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quinta-feira, janeiro 24, 2008

Pausa para mudança virtual

Esse blog, como tudo na vida, chegou ao fim.

Mas calma! Não é o fim das aventuras da Lucia Malla pelo 5 cantos do planeta. É o fim da residência aqui, no blogspot. Agora, vocês me encontrarão no:

http://luciamalla.com


O link para o novo feed é:

http://feeds.feedburner.com/UmaMallaPeloMundo


Não farei mais updates nesse endereço do blogspot. Por favor, atualizem seus links e feeds, para continuarem ouvindo as mallices de sempre. A gente se encontra por lá. :)

Tudo foi sempre bom por aqui.

(E que assim continue na nova casa!)

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P.S.: A mini-série "Rodando na Ciência" continua por lá, depois das boas-vindas aos novos viajantes. :)

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quarta-feira, janeiro 23, 2008

Rodando na ciência: Boston

Harvard Medical School
O "Quad" da Harvard Medical School.

No início, era o deslumbramento. Ou deveria ser, já que eu estava na Harvard, o sonho dourado de qualquer pesquisador do planeta. Acontece que eu cheguei lá com tanta vontade de aprender e fazer ciência que não tive muito tempo para me deslumbrar com a universidade em si. Encarei de corpo e alma o laboratório. Foi depois de algum tempo que comecei a realmente perceber a beleza e a delícia de andar sobre a grama do Quad da Medical School.

Boston é uma cidade vibrante, com uma vida cultural intensa. Espetáculos de dança contemporânea incríveis. Duas grandes escolas de música, a Berklee e o New England Conservatory, de onde saem os grandes nomes da música mundial, ambos a poucos quarteirões de onde eu trabalhava e com vários eventos musicais gratuitos nas noites da semana. Se tem uma palavra que resumiu meu período extra-lab em Boston, essa palavra é música. Vi inúmeros shows maravilhosos, com artistas geniais (Dave Brubeck foi o mais marcante deles, sem dúvida), conheci músicos nota 10, frequentei gigs em bares de jazz inesquecíveis, o melhor deles era sem dúvida o Wally's Café, na Mass Ave. Onde tinha jazz, eu estava pescoçando junto. Boston respira música e aquele ar me fazia bem.

Mas nem tudo eram claves de sol. Poucos meses depois de eu ter chegado, houve o 11 de setembro, que abalou tudo e todos. Além disso, eu sofro levemente de depressão sazonal. Não suportava o frio, que em Boston é multiplicado pelo vento - lembro de um Natal que fez -30 graus e eu chorei de frio no meio da rua. No inverno, tudo que eu queria era ficar em ambientes indoor, me dedicar mais ao laboratório, para pensar o mínimo no mundo ao redor que congelava.

O inverno aos poucos me destruía, mas o trabalho no lab me renovava a cada momento. Meu projeto era de biologia molecular hardcore, como sempre sonhei: entender mais detalhes do mecanismo de tradução de selenoproteínas, as proteínas que contém selênio em sua estrutura. Minha rotina era semanal: na segunda-feira, preparava as células de mesotelioma (um tipo de câncer de pulmão que produz grandes quantidades de uma selenoproteína); na terça, transfectava o gene de interesse (mudava a cada semana, de acordo com os resultados que eu ia obtendo); quarta era o dia mais light, em que eu apenas checava o andamento das células (e em tese podia ir a biblioteca ler algo, ou resolver coisas na rua); quinta preparava as células para microscopia confocal, um processo que levava o dia inteiro de "tira e põe solução" em lâminas de vidro que escorregavam facilmente da mão; e sexta fazia finalmente a microscopia. Era sagrado passar as manhãs de sexta na sala do microscópio confocal com minha amiga Michelle, a técnica responsável pela máquina, vendo células coloridas e conversando harvardices. Na sexta à tarde, se o resultado fosse bom, mostrava à chefe, que era uma pessoa maravilhosa. Se fosse ruim, quebrava a cabeça tentando entender para melhorar na semana seguinte. E assim foi minha rotina semanal em Boston.

Microscopia confocal
Algumas fotos de microscopia confocal que eu fazia nas manhãs de sexta. A figura completa foi retirada do artigo que publiquei há 2 anos, e são células embrionárias de rim (A, G e H), de mesotelioma (um tipo de câncer de pulmão; B, E e I) e de hepatoma (câncer de fígado; C e F). Em azul em A, G, H e I, o núcleo celular. Em vermelho ou verde, as proteínas que estudávamos.

Mas mais que a rotina laboratorial, trabalhar na Harvard me trouxe uma visão muito mais apurada da ciência em si. As discussões sobre o processo de formação de um cientista eram muito pragmáticas e riquíssimas, a concorrência entre labs era insana, e a sensação de "tenho que estudar mais" era uma constante adorável. Apesar do clima estressante, a Harvard era paradoxalmente muito boa de se trabalhar. No geral, não me sentia "estressada" em minha bancada, envolta em pipetas e placas de Petri.

Hoje, posso dizer que tenho saudades de Boston e dos tempos de Harvard. Não gostaria de voltar a morar lá, o frio excessivo ainda me espanta. Mas há uma saudade boa, de um momento que valeu muito a pena ser vivido. Fiz amigos de verdade, aprendi técnicas modernas, entendi a velocidade que a ciência tem no exterior (e por que a burrocracia brasileira é o maior empecilho ao pesquisador nacional) e principalmente como fazer/pensar ciência. Percebi que não precisa ser nenhum gênio para chegar na Harvard Square. É preciso determinação e aplicação, do fundo do coração, sem deslumbramento e com o pé no chão. Como em qualquer lugar e qualquer profissão do mundo, aliás.

Tudo de bom sempre.

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P.S.:
Eu estou tendo problemas com os comentários do Haloscan, que estão desaparecendo e reaparecendo ao sabor do vento. Estou tentando resolver o problema, para que voltemos a conversar em paz na caixa de comentários. :)

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terça-feira, janeiro 22, 2008

Rodando na Ciência: Potsdam-Sampa

Sampa

Minha história com São Paulo vem de muito longe. Mais precisamente, do outro lado do Atlântico.

Tudo começou em Potsdam, na Alemanha, para onde fui depois de me formar em Biologia. Fui fazer um estágio organizado pelo IAESTE, seria "summer student" de um laboratório de Fisiologia do Estoque Energético. Mas mais importante que qualquer outra coisa, seria também a primeira vez fora do país.

No laboratório, fui levada a trabalhar com um rapaz francês chamado Stéphane, que morava em Prenzlauerberg, Berlim. Rapaz sério, conhecia muito de metabolismo de gordura, além de Bauhaus e do Berliner-way-of-life dos primórdios da Love Parade. Stéphane se tornou um grande amigo. A gente se fala até hoje e ele veio ao Brasil 2 vezes - amou a Praia do Forte.

Em Potsdam, o laboratório trabalhava com fisiologia do tecido adiposo de hamsters na tentativa de entender a sinalização hormonal envolvida no desenvolvimento da obesidade. Minha chefe era renomada dentro do campo, e o mais interessante na rotina germânica eram as refeições, todas feitas em conjunto pelo departamento inteiro. Às 9 da manhã, café da manhã e às 12:30h, almoço (ou melhor, lanchinho do meio do dia, já que a maioria só tomava um copo de iogurte mas ficava sentado lá por meia hora conversando). Às 5 da tarde, a maioria já tinha ido embora para seus afazeres domésticos. Uma típica organização alemã, levada ao extremo. Nas palestras semanais, os cartazes anunciavam o horário e uma sigla estranha depois, que descobri significar 10 minutos de atraso. Ou seja, até para atrasar, os alemães eram organizados.

Fato é que saí da Alemanha muito interessada naquele novo campo que se abria para mim, o da Fisiologia Endócrina Humana. E escolhi-o como carreira. Entre os artigos que lera em Potsdam, havia o de um pesquisador brasileiro da USP. Escrevi para ele um longo email, perguntando sobre a possibilidade de trabalhar em seu laboratório. Fui aceita.

Precisava entrar no programa de pós-graduação da USP, e o fiz. Mas o pesquisador que me interessava estava saindo para um sabático em Boston, e fui então realocada para outro professor, supostamente da mesma área. Naquele momento, isso não me pareceu problema algum, mas burocraticamente, foi gerada uma tensão desnecessária que me calcificou muito na pós.

