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domingo, setembro 30, 2007

Convite de domingo

O Marmota viajou para a Europa e deixou uma verdadeira Colônia de Férias em seu blog. Ontem, foi a minha vez de participar da brincadeira, com o texto "Sobre o mundo e o tempo que temos". Convido então a todos para aproveitarem o domingo de descanso e lerem minhas divagações sobre a memória viajante.

Tudo de viagem sempre.

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sábado, setembro 29, 2007

Incerteza estatística

As discussões desse mês no Roda de Ciência versaram sobre a dificuldade em se comunicar a incerteza. Não só aos acadêmicos, mas principalmente ao público leigo, que, acostumados ao maniqueísmo do "preto ou branco", não se sentem confortáveis com estatísticas e probabilidades que sejam diferentes e nos deixem em tons de cinza. As discussões foram excelentes e eu, aos 45 minutos do segundo tempo, deixo aqui minha humilde contribuição pessoal. Aconselho todos a lerem os demais posts e suas caixas de comentários, que estão bem interessantes.

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Na ciência, trabalhamos com hipóteses, que serão de 0 a 100% corretas, com todas as tonalidades de cinza no meio desses números. O melhor texto que conheço sobre o assunto - e uma bela lição de vida - é o famoso "The median isn't the message", que conta como em 1982 o paleontólogo e divulgador da ciência Stephen Jay Gould foi diagnosticado com um mesotelioma abdominal (um câncer raro) e, ao invés de engolir a sentença de morte de 8 meses que a literatura médica lhe evidenciava, resolveu entender a estatística por trás do estudo. Nas palavras dele:

"When I learned about the eight-month median, my first intellectual reaction was: fine, half the people will live longer; now what are my chances of being in that half. I read for a furious and nervous hour and concluded, with relief: damned good. I possessed every one of the characteristics conferring a probability of longer life: I was young; my disease had been recognized in a relatively early stage; I would receive the nation's best medical treatment; I had the world to live for; I knew how to read the data properly and not despair."

Gould viveu 20 anos mais depois do seu diagnóstico - ou seja, superou o valor da mediana em quase 30 vezes. (Parênteses pessoal: eu tive o prazer de esbarrar (literalmente) com ele no Harvard Yard uma noite de 2001 - e perdi a voz, nada falei, tamanha emoção de ver meu ídolo ali. Quando ele morreu, em 2002, o laboratório em que então eu trabalhava estudando a influência do hormônio tiroideano nas células do mesotelioma (o câncer de Gould) cobriu-se de luto. Meu ex-chefe perdera muito mais que um paciente: perdera um amigo. Fim do parênteses.)

Veja bem, o fato dele ter vivido 30 vezes a mais que a literatura médica previa não significava que a tal literatura estava errada - porque a nossa percepção do mundo da ciência é probabilística, não certeira. Ele apenas soube interpretar tal dado da forma adequada, com as variáveis pertinentes, e enfrentar o problema sem querer se enganar com uma certeza inexistente. Ele preferiu apostar na incerteza estatística - e foi um vencedor.

Infelizmente, a maior parte das pessoas não faz como Gould e olham para as estatísticas médicas da mesma forma maniqueísta que encaram o mundo ao redor. Veja por exemplo, o 5-year-survival ("sobrevivência em 5 anos", ou 5YS), que é uma probabilidade calculada para diferentes patologias, principalmente câncer. Sua definição é:

"(...) 5 year survival means is that X% of patients were alive 5 years after they were diagnosed. It does not mean that these people lived for exactly 5 years and then died. It doesn't mean they were all cured either. Some of them will be cured. Some will have already had a recurrence of their cancer, but still be alive. Some will get a recurrence after the 5 year period."

Por exemplo, o 5YS de uma gripe deve ser muito próximo a 100%, já que é praticamente impossível que uma pessoa vá morrer de uma gripe 5 anos depois de pegá-la. Para cânceres agressivos, o valor do 5YS é crucial para se decidir que tratamento é mais aconselhável. O médico sabe disso. Mas é difícil para ele comunicar essa incerteza ao paciente, que obviamente quer uma resposta preto-no-branco: vou ou não morrer logo. E como a atitude de um paciente com câncer é meio caminho andado para um tratamento mais eficaz, o médico fica naquela situação estressante de indecisão sobre como comunicar a probabilidade de sobrevivência.

Nossas cabeças não foram educadas para lidar com incertezas. A maior parte das pessoas, aliás, se amedronta com elas - vem daí o comodismo generalizado (principalmente intelectual) que vemos. Eu, por outro lado, tento extrapolar a estatística para minha vida diária em sociedade, e abuso do cálculo de probabilidades. Não me assusto com a incerteza. Entendo que o mundo e os fenômenos ao nosso redor são um grande jogo de estatística, e se amanhã iremos à praia ou não, é porque haverá tempo bom. Na análise direta, basta abrir a janela amanhã e olhar. Mas se quiser brincar com os dados, olhe a seção de meteorologia do dia anterior, onde estará lá publicada uma probabilidade "x" de que vai fazer sol, calculada pelo meteorologista com base em variáveis pré-determinadas. A maior parte das pessoas prefere o método da janela, muito por medo do erro humano no cálculo.

A ciência e o modo como o mundo é organizado são. Simplesmente são. As nossas interpretações, entretanto, ao tentar traduzir esse "estado de ser" do mundo, geram as incertezas que nos circundam e nos desafiam a cada respirada. Lidar com elas faz parte da nossa natureza humana mais primordial. Ainda bem.

Tudo incerto sempre.


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- Até dia 19 de outubro, na Secretaria de Cultura e Turismo de São Sebastião (SP), estará em cartaz a exposição: "Oceano, vida escondida", de 4 fotógrafos do Centro de Biologia Marinha da USP. Muitas fotos em microscopia de plâncton e afins, belíssimas. Se você estiver por perto de São Sebastião, não deixe de passar por lá. Eu queria ir...

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quinta-feira, setembro 27, 2007

1 ano de volta ao Brasil

Malla in Rio

Hoje faz um ano que voltei pro Brasil. Decidi esperar tanto tempo para falar sobre isso no blog porque queria que o período de "choque readaptativo" à vida brasileira passasse e eu conseguisse fazer uma avaliação pessoal mais equilibrada, com menos bias.

Não é nada fácil você voltar à sua cultura-mãe. Diferente da maior parte das pessoas com quem já conversei sobre o assunto, eu adoro me sentir estrangeira numa terra estranha, e veio daí a necessidade que me abateu em 1997 de sair do país: eu precisava ver o mundo fora da realidade brasileira. A previsibilidade da cultura em que nasci, cresci e virei adulta estava me sufocando. Eu tinha então 22 anos e com essa idade, era hora de partir pros meus sonhos mais ambiciosos de juventude.

10 anos já se fazem dessa decisão e desde então, minha vida tem sido um eterno ir e vir de choques culturais em diferentes lugares do planeta. Até que no ano passado, depois de quase 3 anos morando na Coréia do Sul, decidimos voltar por um tempo para nossa terrinha-mãe.

Antes mesmo de sair da Coréia, eu já tive que começar minha readaptação ao brazilian way of life, ao lidar com algumas burocracias brasileiras de embaixada até então raras no cotidiano: os documentos para trazer o Catupiry pro Brasil exigiram de mim mais tempo do que eu imaginava. Ao pisar no Brasil de novo, entretanto, é que o verdadeiro período de readaptação se iniciava.

É muito estranho porque eu já vivi a realidade brasileira antes. Sabia de todos os problemas e benevolências de se viver aqui. Mas é muito fácil se habituar a certas rotinas eficientes estrangeiras, e por esse fator, senti-me um pouco "perturbada" em meu próprio país no início.

