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quarta-feira, janeiro 02, 2008

ONU e os tubarões

Sharks - Chuuk

Finalmente, a ONU se pronunciou sobre a questão dos tubarões que vêm sendo dizimados mundo a fora. Junto com alguns governos de países-chave, decidiram atacar o problema - ou pelo menos, alertar o mundo de que ele existe - na última Convenção de Espécies Migratórias, organizada pela UNEP (o braço ambiental da ONU) em Seychelles.

E o que foi decidido? A ONU requisita agora que seja feita o mais rápido possível uma identificação das rotas migratórias e dos habitats específicos que as espécies mais ameaçadas utilizam, além da criação de um banco de dados mundial sobre tubarões, a cargo de ONGs, governos, empresas pesqueiras e cientistas em conjunto. Há também um esforço para que a pesca mundial seja melhor regulamentada, principalmente em relação à prática de finning (retirada da barbatana), principal razão pela qual os tubarões são caçados. Pede também comprometimento das nações pesqueiras com a conservação da espécie, e os países que assinaram o acordo parecem ter chegado a um denominador comum de que é fundamental que se preserve o animal para sobrevivência futura da própria economia pesqueira. É claro, tudo isso é muito bonito no papel, e importante também. Precisamos entretanto ver como vão ficar todas essas medidas na prática.

O artigo do Telegraph que comenta sobre a decisão da ONU mostra uma percepção interessantíssima, que deixo aqui na íntegra para leitura:

"You can talk about the need to save pandas, polar bears, elephants, turtles, even great crested newts, without losing your audience. Try to tell people that the threat to the world's sharks is one of the most important wildlife issues confronting us today and the odds are they will, at the very least, look at you as though you need your head examined."

As pessoas parecem não levar a sério a ameaça aos tubarões. Talvez ainda seja a idéia de assassino sem piedade que o filme "Tubarão" deixou no imaginário popular - embora mesmo o autor de "Tubarão" Peter Benchley tenha insistido nos anos subsequentes que seu livro era apenas ficção. Talvez seja uma instintiva reação de vingança pelos ataques a surfistas, principalmente em Recife (PE) - e se essa é a razão, falta perspectiva e educação sobre o real problema. O fato é que no geral ninguém se atenta pro fato de que nós, humanos, matamos cerca de 100 milhões de tubarões por ano para sustentar crendices insustentáveis. Parece difícil para a maior parte das pessoas entender que a real ameaça somos nós aos tubarões, e não o contrário. Poucos parecem se preocupar que um dos maiores predadores da cadeia alimentar está prestes a desaparecer - e se ele desaparece, meus caros, a cadeia alimentar marinha pode entrar num colapso sem precedentes.

Outro fato retirado desta notícia revela a dura realidade numérica das populações de tubarões da atualidade:

"Recent studies in the Northwest Atlantic have shown steep declines in shark populations, particularly among highly migratory species. Since 1986, hammerheads have declined by 89 percent, thresher sharks by 80 percent, white sharks by 79 percent and tiger sharks by 65 percent. All recorded shark species in the region, with one exception, have declined by more than 50 percent in the past 8 to 15 years. It is highly likely that similar results will be seen across the world’s oceans."

Tubarão-marteloTubarão-tigre
Tubarão-martelo e tubarão-tigre: entre os mais ameaçados pelo comércio de barbatanas. Mais fotos de tubarões aqui.

89% dos tubarões-martelo (Sphyrna lewini) já desapareceram do Atlântico Norte desde 1986. 80% dos tubarões-raposa (Alopias vulpinus). 79% dos tubarões brancos (Carcharodon carcharias). 65% dos tubarões-tigre (Galeocerdo cuvier). São números absurdamente altos, que mostram que o animal está caminhando a passos largos para a extinção na região - e não há dados claros sobre o status das populações dessas espécies no resto do mundo. Felizmente, a ONU acordou para o fato a um passo do abismo. Torçamos para que não tenha sido tarde demais. Antes tarde do que nunca.

Tudo de tubarão sempre.

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