Foi nessa época que começou minha rotina laboratorial e estudantil. Entre uma aula e outra da pós, ralava no lab. Meu experimento consistia em colocar ratos na geladeira - e antes que qualquer um reclame, os ratos não sofrem à temperatura baixa, exatamente porque possuem um tecido adiposo diferenciado do humano, tecido este que eu pretendia entender melhor em termos de sinalização hormonal (principalmente, o envolvimento do hormônio tiroideano). Ratos no frio se comportam como se nada estivesse acontecendo, basta não se molharem - aí eles entram em hipotermia e podem morrer. Nas primeiras horas, ele até tremem um pouco, para produzir calor via ativação muscular, mas depois de um tempo, eles ficam a 4 graus numa boa, se adaptam mesmo. Entender as bases fisiológicas por trás desse mecanismo de adaptação ao frio dos roedores tornou-se então meu mote de tese. Era fascinante.

Em geral, chegava no lab e, após o café com o Zé e a Célia, começava o trabalho. Retirava as amostras de músculo e tecido adiposo do freezer -80, e começava a extrair o RNA dos ratos que ficaram na geladeira. Esse RNA era então utilizado para ser transcrito de forma reversa, ou seja, gerar uma molécula híbrida de DNA-RNA, que serviria de base para o famoso PCR, técnica que é largamente utilizada hoje nos laboratórios do mundo e rendeu o prêmio Nobel a um surfista que nas horas vagas fazia bioquímica. No PCR, ocorre uma multiplicação exponencial da molécula de DNA-RNA inicial, que realçará, depois de um número X de ciclos, as diferenças em expressão daquele RNA inicial.

Com os resultados de cada PCR feito, ia montando o quebra-cabeça do funcionamento fisiológico daqueles ratos. Mas vários problemas foram aparecendo pelo caminho - acho que raras são as pós-graduações sérias sem problemas, não? Frustrações principalmente com o meu orientador do papel, que era novato no departamento (eu era sua primeira aluna de pós). Frustrações também com a politicagem e burocracia envolvidas num curso de pós, com as fofocas de corredor, com os "Q.I.s" exigidos para que as coisas andassem. No meio da pós, eu era um estilhaço humano. Apesar da cidade de São Paulo, que eu descobrira, aprendera a gostar e cada dia se mostrava mais atraente e adorável para se viver, cheia da energia que eu precisava para sobreviver.

Fui então convidada a visitar um laboratório em Boston, onde alguns experimentos com camundongos em geladeira foram realizados na mesma linha de pesquisa - e onde meu escolhido orientador estava em sabático. Vieram de lá meus resultados mais interessantes, onde ficava claro o quão indispensável era o hormônio tiroideano no processo de adaptação ao frio dos roedores. De posse desses resultados, pude finalmente defender a minha tese.

A lição que ficou: ciência é uma caixinha de surpresas. Às vezes boas, às vezes nem tão boas. Mas o mais importante: você é quem decide quando abre sua próxima caixa de Pandora.

Tudo de bom sempre.

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segunda-feira, janeiro 21, 2008

Rodando na ciência: Viçosa

Viçosa Lab
Prédio do lab em Viçosa.

Lembro até hoje do dia em que fui levada a conversar com aquele que seria meu primeiro orientador na vida, apelidado de "Nivaldo". Ele, um professor pacientérrimo; eu, uma animada iniciante na arte laboratorial. Sua missão era das mais complicadas: ensinar o básico para mim. De etiqueta laboratorial a protocolos, eu era uma página em branco.

Não foi fácil, e como todo bom estudante calouro que se preza, comecei de baixo: ajudando a lavar vidraria (primeira grande lição, para valorizar cada tubo de ensaio que você suja). Mas logo veio a verdadeira missão impossível: fui convocada a produzir uma enzima que na época todo o lab usava em quantidades abusivas - eu nem sabia pipetar ainda. Ninguém queria produzir a tal enzima, porque demandava muito tempo para fazê-lo. O processo produtivo era de 4 dias bem puxados de trabalho, e encarei o desafio como toda iniciante a cientista o faz: super-feliz. Estabeleceu-se então minha rotina por quase 1 ano - excelente rotina, por sinal, pois aprendi uma miríade de técnicas que muitos dos meus colegas da época mal sabiam o que eram.

Eram 6 laboratórios naquele andar, todos trabalhando com melhoramento genético de soja, em diferentes questões. No nosso lab, o grande projeto era melhorar o gosto ruim da soja. Em geral, produtos de soja (leite, carne, etc.) não eram bem aceitos no mercado por causa do seu gosto "diferente", muitas vezes de difícil digestão. Esse "gosto ruim" é fruto da existência de 3 enzimas chamadas lipoxigenases 1, 2 e 3 que existem no grão de soja. As lipoxigenases catalisam uma reação metabólica do grão que leva a produção de uma molécula que gera esse gosto ruim. Sem as lipoxigenases, a soja ficava mais agradável ao consumo humano. Tinha o pessoal que ficava na casa de vegetação, fazendo cruzamento de soja. Tinha os que analisavam o teor de lipoxigenase. Tinha mais uma galera que tentava entender por técnicas de biologia molecular como era o padrão genético dessas sojas diferentes. Eram muitas pessoas envolvidas no projeto. A maior parte da pesquisa era financiada pela Nestlé.

Mas eu era estudante, tinha muitas aulas ainda, e embora estivesse adorando o "mundo da soja", não tinha todo tempo do mundo para me dedicar ao laboratório. Segunda grande lição: laboratório é um trabalho de equipe. Se eu não podia estar lá o dia todo, alguém faria pedaços por mim sob minha responsabilidade - o importante era o resultado final. Das primeiras vezes, meu próprio orientador ficava praticamente o tempo todo ao meu lado, me ensinando como fazer, os truques e principalmente explicando para quê servia cada reagente, cada etapa do processo. Esses períodos de dedicação direta dele foram fundamentais para formar a minha visão futura da ciência. E acabei interagindo com todos do lab.

A produção da enzima começava com o crescimento das bactérias da cepa recombinante em meio líquido, a 37 graus - eram as Escherichia coli, tão comuns em nosso trato digestivo. A bactéria isolada saía do freezer -80 direto para o meu vidrinho de 5ml. Ficavam lá se batendo no shaker por uma noite. No dia seguinte, o conteúdo do vidrinho era despejado num frasco com 1 litro de meio limpo. 3 horas depois, eu adicionava àquele caldo um indutor de expressão, que era uma substância que fazia a bactéria começar a produzir loucamente a enzima que eu queria. E ela ficava mais uma noite crescendo, dessa vez em quantidades abissais.

O terceiro dia era o mais puxado - e o mais legal. De posse de um frasco que era basicamente um caldo de bactéria com enzima, começava o verdadeiro processo de purificação. Dá choque térmico na bactéria, centrifuga, passa no filtro, passa em coluna de afinidade... uma trabalheira que demandava que eu ficasse o dia inteiro no lab, por conta disso, tomando conta de cada gotinha que descia da coluna. Coletava as gotas e separava em tubos, para análise da qualidade no dia seguinte. Muita paciência envolvida em ver gotas caindo lentamente, como estalactites se formando.

A pureza era a principal meta. Queríamos que no final, apenas a enzima ficasse no tubo. E ela precisava estar funcionando também, porque se tivesse se denaturado durante o processo, de nada adiantaria o esforço, ninguém no lab poderia usá-la em seus experimentos. Para verificar a pureza, era preciso uma análise eletroforética - que se faz correndo o famoso "gel", um bloco de substância gelatinosa (geralmente poliacrilamida ou agarose) com buracos no topo (os "pocinhos") para você colocar sua amostra. Se no final no gel aparecesse apenas uma linha bem no meio, era sinal de que a enzima estava pura. Se houvesse qualquer sinal de borrão, a enzima estava degradada e sua função comprometida.

(Parênteses: essa é a base grosseira do processo de produção industrial da insulina que todos os diabéticos usam, por exemplo. E de mais um catatau de outras proteínas usadas em tratamentos médicos. O processo já rendeu alguns prêmios Nobel de Química. Fim do parênteses.)

Fiquei quase 1 ano nessa rotina. No final, já havia otimizado inúmeros passos. Quando meu orientador percebeu que eu já havia aprendido o suficiente, me passou para outro projeto. Desse, tudo que me lembro é que precisava ficar acordada por 24h seguidas, recolhendo amostras de folhas de soja, em intervalos de 3h na "câmara de nevoeiro", uma câmara úmida onde ao entrar tudo que eu via era uma fumaceira danada num ar irrespirável de tanta umidade. Eu trabalhava um dia literalmente inteiro e passava 2 recuperando do cansaço gerado pelo sono saltitante, atrapalhando meu rendimento escolar. Não deu muito certo, e logo o projeto teve que ser repensado, até o fim da minha graduação.