O quesito que até hoje me choca e que acho o mais difícil de se readaptar a qualquer um que tenha morado fora é a segurança pública. As casas com grades, cercas elétricas, verdadeiras prisões domiciliares. O perigo de chegar tarde em casa. A intranquilidade de ter que andar na rua vigiando a bolsa e a vida. Incomoda muito.

Ainda não me adaptei também à burocracia e à sua consequência direta, o "jeitinho brasileiro". Pra tudo, em todo lugar, as coisas são muito burocráticas e as pessoas querem um atalho menos complicado. Você tem sempre que ir ao banco pagar uma taxinha, preencher 3 vias de ficha, etc. umas exigências que eu fico ainda me perguntando para quê existem. Quer dizer, eu sei por que existem: num país onde muito se frauda, o justo paga pelo pecador.

Enfrentei burocracias homéricas em duas instâncias:

1) Na chegada da nossa mudança no porto de Santos, onde aprendi que cópia de documento só serve se for autenticada em cartório (para mim a instituição que transforma papel em dinheiro da forma mais inútil possível). A mudança levou 20 dias no trajeto da minha casa em Seul até o porto de Santos, atravessando o Pacífico, e 3 meses de desembaraço pela alfândega brasileira para garantir o trajeto Santos-São Paulo. Ineficiência inacreditável.

2) Para registrar nosso casamento no Brasil. Casei nos EUA, e assim que chegamos ao Brasil, a idéia mais curta e rápida que pensei foi: vamos nos casar aqui. Como sou ingênua. Levou uma simples ida ao cartório para perceber que não podíamos fazer isso porque, de acordo com a lei brasileira, eu seria "bígama". Do mesmo marido. Tivemos então que iniciar o processo de registro de casamento estrangeiro, que requeria que enviássemos nossos documentos ao consulado de Los Angeles, que basicamente traduziria a certidão americana de forma oficial. No meio do caminho, é claro, a melhor nonsense de todas: precisávamos tirar 2as vias das certidões de nascimento de cada um (processo feito no cartório onde você foi registrado, apenas). A minha eu perdi há milênios, mas a do meu marido existia, estava bem-cuidada e preservada. E não foi aceita. Em que outro lugar do mundo um documento original não é válido porque é "velho demais"? Não são muitos, tenho certeza. A hilariedade nos rendeu boas gargalhadas. Enfim, depois de ter o documento emitido pelo consulado em mãos, o processo final de registro foi super-simples, e o cartório nos enviou pelo correio a certidão de casamento pronta. Do dia em que decidimos nos casar no Brasil até a certidão em nossas mãos: 5 meses.

Em ambas as situações, o fantasma da burocracia rondava. Em outro momento clássico, tive que apresentar fotos 3x4 para um documento. Fiz as mesmas em casa, imprimi em papel fotográfico. Chegando no guichê da repartição, o moço olhou e disse: "Não posso aceitar". Eu logo imaginei que seria porque eu mesma as tinha feito, talvez a impressão podia não ser das melhores e desapareceria em pouco tempo. Mas o que o mocinho me disse me fez arregalar os olhos e gargalhar sem cerimônia: "Você está sorrindo. A foto tem que ser séria." Puxa, eu sou uma pessoa tão alegre. Em todos os documentos que tirei no exterior sempre estou sorrindo. A julgar pelo rigor do pedido do moço, entretanto, somos o país da seriedade. Na foto 3x4, pelo menos.

Mas é claro, há o lado bom de estar de volta, e a ele a readaptação é muito fácil. Reaprender o quão barato é comer bem por aqui. Ainda me surpreende que eu vá a feira com 20 reais e volte com muitas bolsas cheias de verduras, legumes e frutas frescas. Chumaços enormes de manjericão a menos de 1 real, enquanto no Havaí comprávamos uma bandeijinha com poucos galhinhos por 5 dólares. (Na Coréia nem existia à venda, só em lojas especiais.)

Rever amigos e parentes é outro fator delicioso. A internet nos aproximou muito apesar da distância, mas ainda acho que um abraço ao vivo é muito diferente. O calor humano. A gargalhada ouvida na plenitude. A convivência e suas espirais. Além do mais, ao voltar pro Brasil, pude também conhecer inúmeras pessoas com quem falava há tempos via blog e orkut. Foi uma maravilha estender o convívio virtual para a vida real. Hoje por exemplo eu não vou a São Paulo sem pelo menos avisar a Pat que estarei por lá, para a gente quem sabe sair e tomar um café. Amiga via blog, que barato.

E, apesar de estar já há um ano no país - período que supus suficiente para uma auto-avaliação readaptada - descobri que ainda me sinto uma estrangeira e que ainda falta muito para uma readaptação completa (se é que algum dia voltarei a ser em plenitude). Talvez pelo tempo que vivi no exterior, talvez porque meu modo de pensar e ver o mundo mudou, e eu não reconheça mais as previsibilidades brasileiras, e elas tenham se tornado intrigantes, como os desafios que passei no exterior. Mas eu gosto de me sentir assim, estrangeira, e enquanto eu o for na terra brasilis, será uma experiência interessante viver por aqui.

Tudo de bom sempre.

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quarta-feira, setembro 26, 2007

Sobre jornais online

O Chico fez a pergunta, muito simples: "Que jornais você lê?" e comenta no post que um conhecido dele respondeu enfaticamente: "O melhor jornal do mundo é o jornal da minha cidade." Embora sucinta, a resposta a meu ver é simplória: lhe falta o desafio de entender o mundo.

Em nossa sociedade super-informada e informatizada, fica realmente difícil se manter a par de todas as novidades, notícias, escândalos e afins que acontecem - a não ser que você queira viver em constante stress, é claro. A palavra-chave do mundo de hoje é escolha. Palavra e poder, porque está nos dedos de cada um escolher que tipo de informação considera prioritária e que tipo de informação pode ser deixada para trás. Entretanto, a informação que hoje você ignora pode ser importante amanhã na roda de amigos, então você deve ler mais - olha o círculo vicioso aí. Nunca sabemos que lado da moeda escolher.

Se pensarmos nessa dicotomia do conhecimento na era virtual, na paranóia que é viver em sintonia com as notícias mas querer descansar delas, perceberemos o quão importante é escolher a fonte adequada para saciar melhor a sua vontade. Por exemplo, generalizando geral, respondi ao Chico assim:

"Eu leio para notícias gerais o NYTimes, o Guardian e a Al Jazeera. Muito raramente a BBC. No Brasil, não tenho preferência, acho todos os jornais online muito fracos. E leio quando dá tempo uns jornais bizarros, como o Chosun coreano, o New Zealand Herald, o AllAfrica News e o Der Spiegel. Diferentes jornais trazem diferentes perspectivas de uma notícia, muito ligadas à realidade local, e isso é muito interessante, em minha opinião."


Resolvi desenvolver esse comentário aqui no blog, detalhando minha opinião mais alongada sobre as frases que o compõem. Antes de mais nada, deixo claro que leio quase 100% dos jornais online e é sobre eles que eu sei falar. Também estou atenta para o fato de que para mim ler em inglês não é um problema, mas sei que o é para boa parte das pessoas - portanto minha pseudo-análise dos jornais já ficará de pé quebrado, muito umbiguística, quiçá fora da realidade. Mas a deixo aqui de qualquer forma como um exercício de "para pensar".

Não leio jornais todos os dias, sou uma leitora "mezzo frequente mezzo ausente". Minha resposta ao Chico revela minha opção geral sobre um meio onde sou apenas consumidora: todos os sites acima possuem RSS feeds, a ferramenta que me satisfaz plenamente na busca por informação seletiva, pois em boa parte desses jornais posso escolher categorias de notícias que mais me apetecem (ciência, turismo, etc.) e me restringir a lê-las. Mantenho-me informada principalmente do que me interessa. Ou seja: um jornal sem RSS feed é para mim um jornal não-lido (ou quase nunca lido, já que meu sogro assina o sem-RSS-Jornal da Tarde versão papel e quando estou em sua casa, leio-o simplesmente porque está ali, na minha frente).

