e alimentação: à esquerda peixes-bois, e à direita golfinhos rotadores. Curiosidade malla: a foto dos golfinhos é a que eu tenho na minha área de trabalho do computador em casa. Eu amo essa foto.

O leite materno é a principal fonte de alimentação do animal recém-nascido em todas as 5,400 espéces citadas acima, incluindo humanos. Sua composição é diferente em cada espécie, possuindo os nutrientes básicos necessários para a sobrevivência nos primeiros dias, meses e, em alguns casos, anos de vida. Interessantemente, nem todos os mamíferos possuem um bico final do duto mamário tão acentuado para puxar ou sugar o leite materno. Os mamíferos aquáticos, por exemplo, têm minúsculas tetas, e o filhote precisa ficar "lambendo" a pele da mãe para se alimentar. Como por exemplo, o peixe-boi.

O filhote de peixe-boi nasce após 13 meses de gestação e mama por cerca de 2 anos. Ou seja, o cuidado parental envolvido na manutenção da espécie é de no mínimo 3 anos - mais curto que dos humanos, sem dúvida. Desde que nasce, fica em volta da mãe, para cima e para baixo. A glândula mamária da fêmea de peixe-boi fica embaixo do membro superior (que é um braço vestigial), onde em humanos corresponde à axila. Entretanto, a glândula mamária do peixe-boi não tem como armazenar o leite, e por isso, o líquido fica saindo o tempo todo. E o comportamento do animal se torna muito interessante de se observar exatamente por conta dessa particularidade: o filhote fica o tempo todo perto da mãe porque o leite a toda hora aflora. De vez em quando vem e dá sua lambidinha nutritiva. Por 2 anos nesse grude fofo e vital.

E se a mãe morre antes do filhote completar seu ciclo de amamentação? Nesse caso, outra mãe-peixe-boi do grupo local substitui, e o filhote não deixa de se alimentar em momento algum. Sem leite, ele não pode ficar. Incrível como o bicho evoluiu esse altruísmo pelo grupo, muito legal.

Peixe-boi-1Peixe-boi-2
Filhotes de peixe-boi sendo alimentados por suas respectivas mamães. Repare como o filhote lambe a região debaixo da nadadeira, onde o leite "brota". Estas fotos foram tiradas em Crystal River, na Flórida, em março passado. A da direita foi a que abriu a reportagem da Mergulho mês passado.

O leite da fêmea do peixe-boi é muito rico em gordura (13%) e proteínas (7%) - assim como de golfinhos, também um mamífero aquático. Para termos de comparação, o leite de vaca tem em torno de 3.4% de gordura e o humano, 1.1%. Tanta gordura no leite provavelmente foi selecionada por atender a uma adaptação necessária ao ambiente em que o animal vive: debaixo d'água, onde a perda de calor é muito maior que na terra. Qualquer mecanismo fisiológico que guarde calor para o peixe-boi, como o aumento da camada de gordura, o beneficiará contra a hipotermia. Lembre-se: os mamíferos mantêm a temperatura corpórea de 37˚ graus, ou seja, é um grande gasto energético para que o peixe-boi viva numa água que na maior parte do tempo é fria. Precisa de muita energia na dieta para não perecer, principalmente nos primeiros momentos da vida.

Energia que, primordialmente, vem do leite materno, um ganho evolutivo imenso para a sobrevivência do grupo dos mamíferos. E cada peixe-boi, assim como nós, depende desse líquido como garantia fisiológica para um futuro saudável. Mais um capítulo maravilhoso da sempre intrigante história da teia da vida, que dessa vez põe peixes-bois e humanos em um só invólucro.

Tudo de mamífero sempre.

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- Esse post faz parte da blogagem coletiva sobre Amamentação que a Denise Arcoverde está organizando. Estamos na Semana Mundial da Amamentação, e eu convido todos a darem uma passada pelo blog da Denise para ver/ler/discutir/aprender com os outros participantes sobre o assunto. Vale a pena.

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quarta-feira, agosto 01, 2007

Doping patológico

Durante a cerimônia de encerramento do Jogos Panamericanos 2007, entremeado ao discurso de Carlos Artur Nuzmann, presidente do COB, apareceu um dado muito significativo e interessante: das mais de 1300 análises para detecção de doping realizadas durantes os Jogos, nenhuma delas deu positivo. Das duas, uma: ou os aparelhos de medição e equipamentos/reagentes para testes estavam mal-calibrados ou com alguma disfunção, ou o PAN do Rio foi realmente muito limpo. Gosto de acreditar na segunda hipótese, para benefício do esporte.