Paralelo a todo esse trabalho, fiz vários amigos, de quem tenho saudades, principalmente das nossas conversas. Tinha a sensação de que eles me consideravam meio como a "mascote" do lab, e a maioria tinha muita paciência com meus erros e acertos de principiante. O laboratório ficava num prédio só de pesquisa, e no andar que eu trabalhava, circulavam umas 50 pessoas entre professores, técnicos e estudantes todos os dias. Os cafezinhos eram intermináveis, regados à tofu (proveniente dos testes com a soja e que eu particularmente não gosto). As festas de fim de ano memoráveis, e em uma delas, uma professora caiu em cima de uma árvore de Natal de mais de 2m cheia de penduricalhos. Natal em caquinhos foi o lema da virada.

O tempo passou, e eu me formei. Saí dali para uma área de atuação completamente diferente, mas os conhecimentos adquiridos no mundo da soja me enriqueceram e trouxeram um diferencial perante os demais - depois de um tempo, percebi que o que eu fazia na época era bastante diferenciado para uma simples estudante de graduação. Estão até hoje guardados com muito carinho em minha mente e de vez em quando bate aquela saudade gostosa, de um período de inocência e pureza científica - literalmente.

Tudo de bom sempre.

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domingo, janeiro 20, 2008

Rodando na ciência

Lá pelos idos de 2005, quando eu ainda estava na Coréia do Sul, o Flávio Prada uma vez me perguntou pelo MSN por pura curiosidade como era a minha rotina de trabalho no laboratório. Ele dizia que queria ter idéia de quais eram as atividades diárias envolvidas num trabalho na ciência. Na época, contei pro Flávio um pouquinho do meu cotidiano laboratorial, mas fiquei com essa formiguinha no pé da orelha me sussurrando: "escreva um post no blog sobre isso."

Infelizmente, deixei essa idéia de lado à medida que o tempo foi passando.

Eis então que nesse mês de janeiro, o Roda de Ciência decidiu exatamente discutir sobre a rotina dos cientistas - principalmente de nós, colaboradores do blog. Há uma miríade de áreas abrangidas pelos colaboradores da Roda (de física a jornalismo científico), e o resultado final pode ser bem interessante, se todos colaborarem. No entanto, ao pensar sobre o tema, esbarrei numa questão simples: qual rotina descrever?

Porque afinal eu já rodei em várias áreas e laboratórios diferentes pelo mundo, e não houve uma rotina única seguida o tempo todo. É claro, há o geralzão, mas as nuances são pungentes, e talvez elas é que sejam interessantes de serem relatadas quando se trabalha com tantas pessoas e aspectos diferentes.

Então eu resolvi escrever uma pequena série de posts sobre como foi e tem sido minha rotina na ciência nos diversos ramos e lugares por onde passei, o que fiz nos labs da vida. Quero principalmente deixar registradas as memórias que me marcaram em cada uma dessas experiências. Não vai dar pra contar tuuudo, tintim por tintim, mas vou me esforçar para pelo menos incluir eventos que de alguma forma me marcaram. No mais, será apenas um diarinho de cada experiência, sem tentar entrar em muitos detalhes bioquímicos. Espero que seja interessante.

Amanhã inicia-se então um passeio pelo meu cotidiano científico. Peguem suas pipetas e apertem os jalecos: o giro da Malla pela ciência vai começar.

Tudo de bom sempre.

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Os capítulos da mini-série de posts você encontra nos links abaixo:

- Rodando na Ciência: Viçosa
- Rodando na Ciência: Potsdam - Sampa
- Rodando na Ciência: Boston

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sábado, janeiro 19, 2008

Pequenas anotações de viagens virtuais 26 - A slight shade of green

1) ...e 2007 foi o segundo ano mais quente do século. Precisa dizer mais? Em nota paralela, foi publicado um artigo essencial para a discussão sobre aquecimento global na mesma revista. Expõe a real profissão/envolvimento de cada um dos que negam a sua ocorrência. Scary.

2) Finalmente o Rafael Lima postou as fotos dele do Western Australia, com direito a resumão dos lugares mais interessantes. Fez bem bonito. Mas eu discordo dele com relação aos estromatólitos - afinal, meu desejo de vê-los de perto é maior que a aparência que eles evocam. E o que é essa Turquoise Beach, gente?!?!?!

3) Um maluco procria arraias brasileiras na sala de estar da casa dele. A pergunta que fica é: o IBAMA soube disso em algum momento do espaço-tempo?

4) O tempo está se esgotando para salvar o salmão rosa na Columbia Britânica... triste isso.

5) O Levi postou um vídeo que mostra como é fácil roubar uma bike, na hora do rush em Nova Iorque. Impressionante. Aliás, falando em bicicletas, nós do Faça a sua parte, à convite da Paula, fizemos um post coletivo sobre ciclovias pelo mundo. Modéstia à parte, eu achei que ficou bem informativo.

6) Pode ser apenas um "armazém" de notícias antigas. Pode ser apenas fogo de palha. Mas o blog que a companheira de Diabetes Brasil Mayse abriu é uma bela idéia seja qual for o seu destino final. Visite o Museu da Diabetes.

7) Via Nemo Nox, cheguei ao site de Thomas Peschak, com simplesmente as mais espetaculares fotos de tubarões, várias delas vencedoras de prêmios. De dar vontade de cair na água imediatamente.

8) Peixes de caverna - que são em sua maioria cegos - podem gerar filhotes com visão normal quando cruzados com peixes de outras cavernas. Um artigo interessantíssimo do ponto de vista evolutivo.

9) Na atual confusão que rola na Antarctica entre Japão e ONGs verdes sobre a questão das baleias, há uma brasileira em posição de cientista-chefe. Fazendo a sua parte, da maneira mais ativa possível. Parabéns, Leandra!

10) Mais uma bola dentro do Radiohead: além de lançar uma organização para inventariar detalhadamente todos os passos de gasto de carbono e energia (e como minimizá-los) em suas turnês pelo mundo, o grupo publicou online em seu relatório todos os números para tal conclusão. É a banda mais verde e antenada do momento, sem dúvida. (Via Ecorazzi)

11)
"The inspiration here is not about throwing yourself into a foreign world, or against a death-defying natural force, but in realizing that to go is no longer enough. Anybody can go. Anybody can travel. Anybody can come back with fascinating personal experiences and a new understanding of the world around them. But there are few people (...) who take that extra step that brings travel beyond a selfish personal interest. Until we start seriously exploring space, the age of exploration and adventure is over. It’s humanity that needs exploring, not quirky customs of foreign cultures; the search now is for solidarity."

O melhor post escrito sobre a morte de Sir Edmund Hillary. Imprescindível de ser lido mesmo se você não é um aventureiro de carteirinha.

12) A importância política para os candidatos a presidente dos EUA (e, em minha opinião, de qualquer lugar do planeta) de se ter conhecimento científico sólido - e no excelente artigo do Reason Magazine, em que pé eles estão sobre evolução. Para mim, a melhor frase é a do Senador Mike Gravel, do Alaska, que respondeu quando perguntado sobre o que achava de se ensinar criacionismo nas escolas públicas:

"(...) We thought we had made a big advance with the Scopes monkey trial....My god, evolution is a fact, and if these people are disturbed by being the descendants of monkeys and fishes, they've got a mental problem. We can't afford the psychiatric bill for them. That ends the story as far as I'm concerned."


13) Em nota frívola sobre à confusão das vacinas que predomina na mídia do Brasil atualmente, fui ao posto de saúde hoje tomar o reforço da anti-tetânica, no deltóide. A parede do local dizia que as vacinas contra febre amarela haviam acabado naquele posto - vacina aliás que eu tomei muito antes dessa confusão toda quando viajei para a Amazônia. Mais dor que meu deltóide agora é ver o circo que a imprensa criou em torno do assunto - e que o Marmota discutiu bem. E só pedindo aoHermenauta para explicar mesmo. Ou o Tiagón. :P

14) Tudo de bom sempre.

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quarta-feira, janeiro 16, 2008

Os naufrágios do Truk Lagoon

Mapa do FSM
Mapa dos Estados Federados da Micronésia, composto pelos estados de Kosrae, Pohnpei, Chuuk e Yap. Chuuk é o mais populoso deles e está indicado no mapa pela seta vermelha. O país está localizado no Pacífico Norte, um pouco acima da Papua Nova Guiné. Mapa retirado daqui.