O NYTimes é muito completo, um jornal que fala de tudo um pouco - e bem. É incisivo e claro ao dar a notícia, sem muito lero-lero. O Guardian tem um caderno de ciência e ambiente excelente. A Al Jazeera tem em minha opinião o melhor time de jornalistas do mundo, sem nomes muito conhecidos, simplesmente pessoas que sabem escrever bem, de forma agradável e sucinta. Além de trazerem reportagens interessantes sobre o Brasil, do caos aéreo a análises econômicas, tudo com a perspectiva de quem está de fora, isento do calor da discussão.

Dos jornais brasileiros online de notícias gerais, vou com a maré mesmo, porque nenhum me satisfaz plenamente como consumidora. Há o mesmo problema em quase todos e o mais degradante nem chega a ser a clara parcialidade ao dar a notícia - isso existe no mundo inteiro, basta que você saiba separar o joio do trigo e esse aspecto pode passar batido. Nem mesmo os erros crassos e primários de levantamento de dados, fatos e afins - jogue a primeira pedra quem nunca errou na vida. Em minha opinião é a eterna tradução das notícias internacionais um dos aspectos mais irritantes, porque dá a pior sensação ao meu eu consumidor final que está ali lendo - a de preguiça do jornalista, cuja profissão é... escrever, saber montar um texto. A desculpa para a cópia-tradução literal em Inglês-101 eu nem gosto de pensar: por conta da "agilidade da informação". "Se alguém fez melhor, por que eu não posso copiar, não é mesmo?" Isso só me faz afastar dessa roleta de enganação. Prefiro ler a reportagem original, na fonte, e é o que eu termino fazendo com frequência e por isso a frustração com os jornais brasileiros.

E entra aí o comentário do conhecido do Chico. Acho que a maior parte das pessoas não gostam de sair da zona de conforto delas, sempre optam por aquilo ao qual já estão acostumadas, e por isso o melhor jornal do mundo é aquele que está ali, do ladinho da sua casa, a qualquer hora, pronto para te mastigar a informação do jeito que você já sabe que vai ler. Essa aversão ao desafio do novo reflete em tudo: de viagens aos jornais que você lê, à forma como se informa. Tenha certeza que o jornal coreano vai colocar a perspectiva dos coreanos em relação aos assuntos em destaque (está certíssimo ao fazer assim, por sinal), e com isso assustará os não-coreanos com costumes e perspectivas exógenas em muitas sentenças. A maior parte das pessoas foge é desse choque cultural, do nó na cabeça que dá ao nos informarmos por um jornal que não traduz os nossos costumes cotidianos, o nosso umbigo. Há mais uma vez uma ironia: queremos a informação geral, mas ela não pode sair da nossa perspectiva cultural.

E há uma apatia da perspectiva mundial nos jornais brasileiros - e nos coreanos, sul-africanos, australianos, etc. Ou seja, essa parece ser uma escolha geral das redações e vem daí a dificuldade em se ter bons jornais "de tudo", como o NYTimes ou a Al Jazeera. Um reflexo do comodismo generalizado ao qual as pessoas se acostumaram. Mas eu gosto de me "incomodar" culturalmente, e a solução que achei reflete isso: ler jornais de lugares bem diferentes. Não porque me interesse saber que as tropas de Tonga serão despachadas pro Iraque; meu interesse é tentar olhar o mundo com a perspectiva das pessoas em seus próprios locais e de suas culturas e problemas, refletidos nas palavras dos repórteres - e é por isso que eu abomino as traduções de agências de notícias tão comuns no Brasil, porque elas nos fazem perder a essência da nossa perspectiva, que deveria estar salpicada nas entrelinhas das reportagens. Ou talvez essa seja a essência: somos bons em cópias. Prefiro não acreditar que sejamos apenas isso.

Mas aí eu chego numa constatação intrigante: o que é local para mim, não o é para o vizinho. Então, o Chosun é um jornal local para os coreanos, e portanto, cai na mesma simploridade do comentário acima: é o melhor jornal do mundo porque é o mais fácil para o Mr. Kim ler. Mas não o é para mim, Lucia Malla, que estou do outro lado do mundo, vivendo uma realidade completamente diferente - portanto, ele me é desafiador, e me instiga a querer entendê-lo.

Cada um sabe o que mais lhe apetece, e não sou eu que vou dar pitacos nas leituras de cada um. O desafio me instiga - é por isso eu amo a minha escolha por ser cientista. O que esse post reflete é simplesmente a forma como a minha escolha é feita: baseada na minha sede de revirar conceitos e culturas na minha cabeça, de enfrentar o desconhecido com sorriso no rosto, de perceber a riqueza de soluções aos mesmos problemas que cada povo tem, de entender o mundo pela perspectiva dos olhos do outro, sem o julgamento maniqueísta de preto nem branco, feio ou bonito, bom ou ruim. Apenas... diferente. Como uma grande viagem para conhecer o verdadeiro significado do que é ser humano - em todas as nuances e borrões.

Tudo de bom sempre.

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*Viagens NYTimeanas:

- Li um post no Kottke onde ele faz um apanhado das relíquias que o NYTimes liberou ao mundo vinda direto dos seus arquivos. Vai da reportagem original sobre o naufrágio do Titanic até a primeira menção sobre a World Wide Web ou sobre a TV em suas páginas. Um prato cheio para quem gosta de história.

- É claro, eu não ia deixar de fuçar nos arquivos também e deixo aqui pitadas do que achei interessante: um relato do comércio EUA-Brasil de 1851, as impressões de uma viagem expedicionária pelo Amazonas feita por um militar americano em 1854, uma reportagem sobre a interessantíssima idéia de se implantar um único documento de identidade para todas as Américas e dar adeus a passaportes (um delírio inviável na atual conjuntura pós-11/setembro, infelizmente) e, bóbvio, inúmeras reportagens sobre a primeira expedição everestiana (fracassada) relatada pelo Times, em 1933.

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domingo, setembro 23, 2007

Crescer ou preservar: o dilema chinês

Aeroporto de Beijing
Welcome to China: a foto do avião da Dragon Air foi tirada na nossa chegada ao aeroporto de Beijing, numa tarde de 2005. O céu não foi photoshopado: o amarelo predominante é sinal da poluição local alarmante, mesmo.

Hoje saiu uma coluna de opinião no NYTimes comentando sobre o problema da poluição na China - há poucas semanas um caderno especial de reportagens sobre o mesmo assunto invadiu as páginas do mesmo jornal, alertando para a bomba ecológica prestes a explodir naquele país da Ásia. Em ambas, o tom é o mesmo: se quiser continuar crescendo sua economia, a China vai ter que olhar com muito mais cuidado para seu ambiente - e a poluição que vem gerando.

Crescer com poluição não é um advento novo da humanidade. Se olharmos para os países já estabelecidos como desenvolvidos hoje (o eixo Europa-América do Norte, por exemplo), veremos que boa parte do seu crescimento veio às custas de degradação ambiental em algum nível. O caso chinês da atualidade faz ressurgir a discussão em dois parâmetros: quantitativo e qualitativo. E há algumas diferenças a serem contabilizadas.

Nunca se produziu tanta poluição no mundo - eis o parâmetro quantitativo. Com um tamanho de população nunca alcançado antes na história do planeta, é bem fácil entender que mais bens de consumo precisam ser produzidos para atender a essa demanda crescente. Como a eficiência ecológica e energética da produção ainda deixa muito a desejar, aumentaram a quantidade de resíduos gerados para suprir as necessidades da população. Mais pessoas geram mais poluição, simples assim.