Entretanto, no Velho Mundo, o cenário de doping anda bem diferente. Tenho lido com estarrecimento o desenrolar da história do Tour de France (link em francês) desse ano. A mais famosa prova de ciclismo da Europa - talvez do mundo - se tornou um celeiro de uso de doping, ao ponto de um membro do Comitê Olímpico Internacional já confabular a possibilidade de retirar o ciclismo das Olimpíadas, por conta do enorme número de escândalos que ronda o esporte (embora a nota oficial liberada pelo Comitê seja bem entrelinhada). As TVs alemãs decidiram não mais transmitir a competição e retirar seu patrocínio da prova. Até a famosa "camiseta amarela", que define o líder do tour, foi retirada da competição na última etapa pelos organizadores como forma de protesto. What a shame.

Lendo sobre os casos de doping praticados no Tour de France, confesso que fiquei assustada. Os métodos tradicionais de usos de substâncias proibidas, como testosterona sintética, análogos de hormônio de crescimento, eritropoietina, estimulantes e anabolizantes já são conhecidos e identificados por espectrometria de massa de maneira relativamente precisa - mas mesmo assim ainda são bastante usados no esporte. (Para uma boa discussão sobre a metodologia de detecção, sugiro esse post do In the Pipeline.)

Entretanto, alguns ciclistas do ano passado ousaram, e estavam envolvidos num megaesquema de doping com sangue, categoria de doping existente já há alguns anos, mas que eu desconhecia completamente. Embora o esquema estivesse centralizado na Espanha, já se descobriram laboratórios fazendo o mesmo na Alemanha também. A prática é ilegal, mas os atletas vorazes por índices e vitórias, parecem cada vez mais interessados nela.

O doping com sangue é feito retirando-se um volume de cerca de 500ml de sangue do atleta semanas ou meses antes da competição. O sangue é então centrifugado, com as células vermelhas sendo concentradas, e guardado em geladeira ou freezer (dependendo do tempo que falta para a competição); na véspera da prova, o concentrado é reinjetado no atleta - uma auto-transfusão. Ao receber um elevado número de hemácias de uma vez só, o atleta aumenta "artificialmente" sua capacidade fisiológica de carregar oxigênio pelo sangue, o que se traduz no final das contas em melhor capacidade aeróbica = melhor performance, principalmente para uma prova de resistência como o Tour de France é. Seria o doping perfeito (afinal, nenhuma substância ilícita está sendo reintroduzida no atleta) se os atletas também não estivessem usando sangue de doadores compatíveis para aumentar ainda mais a quantidade de hemácia concentrada. Com isso, surgem dois pools de doadores diferentes de células vermelhas, e a detecção do doping fica um pouco mais fácil. Mas para a detecção do doping autológo (com sangue do próprio atleta), ainda não há uma metodologia eficaz. A Agência Mundial Anti-Doping está testando medir a razão entre células novas e velhas em circulação, para ver se esse método pode ser inserido oficialmente nas competições. Mas ainda não é 100% eficaz, e em tese, essa forma de doping ainda passa de certa forma indetectável - embora de conhecimento geral da mídia. Entretanto, o maior problema que eu vejo no doping com sangue é o risco: há a possibilidade alta de trombose, já que o sangue com mais hemácias fica mais viscoso e pode comprometer a boa circulação. O que, para um atleta que sobrecarrega o coração e a circulação numa prova de resistência, torna-se uma faca de dois gumes afiados.

O Tour de France esse ano já acabou, e o vencedor foi o espanhol Alberto Contador - que no ano passado por ironia estava colateralmente envolvido com o esquema de doping espanhol. É de se lamentar que a prova tenha passado por tantos baixos durante o percurso, com times inteiros desertando por vergonha do doping, atletas de renome tendo suas reputações jogadas ao vento. E a questão que fica é: por que o esporte deixou de ser saudável e limpo para se tornar um festival de design molecular, de estratégias frankenstenianas? A pressão econômica e de performance feita por patrocinadores, técnicos, etc. talvez seja parte da resposta, mas a outra parte infelizmente fala um pouco da natureza humana: queremos ser sempre os melhores. O valor adaptativo que ser "o melhor" em algo traz pode ser uma herança de nossos instintos mais rudimentares, mas numa sociedade que cobra alto pelo altruísmo, acho que, conscientemente ou não, são os próprios ciclistas quem, no final das contas, optam por se jogar na roda-viva do risco.

Como diz o editorial do Der Spiegel, "Que a exposição da realidade do Tour de France tenha sido não o fim, mas o começo de um novo tour." Aguardemos com esperança que sim.

Tudo de bom sempre.

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UPDATE:
Infelizmente, o Pan do Rio foi "batizado" pelo vudu do doping. O esporte? Ciclismo. Precisa dizer mais?

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