Há algum tempo, André teve a oportunidade de visitar um desses locais perdidos no meio do Pacífico: Chuuk - ou Truk, vocês escolhem como falar. Aliás, a confusão começa exatamente aí. Chuuk é o nome atual e significa "montanha" em língua chuukesa. Truk é o nome antigo, uma pronunciação mal-feita de Ruk, mas que continua sendo usado como se nada tivesse mudado. De qualquer forma, Chuuk é uma das ilhas que formam os Estados Federados da Micronésia, país que se fez independente em 1986, através de um Pacto de Livre Associação com os Estados Unidos. Ou seja, na prática, Chuuk ainda depende - e muito - dos americanos.

ChuukChuuk aerial
Vista aérea da ilha principal de Chuuk (repare na largura) e um pedaço de mangue perdido em meio ao azul do mar... A paisagem de Chuuk é também recheada dessas visões de ilhotas.

Mas a população de Chuuk é um pouco diferente das dos demais países-ilhéus do Pacífico com os quais os americanos lidam. Os chuukeses são considerados os menos simpáticos dos povos do Pacífico (aos americanos, entenda-se), e, apesar de viverem do turismo, esforçam-se pouco para agradar os que lá chegam. E é claro, num movimento tão característico da diplomacia americana, ao assinar o Pacto, Chuuk foi invadida pelos produtos americanos e sofreu a já tradicional mudança de seu estilo de vida de pesca-e-côco para cheetos-e-coca-cola. Má alimentação e pouco exercício tornaram-se regra e (que novidade...) Chuuk é mais uma ilha do Pacífico afligida pela epidemia de diabetes tipo 2.

Chuukeses e seus barcosBarcos de Chuuk
Cada família chuukesa possui um barco a motor, para transporte de um lado a outro da ilha - e entre ilhas. A cena comum no Truk Lagoon é o trânsito intenso de barcos, cruzando de lá pra cá. Essa é a política de transporte público vigente nesse pedaço de paraíso.

Chuuk recebeu uma verba para melhorar suas estradas e desenvolver a cultura do carro - o governo resolveu então fazer um plebiscito para ver se a população queria a melhoria da estrada que corta as ilhas. Para surpresa de todos, venceu o "não", e o governo pegou a verba e comprou um barco a motor para cada família do país. Hoje, a situação mais comum (e surreal, diga-se de passagem) é ver barquinhos cruzando o Truk Lagoon, para cima e para baixo, com famílias indo às compras na capital. Um gasto de combustível inacreditável.

Durante o período da 2a Guerra Mundial, os japoneses eram os donos desse pedaço de mar, e o Truk Lagoon (o lago central do atol principal) tornou-se o principal porto de abastecimento dos navios de guerra japoneses, que eram dali enviados ao resto do Pacífico para guerrear contra as forças aliadas. Mas, é claro, onde você junta muitos navios, logo se torna um excelente alvo, e em 1944, os Estados Unidos bombardeou os navios japoneses em Chuuk - a operação Hailstone. Somando tudo, foram 44 navios e mais de 200 aviões japoneses destruídos - embora os principais navios de guerra já tivessem sido evacuados para Palau. E é aí que a história de Chuuk para a gente começa.

Por causa desse bombardeio, os navios que afundaram logo se transformaram em agregadores da vida selvagem - e o Truk Lagoon estava de repente lotado de recifes artificiais. Todos esses naufrágios japoneses sem resgate foram colonizados por peixes, corais, esponjas e afins, e o lago central, 60 anos depois do bombardeio, virou um grande jardim colorido, com a estrutura metálica dos navios servindo de base para uma explosão de vida. O Truk Lagoon se tornou a capital mundial do mergulho em naufrágios.

André mergulhou primeiro no Fujikawa Maru, o naufrágio mais popular do Truk Lagoon. Na sala de estocagem desse cargueiro construído pela Mitsubishi há vários aviões Zero praticamente intactos, além de toda a carga que por lá estava na hora do bombardeio, como munição. O navio tinha 132m de extensão, e seu fundo está sentado a 34m de profundidade - ou seja, ideal para mergulho recreacional, pois a estrutura das cabines fica a uns 9m de profundidade, rasíssimo. Na proa, há um canhão, e o mergulhador pode visitar a sala de máquinas, a cabine de comando, banheiros, cabines de tripulantes... enfim, uma verdadeira exploração do naufrágio a fácil acesso de quem quiser se aventurar.

Fujikawa Maru 4Fujikawa Maru 1
Fujikawa Maru 3Fujikawa Maru 2
Fujikawa Maru 5Fujikawa Maru 6
Mergulho no Fujikawa Maru. Vários artefatos da 2a Guerra Mundial estão depositados no fundo do mar nesse navio. Na 1a foto, a placa inaugurativa com o nome do navio. Na 2a foto, um pedaço de um avião Zero dentro do Fujikawa. Na 3a e 4a fotos, máscaras de gás e capacetes que repousam no silêncio do fundo do mar. Na 5a e 6a fotos, a proa do navio, com a alavanca do motor.


Outro naufrágio que merece atenção é o Shinkoku Maru, que está praticamente intacto e é considerado o mais bonito (subaquaticamente falando) da região. Dentro dele, ainda existem todos os apetrechos de cozinha: talheres, fogão, utensílios, etc. o que o torna uma fotografia fascinante do momento do bombardeio.

Shinkoku MaruCoral no Shinkoku Maru
Visões do naufrágio Shinkoku Maru: uma das portas que dava acesso ao convés, e como a estrutura metálica vem sendo habitada, por corais, esponjas e demais invertebrados.

Sharks

Mas nem só de naufrágios vive o turismo de mergulho em Chuuk. Há no Truk Lagoon uma área chamada Shark Reef, onde alguns tubarões moram. Nadam por lá em qualquer época do ano que você caia na água. São tubarões-de-recife, quase dóceis, e você mergulha com vários deles ao mesmo tempo - e eles não estão nem aí pra você, como a maior parte dos tubarões naturalmente bem-alimentados que se prezam. Uma festa total e um mergulho excelente.

Sharks 2Truk Lagoon coral
Tubarões do Truk Lagoon. Ao lado, na beirinha da praia, os corais Acropora que tomam conta e dão o ar de paraíso a mais esse pedaço de Pacífico marcado pela história.

Além de todo esse mundo subaquático lindo, que torna a paisagem de Chuuk uma pequena jóia do Pacífico repleta de histórias pra um viajante curtir e contar. Uma boa dica para quem um dia quiser se aventurar em mares "bastante dante" navegados, principalmente se você for um ávido wreck diver.

Tudo de bom sempre.

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* Para viajar mais por Chuuk:

- Os naufrágios podem estar ameaçando o ambiente de Chuuk, principalmente do Truk Lagoon. Mas o problema diplomático é mais complexo do que aparenta: os navios lá afundados ainda pertencem ao Japão, embora estejam em águas de outro país. Só o Japão, em tese, pode autorizar qualquer mudança. Complexo.

- Há um navio japonês naufragado em Chuuk chamado... Rio de Janeiro Maru! O mais legal é que esse naufrágio é um dos lugares onde mais se vê tubarões no Truk Lagoon, de acordo com relatos de operadoras. Navio Maravilha, agregatório da beleza e do caos. :D

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segunda-feira, janeiro 14, 2008

Estrangeiro?

Eis que o Marfil, dono do Spoiler News, veio me notificar na caixa de comentários do post abaixo sobre a premiação do 5º Prêmio Spoiler de Cinema e Blog 2008. Ele comenta que 2640 pessoas votaram em diferentes categorias, e que meu bloguinho foi o mais votado (ou seja, vencedor) na categoria "Melhor blog estrangeiro" - uma surpresa enorme, confesso. A todos que votaram no "Uma Malla pelo mundo", eu queria dar meu muito obrigada. Vocês me estimulam assim a manter esse espaço de conversação e troca, e isso é fundamental. E obrigada especial ao Marfil, que organizou todo esse prêmio - deve dar um trabalho danado ficar juntando votos.

Eu votei lá também, e tanto não acreditava na minha própria indicação que terminei votando na Denise (pronto, revelei meu voto!), que tem um dos blogs estrangeiros mais visitados e comentados da blogosfera brasileira com pé lá fora - e ela ainda mora no exterior. A Denise faz um trabalho maravilhoso agregatório, de pessoas as mais diferentes possíveis, e tem uma importância especial para a comunidade brasilo-gringa. E para mim, que a considero muito antenada com assuntos os mais diversos possíveis.