A poluição também mudou, e de forma qualitativa. Embora muitas empresas e governos agora se preocupem com a "onda verde" e ofereçam produtos ecologicamente corretos para vender a seus clientes, infelizmente essa ainda não é uma tendência geral. A maior parte das indústrias, na ânsia de oferecer produtos mais baratos e ganhar o mercado consumidor em ascensão, cortou etapas, substituiu materiais e afins na linha de produção, e com isso, gerou mais lixo - não só lixo industrial, mas empurrou para o consumidor final também boa parcela desse problema. Ou as tantas embalagens tipo PET espalhadas pelos depósitos de lixo do mundo (para não falar pelos mares...) mostram o contrário?

E é aí que a China entra, como peça fundamental dessa dinâmica. Primeiro, porque é o país mais populoso do mundo - um dado que, por si só, já significa maior quantidade de degradação ambiental gerada. Segundo, porque é o país que mais vem crescendo economicamente, a astrondosas porcentagens anuais - um processo que, salvo raríssimas exceções, ainda tem resquício do formato de crescimento das grandes nações, com maior geração de poluentes.

Dado isso, não é espantoso que a poluição na China venha crescendo no mesmo ritmo que seu boom econômico. Embora se acreditasse que a China só alcançaria o status de maior poluidor do mundo em 2009, esse título chegou antecipadamente. Números assustadores de um índice vergonhoso, um desses rankings que país nenhum em sã consciência diplomática quer ter.

Mas o problema maior não é como a China chegou até o nível atual de poluição, mas sim, como sairá dessa sinuca-de-bico de crescimento desordenado sem preocupações ambientais - num momento crucial em que outros países já começam a pressionar por mudanças na estrutura de produção chinesa, por medo da concorrência ou por consciência do desastre ecológico iminente em proporções mundiais. Vejamos abaixo links retirados de jornais pelo mundo que ilustram alguns fatos caóticos da China hoje:

- O mar de Bohai, o mais próximo veio de água salgada de Beijing, já está praticamente todo morto.

- O Qinghai, maior lago de água salgada da China (e um dos maiores do mundo), pode secar em 10 anos.

- A ONU já considera como zonas mortas os deltas dos rios Yang Tsé e Pérola, que recebem os dejetos de Shanghai e de Hong Kong.

- A chuva ácida de 2006 em Pequim foi a pior de todos os tempos, e já afeta um terço do território do país (lembrando que a China tem uma extensão territorial maior que a brasileira, isso significa que a chuva ácida já afeta uma área de uns 3 milhões de km2).

- 30% das espécies de peixe do rio Amarelo já se extinguiram devido à ação humana. O rio está cada vez com menor fluxo de água e mais poluição industrial e urbana.

- 25% do litoral chinês já está fortemente poluído - e isso levando-se em consideração o que o governo considera como "água limpa". 55% das áreas costeiras são sujas (moderadamente). Não precisa ser expert em matemática para sacar que apenas 20% da costa é considerada limpa, pelos padrões de Beijing. Adicione a esse dado o fato de que a China está perdendo seu litoral por causa das ações humanas de erosão, e meça o nível de lambança ambiental vigente nas costas de Mao.

- Sem esquecer, é claro, da maldita sopa de barbatana, que está dizimando tubarões pelo mundo inteiro, para saciar os novos-ricos chineses e sua sede por status culinário - que inclui também inúmeros outros peixes raros na sua nova-dieta. Claro, os peixes são pescados em tudo quanto é canto possível e imaginável do mundo, já que o mar da China está praticamente morto. Incluindo pesca dentro de um parque marinho designado pela UNESCO (respeito às leis internacionais parece não ser algo de valia entre os pescadores chineses, muito menos a preocupacão por causar problemas ambientais aos vizinhos de mundo). E sem contar os demais animais, comercializados sem pudor pelo país. Eu mesma vi nas vitrines da Des Veux Road em Hong Kong a catástrofe ecológica que as lojas de "produtos medicinais chineses" geram.

(Parênteses: Minha pergunta pessoal é: que água os chineses vão beber daqui a alguns anos? As fontes estão secando e/ou sendo destruídas. Como manterão a população sem água potável? Qual será o preço desse novo commodity para a economia? Fim do parênteses.)

Barbatanas a vendaBeijing carros
Barbatanas de tubarão e outros animais (ou pedaços deles) à mostra numa loja em Hong Kong: come-se de tudo na China a um custo ambiental para o mundo muito elevado. Ao lado, um pequeno engarrafamento nas ruas de Beijing. Com o aumento do poder aquisitivo chinês e a venda de carros aumentando sem parar, a cena está cada vez mais comum.

Não é de admirar, com esses dados assustadores, que a biodiversidade chinesa seja uma das que mais rapidamente decresce no mundo hoje. E que as medidas ambientais que vêm sendo tomadas, as metas a serem alcançadas no país de emissão de CO2 e outros poluentes estejam fracassando em sua imensa maioria (que novidade...). Em tempos de aquecimento global, isso é um problemão pro governo comunista. O país, com sua política fechada e economia aberta, possui além de tudo uma cultura milenar que se assemelha um pouco ao malfadado jeitinho brasileiro: o chinês da elite também quer vencer a qualquer custo (entenda propina, nepotismo e outras operações ilícitas), já que a derrota é vergonha irreparável nas sociedades asiáticas em geral.

E de nada adianta fazer uma "lista negra" de poluidores e não fiscalizá-los ou aplicar as multas convenientes. É preciso desacelerar o ritmo de crescimento se eles querem as devidas medidas ambientais respeitadas - uma questão delicadíssima ao coração dos chineses animados pelo consumismo desenfreado que agora lhes é apresentado. Uma possível solução para a situação atual vai requerer que a população se conscientize dessa dinâmica fragilizada e se envolva, exija melhorias no ar que respiram e na água que bebem; que os industriais entendam que a desaceleração é necessária; e principalmente, vai requerer que o governo se torne mais transparente, menos onipotente - e não tente acobertar números tristes do resultado da poluição para o país e para o mundo. É sobre essa complexa estrutura tripla que a coluna do NYTimes de hoje opina, e é minha sugestão de leitura especial para a semana que se inicia.

Tudo de ambiente sempre.

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Para viajar mais sobre a crise ambiental na China:

- A solução mais cara-de-pau que os chineses arrumaram para toda essa lambança ambiental: exportar suas indústrias mais poluidoras. A China vem investindo fortemente na África... em troca de quê mesmo? Você também pode ler mais sobre essa tragédia-to-be nessa reportagem do NYTimes. Off-topic relevante: o NYTImes essa semana se tornou o primeiro grande jornal do mundo a disponibilizar todo seu arquivo de notícias (desde 1851!) na internet.

- Uma reportagem do início de agosto do The Wall Street Journal mostra num quadro bem didático algumas promessas feitas ao Comitê Olímpico Internacional. Até agora, pouco se fez para alcançar as metas ambientais sugeridas no calor da candidatura. Aguardemos as Olimpíadas de Beijing 2008...

- Recentemente, o Greenpeace se infiltrou no cenário musical chinês para conseguir espalhar a mensagem verde pelo país. A tentativa é boa, válida, e adiciona ao leque de outras ações que muitos grupos ambientalistas já vêm trabalhando por lá. Afinal, é a geração que vem aí que sofrerá as consequências mais drásticas de tanta destruição, e alertá-las para o problema é fundamental, a meu ver.

- Uma boa análise em português sobre o recall dos produtos chineses contaminados com metais pesados e afins. Produzir sem cuidado e poluindo adoidado não deixam de ser facetas similares da mesma característica chinesa cultural: padrões menos rígidos. Uma certeza, entretanto: a estabilidade do mercado China-EUA (e consequentemente das relações comerciais pelo mundo) dependerá de melhorias e maior rigor nesses mesmos padrões de produção.

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sexta-feira, setembro 21, 2007

Dia da árvore

Parabéns a elas, que refrescam e colorem esse planeta!!!

Arvore1Arvore2
Arvore3Arvore4
(Fotos: 1 e 3) Seul, Coréia do Sul; 2)Ilha de Itaparica, BA; 4) Ginnie Springs, Flórida, EUA.)

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terça-feira, setembro 18, 2007

De volta e com más notícias do mar brasileiro

ASPSP

André chegou hoje do arquipélago de São Pedro e São Paulo, um dos locais mais remotos da costa brasileira. Além de fotos, trouxe a triste constatação de que tubarões não são mais vistos no local. Também são escassos os peixes grandes, que vêm sendo sistematica e predatoriamente pescados pelos próprios brasileiros, com o aval da Marinha sem a devida fiscalização do IBAMA. (É claro que a questão é muito mais complexa que apenas isso, mas a discussão fica para as cenas do próximo capítulo.)

Alguém já ouviu falar em manejo ambiental por aquelas bandas? E políticas de proteção? Desenvolvimento sustentável, alguém?

Tudo de ??? sempre.

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sexta-feira, setembro 14, 2007

Pequenas anotações de viagens virtuais 22

1) She's back. E pronta para atuar em terras australianas.

2) Via Japundit, descubro mais um nível de bizarrice humana: um senhor escalou o Monte Fuji no Japão com uma tábua de passar roupa e um ferro, e efetivamente passou algumas roupas no topo da montanha. Tem louco pra tudo, definitivamente.

3) Os 101 sabores de sorvetes mais horríveis do planeta. E dois infames: de baleia e de sopa de barbatana de tubarão. Irgh! (Via Gadling)

4) Achei interessante esta análise da preparação turística da África do Sul para a Copa do Mundo de 2010.

5) Eu não lia muito o blog do Marcos VP. Embora achasse legal, preferia passar por lá once in a blue moon, e devorava os posts todos de uma vez. Mas de uns tempos para cá o blog dele tem se destacado com textos ótimos e eu passo a recomendar visitas muito mais frequentes que as de outrora. (Esse texto sobre a divisão da blogosfera, por exemplo, é muito interessante, embora eu discorde de alguns pontos.)

6) Excelente reflexão sobre ser turista e ser viajante - by super-Ricardo Freire, é claro. A conclusão é linda: somos todos turistas e viajantes e desbravadores e como quiserem chamar de nossos sonhos andarilhos.

7) Levante a mão quem não conhece alguma família como essa. Infelizmente, é mais comum do que a gente pensa.

8) Vi no The Global Photographer uma valiosa lista de dicas para tirar melhores fotos num safari na África. Voltada especialmente para fotógrafos profissionais não-especialistas em vida selvagem, mas com algumas dicas também ótimas para pessoas como eu, que apenas querem um bom registro. Entretanto, se preferir dicas para tirar boas fotos de viagem em geral, definitivamente as do Márcio são as mais indicadas.

9) Um concerto de rock que eu gostaria de presenciar: 40 músicos tocando no acampamento-base do Everest. It´s definitely rocky! If it will roll... just on October we will know. (Detector de trocadilho fraco em alerta máximo nesse momento.)

10) Delírios que dão certo: uma estante às quintas. Tem cada uma mais inteligente e divertida que a outra. (Dica: se ao abrir o link, não aparecerem as estantes, clique no "read more" de cada um dos posts. Eu recomendo.)

11) Das maravilhas da web: eu segui a palhaçada da votação no Senado nessa semana via Noblat, que tinha um senador infiltrado passando os movimentos principais lá de dentro pro seu blog. Apesar do resultado final, alguém pelo menos se libertou das amarras da censura imposta pelo Senado em uma sessão fechada.

12) ... porque o fim de um blog divertido é uma versão pessoal do 11 de setembro: colapsado. :(

13) Assisti a "O Ultimato Bourne". Altamente recomendável: melhor que os dois primeiros. Assisti a "Ocean's 13". Altamente recomendável: melhor que os dois primeiros. Alguém pode me explicar o que anda acontecendo com o cinema moderno em que as continuações vêm superando os originais?

14) Eu sempre penso da seguinte forma: quando queremos algo de verdade, não há empecilho que resista. Pois o Jorge "Giramundo" Bernardes mostra isso muito bem, na série que está postando sobre viagens com bebês - já tem o prefácio e o roteiro inicial. (E, roubando a gíria que eu amei da Emília, não é "programa de índio 5 tacapes plus". É viagem para ninguém botar defeito mesmo.) Uma sequências de post imperdíveis, que merecem ser lidas e repassadas, principalmente aos céticos de vida pós-bebê. Exemplo de ótima pergunta dele (para desmistificar os conceitos chavões): "Quer estímulo maior do que mostrar o Mundo para um bebê?" Eu também não vejo outro estímulo mais interessante e importante, Jorge. Saúde mental da criança, ora pois.

15) Tudo de bom sempre.

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quarta-feira, setembro 12, 2007

Viajando por e-mail: Leila

Quando publiquei a entrevista-piloto via MSN com o Marmota na semana passada, fiz quase em seguida outras 2, testando formatos; uma delas é a de hoje. Portanto não pude incorporar imediatamente as sugestões ótimas que o pessoal deixou na caixa de comentários, mas adicionarei algumas assim que eu começar a nova fase de entrevistas viajantes - e podem me cobrar se eu não o fizer.

A Leila foi uma das primeiras blogueiras que eu li fora dos temas que abordo no meu blog, consta no meu blogroll desde então e depois de tanta leitura recíproca, nos tornamos amigas virtuais. Ela tem uma afiada verve jornalística (e carioca), que é espalhada na rede em inúmeros posts sobre lambanças da família Arbusto na Casa Branca ou sobre a última loucura de alguma celebridade (ou pseudo). O blog é escrito direto de Sacramento, CA, onde a Leila mora atualmente. A curiosidade de saber na perspectiva pragmática dela sobre as viagens que fez por aí me animou a convidá-la por email - e essa será então a "entrevista-piloto via email". Ficou assim:

Leila-e-Chris
(Foto gentilmente cedida pela Leila. O fofo na foto é o filhote dela, o Chris, que faz aniversário hoje - vamos todos lá no Stuck in Sac desejar feliz aniversário pra ele, oba!)


- Você se considera mais ecoturista ou é mais adepta dos passeios urbanos?


Leila: Eu gosto dos dois tipos de passeio. Sou mais safa nas cidades, e me atrapalho um pouco em escaladas e trilhas e odeio insetos, mas isso não quer dizer que eu não ame ir para uma ilha ou uma cabana nas montanhas...

- Qual foi sua viagem inesquecível? Por quê?

Leila: Foram muitas, mas eu diria que as top 4 foram:

1- Fernando de Noronha, em 1992, onde cheguei sozinha e acabei ficando com um grupo de 27 pessoas da minha idade; vi uma tartaruguinha nascer e correr pro mar pela primeira vez, vi de perto golfinho, tubarão, atobá... Sem falar naquele mar belíssimo, e rochedos dramáticos que você não encontra em outro lugar do Brasil.

2- Europa, em 1996, só eu e minha mochila. Fiquei lá um mês passeando pela Itália, França, Alemanha e Suíça. Mas na última metade da viagem, eu estava acompanhada pelo rapaz que viria a se tornar meu marido menos de um ano depois.

3- Nova York, em 1995, com uma de minhas melhores amigas. Nossa cumplicidade e identificação foi fundamental para uma das viagens mais divertidas da nossa vida. Exploramos boa parte de Manhattan a pé, inclusive guetos; saíamos para dançar com freqüência quase sem gastar nada, compartilhamos a sensação de andar nas nuvens quando pensamos ter achado nossos grandes amores, e choramos uma no ombro da outra quando os namoricos não deram certo. E depois encontramos outros amores rapidinho, na mesma semana.