Enfim, mas fato é que quando soube dessa indicação em dezembro escrevi:

"Valeu demais pela honra da nomeação para o prêmio de melhor blog estrangeiro, mas... só um adendo: esse blog é desde o ano passado estrangeiro em terras brasileiras. Ainda tá valendo? Espero que sim! :D"

Aí que ter ganho essa votação, apesar de me encafifar um pouco, me deixa com uma sensação geral feliz. (Não sou nada iludida com essa suposta "fama" à la Miss Cangaíba, porque afinal eu estudei um pouco de estatística, probabilidade e principalmente de amostragem e entendo o que 2640 votos significam no universo de blogs existentes nessa web sem porteira.) Mas fato é que fico feliz, porque se me premiaram como blog estrangeiro, é porque meu blog, que nasceu na Coréia do Sul, ainda revela coisas do mundo, mesmo sendo escrito hoje direto de São Paulo (por tempo limitado). E isso era algo que eu temia perder morando no Brasil: a visão do mundo exterior, o entendimento da perspectiva alheia ao que se passa aqui, aos problemas e soluções, e o próprio olhar global da perspectiva brasileira sobre o que está lá fora. Temia ser engolida pela unilateralidade da opinião brasileira. Felizmente, parece que continuo na trilha a que me auto-propus, de manter o mundo como referência, ele está ainda refletido aqui nas minhas mal-traçadas linhas. E isso sim dá mais prazer para escrever e compartilhar e continuar a caminhada, conhecendo pessoas e logando momentos. Ufa.

Tudo de bom sempre aos blogs do mundo. Que eles continuem a ser meios, não fins.

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domingo, janeiro 13, 2008

Viajando por email: Andréa

A Andréa é de uma integridade surpreendente. Com os leitores de seu blog, está sempre trazendo uma discussão interessante de forma divertida, principalmente sobre temas relacionados ao vegetarianismo e proteção animal, sem exageros - ao ponto de chamarem a atenção de uma ex-vegetariana, que admira suas receitas "verdes", todas com toques práticos deliciosos. Moradora da Big Apple, comenta também sobre espetáculos, eventos e afins que por lá rolam, deixando os que a visitam antenados com o que se passa na capital do mundo - e com água na boca, muitas vezes. E tudo isso, é claro, escrito de uma forma doce e sem confrontação desnecessária. Uma pessoa de gestos e fala nobre, que aceitou expor algumas de suas opiniões sobre viagens para essa Malla que vos escreve. O resultado é uma entrevista light e tranquila, como parece ser a personalidade da Andréa. Um dia ainda sentaremos para conversar frente a frente, espero. Enquanto isso não acontece, aproveitem a entrevista!

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Clementine e Andréa
Andréa e sua fofa companheira Clementine. Foto gentilmente cedida pela Andréa.


- Você se considera mais ecoturista ou é mais adepta aos passeios urbanos?

Andréa: Não sei, Lucia. Adoro viajar. Qualquer tipo de passeio. Não gosto muito de me cansar, admito que sou preguiçosa. Caminhadas muito longas, subidas íngremes, isso não é comigo, não. Então devo ser mais urbana, né? Qualquer coisa, pego um ônibus. :D
Mas poxa, já fiz cada viagem legal com caminhadas lindas pela mata, banhos de cachoeira inesquecíveis em Ilhabela (SP), Petrópolis (RJ), Montauk (NY), cidadezinhas mineiras...


- Como você escolhe seus destinos? Amigos, curiosidade, internet etc.?

Andréa: Escolho conforme acontecer no momento. Um casamento de amigos, aniversário de alguém querido, um lugar que sempre quis ver, visita aos familiares pra matar a saudade, pouca grana...


- Qual foi sua viagem inesquecível? Por quê?


Andréa: Sem dúvida foi a que fiz com meu irmão de carro, pela Califórnia, Arizona e Nevada, aqui nos EUA. Visitamos lugares lindos, engraçados, mágicos e nos divertimos demais juntos. Todo mundo deveria ver o Grand Canyon de perto uma vez na vida, pelo menos. E ainda resolvemos terminar a viagem em Nova York - foi quando conheci meu marido!


- Ah, essa foi especial mesmo! :)
E qual foi a pior viagem que fez? Por quê?


Andréa: São Sebastião, quando eu tinha uns 15 anos. Ai, corro o risco de soar ridícula agora, mas vamos lá. Primeira viagem com um namorado. Fomos com a família dele, que eu adorava, mas chegando lá fui descobrindo umas coisas muito chatas pra uma garota de 15 anos apaixonada. O namorado, que sempre ia pra lá sozinho (e eu acreditava quando ele dizia que não conhecia quase ninguém, hehe, santa ingenuidade), tinha umas ex-namoradas abusadas, amigas coloridas atiradas que apareceram do nada… e eu, uma criança, não sabia bem como reagir. Hoje quando lembro acho até engraçado, mas na época me senti miserável, a última das mortais, hehe. Não consegui curtir nada direito, nem o sol, a praia linda… até a fome perdi.


- Qual a comida mais exótica/ estranha que já comeu numa viagem?

Andréa: Acho que foi escargot - numa viagem com a família pelos alpes europeus, há muitos anos. Na região de Haute-Nendaz, na Suíça, havia um restaurantinho delicioso de um casal de portugueses muito gente boa. Meu pai queria experimentar escargot e eu fui a única corajosa que topou acompanhá-lo. Hoje não como mais esses bichinhos de aparência nojenta, já que sou vegetariana, mas na época adoramos. Até voltamos lá pra comer mais!

Aliás, queria deixar registrado que apesar de ser vegetariana (e talvez até por isso) eu ADORO comer. Uma coisa importante pra mim numa viagem é um bom restaurante - ou uma pequena cozinha no quarto, como em alguns resorts, pra que eu possa cozinhar minhas coisinhas. Comida e bebida boa. E já que falei em bebida, acho que a mais exótica que já tomei foi uma daquelas tequilas mexicanas típicas, bem fortes, e com a tal minhoca no fundo da garrafa! E foi aqui em Nova York. E aí Malla, tu encarava?


- Acho que não... não sou muito fã de bebidas com bichos dentro, me embrulham o estômago só de ver. :P
Você tem alguma mania ao viajar? Tipo colecionar fotos de orelhões, beijar o chão ao chegar, etc.?


Andréa: Quando era pequena eu tinha mania de pegar um pedra do chão, assim que chegava a algum lugar novo, e guardar. Qualquer pedrinha. Tinha a pedrinha branca de Guaratinguetá, a de Águas de São Pedro, a do Rio de Janeiro... Depois parei com isso, nem lembro mais quando. Hoje, o que eu e meu marido (que é músico) curtimos, mas eu não chegaria a chamar de mania, é sempre procurar ouvir os músicos locais. Ao vivo.


- Mas isso é muito legal. Eu também procuro ouvir sempre o som local, é importante para se contextualizar ao local, né? E qual sua trilha sonora preferida durante uma viagem? Alguma música em especial?

Andréa: Não tenho uma trilha ou música em especial, mas presto MUITA atenção ao que ouço no rádio, na TV, nas lojas, e ao vivo e aí guardo como lembrança na memória. Até hoje algumas músicas me lembram muito alguns lugares específicos. Faço isso com filmes também. Sempre que dá tento ir ao cinema local e aí, aquele filme fica guardado pra mim, como lembrança de tal cidade.


- Qual o souvenir mais exótico que já trouxe de algum lugar?

Andréa: Ai, essa é difícil. Não consigo pensar em nada. Trouxemos uma máscara ‘africana’ muito legal de Natal, o que pro marido – que é americano – é exótica, mas pra gente não, né?! :)


- Uma dica sua especial.

Andréa: Quando chego a uma cidade desconhecida, compro o jornal local pra saber o que está acontecendo culturalmente. Outra coisa é puxar papo com alguém dali, no hotel, numa padaria, banca de jornais... e tentar descobrir as coisas e lugares que NÃO se deve fazer ou ir, ou o que é muito caro e não vale a pena. Ou ainda, onde está tocando o melhor som ao vivo. Só quem é dali é que sabe mesmo das armadilhas turísticas, né?


- E a próxima viagem é para...

Andréa: Londres, pra despedida de solteiro conjunta que um casal de amigos muito queridos vai fazer, e Paris, pra ver mais alguns amigos. Depois Israel, pra um casamento no deserto. Estamos bem animados!


- Casamento no deserto, uau, que diferente! Aproveite então, tire fotos, publique depois para a gente ver (olha eu dando uma de curiosa...) e boa viagem! :)

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sexta-feira, janeiro 11, 2008

No topo do mundo

O mundo montanhista hoje está mais triste. A eterna fonte de inspiração se foi. Edmund Hillary faleceu hoje de manhã em Auckland. A Primeira-Ministra da Nova Zelândia já anunciou um funeral de estado para ele. Merecedor.