4- Ilha Grande-RJ, 1989-90, partindo de Portogalo num veleiro com casais amigos. Fizemos isso várias vezes, sendo que em uma delas passamos a noite no barco. Uma aventura sensacional, mas segura, unida à beleza e paz do lugar e à paixão de um namorado maravilhoso.

- E qual foi a pior viagem que fez? Por quê?

Leila:
Em meados de 1985, com minha turma de amigos adolescentes. Ficamos enfurnados numa casa precária em Cabo Frio durante um feriadão inteiro, porque chovia a cântaros sem parar. Para completar, eu estava com início de gastrite, e a comida disponível era um horror.

- Qual a comida mais exótica/ estranha que já comeu numa viagem?

Leila: As coisas mais exóticas que comi foram no Rio de Janeiro mesmo, numa churrascaria: carne de jacaré e de rã. Nada mau.

- Você tem alguma mania ao viajar? Tipo colecionar fotos de orelhões, beijar o chão ao chegar, etc.?

Leila: Gosto de fotografar a arquitetura local, e pago mico me posicionando das formas mais inusitadas para obter o ângulo desejado.

- Qual o souvenir mais exótico que já trouxe de algum lugar?

Leila: Berimbau da Bahia serve? :)

- Uma dica sua especial...


Leila: Pesquisar muito antes de partir, para já ter alguma idéia do que você quer fazer, e o que deve evitar. Odeio armadilhas para turistas, e também odeio perder tempo com lugares que não faço questão de conhecer. Procure entrar em entendimento prévio com seu parceiro de viagem sobre o roteiro, para não rolar muita discussão durante o passeio. Se houver alguma diferença entre prioridades, pegue um dia para vocês passearem em separado, e faça essas coisas que o companheiro não quer.

- A próxima viagem é para...

Leila: Rio de Janeiro, para visitar a família. Com todos os problemas da cidade, ainda acho que é um lugar que todo mundo tem que ir pelo menos uma vez na vida. O carioca sabe viver e se divertir, a comida é maravilhosa, e não tem nada mais gostoso que passar um dia inteiro entre Ipanema e Leblon.

- Então fica aqui meu desejo de boa viagem pra você, Leila! :)

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Minha auto-crítica sobre a entrevista: no formato troca de emails, a conversa fica menos fluida (e mais livre dos meus palpites divagantes), mas evita-se muito o "perder o foco". Também a facilidade para o entrevistado é deveras maior, já que ele responde quando puder/tiver tempo. E acho que pensar no conforto para o entrevistado também faz parte da entrevista, né? O que vocês acham?

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segunda-feira, setembro 10, 2007

Por que eu blogo?

O Norberto respondeu em um meme as razões que o levaram a blogar, e depois passou a bola pra eu responder à mesma questão. Eu já expliquei antes por que gosto de blogs, mas agora encaro a tarefa de lembrar porque comecei a blogar - e porque continuo.

Comecei a blogar quando ainda morava na Coréia do Sul, e encontrei, através do orkut, uma comunidade de brasileiros na Ásia. Nela, uma mocinha simpática deixava links de suas aventuras em Hong Kong, escritas num blog - era a Liliana. Da fonte inspiradora dela surgiu a minha vontade de compartilhar também as minhas experiências na Coréia, e deixar de lado os incansáveis emails quilométricos que enviava a parentes e amigos. Centralizar os textos em um endereço, onde eu escrevia uma vez só, me animou muito.

E assim começou o meu blog, em outubro de 2004. Aos poucos, algumas pessoas que eu não conhecia começaram a lê-lo, e uma nanométrica comunidade se iniciou ao redor dos meus posts - e dos posts daqueles que eu visitava. Era a época da inocência bloguística, quando todos conversavam com todos sem muita disparidade ou preconceito. Desse período, tenho saudades do Gui (do finado Ay, Caramba!) e do Guto e da Mônica (dos finados NCC e Monicômio). Aos poucos, a interação foi aumentando, eu passei a ler outros blogs não relacionados a viagens, e a ferramenta foi cada vez mais tomando força no mundo todo. Muitas das pessoas que conheci nessa época da inocência tornaram-se amigos, o que por si só já me prova que a experiência de blogar valeu a pena.

E por que continuo blogando? Ora, porque continuo viajando, na vida real e na maionese. Hoje as interações são mais recatadas, a inocência bloguística foi perdida (parafraseando uma frase do Bia via MSN), a mídia e a massa aprenderam (ou estão aprendendo) a lidar com o fenômeno, etc. Mas a idéia primitiva de manter um espaço onde eu me expresse da forma que quiser, onde posso dividir opiniões, conhecimentos, reflexões e experiências, me garante a certeza de que blogarei por um bom tempo ainda. Afinal, viagens não param de encaraminholar minha cabeça e a estrada virtual é longa e cheia de meandros interessantes - a good ride in a good vibe.

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Aproveitando o ensejo do meme, vou também aderir a outro meme por livre e espontânea vontade: o de "monetizar" meu blog à la Biajoni. Afinal, eu ADORO Monet. A pintura abaixo é a "Gare de St. Lazare", uma representação da estação de trem famosa em Paris, onde hoje funciona o Musée d'Orsay - o teto de vidro que aparece na pintura foi mantido na arquitetura atual do museu, depois do fim da estação. Tive o imenso prazer de ver essa pintura ao vivo e a cores numa exposição itinerante quando estava em Colônia, na Alemanha, e é minha favorita do mestre impressionista, pois retrata um universo que me é muito querido: o das estações de trem, ponto inicial da realização dos sonhos viajantes (principalmente na Europa). Aos fanáticos por Claude Monet como eu, se tiverem a oportunidade de ir à Paris um dia, não deixem de visitar também o Marmottan, museu pequeno que concentra as pinturas de Monet, inclusive àquela considerada a mais impressionista de todo o movimento, a "Impression Soleil Levant".

monet.st-lazare
(Imagem tirada desse site.)

Tudo de Monet sempre, a todos que impressionam e se deixam impressionar por maravilhas da arte.

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sexta-feira, setembro 07, 2007

O segredo do Bletchley Park

Bletchley-Park

Shhhh... muito silêncio por aqui. A viagem de hoje é por um lugar secreto. Quer dizer, assim ele era até pouco tempo atrás - hoje é um museu delicioso, resquício da inteligência aliada da Segunda Guerra Mundial.

O museu chama-se Bletchley Park (ou "Estação X"), e fica no centro da Inglaterra, próximo a Milton Keynes. Sua localização foi estrategicamente escolhida, pois qualquer ataque aéreo inimigo significa passar por cima de um bando de cidades e vilarejos antes de chegar lá. E qual a razão de tanto mistério? Simples: no Bletchley Park eram decodificadas as mensagens dos nazistas e afins para retransmissão aos aliados. Sem as atividades do Bletchley, por exemplo, o dia D não poderia ter acontecido. E a Guerra talvez tivesse sido vencida por Hitler.

Chegamos ao Blecthley num dia de sol de outubro de 2006. De fora, o lugar parecia uma casa de campo como outras tantas no Reino Unido. Os habitantes da cidade achavam que ali funcionava uma manufatura qualquer, e mesmo com tantos pubs (e gente bêbada disposta a falar tudo depois de várias Guiness), não se soube da existência de tal estação secreta até a década de 70, quando finalmente as atividades do Bletchley foram reveladas ao mundo, assim como sua localização. De acordo com os dados do museu, cerca de 9,000 pessoas trabalhavam ali, a maioria mulheres, e nenhuma delas contava nada das atividades de inteligência realizadas. Gênios matemáticos como Alan Turing, pai da computação moderna, passeavam pelos jardins do Bletchley acima de qualquer suspeita - ninguém os reconhecia, é claro. Na terra de Sherlock Holmes, esse segredo guardado a 7 chaves parece até saído de livro de ficção. Às vezes, a realidade surpreende.