Ele, que foi o primeiro homem a chegar no topo do Everest junto com Tenzing Norgay em 1953, era também um homem de extrema bondade e humildade, de acordo com a maioria dos que o conheciam. Devotado à causa dos povos himalaias, ajudou muito os sherpas, uma etnia quase-esquecida pelo governo nepalês, a terem escolas e hospitais. Além de tudo, era um aventureiro inato. Foi o primeiro a atravessar a Antarctica de trator. Em sua autobiografia deliciosa "View from the summit", conta quando subiu junto com a então namorada June pelo rio Ganges, na Índia, de bote inflável, da foz à nascente sagrada - que são 4 locais diferentes, na realidade.

Ironicamente, nesse mesmo livro, comenta como vinha sendo afetado pelo mal da montanha até em altitudes não tão elevadas, como próximo ao Tibet, uma das razões pela qual não mais conquistou outro pico de mais de 8000m. Sua noção de segurança montanhista era extremamente atinada e provavelmente salvou sua vida em outras ocasiões.

Um homem grande e um grande homem, com grandes feitos, que foi pioneiro na conquista da maior montanha do mundo e que foi pioneiro na luta pelo fim do "circo" que o Everest virou a cada estação - ele e o fantástico Messner chegaram a pedir ao governo nepalês recentemente para fecharem a montanha às expedições, ou limitá-las a uma ou duas no máximo, por ano. Edmund Hillary deixa seu legado, no topo do mundo e sobre o topo do mundo, e no coração dos que por lá vivem. Condolências à família e R.I.P., Hillary.

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O peixe-boi do rio Crystal

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Em março de 2007, estivemos na Flórida. Foi minha primeira vez no estado - passar brevemente pelo aeroporto de Miami em conexão não conta no meu manual de viagens. A primeira intenção na Flórida era visitar um casal amigo nosso de tempos de Havaí, que havia se mudado para St. Petersburg, na costa do Golfo. Teresa, minha amiga, estava grávida e pelas suas contas quando a contactei, faltava ainda um mês para a bolsa d'água estourar. Nossa visita seria um agradável presente pré-parto (e soubemos na estrada a caminho para sua casa que o neném se antecipara e nascera poucos dias antes).

A intenção número 2 era mergulhar em Key Largo, fazer o Creature Feature oferecido pelo Captain Slate. A intenção número 3 apareceu durante a passagem pelo Havaí semanas antes: fomos incentivados pelo Mario a mergulhar no naufrágio Spiegel Grove, "o melhor mergulho da Flórida" na opinião dele. Adicionamos essa aventura na lista, é claro. Mas foi a quarta intenção, aquela menos alardeada e menos pensada, a que se mostrou inesquecível em todos os sentidos. Estando em St. Petersburg, poderíamos ir até Crystal River passar o dia. Essa minúscula cidade tem um atrativo especial a biólogos e amantes da vida selvagem exatamente no período entre janeiro e março, inverno no hemisfério norte: é a época em que os peixes-boi-americanos aparecem para se aquecer nas águas quentes das nascentes da região.

Peixes-boi não gostam de frio. No verão, os da espécie Trichechus manatus latirostris passeiam pela costa leste americana, e alguns já foram registrados até a altura do estado de Nova York. Mas no inverno, quando as águas do Golfo do México estão mais quentes que no Atlântico, eles se agrupam nas regiões estuarinas do lado oeste da Flórida, e ficam lá, aproveitando o quentinho. Como são animais quase exclusivamente aquáticos - e sabemos que na água perde-se calor muito mais facilmente - desenvolveram uma série de adaptações para não sofrerem com hipotermia: além da espessa camada de gordura abaixo da pele já grossa, fazem essa migração anual em busca do calor que sai das fontes naturais - ou artificiais, já que eles também podem ser avistados próximos à saída de água quente de usinas termoelétricas. Pelo sul dos EUA, onde tem água à temperatura média de 22˚C, lá estará o peixe-boi.

Assim como o peixe-boi, eu também não gosto de frio. A idéia de acordar às 4 da manhã no inverno, dirigir 1 hora pela rodovia Suncoast (com vários pedágios), depois 40 minutos pela US-19 até Crystal River, e cair na água (!!!) às 7 da matina, com uma temperatura ambiente de quase zero, não me apetecia em nada. Aquilo mais parecia convite à pneumonia, isso sim. Mas, apesar da minha relutância térmica, resolvemos arriscar a aventura.

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Olha o frio neblinado que estava quando a gente chegou em Crystal River! A névoa sobre a água já era um sinal de que a temperatura da mesma estava maior que a atmosférica. Para minha sorte. Ao lado, mãe e filhote de peixes-boi respirando na superfície.

Qanto mais fria a temperatura ambiente, mais o peixe-boi se agrega. Portanto, a manhã gélida poderia ser entendida como bom presságio. Quando chegamos na cidade, fomos direto à operadora Bird's Underwater, com quem já havíamos marcado pela internet um tour na manhã seguinte. (Parênteses: o nome Bird's Underwater não tem nada a ver com passarinho. O apelido do ávido mergulhador e dono da loja é Bird. De tanto perguntarem: "Where's Bird?" e os balconistas responderem: "Bird is underwater", resolveram adotar o nome da loja dessa forma. Nós conhecemos o Bird, que não estava "underwater" no dia que lá estivemos. Fim do parênteses.) Como estávamos em Crystal River um dia antes, decidimos "fazer o que dava" e aproveitar a manhã.

Conversando na loja, descobrimos que poderíamos alugar um barquinho a motor por 10 dólares a hora, o que era muito barato, dada a independência que teríamos de ir para onde quiséssemos na Kings Bay. Alugamos o barquinho. Um mocinho de uns 15 anos mostrou como manobrar o barco e entregou um mapa das áreas onde podíamos ir e que haveria peixes-boi. Fomos direto para à mais famosa: Three Sisters Spring.

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Visões da nascente de Three Sisters, na Flórida.

A sensação quando entramos no canal que leva a essa nascente era de estarmos numa "Veneza americana". Pontes e várias ruelas aquáticas, que serviam de píer para inúmeras mansões. Ficamos sabendo depois que há um clima tenso entre os moradores das mansões e as operadoras de turismo local. Obviamente, um bando de mergulhadores todos os dias fazendo fila no quintal da casa de magnatas não é bem o conceito de privacidade sonhado por estes. Disse o mocinho da operadora que os moradores inclusive colocaram câmeras voltadas para as principais nascentes, para registrar qualquer tipo de abuso de turista ao peixe-boi. Assim, teriam material para pedir na prefeitura que os tours deixassem de existir, por "abuso ao peixe-boi".

Confusões à parte, o fato é que há uma série de regras para barcos e pessoas que frequentam a área do peixe-boi, além de patrulhas que ficam em caiaques vigiando de perto tudo que está acontecendo. Barcos, por exemplo, não podem sair da marcha neutra e navegar em velocidade de no máximo 5 milhas/hora. As pessoas não podem ir atrás do peixe-boi: é o animal quem vem atrás de você (e ele vem, porque é curioso e dócil). Se o bicho chega perto, você não pode encostar as duas mãos ao mesmo tempo nele, apenas uma. Há algumas áreas delimitadas por bóias onde o peixe-boi fica, e nessas áreas é proibida a entrada de pessoas.

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Há regras para ver o peixe-boi. Existe uma área delimitada por bóias, onde turistas não entram. Há patrulha de caiaque, vigiando e contendo abusos. Só podemos tocar com uma mão o animal, como faço na foto. Agora, o peixe-boi não entende a regra da bóia e termina passeando fora da área marcada, como vemos na última foto. Para delírio da galera.

Chegamos em Three Sisters Spring e uma legião de barcos já estava por lá. A temperatura ambiente ainda era gélida, mas quando vimos a quantidade enorme de peixes-boi agrupados... não deu pra resistir. Eram uns 20 embaixo d'água e de cima do barco, pareciam rochedos estacionados no fundo, que só se moviam lentamente à superfície para respirar de tempo em tempo. Amarramos o barco numa borda e pulamos na água. Que estava incrivelmente morna, para minha salvação. Uma delícia.

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A vista geral dos "rochedos" que são os peixes-boi embaixo d'água descansando quando chegamos na nascente. Ao lado, turistas interagem com um filhote - que estava adorando aquela farra!

Tinha gente por lá, e vários peixes-bois faziam a graça de sair da área delimitada e brincar com os turistas - principalmente os filhotes, que são mais curiosos ainda. Eu fiquei um tempão com eles, brincando, passando a mão e sentindo o quanto aquele corpanzil todo era dócil. Sem dúvida, o animal selvagem mais tranquilo com que já interagi. Ele olha pra você como se pedisse o seu carinho, é simplesmente inacreditável.

Ao lado da área principal onde esse grande grupo se agregava, havia uma entradinha minúscula, como se fosse um córrego, que depois de uma nadadinha básica chega num lago. Lá dentro era a verdadeira nascente de Three Sisters, com uma borda verde mágica - e mansões, é claro. O lugar me lembrou muito Bonito (MS), dada a clareza da água e a paisagem subaquática. A visibilidade era bastante condizente com o nome Crystal River.

Foi difícil sair da água, mas depois de algumas horas com os peixes-boi, continuamos o passeio. Levamos o barco por um giro pela baía, circulando a ilha Buzzard e chegando perto da Banana Island. Muitos pelicanos nos muros das casas da região. Depois de rodarmos pela baía, finalmente voltamos ao píer onde devolvemos o barco. Voltamos então para St. Petersburg, mas a jornada não estava finda.

O dia seguinte era o dia "oficial" do passeio que já havíamos planejado fazer. Dessa vez, fomos ao mesmo Three Sisters Spring como parte de um tour. No dia anterior, com o barquinho "nosso", chegamos na hora que os tours estavam indo embora, e no final, pudemos curtir os peixes-boi praticamente sozinhos. Com o tour, chegamos bem mais cedo na nascente, que já estava lotada de grupos de turistas, e o frio ambiente era maior - mas a água dava a sensação de mais quente ainda. Tomei umas xícaras de café e, depois de muita ponderação, caí na água novamente. Dessa vez, como já havia brincado à beça com os peixes-boi no dia anterior, me dediquei a observá-los mais - e constatei que há um certo exagero por parte das operadoras com relação ao melhor horário para ver o peixe-boi, já que mesmo mais tarde, nós havíamos interagido com vários sem problema algum. A quantidade de gente ao redor dos animais dificultava entretanto qualquer observação - estávamos no momento-auge do tour. Ficamos quase 1 hora na água, e eu fui uma das primeiras a voltar pro barco, em busca de café quente. Mas mesmo assim, a experiência foi mais uma vez mágica.

O passeio terminou na metade da manhã. Rodamos um pouco por Crystal River, constatando que a cidade vive do turismo do peixe-boi e visitamos o Florida Homosassa Springs Park (que merece um post à parte). Dirigimos até Gainesville para visitar uma amiga minha de faculdade e chegamos à noitinha de volta a St. Petersburg e ao Lucas, o bebê de dias da minha amiga Teresa.

No final das contas, dos 2 dias, preferi muito mais a independência do primeiro, em que alugamos o barquinho. Além de mais barato, pudemos curtir mais tempo com o peixe-boi. Fica então a dica a quem um dia passar por lá. E um pedido: mande um beijo ao peixe-boi por mim. :)

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Tudo de bom sempre.

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Para viajar mais:

- Os peixes-boi eram mamíferos aquáticos ameaçados de extinção de acordo com a lista do IUCN. Em junho passado (ou seja, alguns meses depois da nossa visita), o estado da Flórida retirou-os dessa categoria, e passou a considerá-los apenas como vulneráveis, pressionado pelos grupos de pesca industrial - o que deixou muitos grupos ambientalistas preocupados, com razão. Para evitar problemas futuros, o IUCN, no fim de 2007, reiterou o status do peixe-boi americano como "ameaçado de extinção" devido ao número baixo de indivíduos - menos de 2500 vivos. Há agora uma discussão entre as autoridades locais e estaduais da Flórida sobre que status valerá. Enquanto isso, o peixe-boi vai sendo protegido, o que é muito bom.

- A notícia tem um título exagerado (típico do portal Terra, aliás), mas não deixa de ser engraçado: as vacas marinhas flertam. Não é um amor?

- A Flórida tem em sua divisão administrativa o "Manatee County", que é o condado do peixe-boi. Ironicamente, Crystal River, a cidadeque abriga tantos peixes-boi, não fica nesse condado, e sim no "Citrus County", o condado da laranja. Vai entender...

- Mais fotos de peixe-boi aqui. E, aos bons de memória, eu já escrevi antes sobre o peixe-boi: para a Mergulho e para a blogagem de amamentação. Faltava mesmo era logar a viagem em si num post detalhado. Ei-lo, finalmente. :)

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quarta-feira, janeiro 09, 2008

ArteSub no DivePhotoGuide

O meu fotógrafo predileto (com toda a parcialidade possível e imaginável na escolha) foi convidado a montar um portfolio no DivePhotoGuide. Para quem não conhece, o DivePhotoGuide é o mais respeitado portal de foto & vídeo sub que existe. Eles têm as mais diversas informações a alguns cliques de distância; só não têm blogs - mas estão associados ao Wetpixel, que é de certa forma o blog referência do tema.

O portfolio do André no DivePhotoGuide pode ser visto aqui (é provável que ao clicar no link abra antes uma janela para você aceitar os "termos de uso", uma política do site. Apenas clique "I accept".).

Nas fotos que foram pro portfolio, está a minha predileta de todos os tempos - eu tenho várias prediletas, mas essa tem um quê a mais. A foto é essa aqui:

Menino em coral - ArteSub.com

Foi tirada no atol de Namu, nas ilhas Marshall, um vilarejo isoladérrimo com menos de 300 habitantes. Esse menino nunca havia visto uma câmera fotográfica na vida. Mas ali, ele revela que está super-confortável em seu ambiente natural de ilha isolada e traz ao clique toda a ingenuidade e alegria infantis. Ele tem o sorriso mais sincero e maravilhoso embaixo d'água que se pode imaginar, super-fotogênico. Uma força expressiva fortíssima de felicidade - embora nem tudo sejam flores em Namu, brincando na água ele parece nos mostrar que há uma esperança de futuro.

O que vocês acham, esse menino não é lindo? :)

Tudo de foto sempre.

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P.S.: Aproveitem a dica e dêem uma passeada pelas outras galerias de fotógrafos sub. São todas recheadas de fotos belíssimas.

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segunda-feira, janeiro 07, 2008

Faça na "Verdeat"

Faça a sua parte

Em 08 de janeiro de 2007, a Ana Paula, o Allan e eu, depois de um post-desabafo sobre o filme do Al Gore, resolvemos iniciar um projeto de blog que trouxesse a problemática ambiental para a blogosfera brasileira. Queríamos um espaço para mostrar nossa preocupação com o rumo que o meio ambiente do planeta vem tomando e com as mazelas poluentes que andamos aprontando, tentando semear a esperança de melhoria via efeito formiguinha. O nome do blog surgiu na caixa de comentários daquele post mesmo, e meio que de sopetão, começamos então no dia 11 de janeiro de 2007 o "Faça a sua parte".

É com grande satisfação que percebo que este projeto floresceu muito mais do que nós inicialmente esperávamos. Notamos que as pessoas gostaram de saber que havia um espaço virtual onde cada um podia aprender e mostrar como fazia a sua parte para um futuro melhor. Cada vez mais pessoas maravilhosas se juntaram a nós, colaborando e participando das discussões. Criamos então uma pequena e deliciosa comunidade verde.

E há poucos dias de completar um ano de existência, o Faça a sua parte faz sua mudança para uma nova casa virtual - uma honra enorme, diga-se de passagem. Chamamos a atenção do condomínio mais democrático da blogosfera brasileira, o Verbeat, que nos convidou gentilmente a integrar seu grupo. A partir de hoje, portanto, as dicas e discussões ambientais do "Faça a sua parte" serão feitas no endereço abaixo:

http://verbeat.org/blogs/facaasuaparte


Para os leitores que acompanham o Faça a sua parte via RSS feed, o novo feed do blog verde é:

http://verbeat.org/blogs/facaasuaparte/atom.xml


Convido a todos para continuarmos fazendo nossa parte junto aos verbeaters - que se depender da gente logo serão os verDeaters! :D

Tudo de verde sempre.

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sexta-feira, janeiro 04, 2008

Pequenas anotações de viagens virtuais 25

1) Uma página útil para quem quer saber sobre números monetários de pesquisa científica nos EUA: Research Crossroads. Separado por tipo de pesquisa, pesquisador, agência fomentadora e afins.

2) Brasil: um lugar para ser LIP? A experiência diz que sim e não, ao mesmo tempo. Depende da sua animação, acima de tudo, para lidar com burocracia e impostos abusivos.

3) No sonhado laboratório do futuro, todo cientista terá um blog para divagar e discutir sobre o que trabalha, amplificando a mensagem para o mundo de forma igualitária. Acha que é muito sonho, muita utopia? Pois lá já é uma realidade.