Ao entrar no museu, além da indefectível lojinha, começa-se um tour em meio a antigos computadores, decifradores de mensagens e a história de cada um dos cérebros por trás de toda aquela inovação tecnológica de guerra. Enigma, a máquina codificadora mais famosa do local, está à mostra, com toda sua imponência e desengonçatez. Era usada pelos nazistas para codificar suas mensagens, e o código foi quebrado por outra máquina decifradora desenvolvida em Bletchley, a Bombe, que permitiu aos Aliados desvendar os movimentos de Hitler e garantir a vitória na guerra. E, prova de que não há piedade histórica nem mesmo com essas máquinas poderosas, outro dia uma delas estava à venda no EBay. Tempos modernos.

Depois do passeio pelos grandes computadores e decifradores, no segundo pavimento do museu há uma seção dedicada à vida das pessoas durante o período da guerra. Artefatos pitorescos educam e divertem, como uma máquina de lavar roupa da década de 10 - basicamente um tanque com uma tampa dotada de uma manivela, onde a pessoa ficava girando um eixo, como uma pipoqueira gigante, e "lavando" a roupa. Infelizmente, fotos são proibidas dentro do museu, e não pude registrar essa pérola da rotina doméstica.

O passeio valeu a pena, e apesar da relativa distância de Londres, merece ser visitado, principalmente por aqueles interessados na história de computadores e afins. E mais não falo, porque o segredo de Bletchley merece ser deixado à revelia dos que vão lá, ao vivo e a cores, para descobri-lo.

Tudo de segredo sempre.

*Publicado também no Goitacá.

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terça-feira, setembro 04, 2007

Viajando pelo MSN: Marmota

Estou inaugurando uma brincadeira/semi-idéia que tive há pouco tempo, neste caso totalmente colada do Gadling: a de fazer entrevistas com alguns amigos sobre (adivinhem?) viagens. Bater um papo com conhecidos, que revelem um pouco mais sobre cada um. O Gadling faz com os blogueiros que lá participam; eu faria com quem eu quisesse. A regra é simples: feita via MSN (ou email, para quem eu não tenho adicionado ao meu MSN), tem um corpo básico de perguntas, mas que não preponderam sobre a premissa de deixar o papo fluir - e se cair pra uma viagem na maionese total, que assim o seja. Meu amigo Marmota topou ser cobaia da primeira entrevista, e o resultado saiu mais ou menos assim:

Marmota

- Você se considera mais ecoturista ou é mais adepto aos passeios urbanos?

Marmota: Bom, eu estou acostumado a passeios urbanos, claro... Se for contar todas as viagens que fiz, a maioria sem dúvida alguma contaram com um mínimo de conforto, sabe? Mas já acampei algumas vezes, longe de infra-estrutura, e até me adaptei numa boa.

- Qual foi sua viagem inesquecível? Por quê?

Marmota: Resposta curta: a última, sempre! Resposta longa: Europa, outubro de 2004, ao lado de dois amigos, Lello e Luciana. Foi inesquecível porque surgiu despretensiosamente, em um bate-papo beirando à fossa, em fevereiro daquele ano. Tava todo mundo tão pra baixo que, naturalmente, surgiu uma idéia:

"- Que tal uma viagem?
- Ah, pode ser. Que tal Buenos Aires?
- E que tal Europa? - disse um deles

Eu juro que duvidava daquilo, acreditava realmente que a viagem não ia sair de jeito algum. Tinha tanta certeza que fiz uma aposta: "se esse passeio rolar, eu pago um jantar pra vocês dois, em Paris".

- E pagou?

Marmota: O jantar foi pago na noite do dia 22 de outubro, no Bistrot Romain, perto dos Boulevares, em Paris. Custou uns cento e poucos euros. Mas tava bom,viu?

- Imagino!

Marmota: Naquele mês, separamos 20 dias pra visitar sete cidades: Porto, Lisboa, Madri, Barcelona, Paris, Veneza e Roma.

- E qual foi a pior viagem que fez? Por quê?

Marmota: Puxa, uma roubada... Roubadas eu costumo esquecer. Acho que as piores roubadas que já me meti viajando foram decisões entre amigos envolvendo litoral sul paulista e algum feriado prolongado. Daqueles que a maior lembrança é a fila do pedágio. É quando a gente se pergunta "por que diabos estamos aqui".

- Credo.

Marmota: ... pior que já fiz isso algumas vezes... :P

- Qual a comida mais exótica/ estranha que já comeu numa viagem?


Marmota: Ah, não costumo ter essas frescuras, não. Pelo contrário, acho que isso faz parte do passeio! Quando estive na Alemanha, em 2005, eu simplesmente ignorava o fato de não entender alguns itens do cardápio e pedia, sem constrangimento. Depois comia, numa boa! Se bem que, na Alemanha, é fácil. Normalmente é salsicha e batata. Ah, lembrei de um caso. E nem foi longe: Buenos Aires.

- O que aconteceu lá?

Marmota: Fui com dois amigos, o Narazaki e o Sakate, a uma churrascaria rodízio. Chamava-se Rodizio. Original, né? O esquema era o de sempre: vinha uma empanada, depois abria o buffet de saladas, e antes da sobremesa vinha aquele desfile de carnes argentinas. Eu, que adoro um churrasco, peguei de tudo. A questão é que um deles não era muito afeito a carnes muito gordas... De repente, veio costela de cordeiro. Tinha até carne e osso naquele pedaço de gordura.

- Urgh! Meu fígado dói só de pensar...

Marmota: Naquela noite descobri ainda que eles têm um corte "nobre", que parece vindo da garganta do animal. Carne de goela!

- Você tem alguma mania ao viajar? Tipo colecionar fotos de orelhões, beijar o chão ao chegar, etc.?

Marmota: Comprar cartões postais! É o meu souvenir, sempre. Eu não dou bola quando perco um passeio considerado imperdível, ou alguma oferta... mas já fiquei triste por ter esquecido postais numa mesa de restaurante.... :P

- Qual o souvenir mais exótico que já trouxe de algum lugar?

Hmmmmm... Puxa, difícil essa. Lembrei de um souvenir perdulário, daqueles que eu jamais compraria de novo: uma mágica imbecil envolvendo moedinhas, logo depois de um japonês em Paris ter me convencido de que era engraçadinha. No fim, a mágica dele foi ter tirado alguns euros do meu bolso... :P

Mas normalmente, só trago souvenir clichê...

- Uma dica sua especial:

Marmota: Uma dica? Pra passear? Florianópolis!
Vá de carro, ou arrume um lá, e tire uma semana para constatar a diferença entre alguns pontos da ilha, especialmente as praias sossegadas do sul com o agito efervescente do norte.

- E a próxima viagem é para...

Marmota: Europa, "parte dois"! Na verdade, seria "parte três". Mas como a viagem que fiz pra Alemanha em 2005 teve origem profissional, não conto como "férias"...

- Ah, conta sim, vai!

Marmota: Serão outras sete cidades. Algumas, revival total. Amsterdã, Copenhague, Estocolmo, Praga, Atenas, Paris e Colônia

- Você vai amar!!

Marmota: Tomara!!! Ah, mas eu estou bem entusiasmado, já!

- Então boa viagem!


Marmota: Obrigado!!!

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Que tal? Será que dá pra continuar com outras entrevistas? O que vocês acham que precisa melhorar?

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UPDATE: Coincidentemente, hoje é aniversário de 5 anos do blog do Marmota, e ele está lá em Amsterdam, comemorando a data! Parabéns a ele!!!!