4) Um surfista na física. E dando altos cutbacks. Eu adoro histórias assim - quem não gosta?

5) O hotel subaquático de Dubai está marcado para ser inaugurado ainda este mês. Será que vai mesmo? Na torcida. (Via The Blue Economy)

6) Sempre achei que a melhor forma de realmente conhecermos um país é morando lá - ou ouvindo as histórias de quem vive por lá. Foi lendo o blog da Sandra Bose, por exemplo que eu aprendi que os hindus não consideram a vaca sagrada - o touro sim, o é. Eis então que o excelente Pedro Doria, de cabeça antenada com essa noção básica sobre o mundo que cerca a todos, abriu uma seção em seu blog chamada "O mundo visto pelos leitores" e nos brindou com um texto elucidativo e maravilhoso, enviado por um leitor, sobre a vida na cidade de Teerã. Fascinante, leitura obrigatória para quem gosta de costumes internacionais e tem curiosidade por essa região tão complexa geopoliticamente falando.

7) A quem interessar: a íntegra do discurso de Al Gore ao receber o prêmio Nobel da Paz de 2007 em Oslo, no dia 10 de dezembro.

8) A National Geographic Traveler juntou algumas de suas fotos mais interessantes sobre a China nesse link. A minha predileta é essa aqui, que diz à beça em um clique certeiro.

9) Filho de peixe, peixinho é...

10) "eram outros dias nos blogs, também. é certo que sempre tive cadernos. do mesmo modo que é certo que nunca gostei de rascunhar e depois transcrever — porque era assim, simples; era sentar e escrever. um dia alguém, em algum lugar, se transformou em um “blogueiro profissional” e matou um pouco da magia. porque, pode não parecer, mas estou nessa já há alguns anos (seis ou sete, enfim); e, portanto, vi a maioria das coisas acontecendo — de longe, na maior parte das vezes. escrever o cotidiano, sem uma sacada genial, sem publicidade, sem links amigos, sem pretensões ou dinheiro, aqui de longe, ficou parecendo estar fantasiado de palhaço num velório (ou vestindo terno preto e lágrimas num circo). ficou parecendo incômodo não ser “sucesso”.

(claro, há exceções. sempre há. um suspiro aliviado em homenagem a elas, então.)"


Ah, o Thiago. Sábio sem perder a ternura. Uma jóia rara.

11) Um estudo da Nature Conservancy revelou que conservar (o mar, pelo menos) diminui a pobreza das comunidades vizinhas à área conservada. Estudo para ser altamente refletido quando se propuser uma reserva marinha - e desbancar aquelas desculpas esfarrapadas de donos de indústrias poluentes e quetais de que a comunidade "sofrerá" deveras com a política ambiental.

12) O Japão suspendeu a caça às baleias jubarte - pelo menos até a próxima reunião da Comissão Internacional de Baleias. O clima de hostilidade da maior parte dos países contribuiu para tal decisão, mas ainda acho que a posição australiana contra a matança foi a que mais pesou na mudança de atitude japonesa.

13) "Maps of Mars are roughly 250 times better than maps of the ocean floor." Há algo de revelador - e perturbador - sobre nossas prioridades quando lemos uma frase como essa.

14) Os 7 maus hábitos dos fotógrafos digitais. E eu ainda acredito que uma boa foto é o clique da máquina e o olho do fotógrafo que faz, não o Photoshop nem o clique do mouse, que esses só ajudam a melhorar os anteriores bem-feitos. Mas também não chego a extremos de conclamar a morte da fotografia como arte. Não está.

15) Um desejo para esse 2008 que se inicia: que seja o ano do debate científico de qualidade. Mas não só nos EUA: que se estenda a todos os países pelo mundo.

16) Tudo de bom sempre para as viagens de 2008.


P.S.: "Follow the dolphins and you'll find me."

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quarta-feira, janeiro 02, 2008

ONU e os tubarões

Sharks - Chuuk

Finalmente, a ONU se pronunciou sobre a questão dos tubarões que vêm sendo dizimados mundo a fora. Junto com alguns governos de países-chave, decidiram atacar o problema - ou pelo menos, alertar o mundo de que ele existe - na última Convenção de Espécies Migratórias, organizada pela UNEP (o braço ambiental da ONU) em Seychelles.

E o que foi decidido? A ONU requisita agora que seja feita o mais rápido possível uma identificação das rotas migratórias e dos habitats específicos que as espécies mais ameaçadas utilizam, além da criação de um banco de dados mundial sobre tubarões, a cargo de ONGs, governos, empresas pesqueiras e cientistas em conjunto. Há também um esforço para que a pesca mundial seja melhor regulamentada, principalmente em relação à prática de finning (retirada da barbatana), principal razão pela qual os tubarões são caçados. Pede também comprometimento das nações pesqueiras com a conservação da espécie, e os países que assinaram o acordo parecem ter chegado a um denominador comum de que é fundamental que se preserve o animal para sobrevivência futura da própria economia pesqueira. É claro, tudo isso é muito bonito no papel, e importante também. Precisamos entretanto ver como vão ficar todas essas medidas na prática.

O artigo do Telegraph que comenta sobre a decisão da ONU mostra uma percepção interessantíssima, que deixo aqui na íntegra para leitura:

"You can talk about the need to save pandas, polar bears, elephants, turtles, even great crested newts, without losing your audience. Try to tell people that the threat to the world's sharks is one of the most important wildlife issues confronting us today and the odds are they will, at the very least, look at you as though you need your head examined."

As pessoas parecem não levar a sério a ameaça aos tubarões. Talvez ainda seja a idéia de assassino sem piedade que o filme "Tubarão" deixou no imaginário popular - embora mesmo o autor de "Tubarão" Peter Benchley tenha insistido nos anos subsequentes que seu livro era apenas ficção. Talvez seja uma instintiva reação de vingança pelos ataques a surfistas, principalmente em Recife (PE) - e se essa é a razão, falta perspectiva e educação sobre o real problema. O fato é que no geral ninguém se atenta pro fato de que nós, humanos, matamos cerca de 100 milhões de tubarões por ano para sustentar crendices insustentáveis. Parece difícil para a maior parte das pessoas entender que a real ameaça somos nós aos tubarões, e não o contrário. Poucos parecem se preocupar que um dos maiores predadores da cadeia alimentar está prestes a desaparecer - e se ele desaparece, meus caros, a cadeia alimentar marinha pode entrar num colapso sem precedentes.

Outro fato retirado desta notícia revela a dura realidade numérica das populações de tubarões da atualidade:

"Recent studies in the Northwest Atlantic have shown steep declines in shark populations, particularly among highly migratory species. Since 1986, hammerheads have declined by 89 percent, thresher sharks by 80 percent, white sharks by 79 percent and tiger sharks by 65 percent. All recorded shark species in the region, with one exception, have declined by more than 50 percent in the past 8 to 15 years. It is highly likely that similar results will be seen across the world’s oceans."

Tubarão-marteloTubarão-tigre
Tubarão-martelo e tubarão-tigre: entre os mais ameaçados pelo comércio de barbatanas. Mais fotos de tubarões aqui.

89% dos tubarões-martelo (Sphyrna lewini) já desapareceram do Atlântico Norte desde 1986. 80% dos tubarões-raposa (Alopias vulpinus). 79% dos tubarões brancos (Carcharodon carcharias). 65% dos tubarões-tigre (Galeocerdo cuvier). São números absurdamente altos, que mostram que o animal está caminhando a passos largos para a extinção na região - e não há dados claros sobre o status das populações dessas espécies no resto do mundo. Felizmente, a ONU acordou para o fato a um passo do abismo. Torçamos para que não tenha sido tarde demais. Antes tarde do que nunca.

Tudo de tubarão sempre.

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terça-feira, janeiro 01, 2008

2008 - Ano Internacional dos Recifes de Corais

Os recifes de corais vêm sofrendo muito em tempos de mudanças climáticas. Nada mais justo, então, que em 2008 dediquemos uma parcela de nosso tempo a falar deles e que esse seja enfim o Ano Internacional dos Recifes de Corais. Discutir e agir pelos recifes de corais do mundo para que eles ainda existam no futuro é mais que uma alternativa: é uma necessidade, principalmente perante previsões bastante desalentadoras...

E esse blog, que é escrito por uma apaixonada pelo mar, vai tentar entrar na onda e refletir um pouco mais sobre os recifes de corais, as ameaças mais próximas a eles, idéias de preservação, perspectivas, etc. Que tal inundar o blog de água salgada, crinóides e peixes recifais em 2008?

2008 - Ano dos recifes de corais

Tudo de mar sempre em 2008.

*Postado também no Faça a sua parte.

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