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sábado, setembro 01, 2007

O fim da (minha) ingenuidade ambiental

Quando há alguns meses saiu o relatório definitivo do IPCC sobre a situação climática e ambiental do planeta na atualidade, eu imaginava que as palavras contidas naquele documento tivessem impacto indelével sobre as pessoas, governos e corporações. Afinal, pensei eu, sugeriu-se com aqueles resultados que o aquecimento poderia destruir boa parte da economia do mundo, fazendo sofrer principalmente os países mais pobres, sem estrutura para administrar as consequências climáticas sinistras pressupostas no documento. O Príncipe de Mônaco (!) parece que ouviu bastante, e um ou outro governante com certeza prestaram atenção, principalmente ao terem acesso a visualizações das consequências imediatas. Tudo levava a crer que aquele seria um momento divisor de águas.

Quanta ingenuidade minha. Falou-se por alguns dias sobre o tema na mídia (ah, o hype da notícia fresquinha!...), houve algumas reportagens incômodas nos jornais, revistas e TV, com cenas dignas de filme de catástrofe - que provavelmente apenas levaram os telespectadores a mudarem de canal para um programa de auditório mais "leve" (não os culpo, a vida de gado não tem sido fácil nesses dias marcados). Mas depois dos primeiros dias, o assunto meio que "morreu", e voltamos a prestar mais atenção ao escândalo político do dia (pelo menos, eu estava bem-acompanhada nessa constatação). E as pessoas decidiram retornar àquele estado de eterna negação e apatia tão típico de quem tem um enorme problema em mãos e não sabe como resolver. Freud deve explicar.

Ou deve dar risadas de mim, que me preocupo diariamente com as consequências do aquecimento global. Que não consigo mais aturar o gasto tresloucado de sacola plástica, como se estivesse escrito na Declaração Universal dos Direitos Humanos que ao nascermos temos direito irredutível, irreprovável e infinito ao uso delas. Que adquiri uma asma irritante de tanto respirar o ar super-poluído das grandes cidades, principalmente na Ásia, onde a queima do carvão ainda é a maior fonte de energia - e haja enxofre para limpar essa sujeirada toda no ar e aumentar o tempo de vida do planeta... Que fico deveras estupefata ao descobrir práticas de finning de tubarão na peixaria perto da casa dos meus pais - eu que supunha iludida que aquele recanto da minha infância estava imune à invasão chinesa faminta de barbatanas.

E, para fim total da minha ingenuidade ambiental, já há os "cansados" (para usar o termo da moda) em serem abordados por causas ecológicas. E eu, que acreditava na "benevolência humana em prol do futuro apesar dos pesares", me sinto totalmente impotente. Porque esse cansaço é em minha opinião um sinal de desistência. O problema não é pequeno por natureza e a constatação de que já existem os que desistiram dele sem sequer analisarem ou tentarem fazer algo - quer desestímulo maior que esse? Pessoas (e alguns governos!) que se consideram ecoperseguidos, e querem garantir o sagrado direito (deles) de dirigirem sozinhos de SUV com o ar condicionado ligado no máximo, de saírem de férias sem apurrinhações "verdes" ou de poluírem à vontade pela saúde da sua economia (esquecendo da saúde da sua população, é claro). Ou de simplesmente não serem mais incomodados por nenhum "ecochato", que relembrará exaustivamente o problema do aquecimento na Patagônia ou das populações insulares do Pacífico, primeiros refugiados ambientais da era aquecida - migrarão para onde? Eu adoraria que os que se sentem ecoperseguidos realmente pudessem viver na deles, sem que fosse preciso gastar dinheiro com campanhas ambientais nem enchê-los a paciência para salvar a Amazônia, a África ou sei lá onde, ou sequer ter contato com eles. É muito irritante o policiamento ideológico ou de qualquer tipo, eu mesma não gosto.

Infelizmente, entretanto, por mais que queiramos ser individualistas e vivermos de acordo com nossos padrões e cultura (vide os japoneses e as baleias, os chineses e os tubarões, etc.), lembro que a dura realidade é bem mais complexa por uma razão simplérrima: vivemos todos no mesmo planeta. Toda a espécie humana, sem distinção de raça, credo, estado civil ou condição financeira, divide o mesmo endereço da via láctea, e os mesmos recursos naturais. E um fato aumenta ainda mais a complexidade desse problema: a atmosfera não entende barreiras ideológicas, políticas e nem mesmo as geográficas. A atmosfera que nos circunda é uma só, e se mistura e circula sem fronteiras, sem preconceito algum, independente do que esteja nela - razão pela qual afeta a todos sem distinção. A poluição da China chega em Los Angeles, as queimadas da Rússia afetam o ar da Escócia e não há vontade política nem dinheiro no mundo (ainda) que impeçam isso de acontecer - é um fato físico. (Esse vídeo mostra melhor isso: em dado momento de 2000 o monóxido de carbono da queima da Amazônia foi parar na Antártica. Requer Windows Media Player para assistir.) Então, hoje, o degelo no Ártico pode não alterar em nada a minha vida aqui no Brasil (pode até trazer mais lucros para alguns com o turismo ou fazer ressurgir esquecidas jazidas de petróleo), mas amanhã, quando faltar o peixe na mesa para comer, o produto vai ficar mais caro e gastaremos mais com importação - se peixes houver para importar, é claro. Pior de tudo, pode ser economicamente desvantajoso ficar nessa inanição (link em pdf), porque o custo de não ter solução para esse problema pode aumentar sem precedentes. Estamos todos navegando no mesmo barco, e ele tem um buraco na proa: uns enxergam um catastrófico naufrágio e os tubarões ao redor, outros querem tapá-lo com um durex ou, pior, abstrair que o buraco não existe, é uma invenção, blábláblá. Há de se ter o bom-senso de achar a forma correta de agir, equilibrada, para que todos consigam se salvar desse afundamento. Mas é preciso agir, olhando para todos os dados, fatos e circunstâncias ao redor. Talvez haja um pedaço de madeira encostado na popa que possa fechar o buraco da proa, e essa oportunidade não pdoe ser desperdiçada.

Ninguém nunca disse que tomar conta (e cuidar) de um planeta era fácil - pelo menos, não para mim. Não nos ensinaram quando crianças - onde fui educada, pouca coisa nesse sentido era dita, uma falha educacional lastimável. Reciclagem na escola parecia um tema alienígena. (Hoje, sei que pelo menos isso mudou, e a educação ambiental está muito mais permeada pelos colégios do mundo. Felizmente.)

Mas precisamos sair dessa hipnose coletiva marasmática que acredita piamente que um cientista genial virá daqui a um, dois ou 10 anos com uma solução de pirlimpimpim pro problema humano do aquecimento global - sim, porque já não podemos culpar o sol por isso. O milagre da idéia revolucionária que fará o planeta voltar a ter o ambiente de séculos atrás, quando havia ainda esperanças de recuperação que não afetassem a rotina humana. Desculpe-me os iludidos de todas as classes, mas o pó de pirlimpimpim cada vez mais escasseia: precisaremos sair da nossa zona de conforto se quisermos melhorar um pouco as condições para nós. E pessoalmente acho também que por respeito aos que vêm por aí. Cada um terá que fazer a sua parte, sim: hoje, amanhã e depois e muito tempo depois.

E é apenas isso que se pede: a sua parte. Não é tão difícil: o RadioHead conseguiu, a Adobe conseguiu, a Honda (uma empresa de carros!) conseguiu. Acho que até os mais cansados conseguem, não? Basta ter ânimo para querer mudar, sem se deixar distrair com o "ruído de fundo" das ecocelebridades - entenda o papel delas. Ou basta ter vontade de sonhar que o bebê de hoje seja um adulto de um mundo mais "vivível" amanhã. Não é essa a melhor herança que um pai pode dar a seu filho: um planeta melhor?

Acho que a minha ingenuidade perdida se transformou em esperança ativa... e não é a vida resultado de contínua adaptação?

Tudo de bom sempre.

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